Por JOÃO CARLOS SALLES*
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Se a universidade é nossa morada, o filósofo que não milita em sua defesa ajuda a desfazer o único pacto que ainda abriga a argumentação razoável
“Como apareceria ela [a duração] para uma consciência que quisesse apenas vê-la, sem medi-la, que a apreenderia então sem detê-la, que por fim se tomaria a si mesma como objeto e que, espectadora e atriz, espontânea e refletida, reaproximasse, até fazer com que coincidam, a atenção que se fixa e o tempo que foge?” (Henri Bergson).
A filosofia interroga a identidade dos fenômenos. Seu trabalho conceitual não pode, contudo, ser reduzido a uma mera taxonomia. Volta-se, afinal, às coisas mesmas não somente para dizer o que são, mas para pensar o que podem ser.
Isso sabe em geral a um paradoxo: o pensamento sempre fixa, solidifica os fenômenos, inclusive aqueles tendentes a uma inescapável fluidez, de sorte que, por si só, envolve alguma impostura. É inevitável que cristalize o que jamais pode agarrar, como quando espacializa o tempo ou quantifica qualidades. Difícil aceitar esse destino, até por serem muitos e necessários os ofícios da inteligência: todos nós, enquanto pensamos, temos algo de farsantes.
O preço é elevado, sendo importante ter consciência da negatividade de qualquer gesto subjetivo, de tudo que, enfim, envolve linguagem e representação, seja na produção de conhecimento, seja na vida política. Não por acaso, tomando a analogia da representação na política, é óbvio que a presença efetiva sempre será mais que a representação, pois toda representação implica algum deslizamento, não podendo representante algum conter a presença. Tais deslizamentos, não obstante, são inevitáveis, como bem o sabemos e testemunhamos.
O paradoxo parece mesmo ineludível. Mais ainda, ele chega ao paroxismo quando o objeto do pensamento é algo da ordem de um sujeito – como é o caso com instituições vivas: a universidade, e ela própria, a filosofia. Nosso desafio hoje, cifrado em nosso tema, não é pequeno: posta no espelho, a filosofia deve interrogar a si mesma. Flagra-se então como aquilo que se tornou, como um conjunto de feitos e não como mais um ser em se fazendo.
A primeira aproximação, a mais empírica, já nos retira o fôlego ao pensar a relação entre filosofia e universidade, adiantando alguns pontos sobre seu futuro. Paciência, pois é o nosso tema. Como uma constatação empírica, no que pode ter de bênção ou de maldição, a filosofia é isso, sim: uma coisa universitária; e a universidade, por sua feita, é também uma coisa, marcada embora por exigências filosóficas.
De forma um tanto dura, conquanto entremeada de rebeldia, José Arthur Giannotti nos dizia em 1975: “Ao contrário de outras épocas, o filosofar de hoje é em geral trabalho remunerado. O filósofo é um funcionário, poucas vezes um escritor, vivendo de sua própria produção. Goza assim de um lazer ritmado pelo livro de ponto, pelos horários das aulas, onde se obriga a comunicar, com rígida periodicidade, o resultado de suas investigações livres. Qual é o mistério que leva uma sociedade moderna, quase sempre tecnocrata e autoritária, a financiar a vagabundagem bem comportada do filósofo?”.[i]
O quadro talvez devesse hoje ser mais severo. A aula não é sempre o espaço de comunicação de uma pesquisa. Com frequência, é a antípoda do exercício livre do pensamento. Por sua feita, a vagabundagem consentida perdeu muito do que seria próprio de uma rebeldia e uma errância. De todo modo, seja como lugar de repetição, reprodução e competição, seja como lugar de criação e liberdade, a equação está posta: a filosofia se realiza na universidade.
Tem bastante razão José Arthur Giannotti, ao afirmar a necessidade de decifrar o escopo e as limitações de nossa possível ação ou atuação. Cabe voltar ao chão concreto dos fenômenos sociais nos quais nos inserimos. Assim, necessitaríamos também “deixar de ser meros filósofos, profissionais da reflexão, para participar conscientemente da reflexão objetiva que constitui o cerne dos fenômenos sociais”.[ii]
Vejamos, pois, algumas imagens características (algumas historicamente datadas e localizadas na UFBA) do trabalho da filosofia na universidade, para em seguida pensarmos, quiçá mais fundamente, a relação entre a filosofia e a universidade – uma conjunção enigmática e talvez adversativa.
