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“Meritocracia”, pluralismo e ciência

Do A Terra É Redonda, 03 de junho 2026
Por LUIS FELIPE MIGUEL*



Imagem: Sergio Arze

A subordinação do rigor metodológico a conveniências ideológicas, seja pela militância identitária ou pelo conservadorismo, ameaça diretamente a autonomia do conhecimento acadêmico

1.

No debate recente sobre o pluralismo nas universidades vemos, por vezes, se defrontarem duas posições polares, mas que partem, ambas, de uma mesma compreensão equivocada da ciência e, em particular, das ciências humanas.

A militância identitária entende que o critério da legitimidade científica é a adesão a seus valores políticos. Assim, a verdade da ciência é definida de fora, pelo alinhamento ou não aos slogans do momento. Testemunho, ficção, delírio, impostura, tudo é aceito, desde que gabarite no teste de adequação ao bem-pensar do “perfeitos”. Pior ainda, uma pesquisa, para ser validada, deve assumir de antemão o discurso que se tornou consensual nos círculos progressistas – e, portanto, achados que sejam inconvenientes precisam ser descartados de antemão.

É uma visão tosca, incapaz de operar a dialética entre valores e ciência, que assume que a única alternativa à “neutralidade axiológica” conservadora é o apagamento da fronteira entre pesquisa científica e proselitismo político. E é um obstáculo ao enfrentamento dos problemas presentes, já que, em vez de vermos a realidade tal como ela é, nos apegamos a mentiras consoladoras.

Defensores do pluralismo dizem o contrário, mas muitas vezes parecem partir do mesmo pressuposto. Devemos abrigar na universidade muitas posições vinculadas a valores políticos divergentes, como se isso fosse um objetivo em si mesmo. Mais uma vez, a ciência não parece ter critérios autônomos de discriminação da validade dos discursos.

Isso fica patente quando, aliás em polêmica dirigida especificamente contra mim, se diz que dar prioridade aos melhores argumentos científicos equivale a “meritocracia”. Seria incoerente, assim, dizer que uma visão meritocrática da sociedade é empiricamente incorreta e desprovida de valor heurístico, logo pode ser descartada no debate científico, e defender rigor na ciência.

Mas a crítica a meritocracia não significa negar que existem critérios de definição de melhor e de pior! Se fosse assim, eu, como um “antimeritocrático”, não poderia dizer que um prato de comida está mais gostoso ou é mais nutritivo que outro, que um time de futebol jogas melhor ou pior que seus adversários, que fulana dirige bem e que beltrano dirige mal, que eu gosto de um filme, mas não de outro.

Não é isso, obviamente. A crítica é à ideia de que o mérito no resultado alcançado define as pessoas numa escala de dignidade – e que a sociedade deveria ser assim hierarquizada, com aqueles julgados superiores desfrutando de privilégios em relação às outras pessoas. Como corolário, este raciocínio leva à ideia, incorreta não apenas moral, mas sobretudo empiricamente, de que as desigualdades presentes na sociedade seriam explicadas não pelas injustiças nas estruturas sociais, mas por pretensas diferenças inatas de mérito entre as pessoas.

2.

A leitura de que não podemos separar bom e ruim, melhor e pior, é bizarra, denotando uma incompreensão gritante da crítica à meritocracia. Mas é sobretudo uma posição que, tanto quanto a dos identitários, opera com base no relativismo científico mais extremo: nega à ciência a capacidade de discriminação dos discursos por critérios próprios.

Mas será que nós devemos mesmo lamentar a ausência de criacionistas bíblicos nos cursos de biologia, porque representaria uma redução do pluralismo de perspectivas? A ausência de defensores do lamarckismo, do éter luminífero, do flogisto, da Terra jovem, do geocentrismo, do terraplanismo?

Ou então devemos abrir os cursos de medicina para quem acredita em chacras, em cura pela oração, em homeopatia? Um negacionista do holocausto ou da ditadura militar precisa ter lugar no curso de história? Um defensor das teorias raciais do Conde de Gobineau nos cursos de antropologia ou sociologia?

Tudo isso já foi rejeitado – pela ciência, não por ideologia. Então, vamos colocar os pontos nos ii, diante destas vozes que clamam por mais direitistas na universidade.

Em primeiro lugar, não é verdade que eles estejam ausentes. Em muitas áreas das humanidades, visões conservadoras certamente são majoritárias. Economia, direito, ciência política e sua subárea de relações internacionais são exemplos. Em cada uma delas, os modelos predominantes, ensinados pelos professores, operados pelos pesquisadores e aprendidos pelos alunos são individualistas, estáticos, desistoricizantes. A presença do marxismo, do feminismo materialista e de outras perspectivas críticas é rala, no máximo acomodada às margens.

Eu mesmo já tive, várias vezes, artigos recusados para publicação e pedidos de financiamento de pesquisa negados por usar referencial marxista ou por chamar o golpe de 2016 de golpe. Não é ilação minha: estava dito com todas as letras nos pareceres. De certa maneira, fiquei isolado na minha disciplina, espremido entre as visões institucionalistas que sempre predominaram e o identitarismo de corte neoliberal que ocupou o espaço da “alternativa” (e que, no frigir dos ovos, se mostra igualmente conservador). Que tipo de dominação da esquerda é essa, em que posições de esquerda são vetadas?

3.

Claro que se eu me guio pelo metro ideológico do falecido Olavo de Carvalho, para quem o governo de Fernando Henrique Cardoso era comunista e qualquer coisa depois da Idade Média é uma abominação marxista, aí sim, a direita está fora da universidade. Mas não é verdade. Muito do que é ensinado se alinha objetivamente a visões conservadoras do ser humano e da sociedade.

