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Fim da 6×1: visibilidade LGBT+ e luta de classes

Vitória na Câmara deveria desfazer concepções conservadoras, inclusive na esquerda. Erika Hilton e Rick Azevedo – uma travesti e uma bicha preta – protagonizaram pauta histórica. Agora questionam: é justo que sejam acusados de “identitarismo”?


Do De Outras Palavras, 8 de junho 2026
Por Edson Mendes Nunes Junior e Luan Cardoso Ferreira



Foto: Reprodução/Ministério do Trabalho e do Emprego

Na madrugada do dia 27 de maio de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou a PEC 221/2019: fim da escala 6×1, garantia de dois dias de descanso semanal e redução gradual da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem corte de salário, com transição prevista em etapas ao longo dos primeiros quatorze meses após promulgação. Depois de anos de acusações de uma esquerda tomada por pautas “identitárias” e afastada do mundo do trabalho, uma demanda classista e histórica voltou ao centro da agenda política nacional. E chegou lá de um jeito que vale a pena entender.

No contexto recente, a pauta do fim da escala 6×1 remete a uma figura principal: Ricardo/Rick Azevedo. Há mais de 10 anos balconista e caixa de farmácia, em 13 setembro de 2023 ele se indignou contra um pedido de sua chefe para começar o expediente mais cedo, o que o levou a gravar um vídeo no Tiktok expressando cansaço e revolta contra a “escravidão moderna” da escala 6×1. A identificação orgânica tornou o vídeo viral, motivando Rick, ainda em setembro, a criar a petição pública online “Por um Brasil que Vai Além do Trabalho” solicitando revisão formal da CLT – que chegou a mais de 1,5 milhão de assinaturas em 2024 e hoje alcança 3 milhões. Paralelamente, percebendo não se tratar de uma injustiça individual, ele articulou através das redes sociais o chamado movimento “Vida Além do Trabalho” (VAT), focado em ativismo digital, cobrança de deputados e divulgação de panfletos.

A aproximação com o PSOL é definida em 2024 quando, diante do significativo e espontâneo sucesso da iniciativa, Rick foi convidado para disputar o cargo de vereador, elegendo-se com a maior votação do partido (apesar de ter sido o candidato que recebeu menos recursos). O PSOL teve um papel central na mediação institucional da proposta, acolhendo-a na forma da PEC 8/2025 de autoria da deputada federal Erika Hilton, apoiada por outros deputados, que trabalhou junto do VAT e do partido em campanha pela sua projeção pública, com forte presença nas redes sociais.

Ainda que sua origem específica não remeta a uma força coletiva capilarizada (desde um “movimento” com ligação social limitada), a proposta foi progressivamente sendo acolhida por diferentes setores e organizações, popularizando-se como agenda de destaque na esquerda. Outro elemento que chama atenção nesse processo é se tratar de uma iniciativa de caráter nitidamente classista, referente à demanda histórica por redução da jornada de trabalho, cujo impulsionamento foi mediado por uma deputada representante de diferentes demandas setoriais (como raça, gênero e sexualidade), explicitando o potencial da não-oposição entre iniciativas de redistribuição e reconhecimento.

Assim, Rick, Erika, VAT e PSOL impulsionaram a introdução de um elemento novo e destacado na agenda popular, que logo se mostraria de interesse para o governo Lula. E apesar do complexo percurso de adesão – envolvendo demoras no apoio, conciliação entre bases trabalhadoras e setores mercadológicos, articulação parlamentar e ajustes na proposta original (prazo de transição mais lento, regimes especiais para atividades essenciais como saúde, segurança e transporte) –, o petismo acaba defendendo-a também como pauta oficial.

A proposta foi anexada junto à PEC 221/2019 (um projeto de redução da jornada de trabalho já previamente apresentada pelo deputado petista Reginaldo Lopes) e aprovada em dois turnos pela Câmara dos Deputados no dia 27 de maio de 2026. O resultado da segunda votação (461 favoráveis, 19 contrários) explicita a força adquirida pela pauta e pela articulação governista, bem como o temor da oposição em negá-la no contexto de fragmentação da direita sob um ano eleitoral.

Após a aprovação, Erika Hilton (em live nas suas redes sociais) celebrou: “É uma noite de vitória da classe trabalhadora, mas uma vitória que foi protagonizada por uma travesti preta e por uma bicha preta”. Esse ponto é também relevante pois, como sugeriu a deputada: “nossas dores e as desigualdades que atingem o nosso corpo fazem com que a gente tenha capacidade de pensar fora da caixa, de pensar na dor do outro”. Ou seja, enfrentando concepções conservadoras inclusive da esquerda, Erika se refere a como a posição particular de subalternidade não limita a capacidade de enfrentamento a condições universais de exploração, mas, pelo contrário, na prática pode operar como seu próprio motor. Ecoa, assim, fundamentos da dialética hegeliana que viriam a ser recuperados por Marx ao teorizar a posição proletária dentro da luta de classes – onde particular e universal não são opostos, mas complementos necessários.

Toda a cena tem um subtexto teórico que vale nomear. Há décadas, Nancy Fraser alertava que o avanço de políticas de reconhecimento e valorização da identidade havia deslocado a redistribuição do centro da agenda progressista, produzindo uma esquerda mais preocupada com o quem do que com o quanto. Judith Butler, entre outras, rebateu: a separação é artificial, pois as lutas por reconhecimento têm sempre uma dimensão material, e tratá-las como “apenas culturais” ou não-econômicas é reproduzir a hierarquia que se quer combater. Estas visões rendem, até hoje, frutos sobre as possibilidades e limitações das políticas mobilizadas pela esquerda a nível global.

O que aconteceu na Câmara na noite do dia 27 oferece um argumento concreto para esse debate – e ele está nas figuras de Erika e Rick. Uma “travesti preta” e uma “bicha negra”, setores constitutivos das comunidades LGBT e negra, foram os impulsionadores de uma demanda classista histórica – afinal, não deixam de ser também da classe trabalhadora contemporânea (dimensão que um balconista de farmácia exemplifica muito bem). Nenhum dos dois abandonou sua perspectiva particular: foi precisamente ela que os habilitou a enxergar e nomear uma injustiça mais ampla. Iris Young diria que é disso que se trata uma perspectiva social situada. Isto é, não um ponto de vista parcial que limita, mas um que expande a percepção das estruturas de dominação. Erika e Rick não se apagaram para falar de classe. Falaram de classe porque não se apagaram.

Há, no entanto, indefinições pendentes em torno da PEC. A aprovação definitiva depende ainda do Senado, onde são necessários 49 votos. O presidente Davi Alcolumbre já sinalizou não-obstrução à pauta (até o momento), mas o texto segue sem cronograma e com possibilidade de alteração ou segmentação. As pressões empresariais também seguem insistentes, e seu sucesso dependerá da força costurada pela articulação governista – que parece determinada diante do timing eleitoral.

A aprovação representaria uma conquista histórica, ainda que a PEC atual tenha limitações. Invariavelmente, o processo como um todo já demonstra relevância sociopolítica pelo seu caráter contemporâneo (conectando redistribuição, reconhecimento, ativismo digital e novas figuras políticas) e renovador para o campo da esquerda, reintroduzindo uma demanda histórica de maneira atualizada no centro da agenda política nacional.


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