2.
Pode ter sido diferente ou muito parecido em outros lugares. Entretanto, tendo em conta nossa história particular, podemos espalhar algumas imagens da filosofia na nossa Universidade, como o álbum breve de uma travessia de décadas.
A filosofia entre nós já foi tratada como se fora um mero compartimento, uma disciplina a mais – no que seria exemplo de uma má disciplinaridade, uma espécie de reserva de saber, um agregado de proposições e de argumentos datados que conformariam um campo.
Também foi tratada como se fora uma concessão nobiliárquica, uma espécie de mel de coruja, a espalhar gotas de sabedoria para engenheiros e contadores – no que seríamos um exemplo de uma má interdisciplinaridade.
Com frequência, fomos tratados como se não tivéssemos medidas próprias e, logo, como se devêssemos nos submeter aos critérios e modos de produção de outras áreas. Ao mesmo tempo, por uma espécie de redução especular, enfrentamos e continuamos a enfrentar a oferta fácil de uma medida única por alguns dos nossos, como se nossa disciplina milenar devesse renunciar ao ensaio e, quiçá, à poesia, e nossa competência tivesse agora de ser medida tão somente por um conjunto de papers.
De certa forma, essa incursão imperialista se legitimava e ainda se legitima por escovar a contrapelo um vício antigo e oposto, o do beletrismo, que tanto nos caracterizou por décadas, de sorte que nossos melhores quadros apressadamente preenchiam lacunas conceituais por soluções literárias, perfazendo com relativo sucesso a imagem de mares de uma polegada.
Há de se conceder, todavia, que o beletrismo, com sua pobreza atávica, tinha lá algum brilho, sobretudo se o comparamos ao modelo produtivista ultraespecializado que enche de orgulho quem organiza colóquios para poucas pessoas, consagrando-se como teóricos abissais e isolados para seus pares, mas, de resto, desobrigados da tarefa penosa de qualificação da própria demanda social por filosofia.
Outras imagens podem ocorrer, mas elas se dispõem aqui e acolá, sempre de forma confusa e misturada, na trajetória comum de muitos departamentos de filosofia pelo Brasil afora, que, felizmente, com grande sucesso e eventuais recuos, deixaram de ser departamentos de serviço para se consolidarem como centros de pesquisa, com graduação e pós-graduação em linha de conta com as dos demais centros de excelência do país. Não obstante sua necessidade, o que tal sucesso pode ocultar é uma certa indiferença ao destino da própria universidade que a todos nos emprega. Vejamos mais de perto essa questão.
3.
A filosofia tornou-se coisa universitária. E isso não é ruim. Ao contrário, foi no meio universitário que a comunidade filosófica conseguiu estabelecer seus padrões mais elevados. Por outro lado, por estarmos na universidade, agarram-se em nós vícios e virtudes, e não podemos deixar de enxergar umas e outros, no momento em que somos desafiados a pensar em nossa realidade e em nosso futuro.
Como essa é, porém, uma circunstância histórica, poderíamos pensar: ser coisa universitária é um fenômeno passageiro. É uma residência datada, uma instalação provisória. Talvez em breve o valor do “profissional da filosofia” não seja medido pelo reconhecimento dos pares ou por sua eventual classificação como bolsista de produtividade de alguma agência de fomento, mas sim pelo número de seguidores nas redes e sua capacidade de fazer aderir seu discurso a múltiplos recursos digitais. Não mais valerá seu desempenho em sala de aula ou na ágora, mas sim seu alcance como influencer.
Entretanto, os que são do ramo sempre saberão discernir profundidade de escândalo, rigor de simples impacto; e continuaremos espantados com o sucesso ocasional de teóricos medíocres. Ou seja, em tese, continuaremos a operar na longa duração, com os critérios urdidos por nossa comunidade científica, assim como deve operar a universidade. Desse modo, temos boa razão para invocar como mais apropriado falar de filosofia e universidade como um laço essencial, e não apenas da circunstância de a filosofia se dar na universidade.
