De Outras Palavras, 10 de junho 2026
Por Bruno Mota
![]() |
Foto: Ricardo Stuckert |
A ascensão da China recolocou no centro do debate uma velha questão da economia política brasileira: como transformar vínculos externos em desenvolvimento interno? Para o Brasil, o comércio com o gigante asiático trouxe ganhos cambiais, superávits comerciais e algum alívio externo, mas também reforçou a especialização em commodities e a perda de densidade industrial, um dilema que a tradição desenvolvimentista já havia diagnosticado como expressão da dependência estrutural (FURTADO, 2007; TAVARES, 1972).
O problema, portanto, não é a China em si. O problema é a forma como o Brasil se insere nessa relação: exportando soja, minério de ferro e petróleo, enquanto importa máquinas, componentes e bens de maior conteúdo tecnológico. Sem política industrial, coordenação estatal e estratégia tecnológica, a parceria sino-brasileira tende a reproduzir heteronomia, e não autonomia produtiva (BRESSER-PEREIRA, 2014; BELLUZZO, 2013).
A nova centralidade chinesa
Em poucas décadas, a China se tornou a principal plataforma manufatureira do capitalismo global. Isso não ocorreu por “milagre de mercado”, mas por uma combinação de planejamento estatal, política industrial, crédito dirigido e expansão agressiva da capacidade produtiva. O resultado foi a construção de um parque industrial raro entre economias que chegaram tardiamente à modernização capitalista (CHANG, 2004; RODRIK, 2011).

No Brasil, a virada chinesa coincidiu com a intensificação da pauta exportadora primária. A partir dos anos 2000, o país passou a vender mais minério, soja, petróleo bruto e celulose, ao mesmo tempo em que importava mais manufaturas e insumos de maior complexidade. A relação bilateral se fortaleceu, mas em bases assimétricas, com ganhos comerciais de curto prazo e perdas estruturais de longo prazo (MDIC, 2025; UNCTAD, 2024).
Essa assimetria importa porque desenvolvimento não é apenas crescer. Desenvolvimento supõe mudança da estrutura produtiva, internalização do progresso técnico e ampliação da capacidade de decisão nacional. Quando o comércio reforça especializações regressivas, ele pode aumentar o faturamento externo sem ampliar a autonomia econômica.
Dependência e reprimarização
Celso Furtado é decisivo para entender esse impasse. Em sua leitura, o subdesenvolvimento não é uma etapa “atrasada” de um caminho linear, mas uma forma específica de inserção periférica no capitalismo mundial (FURTADO, 1961; FURTADO, 2007). Isso ajuda a interpretar a trajetória brasileira recente: a expansão das exportações para a China aliviou restrições externas, mas aprofundou a dependência de poucos produtos básicos.
A reprimarização não é um fenômeno neutro. Economias com forte peso de commodities tendem a apresentar menor difusão tecnológica, menor complexidade produtiva e maior vulnerabilidade às oscilações de preços internacionais. Além disso, a dependência de setores primários costuma pressionar a taxa de câmbio e reduzir a competitividade industrial doméstica, reforçando a chamada doença holandesa (BRESSER-PEREIRA, 2003; BRESSER-PEREIRA, 2014).
Maria da Conceição Tavares aprofundou esse diagnóstico ao mostrar que industrialização periférica e heterogeneidade estrutural caminham juntas. Mesmo quando há crescimento, ele pode coexistir com fragmentação produtiva, baixa produtividade e forte desigualdade entre setores modernos e setores atrasados (TAVARES, 1972). No caso brasileiro, a relação com a China atualizou esse padrão: exporta-se o que tem menor valor agregado e importa-se o que concentra conhecimento e tecnologia.
Estratégia nacional
A pergunta central não deveria ser se o Brasil deve ou não comerciar com a China. A pergunta relevante é outra: sob quais condições essa relação pode fortalecer capacidades internas? É aqui que o novo desenvolvimentismo oferece uma pista importante. Para Bresser-Pereira, desenvolvimento exige taxa de câmbio competitiva, investimento produtivo e política industrial consistente, em vez de mera confiança na alocação espontânea do mercado (BRESSER-PEREIRA, 2014).
A experiência chinesa mostra o oposto do receituário liberal periférico. O país combinou proteção estratégica, investimento público, planejamento industrial e captura ativa de tecnologia. Já o Brasil oscilou entre liberalização financeira, juros elevados, descontinuidade industrial e dependência de ciclos externos. Nessa comparação, a diferença não está apenas no comércio, mas na capacidade do Estado de organizar uma estratégia (RODRIK, 2011; CHANG, 2004).

