Por ALAN MACLEOD*
A suposta imprensa independente cubana revela-se como uma sofisticada frente de guerra informacional, sustentada por milhões de dólares dos Estados Unidos para preparar o terreno para intervenções políticas e militares
Em meio à escalada de agressão dos EUA em direção à ilha cubana por meio de uma campanha de máxima pressão e da ameaça de intervenção militar, o governo dos Estados Unidos tem financiado encobertamente uma enorme rede de meios de comunicação cubanos que afirmam ser independentes, em um ímpeto de mudança de regime.
Estes meios se apresentam como jornalismo de investigação imparcial, mas estão sendo financiados silenciosamente por Washington através da USAID, da Fundação Nacional para a Democracia (NED, na sigla em inglês) e da Fundação Open Society, com o objetivo de semear o descontentamento em toda a nação caribenha, amolecendo-a para uma potencial invasão “iminente” por parte da administração de Donald Trump.
Cuba enfrenta alguns dos piores apagões energéticos de sua história, graças ao bloqueio dos EUA, que tenta sufocar a ilha até a submissão. Como estado comunista que desafia as ordens dos EUA, Cuba está, desde 1959, na mira de Washington, que tenta derrubar o governo. A MintPress lança luz sobre este obscuro nexo de mudança de regime.
Jornalismo independente, cortesia do Departamento de Estado
CubaNet é um dos meios de notícias mais influentes e estabelecidos que cobrem os assuntos da ilha caribenha. Fundado por ativistas anti-governamentais em 1994, o site tornou-se a fonte de informação predileta para os meios corporativos, que o citam regularmente e o apresentam como um meio independente, objetivo e imparcial (por exemplo, The Washington Post, The Wall Street Journal, Fox News e The Los Angeles Times). Os repórteres da CubaNet escreveram artigos de opinião em importantes jornais estadunidenses como o USA Today, pedindo uma mudança imediata de governo na ilha.
CubaNet não é tão independente quanto parece, pois é financiado pelo estado de segurança nacional dos EUA. Recebeu milhões de dólares em financiamento da USAID e da Fundação Nacional para a Democracia, bem como da Fundação Open Society.
Uma subvenção da USAID atualmente ativa de 500.000 dólares, por exemplo, foi concedida à CubaNet para “comprometer os jovens cubanos na ilha através do jornalismo multimídia objetivo e sem censura”. Embora ostensivamente seja uma meta louvável, até mesmo a descrição de uma única frase da subvenção insinua que seu propósito é minar e atacar o governo cubano. Ela declara que (itálico adicionado) “aumentará o fluxo livre de informações de e para Cuba para contrariar as campanhas de desinformação do regime”.
Outra organização de notícias que recebe enormes somas de dinheiro de Washington é a ADN Cuba. Significando literalmente “ADN de Cuba“, o meio acumulou um seguimento significativo online, ostentando mais de 100.000 inscritos no YouTube, mais de 200.000 no Instagram e mais de 1,3 milhões no Facebook. Descreve-se a si mesmo como “um meio independente comprometido com a liberdade e a democracia em Cuba”. No entanto, na realidade, tem sua sede na Espanha. E não parece particularmente comprometido com a transparência sobre seu financiamento.
A ADN Cuba recebeu milhões de dólares do estado de segurança nacional dos EUA. Em setembro de 2024, a USAID aprovou uma subvenção de 1,1 milhão de dólares para a ADN Cuba, uma quantidade gigantesca de dinheiro para uma organização que mal publica uma história por dia em seu site. Isso somou-se a uma alocação de 1,5 milhão de dólares para o período 2022-2024. De fato, desde 2020, a ADN Cuba recebeu mais de três milhões de dólares apenas da USAID. Este relacionamento não é revelado aos leitores, mesmo em histórias que cobrem diretamente o financiamento da USAID aos meios cubanos, e é relegado às notas de rodapé em bancos de dados de financiamento do governo dos EUA.
Diario de Cuba é outro meio de notícias sediado na Espanha que publica uma grande variedade de histórias, todas com uma coisa em comum: uma profunda aversão ao governo cubano. A BBC o descreve, bem como à CubaNet, como fontes chave de notícias imparciais, dirigidas por jornalistas que “reportam sem censura e para pintar um quadro mais amplo sobre a realidade do país”.
E, tal como a CubaNet, o Diario de Cuba recebeu financiamento de sete dígitos de Washington. Entre 2016 e 2020, o Diario de Cuba recebeu 1,3 milhão de dólares em espécie da USAID, quase tanto quanto a CubaNet no mesmo período. Este financiamento generoso permitiu-lhe alcançar uma audiência global, com mais de 600.000 seguidores apenas no Facebook.
Redes de mudança de regime
A Agência Central de Inteligência (CIA) costumava patrocinar direta (e secretamente) centenas de meios de comunicação em todo o mundo. No entanto, após uma série de escândalos e mais informações sobre suas atividades nefastas chegarem ao conhecimento do público, Washington decidiu terceirizar muitas de suas operações exteriores mais polêmicas para organizações como a Fundação Nacional para a Democracia e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID).
“Seria terrível se os grupos democráticos em todo o mundo fossem vistos como subsidiados pela CIA”, disse Carl Gershman, o então presidente da NED, explicando a decisão de 1983 de criar sua organização. O cofundador da NED, Allen Weinstein, concordou: “Muito do que fazemos hoje era feito clandestinamente há 25 anos pela CIA”, disse ao The Washington Post.