Está em jogo não apenas o vínculo empregatício, o fato de sermos funcionários do Estado, mas sim o fato mais relevante de o Estado, em condições normais de temperatura e pressão (tirante os períodos estritamente ditatoriais), poder abrigar esses dois projetos, compreendendo, por isso mesmo, que a ameaça a esses projetos que guardam as condições de uma argumentação razoável implica a ameaça a um pacto social democrático.
4.
Tendo em vista tal contexto (esse cenário em que operamos), podemos sustentar alguns pontos:
(i) O futuro da filosofia não pode estar apenas no seu passado, sob pena de nos tornarmos uma gigantesca paráfrase de nós mesmos e de reduzirmos nosso labor à disciplina do comentário; (ii) O futuro da filosofia não pode, contudo, renunciar a uma confrontação sistemática com nosso passado, sob pena de abandonarmos nossos principais contendores e de precisarmos reformular, em meio à nossa precariedade, questões mais bem formuladas outrora. Filósofos formadores distinguem-se naturalmente por seu fôlego na corrida filosófica e, na verdade, quem não percebe o significado profundo dessa diferença passa a sobreviver de mera retórica, sem dominar bens os instrumentos de nosso ofício.
(iii) O futuro da filosofia não está apenas na Europa ou nos Estados Unidos, de sorte que nos enriquecemos se colhemos os frutos do pensamento rigoroso ou de sua crítica nas diversas línguas e múltiplos lugares em que tenha florescido, sendo uma tarefa necessária a recuperação de matrizes múltiplas e um diálogo sério com elas. Aqui, como em toda parte, o pensamento exige disciplina e dedicação, nunca estando legitimado previamente qualquer consentimento teórico.
(iv) Da mesma forma, o futuro da filosofia nunca estará inteiramente fora da Europa (ou até dos Estados Unidos), uma vez que a desconstrução de pretensos sujeitos universais, tarefa bastante atual, envolve a reconstrução permanente das condições mesmas da subjetividade, ou seja, uma pauta clássica e contemporânea que, como herança ou como futuro, define-se como nossa.
(v) O trabalho filosófico, em suma, caso tenha direitos e algum futuro, não se faz por mera substituição, mas sim por agregação e confronto, sob pena de se transformar em mera dogmática, não importando saber a serviço de quais senhores.
5.
Se coisa universitária, o futuro da filosofia não é apenas a filosofia. Cabe aqui enfatizar um traço próprio das proposições filosóficas: elas não são apenas teóricas, mas sim normativas. Nossas proposições são degeneradas, porquanto infensas à mera bipolaridade dos enunciados significativos. Por isso mesmo, podem ser mais relevantes para dizerem o que ainda não é, pois capazes de antever edificações onde incautos só veem ruínas. Por outro lado, se falamos de universidades, estas não se fazem como soma de vocações disciplinares, de sorte que, bem pensadas, não se fazem sem filosofia.
Aprofundemos, pois, esse traço de afinidade, destacando o lado normativo da filosofia e de qualquer política com horizontes mais largos para a construção da vida universitária. Refletindo, então, sobre as condições de sentido, sem estar voltada à produção de verdades, a filosofia deve interrogar o sentido desse equipamento de construção ou de destruição do pensamento, a universidade. Ou seja, dialoga com as ciências e as artes, sem lhes fazer uma mera apologia.
Entre outras coisas, a filosofia deve iluminar um paradoxo que nos concerne a todos e apontar os caminhos de uma reação organizada, a saber, o paradoxo por meio do qual, em linhas gerais, documentos da civilização são também documentos da barbárie e como, em específico, é possível o absurdo concreto de um desenvolvimento científico e tecnológico cada vez maior não ser incompatível como a mais profunda degradação cultural e mesmo a favoreça.
Como disciplina normativa, para dar outro exemplo, a filosofia afirma sua identidade precária ao questionar a identidade definidora da própria universidade, que associa a gestão autônoma de pessoal, saberes e patrimônio ao princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
Ao ativar, nesse caso, sua vocação normativa, a filosofia questiona não apenas a letra da definição da autonomia e a atual realidade de degradação do tecido, por conta da penúria orçamentária, das empobrecidas relações interpessoais, da cisão interna que perpassa categorias e unidades, mas sobretudo que a identidade se faça por ajuntamento, e seja morta, e não por uma viva coesão.