Belluzzo ajuda a ver o quadro mais amplo: o capitalismo contemporâneo segue estruturado por hierarquias entre centros tecnológicos e periferias exportadoras (BELLUZZO, 2013). A ascensão chinesa não elimina essas assimetrias; ela apenas reposiciona os atores dentro delas. O desafio brasileiro é impedir que a integração com a China se limite à venda de primários e à compra de industrializados.
Dimensão regional
Wilson Cano é fundamental para introduzir a dimensão regional desse problema. A industrialização brasileira se concentrou historicamente no Centro-Sul, deixando vastas áreas do país em posição subordinada na divisão interna do trabalho (CANO, 2007). Isso significa que a dependência externa também é uma dependência territorial: não afeta todas as regiões do mesmo modo.
No caso do Nordeste, a questão ganha relevo especial. A transição energética, a expansão de cadeias ligadas à bioeconomia e a reindustrialização verde abrem oportunidades concretas, mas elas só serão virtuosas se vierem acompanhadas de encadeamentos produtivos, formação tecnológica e integração com o restante da economia nacional. Caso contrário, o risco é repetir o velho padrão de enclave: investimento moderno em território periférico, com baixo impacto sobre a estrutura produtiva local.
Essa é uma agenda especialmente relevante para quem pensa desenvolvimento regional. O Nordeste pode ser espaço de experimentação de uma nova industrialização, desde que o país abandone a lógica de exportar valor bruto e importar valor agregado.
Nova indústria
A Nova Indústria Brasil recoloca o Estado como coordenador estratégico do investimento produtivo, mobilizando instrumentos como BNDES, Finep e Embrapii. Em princípio, a iniciativa aponta para uma recuperação da capacidade de planejamento industrial, com prioridade para transição energética, saúde, digitalização, defesa e complexos tecnológicos mais sofisticados (MDIC, 2025).
O problema é que nenhuma política industrial funciona isoladamente. Sem coordenação macroeconômica, crédito direcionado, conteúdo local e continuidade institucional, programas desse tipo correm o risco de virar enunciado sem transformação estrutural. A política industrial só ganha densidade quando dialoga com taxa de câmbio, financiamento, inovação e compras públicas (BRESSER-PEREIRA, 2014; IPEA, 2025).
A relação com a China pode ser útil nesse processo, desde que subordinada a objetivos nacionais claros. Parcerias industriais, joint ventures e transferência tecnológica podem ajudar a reconstruir capacidades produtivas. Mas, sem esse enquadramento, a cooperação tende a reproduzir a dependência que diz combater.
Considerações finais
A China não é, por si só, uma alternativa sistêmica à dependência brasileira. Ela pode ser parceira estratégica, mas também pode reforçar padrões antigos de heteronomia econômica, agora sob uma nova geografia do capitalismo global. O resultado depende menos da potência asiática do que da capacidade do Brasil de formular sua própria estratégia de desenvolvimento (FURTADO, 2007; BRESSER-PEREIRA, 2014).
Se o país continuar exportando commodities e importando tecnologia, a relação bilateral seguirá sendo assimétrica. Se, ao contrário, conseguir articular política industrial, integração regional, transição energética e soberania produtiva, a parceria com a China poderá servir como alavanca de transformação.
O dilema é político antes de ser comercial. E talvez essa seja a lição mais importante: desenvolvimento não se improvisa na balança comercial; ele se constrói na disputa pelo comando da estrutura produtiva.
Referências
BELLUZZO, Luiz Gonzaga. O capital e suas metamorfoses. São Paulo: Unesp, 2013.
BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Desenvolvimento e crise no Brasil. São Paulo: Editora 34, 2003.
BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. A construção política do Brasil. São Paulo: Editora 34, 2014.
CANO, Wilson. Desequilíbrios regionais e concentração industrial no Brasil. Campinas: Unicamp, 2007.
CHANG, Ha-Joon. Chutando a escada. São Paulo: Unesp, 2004.
FURTADO, Celso. Desenvolvimento e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961.
FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2007.
IPEA. Indicadores de estrutura produtiva brasileira. Brasília, 2025.
MDIC. ComexStat. Brasília, 2025.
RODRIK, Dani. The globalization paradox. New York: Norton, 2011.
TAVARES, Maria da Conceição. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.
UNCTAD. Trade and Development Report. Geneva: United Nations, 2024.
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, seja nosso apoiador e fortaleça o jornalismo crítico: apoia.se/outraspalavras
TagsBrasil, capacidade produtiva, capitalismo global, celso furtado, China, commodities, desenvolvimentismo, desenvolvimento interno, industrialização brasileira, industrialização periférica, plataforma manufatureira, política brasileira, política industrial, relação bilateral, reprimarização, tecnologia, transição energética
Bruno Mota
Economista; Conselheiro do Corecon-Ba; Mestre e doutorando em desenvolvimento regional e urbano. Criador do Projeto que se transformou na Lei 9838/2025 - Educação Financeira nas Escolas Municipais de Salvador-Ba.

Nenhum comentário:
Postar um comentário