Sob a aparência de promoção da democracia e dos direitos humanos, o governo dos EUA canaliza dinheiro para grupos políticos e sociais em todo o mundo para maximizar seus objetivos estratégicos, incluindo a mudança de regime.
Em anos recentes, os EUA utilizaram as organizações gémeas da NED e USAID para financiar protestos anti-governamentais em Hong Kong, para tentar uma revolução colorida na Bielorrússia, para derrubar o governo da Ucrânia em 2014 e para organizar distúrbios em todo o Irã no início deste ano.
Em Cuba, a NED e a USAID desempenharam um papel crítico na organização de um levante (fracassado) contra o governo em 2021. A USAID em particular gastou milhões de dólares financiando, organizando e promovendo o Movimento San Isidro, uma coletiva de músicos, artistas e jornalistas, para liderar uma contrarrevolução na ilha.
Os membros do San Isidro estiveram à frente de uma onda de protestos nacionais em julho. As manifestações foram imediatamente promovidas pelos meios corporativos ocidentais, celebridades de alto nível e políticos dos EUA, incluindo o presidente Joe Biden. Os internautas foram bombardeados com a campanha artificial “SOS Cuba”, que foi tendência na internet por dias.
No final, no entanto, os esforços coordenados dos EUA falharam em convencer os cubanos comuns a saírem às ruas, e o movimento desvaneceu-se rapidamente.
Esteban Rodríguez, um membro chave do movimento San Isidro, é produtor na ADN Cuba.
Quando o dinheiro dos EUA pausa, os meios “independentes” colapsam imediatamente
A importância do dinheiro do governo dos EUA para a sobrevivência e operações destes meios foi sublinhada no início do ano passado, quando a administração Trump escolheu congelar o financiamento à USAID e à NED. Ao anunciar a decisão, Elon Musk, então responsável pelo Departamento de Eficiência Governamental, descreveu a USAID em particular como um “ninho de víboras de marxistas de esquerda radical que odeiam a América”.
O efeito nos meios cubanos foi imediato. Assim que o dinheiro parou de fluir, dezenas de organizações enfrentaram a liquidação imediata. CubaNet publicou um editorial de emergência pedindo aos leitores que cobrissem o déficit. “Enfrentamos um desafio inesperado: a suspensão de financiamento chave que sustentava parte do nosso trabalho”, escreveram; “Se valorizam o nosso trabalho e acreditam em manter a verdade viva, pedimos o seu apoio”. “Sem os fundos [da USAID], será extremamente difícil continuar”, acrescentou o diretor da CubaNet, Roberto Hechavarría Pilia.
O Diario de Cuba estava em situação igualmente desesperada. Seu diretor, Pablo Díaz Espí, observou que “a ajuda ao jornalismo independente por parte do governo dos Estados Unidos foi suspensa, o que dificulta o nosso trabalho”, pedindo aos leitores que doassem.
A decisão de Elon Musk revelou acidentalmente uma vasta rede de mais de 6.200 repórteres e quase 1.000 meios em todo o mundo que estavam sendo capacitados, apoiados e financiados silenciosamente pela frente da CIA, tudo sob o estandarte de promover os meios “independentes” e a liberdade de informação.
Outro meio cubano supostamente independente que caiu em crise foi o El Toque. Fundado em 2014 e recebendo centenas de milhares de dólares da NED, o El Toque publica em espanhol e inglês e tenta manipular as taxas de câmbio em Cuba.
O corte de financiamento atingiu-os duramente, com editores anunciando que teriam que despedir imediatamente metade da sua equipe (15 pessoas) e parar de trabalhar com dezenas de freelancers, enquanto procuravam fontes de financiamento alternativas.
O El Estornudo também é generosamente financiado pela NED. Apenas em 2021, a dotação concedeu 180.000 dólares ao meio de jornalismo de investigação. Também recebe apoio copioso da Fundação Open Society, embora insista que nenhum deste dinheiro dos EUA vem com condições anexas ou afeta a sua produção.
Enquanto os meios ocidentais frequentemente retratam o panorama mediático cubano como uma luta de Davi contra Golias entre bravos meios independentes que enfrentam repressão e um aparelho de propaganda patrocinado pelo estado e expansivo, as somas gigantescas entregues a estes “indefesos” tornam-nos, de longe, nos meios melhor financiados da ilha. Um artigo do The Guardian de 2023, por exemplo, perfilou o fotojornalista de 24 anos Pedro Sosa, que trabalhava tanto para o El Toque quanto para o El Estornudo. Apresentou a dupla como “oferecendo reportagens reais frente aos meios estatais obsoletos” e aos jornalistas como pobres narradores da verdade vulneráveis que se levantam pela “liberdade” e enfrentam uma “repressão” por parte do estado.
Mas também deixou escapar que trabalhar para meios apoiados pelos EUA não é um movimento de carreira tão ruim quanto se retrata, e é, de fato, uma profissão extremamente lucrativa. Menciona casualmente que os salários no diminuto El Toque são dez vezes maiores que os dos jornalistas mais antigos que trabalham nos meios estatais cubanos. Na realidade, então, estes guerreiros da liberdade de expressão oprimidos são, na verdade, alguns dos indivíduos mais ricos de toda a ilha, graças ao poder do dólar estadunidense, que lhes paga generosamente por produzir um fluxo constante de notícias anti-governamentais.