Como disciplina normativa, a filosofia se aproxima então da universidade indagando como um projeto talhado no papel para a produção da igualdade e a ampliação de direitos e de conhecimentos pode correr o risco de ser considerado agora apenas um projeto caro e até desnecessário (como o está sendo pela grande mídia, O Globo, Estadão e Folha de S. Paulo) — projeto que poderia ser substituído com vantagens por novas tecnologias e pela mais completa privatização da educação superior.
6.
A filosofia pode bem ajudar a combater tais aleivosias, mas apenas se, como disciplina normativa que interroga a identidade de fenômenos, for capaz de identificar o que lhe corrói a identidade e faz produzir o seu reverso. Em outras palavras, como exclusão e a desigualdade podem estar sendo produzidas em cada uma de suas dimensões constitutivas.
No ensino – por exemplo, na manutenção custosa de assimetrias pedagógicas que substituem uma autoridade legítima (e, de resto, necessária) por exercícios de aprendizado que, na expressão de Marilena Chaui, não deixam a cadeira vazia. A atividade formadora, afinal, renova pactos e consensos, legitima autoridades e cria condições para uma transmissão que é também escuta, de sorte que, também no ensino, a universidade deve ser capaz de alimentar o sentido de sua autonomia, a saber, a maioridade intelectual do exercício esclarecido de seu entendimento.
Ao contrário, e não por acaso, temos visto o conjunto dos universitários vulneráveis à baixa qualidade narrativa das redes, que é sempre mais ágil no que se trata de repetição, reprodução do já estabelecido. Vimos isso, aliás, em campanha recente, pontuada menos pela violência dos ataques e mais pela infantilidade das argumentações. Muita inteligência artificial e pouco talento – o que prova que o uso de tecnologias de informação sofisticadas não nos salva da mediocridade.
Na pesquisa – na disparidade dos recursos disponíveis e a perigosa intromissão, sem mediações, de imperativos deslinguistizados nos rumos da pesquisa, ou seja, o investimento seletivo e tendente ao clientelismo de recursos extraorçamentários para a definição dos rumos e temas de pesquisa, doravante subordinada aos interesses relevantes da inovação, que deveria ser sua sucedânea e não sua bitola.
A disparidade tende a aprofundar a diversa posição de cursos em relação a demandas ou em função de seu prestígio social, bem como tende a fortalecer os grupos consolidados e a internacionalizar seletivamente quem já tem ampla relação internacional.
Na extensão – com a manutenção de assimetrias, de projetos unilaterais, que terminam por reduzir a extensão a uma disputa por alunos, como o fazem as privadas, ou a uma forma menor de divulgação científica também de mão única, uma vez que tais projetos estão longe de favorecer uma ocupação das universidades por demandas e saberes que não mais deveriam ser compreendidos como externalidades.
Na gestão universitária – por exemplo, quando a instituição, vista como mera empresa ou como mais uma repartição pública, é ameaçada pelo empreendedorismo e aceita medir-se pela mera eficácia dos resultados, sem que estes estejam em linha de conta com os propósitos finalísticos da instituição, de sorte que seus gestores, de representantes mais ou menos próximos da vontade democrática dos representados, se desnaturam e mesmo se amesquinham como executivos ou lobistas.
Longe de desenvolver aqui tais pontos, apenas os sugerimos, indicando que podem e devem ser desenvolvidos por uma interrogação filosófica radical e coletiva dos comprometimentos hoje sofridos pela identidade dessa instituição singular, cujo destino deveria ser pautado pelos desígnios da educação e não pelas forças da barbárie.
7.
A república não deve precisar de sábios, mas sim de universidades. Por isso, insistimos na importância da conjunção. Filosofia e universidade, registrando que a conjunção encobre uma natureza adversativa. É verdadeira tão somente se ambos os termos se afirmam, mas não é uma mera função de verdade de dimensões isoladas. A conjunção é adversativa, pois os termos se matizam. Cada um é, apesar do outro; cada qual pode ser por causa do outro.
