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Memorial – professor Emérito

Do A Terra É Redonda, 07 de junho 2026
Por CARLOS GUILHERME MOTA*



Carlos Guilherme Mota/ Foto: Divulgação

Como homenagem do site ao historiador recém-falecido publicamos trechos de palestra proferida por ocasião da recepção do título de professor Emérito pela FFLCH-USP, 18 de junho de 2009

Hesitei em aceitar vir a esta Congregação em dias tão difíceis, quando parte da USP teve as atividades paralisadas. Mas logo concluí, após consultar Colegas e a brava Diretora desta Escola, que a Congregação é o fórum máximo de nossa Faculdade, instância que não pode nem deve jamais parar suas atividades, muito menos com a presença de polícia no campus. Pois foi no espaço e com apoio desta Congregação que o educador Fernando de Azevedo – o primeiro mestre desta Casa a receber o título de Professor Emérito, com que hoje sou honrado –, mais Cruz Costa e Eurípedes Simões de Paula repeliram as investidas do governador Jânio Quadros, dentre outras ocorridas ao longo da vida desta instituição.

Antes de começar a oração que elaborei para o momento, quero deixar claro e de maneira serena – meu repúdio à presença, ainda agora, de polícia no campus. A USP não pode ser confundida com quartel, nem partido, nem sindicato, nem hospital de dementados (com todo o respeito humano aos efetivos dementados).


Observações preliminares

Enquanto historiador, sinto-me na obrigação de esboçar alguns comentários prévios. O primeiro centra-se no momento atual, pois a conjuntura mundial impõe uma breve reflexão. O mundo vive, sabemos, o colapso do socialismo real, o esgotamento – e alguns casos, o fracasso – dos movimentos de libertação colonial e o ressurgimento de discutíveis populismos, coronelismos e messianismos religiosos de massa. Em contrapartida, acontecimentos históricos como a eleição de Barack Obama, a consolidação da União Europeia, o despertar desta outra China e agora o Bric desafiam a imaginação histórica, obrigada a atualização tardia, sobretudo por parte dos que nos situamos à esquerda.

O segundo comentário: no plano nacional, neste país de contra-revoluções preventivas permanentes, que datam de 1822, 24, 40, 89, 1930, 37, 45, 64 etc., ainda vivemos constrangidos pelo modelo autocrático-burguês, como diagnosticou o professor Florestan Fernandes em 1975, em sua obra A Revolução Burguesa no Brasil, texto de resto pouco (ou nada) lido pela esquerda. Um modelo altamente desmobilizador e gerador de perversões políticas e ideológico-culturais.

Tal modelo, autocrático e não democrático-burguês, ainda permanece em vigência na quadra atual, mal disfarçado, apesar dos movimentos de reforma e contestação dos anos 1960, de crítica à dependência e lutas revolucionárias dos anos 1970, de tortuosas conciliações dos anos 1980, de impasses, conciliações e derrapagens ideológicas dos anos 1990. E de inimagináveis e espúrias alianças nesta primeira década do século XXI, que enreda até o presidente-operário Lula da Silva. Esse modelo, diagnosticado pelo eminente sociólogo-historiador desta Casa, ainda não foi desmontado nem mesmo pelos governos Fernando Henrique e Lula. Ao contrário, reforçou-se malgré-eux o capitalismo selvagem e senzaleiro, contra uma débil sociedade civil democrática. Como advertia o historiador português Vitorino Magalhães Godinho em 1987, assistimos na quadra atual “ao naufrágio da memória nacional e da Nação no horizonte do marketing”.

Terceiro comentário. No plano local, ou seja, na história institucional desta Escola, após o momento dos inquéritos policial-militares (os IPMs) no campus, acolitados por alguns professores de direita agindo em nome da chamada “maioria ordeira”, passámos asperamente do modelo autoritário francês de cátedras para um mal implantado modelo departamental à americana, pseudodemocrático. Para complicar, tivemos que engolir a semestralização, os chamados “Estudos Brasileiros” no modelo da ADESG, e assim por diante.

Saímos da cultura do andamento e entramos na cultura do timing, dançando a música de avaliadores externos nem sempre bem avaliados…muito longe dos ideais de Anísio Teixeira, Almeida Júnior, Fernando de Azevedo.