No final, os meios apoiados pelos EUA não precisaram se preocupar, e o financiamento da NED e USAID foi retomado após certa reestruturação.
Empregos para os rapazes
Tudo isso, no entanto, empalidece em comparação com os recursos que os EUA dedicaram à Rádio e TV Martí. Fundada em 1985 pela administração de Ronald Reagan, a rede sediada em Miami conta com dezenas de funcionários em tempo integral e recebe dezenas de milhões de dólares de Washington anualmente.
Ao contrário do resto da indústria jornalística, os trabalhadores da Rádio e TV Martí desfrutam de uma forte segurança no emprego e salários de seis dígitos, apesar de o governo cubano ser capaz de interferir e bloquear muitas das suas transmissões para que não cheguem a Cuba, o que significa que muito pouca gente consome o seu conteúdo.
Desde a sua criação, Washington gastou pelo menos 800 milhões de dólares na Rádio e TV Martí.
Os meios mencionados constituem apenas uma pequena parte da rede de meios anti-governamentais que estão sendo financiados pelos Estados Unidos. A maioria dos receptores do dinheiro estadunidense permanece anônima, uma decisão tomada em parte para ocultar as suas identidades e preservar a sua credibilidade dentro de Cuba.
A Fundação Nacional para a Democracia considera Cuba uma “prioridade de longa data” e atualmente está financiando oficialmente 32 projetos separados na ilha.
As subvenções relacionadas com os meios incluem um projeto de 80.000 dólares intitulado “Fortalecendo o acesso à informação”, que promete: “Elevar o acesso à informação e promover o pensamento crítico, a organização produzirá reportagens e análises diárias em vários formatos, fornecendo perspectivas independentes sobre temas que afetam a vida diária dos cidadãos, incluindo a liberdade de expressão, a segurança pública, os direitos humanos e outras preocupações sociais urgentes”.
Outra subvenção de 115.000 dólares, intitulada “Expandindo o acesso aos meios sem censura”, observa que: “Promoverá a informação independente, a organização fornecerá jornalismo narrativo sobre temas censurados, realizará investigações e produzirá artigos aprofundados, ensaios fotográficos e peças de opinião, fortalecendo ao mesmo tempo a capacidade operativa dos meios”.
Trinta e um dos trinta e dois projetos ocultam o nome e identificação do receptor, o que significa que esses grupos que trabalham com a organização de fachada da CIA geralmente só se identificam se anunciam este relacionamento, ou, como quando o dinheiro dos EUA parou temporariamente em 2025, pedem ajuda.
Os meios anti-governamentais são apenas uma pequena parte da enorme variedade de grupos que Washington financia e apoia secretamente. Desde músicos e académicos, até a sociedade civil, grupos educativos e religiosos, think tanks, organizações de caridade e ONGs, existe um vasto nexo de organizações que recebem enormes somas de dinheiro do governo dos EUA.
Dois destes corpos incluem o Observatório Cubano de Direitos Humanos (OCDH) e o grupo de advogados, Cubalex.
Ambos os grupos produzem relatórios denunciando o governo cubano e são citados regularmente como autoridades imparciais sobre os direitos humanos na ilha em meios ocidentais, como o The New York Times, CNN e The Washington Post. Mas o que não é dito aos leitores é que ambas as organizações são financiadas pelo estado de segurança nacional dos EUA.
Os registos mostram que a USAID deu quase 1,5 milhão de dólares ao OCDH. O apoio da NED, entretanto, foi crucial para o início da Cubalex em 2010, e Washington continua a pagar os salários do seu pessoal até hoje. Como disse no ano passado a diretora executiva da empresa, Laritza Diversent: “Sem o apoio da Fundação Nacional para a Democracia, a Cubalex não teria existido; para fazer o trabalho que fazemos são necessários recursos. Durante 14 anos, a NED tem-nos apoiado. Em outubro passado, após tentar muitas vezes, também conseguimos uma subvenção do Departamento de Estado”.
Assim, mal existe um canto da oposição cubana anti-governamental que não tenha sido alcançado pelo dinheiro estadunidense, seja através de organizações governamentais como a NED ou USAID, ou através de instituições como a Fundação Ford e a Fundação Open Societies, que historicamente desempenharam um papel semelhante na promoção dos interesses estadunidenses no estrangeiro.
Muitos destes grupos têm a sua sede no sul da Flórida, onde o dinheiro do governo dos EUA ajuda a subsidiar milhares de empregos para a comunidade cubano-americana. Portanto, não é um exagero dizer que uma parte significativa da economia de Miami é sustentada por dinheiro dos contribuintes que financia as forças contrarrevolucionárias. Ironicamente, considerando que os cubanos conservadores frequentemente se opõem veementemente aos programas de bem-estar governamental tanto nos EUA quanto em Cuba.
Bombardeio digital
Em 2010, uma nova aplicação de redes sociais e mensagens, Zunzuneo, arrasou em Cuba. Do nada, tornou-se viral, atraindo dezenas de milhares de utilizadores, um número muito grande para a época numa ilha com tão pouca internet.
