Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR*
A forma nova do pacto oligárquico combina cinco elementos: Congresso-orçamento, mercado-dívida, mídia-plataforma, judicialização seletiva e segurança como gramática social
1.
A semana passada confirmou que 2026 está deixando de ser apenas disputa eleitoral e está se tornando uma negociação antecipada de regime. Não se trata só de saber quem vence. Trata-se de saber em que condições sociais, parlamentares, econômicas e simbólicas o vencedor governará. E aí a sua hipótese é forte: há sinais de que o país pode estar repetindo, em nova forma, um velho movimento brasileiro – um pacto social de superfície que, na estrutura, preserva o pacto oligárquico.
A semana trouxe quatro sinais principais. Primeiro, Lula segue competitivo e ainda aparece à frente de Flávio Bolsonaro em pesquisas recentes: o Datafolha divulgado em 20 de junho indicou Lula com 41% no primeiro turno contra 31% de Flávio, e 47% a 43% em eventual segundo turno; a CNT/MDA, poucos dias antes, mostrou vantagem mais larga, 49,3% a 36,8%. Segundo, a extrema direita não desapareceu; ela se reorganiza como herança familiar, ressentimento social, antipetismo moral e candidatura de continuidade.
A candidatura de Flávio Bolsonaro foi apresentada como sucessão escolhida por Jair Bolsonaro, que segue influente mesmo condenado e inelegível, segundo cobertura da agência Associated Press. Terceiro, há deslocamento geracional importante: a Reuters registrou nesta semana crescimento da rejeição a Lula entre jovens, sobretudo homens jovens, combinando frustração econômica, descrédito institucional e atração por discursos de ordem, anticorrupção e direita radicalizada.
Quarto, o Congresso continua operando como centro real de veto: a Agência Brasil registrou a semana com PEC da escala 6×1 travada no Senado, troca de liderança do governo após saída de Jaques Wagner, agenda do MEI, depoimento de Jair Bolsonaro e movimentos do governo em torno de defesa, saúde e segurança.
A tendência, portanto, não é linearmente favorável nem à esquerda nem à direita. A tendência é mais grave: a política brasileira está sendo reorganizada por uma dupla contenção. De um lado, a contenção da extrema direita pela via eleitoral e institucional. De outro, a contenção de qualquer transformação social substantiva pela via parlamentar, fiscal, midiática e financeira. É aqui que aparece o perigo da repetição histórica: a democracia pode derrotar eleitoralmente o autoritarismo e, ao mesmo tempo, preservar o núcleo oligárquico que o produz.
2.
O que ocorreu nesta semana, em termos profundos, foi a confirmação de que o voto continua decisivo, mas cada vez menos soberano. Ele decide o governo, mas não decide sozinho o regime de acumulação, a forma do Estado, o orçamento, a dívida, a estrutura tributária, o sistema de comunicação, a propriedade da terra, o comando das polícias, a captura do fundo público, nem a temporalidade real da vida popular.
O voto aparece como momento de escolha; a estrutura aparece como sistema de bloqueio. Essa é a chave de leitura do meu artigo “A escolha sitiada”: o voto popular é indispensável para barrar a herança autoritária, mas ele opera dentro de uma cidadania incompleta e de uma democracia cercada. O voto popular de 2026, embora decisivo contra a herança autoritária, esbarra nas contradições de uma cidadania marcada pela modernização dependente.
A pergunta decisiva, então, não é apenas: Lula vence? A pergunta é: o que fica depois da vitória? Essa já era a pergunta do artigo, “O que fica?”, divulgado em 7 de junho no site A Terra é Redonda: para além das pesquisas e do marketing de campanha, o pleito de 2026 testa a capacidade política brasileira de produzir algo que permaneça. A semana parece responder de modo inquietante: pode ficar uma vitória defensiva, necessária, mas socialmente insuficiente. Pode ficar a contenção do pior, sem abertura efetiva do novo.
A hipótese do pacto social que repete, na estrutura, o pacto oligárquico é plausível porque o Brasil tem uma forma histórica recorrente: quando a crise ameaça sair do controle, as classes dominantes aceitam alguma recomposição política desde que o núcleo material da dominação seja preservado.
Foi assim em vários momentos: conciliação pelo alto, cidadania regulada, modernização conservadora, abertura lenta e segura, redemocratização pactuada, Constituição social tensionada por política econômica conservadora, lulismo como inclusão via consumo sem ruptura com os grandes pactos da propriedade, e agora talvez uma nova etapa: antifascismo eleitoral com acomodação oligárquico-financeira.
O ponto não é acusar moralmente Lula ou o governo. A questão é estrutural. O lulismo governa um país em que o Congresso se autonomizou como poder orçamentário, o mercado financeiro opera como tribunal permanente, a mídia converte estabilidade em sinônimo de moderação fiscal, e a extrema direita monopoliza parte da linguagem popular do ressentimento.
O jornal Folha de S. Paulo registrou em maio que 70% viam a relação entre Lula e Congresso mais como confronto do que colaboração, sinalizando que a percepção social já identifica o Legislativo como força de bloqueio e barganha. A Agência Brasil também mostrou na semana passada que pautas de apelo popular, como a PEC da escala 6×1, permanecem travadas no Senado, enquanto o governo reorganiza sua articulação parlamentar.