Ainda assim nossa Faculdade, resistindo como podia, teve e ainda desempenha um decisivo papel de escola requalificadora e estabilizadora da consciência criativa universitária brasileira. Sem bairrismo, a Faculdade de Filosofia, mesmo sangrada, continua a ser uma referência maior, inclusive em termos de produção científico-cultural.

Quarto comentário. Nesse contexto geral e local é que se impõe a urgência na redefinição da ideia mesma de Ciências Humanas, combatendo a equivocada divisão ideológica do trabalho intelectual vigente, que nos isola enquanto especialistas que ainda trabalhamos em compartimentos estanques. Mas, sobretudo, impõe-se a necessidade de aprofundarmos a discussão sobre a formação de novos professores, dada a explosão conceitual que ocorreu em cada uma das nossas disciplinas, com os (nem tão) novos objetos, métodos e técnicas, desconstruções, reinterpretações e desenganos…

Por fim, a pergunta que não quer calar: continuamos nós, de fato, a bem formar professores combativos para a rede escolar, oficial ou particular, uma das duas finalidades precípua da FFCL, hoje FFLCH, definidas em seu Estatuto? E nossos pesquisadores, em geral muito bons, “estão na ponta de qual corrida”? Ora, estas perguntas não se colocam para outras Faculdades que parecem se distanciar da responsabilidade social e política. Parafraseando o que se costuma dizer do México: elas se situam muito longe de Deus e demasiadamente perto dos Estados Unidos…Eu acrescento: demasiado perto das empresas e muito longe da sociedade real, dos desenraizados e dos condenados da terra.

Meus amigos e minha amigas:

“As glórias que vêm tarde já vêm frias”. (Tomás Antônio Gonzaga)

Este verso poderia ser uma bela epígrafe poética para minha alocução, quando – deveras honrado – recebo o título máximo em meu percurso, concedido pelo voto de meus pares.

O título que minha Faculdade, o meu Departamento e todos os outros nove Departamentos me conferem me transcende e ultrapassa. Pois esta é a escola também de Cruz Costa, Florestan, Antônio Cândido, Maria Isaura, e foi a escola de meus professores do Colégio Roosevelt (o da rua São Joaquim), então vagamente socialistas, João Vilalobos, Edith Pimentel e Deusdá Magalhães Mota. Mas o Vilalobos foi decisivo em minha virada existencial e cultural, no fim dos anos 1950: ainda no colégio, no ano de 1957, nos informava ele que, numa manhã azul de sábado, com um certo ar de André Malraux na Guerra Civil Espanhola e tirando uma baforada de seu forte cigarro Astória, “vivíamos nós na mesma cidade de Florestan e no mesmo país de Anísio Teixeira”.

Nossa Escola formava cidadãos e cidadãs com nova visão de mundo, a respeito dos quais o professor Antônio Cândido – referência forte porém suave em meu caminho – disse representarem então a “expressão do pensamento radical de classe média”. E que nosso papel era o de combater todas as formas de pensamento reacionário. De fato, nos sentíamos diferentes, missionários neojacobinos e rebeldes ainda sem causa, mas dispostos a combater a Igreja retrógrada, o liberalismo oligárquico, os nacionalismos de direita, os marxismos mecanicistas, os populismos de esquerda e direita (o populismo dos sindicatos, dos ademaristas e janistas) e ajudar a implantar o ensino público laico e universal.

Nessa perspectiva, o verso do iracundo inconfidente Gonzaga, muitas vezes lembrado pelo saudoso historiador mineiro Francisco Iglésias, entretanto e felizmente, não serve para mim, ao menos nesta ocasião. Pois a láurea não chega tarde nem “vem fria”, alcançando-me na hora certa, quando a idade outonal e uma precária maturidade me sugerem ser chegada a hora de adotar o andamento largo dos meus mestres, e começam a solicitar os primeiros balanços, as primeiras memórias, algum repouso para meditação. E também novos escritos, talvez ensaios, algumas aquarelas, um pouco de piano-jazz…

Não vou fazer o histórico de minha formação, para não correr o risco de nabuquismo fora do lugar. Até porque, em nossa cultura, as ideias estão no lugar, embora há muito erradas e enredadas na pesada tradição da Conciliação político-cultural. Mais vale advertir – agora Emérito que sou – que o lugar é que está fora do mundo civilizado contemporâneo. Seria inapropriado pois tomar vosso tempo falando de minha trajetória neste momento de águas turvas em que se banha a História, a USP e a nacionalidade. Vivo estivesse, talvez o mesmo Joaquim Nabuco (Quincas o Belo) diria: “Muitas vezes um país percorre um longo caminho para voltar, cansado e ferido, ao ponto donde partiu” (Diário, 11 de setembro de 1877).