Nenhum dos seus utilizadores, no entanto, estava ciente de que a plataforma tinha sido criada secretamente pela USAID para promover a mudança de regime. O seu plano era primeiro fornecer um excelente serviço que capturasse o mercado, depois lentamente administrar aos cubanos mensagens anti-governamentais e finalmente dirigi-los a juntar-se a “multidões inteligentes”, com o objetivo de desencadear uma revolução colorida.
Num esforço para ocultar a sua propriedade do projeto, o governo dos EUA realizou uma reunião secreta com o fundador do Twitter, Jack Dorsey, com o objetivo de que ele investisse no projeto. Não é claro em que medida, se alguma, Jack Dorsey ajudou, já que ele recusou-se a falar sobre o assunto.
O Zunzuneo fechou-se abruptamente em 2012, talvez porque o Escritório de Transmissões para Cuba (que supervisiona a TV e Rádio Martí) já tivesse criado um novo programa chamado Piramideo.
O Piramideo era comercializado como uma aplicação que permitia aos cubanos receber notícias do mundo de graça e sem censura. Quase de imediato, no entanto, os locais relataram ser bombardeados com notícias falsas sobre protestos anti-governamentais que nunca aconteceram. O Piramideo fechou em 2015, depois de reportagens sobre a interferência do governo dos EUA em Cuba causarem um escândalo e uma vergonha diplomática.
Hoje, no entanto, com os cubanos a utilizar cada vez mais aplicações de redes sociais estadunidenses, este tipo de subterfúgio é em grande parte desnecessário, já que pode ser feito abertamente. Durante os protestos de San Isidro em 2021, aplicações como Instagram e Twitter participaram abertamente na tentativa de derrubar o governo, sem tomar nenhuma medida contra um aumento massivo de contas de bots claramente falsas que repetiam exatamente as mesmas mensagens (erros de digitação incluídos) e usando a mesma hashtag artificial.
A equipe editorial do Twitter até colocou os protestos, que mal reuniam uns poucos milhares de pessoas nas ruas a nível nacional, no topo da sua secção “O que está a acontecer” durante mais de 24 horas, o que significava que cada utilizador em todo o mundo seria notificado. A falhada tentativa de golpe de Estado chegou a ser conhecida como a “Baía dos Twitts”.
Guerra interminável contra Cuba
Em outubro, pelo trigésimo terceiro ano consecutivo, as Nações Unidas votaram esmagadoramente (165 a 7) para pedir o fim do bloqueio estadunidense contra Cuba. Esta guerra econômica foi estabelecida pela administração Eisenhower, em resposta à Revolução Cubana de 1959, que derrubou o ditador apoiado pelos EUA, Fulgencio Batista.
Estas medidas coercitivas unilaterais ilegais, que um memorando interno do governo dos EUA dizem estar desenhadas para “diminuir os salários monetários e reais, para provocar fome, desesperação e o derrube do governo”, custam a Cuba bilhões a cada ano e impedem severamente o seu desenvolvimento.
Os EUA tentaram invadir Cuba em 1961 e levaram o mundo à beira do aniquilamento durante a subsequente crise dos mísseis cubana. Relata-se que tentaram matar o seu líder Fidel Castro centenas de vezes e levaram a cabo ondas de ataques terroristas contra o país, incluindo o uso de armas biológicas na ilha.
Administrações sucessivas continuaram a guerra econômica contra Cuba, que se intensificou após a queda da União Soviética. Mas o Departamento de Estado de Donald Trump, liderado pelo cubano-americano Marco Rubio, levou-a a um novo nível, declarando a ilha como uma das suas principais prioridades.
O próprio Donald Trump declarou que Cuba é a “próxima” na lista de países alvo para a mudança de regime. “Poderíamos passar por Cuba quando terminarmos” com o Irã, disse no mês passado.
Em resposta, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel disse que o seu país estava pronto para repelir qualquer invasão dos EUA, como fez durante a Baía dos Porcos: “O momento é extremamente desafiante e convoca-nos uma vez mais, como em 16 de abril de 1961, a estarmos prontos para confrontar sérias ameaças, incluindo a agressão militar. Não a queremos, mas é nosso dever preparar-nos para evitá-la e, se se tornar inevitável, derrotá-la”.
É neste contexto que deve ser visto o financiamento do governo dos EUA a uma vasta série de meios de comunicação que têm como alvo Cuba; o ataque midiático é apenas uma faceta da abordagem multipronta de Washington para a mudança de regime.
Muitas das organizações mencionadas aqui publicam em inglês, e quase todas são utilizadas como fontes de informação supostamente credíveis sobre Cuba para os meios corporativos ocidentais, o que significa que as narrativas do Departamento de Estado dos EUA são introduzidas na consciência pública através desta rede.
Muitos cubanos e estadunidenses são completamente inconscientes de que as suas notícias sobre a ilha provêm em grande parte por meio meios obscuros financiados silenciosamente pelo estado de segurança nacional dos EUA através da NED e USAID. O seu propósito é manter o fluxo de histórias negativas para amolecer o público e fazê-lo aceitar a mudança de regime na ilha. Afinal, na guerra, a verdade é sempre a primeira vítima.
*Alan Macleod é jornalista do portal do MintPress News. Autor, entre outros livros, de Misreporting and propaganda in the information age: still manufacturing consent (Routledge).
