Por KARIN BRÜNING*
O crescimento trilionário do mercado ESG comprova que a sustentabilidade corporativa e o fomento à educação ambiental são, hoje, os investimentos mais rentáveis e seguros para a economia global
1.
A sustentabilidade já é a nova maneira de fazer negócios. Mais do que agregar lucro e valor às marcas, é um processo inevitável de transformação de valores e mudança de comportamento frente ao maior desafio do milênio: a crise climática. O setor de Investimentos Ambientais, Sociais e de Governança (ESG) tem experimentado um crescimento exponencial e a tendência é que se torne um pilar fundamental dos mercados financeiros globais na próxima década, com um crescimento robusto para os ativos sob gestão (Assets Under Management).
A Bloomberg Intelligence estima que os ativos ESG possam ultrapassar US$ 40 trilhões até 2030, sendo que outras fontes esperam valores ainda mais altos, como a Fortune Business Insights, que prevê um crescimento do mercado global de investimentos ESG de US$ 45,61 trilhões (2026) para US$ 180,78 trilhões até 2034, com uma Taxa Composta de Crescimento Anual (CAGR) de 18,8% durante o período da previsão. Ainda mais otimista é a expectativa da Precedence Research, que avaliou o mercado global de investimentos nesse setor em US$ 35,48 trilhões em 2025 e acredita que aumentará para aproximadamente US$ 191,22 trilhões até 2035, com uma CAGR de 18,27% de 2026 a 2035.
A convergência dessas projeções destaca a expectativa de que o mercado ESG não apenas continuará sua trajetória de crescimento, mas também acelerará, impulsionado por uma maior conscientização e demanda dos investidores por práticas sustentáveis. O segmento de consultoria ESG também demonstra um crescimento significativo, impulsionado pela crescente pressão regulatória e pela necessidade de as empresas integrarem princípios ESG em suas estratégias e operações.
A Polaris Market Research avaliou o tamanho do mercado global de consultoria ESG em US$ 14,89 bilhões em 2024. Mas as previsões de crescimento são exponenciais, podendo chegar a US$ 135,90 bilhões até 2034, uma taxa de crescimento de 24,8%. Já a Business Research Insights projeta que o mercado global de consultores ESG atingirá US$ 14,24 bilhões em 2026 e US$ 36,53 bilhões até 2035, crescendo a uma CAGR de 12,5%.
Um número mais conservador é fornecido pela Custom Market Insights, segundo a qual a sustentabilidade atingirá US$ 14 bilhões até 2034, com uma CAGR de 15,5% de 2025 a 2034. O crescimento neste segmento é atribuído à demanda por expertise para navegar em regulamentações complexas, desenvolver estratégias de sustentabilidade e garantir a conformidade e a transparência nos relatórios ESG.
2.
Nesse contexto, a Europa é projetada para continuar sendo o maior mercado ESG, com mais de US$ 18 trilhões em ativos sob gestão até 2030, mantendo sua participação global de 45%. Os EUA podem ver sua participação diminuir para menos de 25%, enquanto o Japão e a China são mercados em crescimento, com o Japão podendo exceder 15% (quase US$ 7 trilhões) e a China atingindo cerca de US$ 5 trilhões em ativos ESG até 2030.
O que impulsiona o crescimento do mercado ESG é, sem dúvida, a crescente preocupação com questões ambientais e sociais, que leva os investidores a alinhar seus portfólios com valores sustentáveis. Nesse cenário, o investimento em educação ambiental infantil, embora possa parecer distante do “core business”, oferece retornos sociais e reputacionais significativos que se traduzem em valor de longo prazo para as empresas. A Fundação Abrinq destaca que “proteger a infância é o maior investimento ESG que uma empresa pode fazer”, pois contribui para a garantia de direitos e para a construção de um futuro mais justo e resiliente.
Programas de educação ambiental para crianças geram um “triplo dividendo”, uma vez que promovem a resiliência climática, protegem o potencial individual das crianças e fomentam o desenvolvimento sustentável. O UNICEF aponta que cada US$ 1 investido em programas de qualidade na primeira infância pode gerar um retorno econômico médio de US$ 13,70, e para a educação pré-primária, esse valor é de US$ 9 de benefícios para a sociedade, podendo chegar a US$ 17 para crianças em situação de vulnerabilidade.
Esses investimentos resultam em benefícios intangíveis cruciais, como fortalecimento da reputação, da marca e a lealdade do consumidor. Além disso, ações voltadas para a infância e o meio ambiente fortalecem os laços com comunidades, funcionários e parceiros, criando um ambiente de colaboração e confiança. E essa percepção começa antes mesmo do emprego, uma vez que, para 76% dos candidatos, segundo a Alpha Sense, causas sociais e ambientais são um fator decisivo na escolha do local de trabalho.
Apesar dos claros benefícios, a medição do ROI de iniciativas ESG e de impacto social pode ser complexa. Pesquisas indicam que 98% das iniciativas de sustentabilidade falham em comprovar seu ROI devido à falta de métricas claras, e menos de 50% das empresas rastreiam os retornos de suas ações de sustentabilidade. Superar esse desafio requer o estabelecimento de metas específicas, mensuráveis, alcançáveis, relevantes e com prazo definido (SMART), além de uma integração mais profunda das métricas ESG nas análises financeiras e de desempenho corporativo.
É importante notar, no entanto, que, mesmo assim, empresas com altas pontuações ESG observaram um retorno para os acionistas 2,6 vezes maior entre 2013 e 2020 do que a média do mercado.
Por fim, fazendo um exercício de imaginação, em um cenário hipotético, de um país com aproveitamento 100% sustentável e limpo de seus recursos naturais, o retorno financeiro para qualquer tipo de investimento seria extraordinariamente alto. Estudos indicam que o financiamento de metas de sustentabilidade relacionadas à natureza pode demonstrar um retorno sobre o investimento (ROI) superior a 20 vezes.
Segundo o Centro Mundial de Monitoramento da Conservação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP-WCMC), investir US$ 7,4 trilhões globalmente até 2030 em metas de sustentabilidade relacionadas à natureza poderia gerar o equivalente econômico de US$ 152 trilhões em benefícios.
Além dos retornos financeiros diretos, um ambiente limpo e saudável, com uma população educada para respeitar o meio ambiente, resultaria em mais produtividade e capacidade de inovação, sem tensões sociais e políticas constantes, criando um ambiente mais estável e previsível para investimentos no nosso bem mais inestimável: o futuro.
*Karin Brüning é cientista e ambientalista, doutora em química pela UFRJ. Fundadora da Play Recycling, plataforma de educação ambiental.

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