Não posso deixar, entretanto, de evocar os mestres que me tornaram citoyen, citizen, cidadão numa terra com baixíssimo índice de cultura política cidadã, em que podres poderes insistem em tratar a cidadania como um aglomerado de súditos-contribuintes, para utilizar conceito caro a Maurício Tragtenberg. Primeiro, recordo minhas professoras do Grupo Escolar Oscar Thompson, no Largo do Cambuci, depois os professores do Ginásio Paulistano, na rua Taguá (escola que os irmãos Pasquale compraram de meu avô Máximo), em que o jovem Dante Moreira Leite lecionou História e pontificavam os rigorosos latinistas Armando Tonioli e Celestino Corrêa Pina. Evoco depois, já no colegial, os mestres do Roosevelt da rua São Joaquim (onde estudaram Dallari, Ruth e Fernando Henrique, Novais, o primeiro da classe José Serra, que não nos passava “cola”, as primeiras da classe Heleny Guariba e Marilena Chauí, a Gigi Amaral, Fuad Saad, Nadir Cury Meserani, Caio Navarro de Toledo, a futura jornalista Irede Cardoso, depois Amélia Cohn, mais tarde o grupo-geração do Hugo Segawa e tanta gente mais). No Roosevelt e nesta Faculdade de Filosofia também estudou nossa saudosa Heleny Guariba, que morreu na luta contra a ditadura e cujos restos mortais até hoje não foram encontrados.

Desde então líamos o Suplemento Literário do Estadão, as revistas Anhembi, Revista Civilização Brasileira, Revista Brasiliense, Tempo Brasileiro, a antiga Senhor. Já professor iniciante, recordo os colegas do Colégio Estadual Roldão Lopes de Barros, no Cambuci, onde eu aprenderia a dar aula para o ginásio e a cultivar idéias, livros e cerveja no bar em frente, com a modernésima Diretora Maria Aparecida do Val Penteado, comunista formada por esta Faculdade, a inesquecível Secretária Acadêmica Helena Rolim e jovens professores de variada indisciplina. Foi minha primeira experiência transdisciplinar líquida e incerta…Passadas quatro décadas, relembro queridos alunos e alunas daquele tempo, bons cidadãos em postos de destaque.

Mas quero aqui evocar meus professores jacobinos desta Faculdade, então na rua Maria Antônia, onde eu reencontraria o elegante professor Vilalobos, todos nós depois amassando barro para alcançarmos o prédio da Antiga Reitoria, onde mais tarde atuaríamos ao lado de alguns girondinos paulistas de esquerda. Marcante a atuação do professor sans-culotte Florestan (com seu avental branco e sobrancelhas espessas), a quem tanto devo na compreensão do que vem a ser uma verdadeira Escola, fornecendo ainda a chave para o deciframento desta sociedade…Deixou-me ele sobretudo lição de urgência na requalificação do trabalho dos cientistas sociais, da pesquisa e do empenho do intelectual. E do papel dos historiadores nessa requalificação, que aqui sinalizo aos mais jovens desta Faculdade. Revelou-me Florestan outros níveis de historicidade, para se pensar nossa cultura, nosso tempo e a mim mesmo.

Hoje, nossa expectativa é a de que estas lembranças sirvam aos mais novos professores e alunos, para uma reconstrução histórico-crítica de nosso passado recente. E para despertar a imprensa destes dias atuais, pois também ela – com raríssimas e ralas exceções – perdeu o rumo nesta era de massificação grosseira e banalização do papel da Universidade e da escola na construção da nação.