Tradução: David Fonseca.
Publicado originalmente no portal MintPress News.
Em meio à escalada de agressão dos EUA em direção à ilha cubana por meio de uma campanha de máxima pressão e da ameaça de intervenção militar, o governo dos Estados Unidos tem financiado encobertamente uma enorme rede de meios de comunicação cubanos que afirmam ser independentes, em um ímpeto de mudança de regime.
Estes meios se apresentam como jornalismo de investigação imparcial, mas estão sendo financiados silenciosamente por Washington através da USAID, da Fundação Nacional para a Democracia (NED, na sigla em inglês) e da Fundação Open Society, com o objetivo de semear o descontentamento em toda a nação caribenha, amolecendo-a para uma potencial invasão “iminente” por parte da administração de Donald Trump.
Cuba enfrenta alguns dos piores apagões energéticos de sua história, graças ao bloqueio dos EUA, que tenta sufocar a ilha até a submissão. Como estado comunista que desafia as ordens dos EUA, Cuba está, desde 1959, na mira de Washington, que tenta derrubar o governo. A MintPress lança luz sobre este obscuro nexo de mudança de regime.
Jornalismo independente, cortesia do Departamento de Estado
CubaNet é um dos meios de notícias mais influentes e estabelecidos que cobrem os assuntos da ilha caribenha. Fundado por ativistas anti-governamentais em 1994, o site tornou-se a fonte de informação predileta para os meios corporativos, que o citam regularmente e o apresentam como um meio independente, objetivo e imparcial (por exemplo, The Washington Post, The Wall Street Journal, Fox News e The Los Angeles Times). Os repórteres da CubaNet escreveram artigos de opinião em importantes jornais estadunidenses como o USA Today, pedindo uma mudança imediata de governo na ilha.
CubaNet não é tão independente quanto parece, pois é financiado pelo estado de segurança nacional dos EUA. Recebeu milhões de dólares em financiamento da USAID e da Fundação Nacional para a Democracia, bem como da Fundação Open Society.
Uma subvenção da USAID atualmente ativa de 500.000 dólares, por exemplo, foi concedida à CubaNet para “comprometer os jovens cubanos na ilha através do jornalismo multimídia objetivo e sem censura”. Embora ostensivamente seja uma meta louvável, até mesmo a descrição de uma única frase da subvenção insinua que seu propósito é minar e atacar o governo cubano. Ela declara que (itálico adicionado) “aumentará o fluxo livre de informações de e para Cuba para contrariar as campanhas de desinformação do regime”.
Outra organização de notícias que recebe enormes somas de dinheiro de Washington é a ADN Cuba. Significando literalmente “ADN de Cuba“, o meio acumulou um seguimento significativo online, ostentando mais de 100.000 inscritos no YouTube, mais de 200.000 no Instagram e mais de 1,3 milhões no Facebook. Descreve-se a si mesmo como “um meio independente comprometido com a liberdade e a democracia em Cuba”. No entanto, na realidade, tem sua sede na Espanha. E não parece particularmente comprometido com a transparência sobre seu financiamento.
A ADN Cuba recebeu milhões de dólares do estado de segurança nacional dos EUA. Em setembro de 2024, a USAID aprovou uma subvenção de 1,1 milhão de dólares para a ADN Cuba, uma quantidade gigantesca de dinheiro para uma organização que mal publica uma história por dia em seu site. Isso somou-se a uma alocação de 1,5 milhão de dólares para o período 2022-2024. De fato, desde 2020, a ADN Cuba recebeu mais de três milhões de dólares apenas da USAID. Este relacionamento não é revelado aos leitores, mesmo em histórias que cobrem diretamente o financiamento da USAID aos meios cubanos, e é relegado às notas de rodapé em bancos de dados de financiamento do governo dos EUA.
Diario de Cuba é outro meio de notícias sediado na Espanha que publica uma grande variedade de histórias, todas com uma coisa em comum: uma profunda aversão ao governo cubano. A BBC o descreve, bem como à CubaNet, como fontes chave de notícias imparciais, dirigidas por jornalistas que “reportam sem censura e para pintar um quadro mais amplo sobre a realidade do país”.
E, tal como a CubaNet, o Diario de Cuba recebeu financiamento de sete dígitos de Washington. Entre 2016 e 2020, o Diario de Cuba recebeu 1,3 milhão de dólares em espécie da USAID, quase tanto quanto a CubaNet no mesmo período. Este financiamento generoso permitiu-lhe alcançar uma audiência global, com mais de 600.000 seguidores apenas no Facebook.
Redes de mudança de regime
A Agência Central de Inteligência (CIA) costumava patrocinar direta (e secretamente) centenas de meios de comunicação em todo o mundo. No entanto, após uma série de escândalos e mais informações sobre suas atividades nefastas chegarem ao conhecimento do público, Washington decidiu terceirizar muitas de suas operações exteriores mais polêmicas para organizações como a Fundação Nacional para a Democracia e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID).
“Seria terrível se os grupos democráticos em todo o mundo fossem vistos como subsidiados pela CIA”, disse Carl Gershman, o então presidente da NED, explicando a decisão de 1983 de criar sua organização. O cofundador da NED, Allen Weinstein, concordou: “Muito do que fazemos hoje era feito clandestinamente há 25 anos pela CIA”, disse ao The Washington Post.