Em sendo assim, as medidas próprias da competência filosófica devem se afirmar, em todo país e em face de todas as áreas, da mesma forma que as universidades federais não podem ser reduzidas a instituições de terceiro grau. Aqui, importa registrar que as universidades, uma vez medidas por um tempo comum que não se congela nos prédios já construídos, são da ordem do que se move e não do que se classifica em rankings. Estes são importantes como são indispensáveis os relógios para o medir das horas e o estabelecimento de acordos, mas os rankings não são as universidades, assim como os relógios não são o tempo.
Os profissionais autênticos de filosofia, os que não estão fechados em seus próprios interesses ou em suas carreiras, devem empregar sua vocação além de suas comunidades diminutas, que podem continuar diminutas, mesmo se internacionais. Se somos operários de uma coisa universitária, temos obrigações com nossa casa, com esse lugar que nos abriga e emprega, de sorte que nosso labor intelectual não pode descurar nosso compromisso militante com essa morada que nos alimenta. Mais que nunca, em defesa de nossa profissão e de nossa casa, devemos nos proteger tanto do obscurantismo alheio quanto de nós mesmos, de nossas próprias limitações pouco esclarecidas.
A conjunção é adversativa, mas não repulsiva. Além disso, é essencial para situarmos esses dois projetos de Estado (e, queremos crer, de um Estado democrático) na longa duração, ou seja, projetos que não se medem pelo imediato. Essa ligação entre filosofia e universidade, longe de ser absurda, prenuncia o laço entre seres definidos pela mesma temporalidade. Como têm esse horizonte comum, não guardam a incompatibilidade incontornável dos centauros, dos quais asseverara Lucrécio: “Não houve centauros nem podem em tempo algum existir conjuntos de dupla natureza e de dois corpos, formados de membros díspares, nem haver forças desiguais”.[iii]
Filosofia e universidade (permito-me acrescentar, as humanidades, as artes, as ciências e a universidade) não são imiscíveis, como o seriam o corpo do homem e o do cavalo, definidos por temporalidades distintas, sendo adulto em um ano um cavalo, mas não um homem. Ao contrário, são projetos que têm em comum a longa duração. Em sendo assim, nossa tarefa como animais universitários é permanente, sobretudo quando, além de ensino, pesquisa e extensão, também nos comprometemos com a representação do interesse coletivo.
Nesse caso, nunca podemos esquecer e repetimos. Nenhuma representação se completa ou se faz sem a renovação da presença, nem pode falar de um lugar abstrato, que representasse por si a razão. Tal lugar puro seria falso e mesmo ultrajante, face nossa realidade e nossa história. Logo, não havendo mesmo um sujeito universal, ninguém encarna a realidade por completo, cabendo ao representante que se importe com sua própria legitimidade, renovar os votos a cada instante, lavar suas guias, negar-se para enfim manter a aposta originária.
Não se abrevia o tempo, nem se reduz a longa duração. O tempo da universidade não se reduz a documentos sem vida, a normas nunca seguidas, nem se aninha nas restrições orçamentárias. O tempo da universidade, se relevante a instituição, mede-se por um não ser, ou seja, por conhecimentos ainda não adquiridos e em vidas por serem ainda transformadas. A nós, profissionais da filosofia, das artes e das ciências, cabe apenas a tarefa simples de criação das condições que nos permitam, por nossas ações comuns, confiar-nos ao tempo.[iv]
*João Carlos Salles é professor titular do Departamento de Filosofia e reitor eleito da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Autor, entre outros livros, de Universidade pública e democracia (Boitempo). [https://amzn.to/4cRaTwT].
Notas
[i] GIANNOTTI, J. A. Filosofia miúda e demais aventuras. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 12.
[ii] GIANNOTTI, J. A. Filosofia miúda e demais aventuras, p. 15.
[iii] LUCRÉCIO. Da Natureza. Porto Alegre: Globo, 1962, p. 168.
[iv] Uma versão preliminar deste texto foi apresentada em 25 de maio de 2026, na 46ª. Semana de Filosofia da UnB, celebrando os 40 anos do Departamento de Filosofia da UnB. Esta versão foi lida em 10 de junho de 2026, na semana de celebração dos 85 anos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA

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