Abertura ao estudo das civilizações

Na Maria Antônia pude aprofundar leituras do colégio, como a da Paideia, de Werner Jaeger, as obras do Dilthey, Rickert, Erich Fromm, Cassirer, Colingwood e do então popular e criticado Arnold Toynbee. Ler estudos sobre Jesus, Zapata, Gandhi e Roosevelt. E, para descobrir o Brasil real, os estudos de Euclides, Caio Prado Júnior e Celso Furtado. Comecei então a frequentar as grandes coleções de História da Civilização, como a Clio, a Cambridge Modern History of Civilisations, a Peuples et Civilisations, sobretudo a História Geral das Civilizações, dirigida por Maurice Crouzet e traduzida por intelectuais como Vítor Ramos e J. Guinsburg, tudo por iniciativa de Eurípedes e do “criptocomunista” (têrmo da época) Paul Monteil, da Difel. Curioso personagem, esse Monteil, cuja obra hercúlea editorial, em que se inscreveu a História Geral da Civilização Brasileira, dirigida por Sérgio Buarque de Holanda e depois por Bóris Fausto, aguarda estudo de um de nossos atentos mestrandos ou doutorandos. Um tipo muito especial, que pontificava com seu cachimbo na Livraria Francesa, na rua Barão de Itapetininga.

Mas a Eurípedes Simões de Paula é que devemos a abertura para o estudo das civilizações. Quantos historiadores estrangeiros ele convidou para nossa Faculdade! Frédéric Mauro,Godinho, Glénisson, Kellenbenz, Phillipe Wolf, Mollat, Bruand, Vercauteren, Barradas. Ajudou-nos depois a trazer a São Paulo o Soboul e o Godechot, historiadores notáveis da Revolução Francesa, e muitos outros, sempre aproximando-os dos estudantes.

Naquela época li também Marx, Weber, mais Lukács e Lucien Goldman, confesso que li pouco Durkheim porém muito o Mannheim, Sartre, Simone de Beauvoir (esta, desde o colegial, conversando com minha irmã Amélia, especialmente sobre as Memórias de uma Moça Bem Comportada, para entender melhor minhas inquietas colegas e os novos valores com os quais nos debatíamos).

Pude então assistir às aulas e conferências sobre marxismo e existencialismo do franco-brasileiro Michel Debrun (outro crítico da Conciliação), do marxista diferenciado Soboul (Sorbonne) e do austero liberal jacobino Godechot (o doyen rouge de Toulouse, com quem estudei em 1967/68). No movimento de 68, Soboul, desobedecendo orientação do PC francês, desfilou ao lado dos estudantes; Godechot posicionou-se a favor da reforma universitária, ao lado dos estudantes e colegas progressistas, contra a administração central de Paris. Destes três últimos, me tornaria amigo e, de certo modo, discípulo, numa complexa combinação de teorias que nem mesmo a mente teórico-epistemológica de Gabriel Cohn deslindaria…

Ocorre que, em 1964, pelas mãos do Eurípedes, chegou a São Paulo um personagem surpreendente, Joaquim Barradas de Carvalho, então exilado em Paris, com 44 anos. Comunista, aristocrata romântico com alma socialista, braudeliano à portuguesa, antisalazarista iracundo, vinha em missão franco-brasileira para lecionar História Ibérica na Faculdade, juntando-se a nós que iniciávamos a docência naquele ano fatídico. Aqui Barradas deixou-se ficar por vários anos, cumprindo papel decisivo na formação de inúmeros pesquisadores, talvez mais do que todos os franceses somados. Fez inúmeros amigos, atuava conosco na USP, mas também nas “universidades” Riviera, Gigetto, Paribar, Arpége, no Fasano da calçada da Paulista, Pandoro, no Frevinho, nos botecos…

Tendo eu então 23 anos e Barradas 44, ele se tornaria uma de minhas melhores amizades, vindo a falecer muito cedo, em Lisboa em 1980, aos 60 anos. A ele devo a minuciosa revisão do texto introdutório do Brasil em Perspectiva, coletânea de artigos da nova geração de historiadores coordenada por mim, a “génération que monte”, como Frédéric Mauro escreveu na revista Annales.

Ideias e paladares fora do lugar? Oh pá!… Em 1968, estava esse aristocrata marxista-braudeliano conosco nas barricadas e debates nas ruas Maria Antônia e Doutor Vila Nova, assim como o alemão Bertolt Zilly, o tradutor de Os Sertões, Joseph Love, Warren Dean, Michael Hall e outros…E, mais tarde, lecionando em nosso exílio no Butantã. Toda uma época, enfim, em que nada era banal e que a universidade – e ser universitário, ser professor – contava muito do ponto de vista social, político e cultural, tanto local, como nacional e internacionalmente. Enfim, sem fax, DDD, internet, powerpoint, round table workshops, coffee-break, pendrive e CAPES (que ainda trazia a boa inspiração de Anísio, que Renato Janine Ribeiro tentou redimensionar) comunicávamo-nos muito mais do que hoje.