Sob a aparência de promoção da democracia e dos direitos humanos, o governo dos EUA canaliza dinheiro para grupos políticos e sociais em todo o mundo para maximizar seus objetivos estratégicos, incluindo a mudança de regime.
Em anos recentes, os EUA utilizaram as organizações gémeas da NED e USAID para financiar protestos anti-governamentais em Hong Kong, para tentar uma revolução colorida na Bielorrússia, para derrubar o governo da Ucrânia em 2014 e para organizar distúrbios em todo o Irã no início deste ano.
Em Cuba, a NED e a USAID desempenharam um papel crítico na organização de um levante (fracassado) contra o governo em 2021. A USAID em particular gastou milhões de dólares financiando, organizando e promovendo o Movimento San Isidro, uma coletiva de músicos, artistas e jornalistas, para liderar uma contrarrevolução na ilha.
Os membros do San Isidro estiveram à frente de uma onda de protestos nacionais em julho. As manifestações foram imediatamente promovidas pelos meios corporativos ocidentais, celebridades de alto nível e políticos dos EUA, incluindo o presidente Joe Biden. Os internautas foram bombardeados com a campanha artificial “SOS Cuba”, que foi tendência na internet por dias.
No final, no entanto, os esforços coordenados dos EUA falharam em convencer os cubanos comuns a saírem às ruas, e o movimento desvaneceu-se rapidamente.
Esteban Rodríguez, um membro chave do movimento San Isidro, é produtor na ADN Cuba.
Quando o dinheiro dos EUA pausa, os meios “independentes” colapsam imediatamente
A importância do dinheiro do governo dos EUA para a sobrevivência e operações destes meios foi sublinhada no início do ano passado, quando a administração Trump escolheu congelar o financiamento à USAID e à NED. Ao anunciar a decisão, Elon Musk, então responsável pelo Departamento de Eficiência Governamental, descreveu a USAID em particular como um “ninho de víboras de marxistas de esquerda radical que odeiam a América”.
O efeito nos meios cubanos foi imediato. Assim que o dinheiro parou de fluir, dezenas de organizações enfrentaram a liquidação imediata. CubaNet publicou um editorial de emergência pedindo aos leitores que cobrissem o déficit. “Enfrentamos um desafio inesperado: a suspensão de financiamento chave que sustentava parte do nosso trabalho”, escreveram; “Se valorizam o nosso trabalho e acreditam em manter a verdade viva, pedimos o seu apoio”. “Sem os fundos [da USAID], será extremamente difícil continuar”, acrescentou o diretor da CubaNet, Roberto Hechavarría Pilia.
O Diario de Cuba estava em situação igualmente desesperada. Seu diretor, Pablo Díaz Espí, observou que “a ajuda ao jornalismo independente por parte do governo dos Estados Unidos foi suspensa, o que dificulta o nosso trabalho”, pedindo aos leitores que doassem.
A decisão de Elon Musk revelou acidentalmente uma vasta rede de mais de 6.200 repórteres e quase 1.000 meios em todo o mundo que estavam sendo capacitados, apoiados e financiados silenciosamente pela frente da CIA, tudo sob o estandarte de promover os meios “independentes” e a liberdade de informação.
Outro meio cubano supostamente independente que caiu em crise foi o El Toque. Fundado em 2014 e recebendo centenas de milhares de dólares da NED, o El Toque publica em espanhol e inglês e tenta manipular as taxas de câmbio em Cuba.
O corte de financiamento atingiu-os duramente, com editores anunciando que teriam que despedir imediatamente metade da sua equipe (15 pessoas) e parar de trabalhar com dezenas de freelancers, enquanto procuravam fontes de financiamento alternativas.
O El Estornudo também é generosamente financiado pela NED. Apenas em 2021, a dotação concedeu 180.000 dólares ao meio de jornalismo de investigação. Também recebe apoio copioso da Fundação Open Society, embora insista que nenhum deste dinheiro dos EUA vem com condições anexas ou afeta a sua produção.
Enquanto os meios ocidentais frequentemente retratam o panorama mediático cubano como uma luta de Davi contra Golias entre bravos meios independentes que enfrentam repressão e um aparelho de propaganda patrocinado pelo estado e expansivo, as somas gigantescas entregues a estes “indefesos” tornam-nos, de longe, nos meios melhor financiados da ilha. Um artigo do The Guardian de 2023, por exemplo, perfilou o fotojornalista de 24 anos Pedro Sosa, que trabalhava tanto para o El Toque quanto para o El Estornudo. Apresentou a dupla como “oferecendo reportagens reais frente aos meios estatais obsoletos” e aos jornalistas como pobres narradores da verdade vulneráveis que se levantam pela “liberdade” e enfrentam uma “repressão” por parte do estado.
Mas também deixou escapar que trabalhar para meios apoiados pelos EUA não é um movimento de carreira tão ruim quanto se retrata, e é, de fato, uma profissão extremamente lucrativa. Menciona casualmente que os salários no diminuto El Toque são dez vezes maiores que os dos jornalistas mais antigos que trabalham nos meios estatais cubanos. Na realidade, então, estes guerreiros da liberdade de expressão oprimidos são, na verdade, alguns dos indivíduos mais ricos de toda a ilha, graças ao poder do dólar estadunidense, que lhes paga generosamente por produzir um fluxo constante de notícias anti-governamentais.