O que está em jogo, afinal, não é em quem professores e estudantes votam – não é de espantar que votem menos em candidatos que anunciam que querem exterminá-los. O que importa é que tipo de ensinamento é transmitido.

Estão subrepresentadas apenas as versões mais caricatas do direitismo, aquelas que não têm como ingressar em nenhum debate sério. Na verdade, mesmo nazistas – quando produzem obras que provocam reflexão – encontram guarida nos programas universitários. Estão aí Martin Heidegger, Carl Schmitt e Mircea Eliade que não me deixam mentir.

Repetindo: existem critérios próprios do trabalho científico, para a produção de argumentos e evidências. Quando eles são respeitados, restam de pé posições diversas, por vezes antagônicas, que o campo científico julga merecedoras de atenção, mas muitas outras são descartadas, como estranhas à produção da ciência. Podemos discutir o peso relativo da crise econômica, da mobilização sindical, da pressão internacional ou dos conflitos internos nas Forças Armadas para o fim da ditadura de 1964, mas uma explicação baseada no mapa astral dos generais não tem lugar.

Por isso, o desafio principal que se coloca nos embates nas universidades é a restauração dos critérios de validade de produção do conhecimento científico, que têm sido sistematicamente rebaixados por formas de negacionismo pretensamente transgressoras, que focam em “epistemologias” alternativas, ancestrais, marginais, tudo um nome chique para o vale-tudo em que se misturam desorientação, preguiça intelectual, oportunismo e charlatanismo.

Se nossa preocupação é dar espaço para leituras direitistas da realidade sem substância acadêmica, então teremos também que abandonar a crítica a esses discursos da esquerda hipster.

Então o problema seria não a ausência nas bibliografias, mas que não temos tantos professores com posições políticas de direita nas universidades? Poucos “conservadores autodeclarados”? Também não é exatamente verdade; temos um bom contingente de conservadores. Certamente temos menos extremistas, mas isso é um problema? Devemos criar cotas para bolsonaristas nos concursos públicos de docentes? Creio que temos aí um deslocamento inaceitável do terreno de discussão.

4.

Concursos são complicados, sempre. É difícil avaliar a competência e o compromisso dos candidatos em uma situação tão artificial, ainda mais se – como ser tornou comum – são dezenas e dezenas a serem escrutinados e comparados em poucos dias. As agências financiadoras da pós-graduação empurram para a primazia absoluta de um produtivismo cego, em detrimento de outras qualidades dos possíveis futuros professores, o que, aliás, desfavorece aqueles com maior senso crítico e preocupação social (mas essa é outra discussão).

A questão é: candidatos de direita são discriminados por serem de direita? Deve ter acontecido, vez ou outra. Tanto quanto candidatos de esquerda sendo discriminados por serem de esquerda. Mas não é a regra, nem de longe. A regra são concursos que buscam ser imparciais, com base em critérios de seleção quase sempre apressados e muitas vezes míopes, tensionados por pressões de panelinhas.

Eu entendo que os concursos para professores precisam ser repensados, por uma série de motivos. Viés ideológico não é um deles.

É razoável imaginar que as ciências sociais atraem mais pessoas com determinadas características, como uma inquietação com desigualdades e a vontade de investigar o que existe por trás do autodiscurso das instituições sociais. Afinal, foi por isso que essas disciplinas surgiram. Também é possível que a docência no ensino superior seja mais atraente para quem não se enquadra bem no mundo corporativo ou na burocracia governamental. É normal que diferentes carreiras concentrem gente com diferente perfil.

Se o conteúdo do que é discutido na universidade, do que faz parte da formação dos estudantes, está alinhado com o que de melhor se produz no campo, isso não é problema. A não ser para quem deseja um pluralismo artificial e que, não vendo diferença de capacidade explicativa entre diferentes sistemas, reduz tudo a “opiniões” a serem igualmente respeitadas – o que é, no final das contas, a posição do negacionismo científico.

O espantalho da ausência da direita na universidade falseia a realidade e é incapaz de entender a diferença entre pluralidade de perspectivas científicas e pluralismo político. Tanto quanto os hipsters, é incapaz de aceitar que precisamos andar no fio da navalha, recusando o positivismo sem cair no relativismo que nega a especificidade do empreendimento científico.

Este espantalho não é inocente. Vemos, já faz tempo, um crescimento dos esforços de think tanks de direita para ampliarem sua penetração na universidade e implementar uma agenda puramente ideológica, tudo isso a golpes de um recurso que para eles é farto: dinheiro. Se não formos capazes de sustentar a validade de nossos critérios próprios de admissão, estamos abrindo mão do horizonte de autonomia do campo científico e não teremos condições de resistir a essas investidas.

Quanto ao ataque que os militantes do hipster-identitarismo lançaram contra mim, num texto publicado na revista Carta capital, eu gostaria de responder aos seus argumentos. Mas não encontrei nenhum. Só uma prosa confusa, cujo único ponto era me chamar de “ressentido”, uma vez a cada parágrafo.

No texto ao qual reagiam, eu anotava en passant que a ideia de “ressentimento” era usada para anular as críticas à ausência de rigor científico das tais “novas epistemologias”. Generosamente, eles decidiram ilustrar o que escrevi.

Nem um argumentozinho para ser levado em conta, num artigo inteiro. Se eu fosse responder no mesmo tom, diria que o tal texto é o produto típico que se poderia esperar de um trio de machos brancos, já entrados em anos, pedindo biscoito (um tipo bastante comum em certos círculos, diga-se de passagem). Como prefiro um debate mais elevado, deixo quieto. E paro por aqui, por não haver nada a que responder.

*Luis Felipe Miguel é professor titular de ciência política na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica). [https://amzn.to/45NRwS2].

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