Tempo em que a universidade e suas congregações vivem em silêncio ensurdecedor, salvo raríssimas exceções. Banalizadas, muitos professores – não todos – passaram a cultivar a ideologia das ilusões perdidas, em face da “maioria ordeira”, e as literatices do desencantamento e da descontrução. Ou seja, fomos apanhados nesse danoso “retour de la mélancolie des intellectuels du vieux continent” denunciado por Wolf Lepenies, na aula inaugural no Collège de France no ano de 1992, alerta que, para não fugir à regra, chega com atraso ao Brasil.

Ainda no capítulo das influências, abro parênteses para assinalar que, em nossa disciplina de História Moderna e Contemporânea, utilizávamos muito as obras de Léo Huberman (a História da Riqueza do Homem), Sweezy, Baran e Dobb, e pouco depois, do Hobsbawm. Tudo combinado com Huizinga, Burkhardt, Marc Bloch, Denis Hay, Boxer, meus mestres e amigos Godinho e Stanley Stein, e outros, que Novais nos inculcava com rigor, como Gino Luzzatto e Heckscher, que líamos trêfega e tropegamente com nossos alunos em italiano e inglês…

Acima de todos, líamos o grande Lucien Febvre, do qual Eurípedes traduziu e publicou em 1950 um texto inaugural do número 1 de nossa tradicional Revista de História, como a sinalizar que o importante era fazermos a História ampla, generosa das civilizações, das culturas, das mentalidades…Dos brasileiros, li muito e frequentei o então jacobino carioca e nacionalista José Honório Rodrigues, homem de arquivo mas de combate, crítico feroz da Conciliação, odiado pelos salazaristas portugueses, que descortinava para nós a importância da Historiografia enquanto disciplina e método de trabalho.

Mas foi Caio Prado Júnior quem então mais me marcou. Marxista paulistano, militante comunista e heterodoxo, participara da Guerra Civil Espanhola. Era um aristocrata que rompera com os valores do estamento a que pertencia, tendo sido preso diversas vezes. Até hoje não entendi porque nunca deu aula na USP, antes e depois da ditadura: uma história mal explicada, em verdade muito estranha. Obscura como aliás a de Ernani Silva Bruno, Sérgio Milliet e do próprio Edgard Carone, que só muito mais tarde foi aceito pela elite do estamento departamental.

Já o brilhante e iracundo Mauricio Tragtenberg, judeu e gaúcho, nunca foi aceito, tendo ele e Carone sido convidados pelo professor Antônio Angarita a lecionar na FGV. Ponto para a FGV…

A propósito do Caio Prado (aristocrata comunista que insistia em que o tratássemos por “você”, rompendo com a pose estamental de outros mestres), recordo-me de conferência inesquecível que fez a meu convite, ainda eu estudante, no CEHAT em 1962. Falou sobre o Método Dialético no Centrinho Taunay, dos alunos, do qual eu era presidente, o que provocou reação de delegados do DOPS. Pelo que fomos advertidos, acoimados de ingênuos…Não éramos, embora nem de longe imaginássemos que, dois anos depois, seria desfechado o golpe civil-militar de 1964.

Não muito tempo depois, marcaram-me como intelectual e cidadão Florestan Fernandes, Antônio Cândido e Raymundo Faoro, sucessivamente e nessa ordem, aliás os três personagens principais de meu livro Ideologia da cultura brasileira. Tese defendida em junho de 1975, com o apoio intelectual e pessoal de alguns colegas, sobretudo de meu amigo Alfredo Bosi, que me aconselhou em momento de hesitação, no café que existia embaixo desta Congregação, com estas palavras singelas: “seja fiel a si próprio neste seu momento, e vá em frente…”. Respirei fundo, criei coragem e fui!

*Carlos Guilherme Mota (1941-2026), foi professor do Departamento de História da USP. Autor entre outros livros de Ideologia da Cultura Brasileira (1933-1974) (Editora 34). [https://amzn.to/4egxGEW]

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