No final, os meios apoiados pelos EUA não precisaram se preocupar, e o financiamento da NED e USAID foi retomado após certa reestruturação.
Empregos para os rapazes
Tudo isso, no entanto, empalidece em comparação com os recursos que os EUA dedicaram à Rádio e TV Martí. Fundada em 1985 pela administração de Ronald Reagan, a rede sediada em Miami conta com dezenas de funcionários em tempo integral e recebe dezenas de milhões de dólares de Washington anualmente.
Ao contrário do resto da indústria jornalística, os trabalhadores da Rádio e TV Martí desfrutam de uma forte segurança no emprego e salários de seis dígitos, apesar de o governo cubano ser capaz de interferir e bloquear muitas das suas transmissões para que não cheguem a Cuba, o que significa que muito pouca gente consome o seu conteúdo.
Desde a sua criação, Washington gastou pelo menos 800 milhões de dólares na Rádio e TV Martí.
Os meios mencionados constituem apenas uma pequena parte da rede de meios anti-governamentais que estão sendo financiados pelos Estados Unidos. A maioria dos receptores do dinheiro estadunidense permanece anônima, uma decisão tomada em parte para ocultar as suas identidades e preservar a sua credibilidade dentro de Cuba.
A Fundação Nacional para a Democracia considera Cuba uma “prioridade de longa data” e atualmente está financiando oficialmente 32 projetos separados na ilha.
As subvenções relacionadas com os meios incluem um projeto de 80.000 dólares intitulado “Fortalecendo o acesso à informação”, que promete: “Elevar o acesso à informação e promover o pensamento crítico, a organização produzirá reportagens e análises diárias em vários formatos, fornecendo perspectivas independentes sobre temas que afetam a vida diária dos cidadãos, incluindo a liberdade de expressão, a segurança pública, os direitos humanos e outras preocupações sociais urgentes”.
Outra subvenção de 115.000 dólares, intitulada “Expandindo o acesso aos meios sem censura”, observa que: “Promoverá a informação independente, a organização fornecerá jornalismo narrativo sobre temas censurados, realizará investigações e produzirá artigos aprofundados, ensaios fotográficos e peças de opinião, fortalecendo ao mesmo tempo a capacidade operativa dos meios”.
Trinta e um dos trinta e dois projetos ocultam o nome e identificação do receptor, o que significa que esses grupos que trabalham com a organização de fachada da CIA geralmente só se identificam se anunciam este relacionamento, ou, como quando o dinheiro dos EUA parou temporariamente em 2025, pedem ajuda.
Os meios anti-governamentais são apenas uma pequena parte da enorme variedade de grupos que Washington financia e apoia secretamente. Desde músicos e académicos, até a sociedade civil, grupos educativos e religiosos, think tanks, organizações de caridade e ONGs, existe um vasto nexo de organizações que recebem enormes somas de dinheiro do governo dos EUA.
Dois destes corpos incluem o Observatório Cubano de Direitos Humanos (OCDH) e o grupo de advogados, Cubalex.
Ambos os grupos produzem relatórios denunciando o governo cubano e são citados regularmente como autoridades imparciais sobre os direitos humanos na ilha em meios ocidentais, como o The New York Times, CNN e The Washington Post. Mas o que não é dito aos leitores é que ambas as organizações são financiadas pelo estado de segurança nacional dos EUA.
Os registos mostram que a USAID deu quase 1,5 milhão de dólares ao OCDH. O apoio da NED, entretanto, foi crucial para o início da Cubalex em 2010, e Washington continua a pagar os salários do seu pessoal até hoje. Como disse no ano passado a diretora executiva da empresa, Laritza Diversent: “Sem o apoio da Fundação Nacional para a Democracia, a Cubalex não teria existido; para fazer o trabalho que fazemos são necessários recursos. Durante 14 anos, a NED tem-nos apoiado. Em outubro passado, após tentar muitas vezes, também conseguimos uma subvenção do Departamento de Estado”.
Assim, mal existe um canto da oposição cubana anti-governamental que não tenha sido alcançado pelo dinheiro estadunidense, seja através de organizações governamentais como a NED ou USAID, ou através de instituições como a Fundação Ford e a Fundação Open Societies, que historicamente desempenharam um papel semelhante na promoção dos interesses estadunidenses no estrangeiro.
Muitos destes grupos têm a sua sede no sul da Flórida, onde o dinheiro do governo dos EUA ajuda a subsidiar milhares de empregos para a comunidade cubano-americana. Portanto, não é um exagero dizer que uma parte significativa da economia de Miami é sustentada por dinheiro dos contribuintes que financia as forças contrarrevolucionárias. Ironicamente, considerando que os cubanos conservadores frequentemente se opõem veementemente aos programas de bem-estar governamental tanto nos EUA quanto em Cuba.
Bombardeio digital
Em 2010, uma nova aplicação de redes sociais e mensagens, Zunzuneo, arrasou em Cuba. Do nada, tornou-se viral, atraindo dezenas de milhares de utilizadores, um número muito grande para a época numa ilha com tão pouca internet.
Nenhum dos seus utilizadores, no entanto, estava ciente de que a plataforma tinha sido criada secretamente pela USAID para promover a mudança de regime. O seu plano era primeiro fornecer um excelente serviço que capturasse o mercado, depois lentamente administrar aos cubanos mensagens anti-governamentais e finalmente dirigi-los a juntar-se a “multidões inteligentes”, com o objetivo de desencadear uma revolução colorida.
Num esforço para ocultar a sua propriedade do projeto, o governo dos EUA realizou uma reunião secreta com o fundador do Twitter, Jack Dorsey, com o objetivo de que ele investisse no projeto. Não é claro em que medida, se alguma, Jack Dorsey ajudou, já que ele recusou-se a falar sobre o assunto.
O Zunzuneo fechou-se abruptamente em 2012, talvez porque o Escritório de Transmissões para Cuba (que supervisiona a TV e Rádio Martí) já tivesse criado um novo programa chamado Piramideo.
O Piramideo era comercializado como uma aplicação que permitia aos cubanos receber notícias do mundo de graça e sem censura. Quase de imediato, no entanto, os locais relataram ser bombardeados com notícias falsas sobre protestos anti-governamentais que nunca aconteceram. O Piramideo fechou em 2015, depois de reportagens sobre a interferência do governo dos EUA em Cuba causarem um escândalo e uma vergonha diplomática.
Hoje, no entanto, com os cubanos a utilizar cada vez mais aplicações de redes sociais estadunidenses, este tipo de subterfúgio é em grande parte desnecessário, já que pode ser feito abertamente. Durante os protestos de San Isidro em 2021, aplicações como Instagram e Twitter participaram abertamente na tentativa de derrubar o governo, sem tomar nenhuma medida contra um aumento massivo de contas de bots claramente falsas que repetiam exatamente as mesmas mensagens (erros de digitação incluídos) e usando a mesma hashtag artificial.
A equipe editorial do Twitter até colocou os protestos, que mal reuniam uns poucos milhares de pessoas nas ruas a nível nacional, no topo da sua secção “O que está a acontecer” durante mais de 24 horas, o que significava que cada utilizador em todo o mundo seria notificado. A falhada tentativa de golpe de Estado chegou a ser conhecida como a “Baía dos Twitts”.
Guerra interminável contra Cuba
Em outubro, pelo trigésimo terceiro ano consecutivo, as Nações Unidas votaram esmagadoramente (165 a 7) para pedir o fim do bloqueio estadunidense contra Cuba. Esta guerra econômica foi estabelecida pela administração Eisenhower, em resposta à Revolução Cubana de 1959, que derrubou o ditador apoiado pelos EUA, Fulgencio Batista.
Estas medidas coercitivas unilaterais ilegais, que um memorando interno do governo dos EUA dizem estar desenhadas para “diminuir os salários monetários e reais, para provocar fome, desesperação e o derrube do governo”, custam a Cuba bilhões a cada ano e impedem severamente o seu desenvolvimento.
Os EUA tentaram invadir Cuba em 1961 e levaram o mundo à beira do aniquilamento durante a subsequente crise dos mísseis cubana. Relata-se que tentaram matar o seu líder Fidel Castro centenas de vezes e levaram a cabo ondas de ataques terroristas contra o país, incluindo o uso de armas biológicas na ilha.
Administrações sucessivas continuaram a guerra econômica contra Cuba, que se intensificou após a queda da União Soviética. Mas o Departamento de Estado de Donald Trump, liderado pelo cubano-americano Marco Rubio, levou-a a um novo nível, declarando a ilha como uma das suas principais prioridades.
O próprio Donald Trump declarou que Cuba é a “próxima” na lista de países alvo para a mudança de regime. “Poderíamos passar por Cuba quando terminarmos” com o Irã, disse no mês passado.
Em resposta, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel disse que o seu país estava pronto para repelir qualquer invasão dos EUA, como fez durante a Baía dos Porcos: “O momento é extremamente desafiante e convoca-nos uma vez mais, como em 16 de abril de 1961, a estarmos prontos para confrontar sérias ameaças, incluindo a agressão militar. Não a queremos, mas é nosso dever preparar-nos para evitá-la e, se se tornar inevitável, derrotá-la”.
É neste contexto que deve ser visto o financiamento do governo dos EUA a uma vasta série de meios de comunicação que têm como alvo Cuba; o ataque midiático é apenas uma faceta da abordagem multipronta de Washington para a mudança de regime.
Muitas das organizações mencionadas aqui publicam em inglês, e quase todas são utilizadas como fontes de informação supostamente credíveis sobre Cuba para os meios corporativos ocidentais, o que significa que as narrativas do Departamento de Estado dos EUA são introduzidas na consciência pública através desta rede.
Muitos cubanos e estadunidenses são completamente inconscientes de que as suas notícias sobre a ilha provêm em grande parte por meio meios obscuros financiados silenciosamente pelo estado de segurança nacional dos EUA através da NED e USAID. O seu propósito é manter o fluxo de histórias negativas para amolecer o público e fazê-lo aceitar a mudança de regime na ilha. Afinal, na guerra, a verdade é sempre a primeira vítima.
*Alan Macleod é jornalista do portal do MintPress News. Autor, entre outros livros, de Misreporting and propaganda in the information age: still manufacturing consent (Routledge).
Tradução: David Fonseca.
Publicado originalmente no portal MintPress News.

Nenhum comentário:
Postar um comentário