3.
A forma nova do pacto oligárquico não é mais apenas café com leite, coronelismo ou mando agrário direto. Hoje ela combina cinco elementos: Congresso-orçamento, mercado-dívida, mídia-plataforma, judicialização seletiva e segurança como gramática social. A oligarquia contemporânea não precisa aparecer como aristocracia rural. Ela aparece como “responsabilidade fiscal”, “governabilidade”, “empreendedorismo”, “combate à corrupção”, “segurança pública”, “modernização administrativa” e “paz institucional”. A linguagem muda; a estrutura permanece.
Por isso, o perigo de 2026 é a produção de um pacto social regressivo com aparência democrática. Ele poderia assumir a seguinte forma: setores populares votam para impedir a volta plena do bolsonarismo; setores médios aceitam Lula como mal menor; frações empresariais aceitam estabilidade; o Congresso exige controle de orçamento, cargos e emendas; o mercado exige disciplina fiscal; a mídia exige “moderação”; e os movimentos sociais são chamados a defender a democracia, mas não a expandir seu conteúdo material. O resultado seria uma democracia defendida contra o fascismo, mas administrada em favor da ordem.
Essa é a repetição estrutural do pacto oligárquico: o povo entra como força eleitoral, mas não como sujeito constituinte. Ele é convocado para barrar a catástrofe, mas não para redefinir a propriedade, o orçamento, o trabalho, a cidade, a universidade, o crédito, o tempo social. A cidadania aparece no momento do voto; desaparece no momento da decisão estrutural. O pacto social, nesse caso, seria social apenas na retórica: defesa da democracia, combate à fome, proteção dos pobres, ampliação de políticas públicas. Mas sua arquitetura permaneceria oligárquica se a repartição real do poder continuasse intocada.
A semana passada também mostrou uma contradição geracional importante. A matéria da agência Reuters sobre jovens brasileiros afastando-se de Lula é um sinal grave porque indica que parte da juventude não se sente herdeira da inclusão lulista. O jovem precarizado, endividado, com diploma desvalorizado ou sem expectativa de ascensão, pode não reconhecer a democracia social como promessa concreta.
A extrema direita entra justamente nesse vazio: ela oferece culpados, masculinidade compensatória, ordem moral, anticorrupção performática e promessa de pertencimento. Quando a esquerda não consegue traduzir futuro, a direita oferece vingança. Quando a política não organiza esperança material, o ressentimento organiza identidade.
4.
Aqui entra sua categoria da duração bloqueada. O pacto oligárquico contemporâneo não apenas distribui desigualmente renda e poder; ele bloqueia a experiência do futuro. A juventude não sente que a história está aberta. O trabalhador não sente que o esforço vira estabilidade. O professor não sente que a universidade forma futuro. O morador da cidade não sente que pertence ao lugar onde vive. O eleitor não sente que seu voto se prolonga em mudança. A democracia, sem duração social, vira evento periódico. E evento periódico, sozinho, não sustenta projeto histórico.
A tendência, então, é de polarização administrada. A extrema direita continuará existindo como ameaça indispensável para disciplinar o campo democrático. O centro oligárquico usará essa ameaça para exigir moderação da esquerda. A esquerda institucional usará a ameaça autoritária para pedir unidade. Os movimentos sociais serão pressionados a adiar demandas. E o Congresso converterá cada urgência democrática em moeda de troca. Essa é a engrenagem mais perigosa: o fascismo ameaça; a oligarquia arbitra; a esquerda administra; o povo espera.
Mas há uma diferença importante em relação aos pactos anteriores. O Brasil de 2026 não vive apenas sob pacto oligárquico nacional; vive sob dependência financeirizada. Isso significa que o pacto interno é subordinado a uma temporalidade externa: juros, dívida, agências, fundos, câmbio, commodities, plataformas, cadeias globais, orçamento capturado. A oligarquia nacional não governa sozinha; ela administra localmente uma forma mundial de coerção. Por isso, seu conceito de capital fictício como forma de bloqueio do tempo histórico ilumina a conjuntura. A política nacional parece decidir; mas decide sob chantagem permanente da valorização financeira.
O risco, portanto, é que 2026 produza uma vitória progressista sem progressão histórica. Uma vitória que impeça a regressão aberta, mas normalize a regressão lenta. Uma vitória que diga “derrotamos o autoritarismo”, enquanto mantém a escala 6×1 bloqueada, a reforma tributária limitada, a universidade subfinanciada, a cidade financeirizada, a juventude sem futuro, o trabalho precarizado, a comunicação concentrada e o fundo público disputado por frações parlamentares. Isso não seria derrota imediata. Seria algo mais brasileiro: vitória sitiada.
Mas a hipótese não deve ser fechada como fatalismo. Há brechas. A primeira é que Lula ainda mantém força popular real, e as pesquisas mostram que a extrema direita não conseguiu converter automaticamente a herança de Jair Bolsonaro em maioria nacional. A segunda é que a candidatura de Flávio Bolsonaro carrega o peso de uma sucessão familiar, judicializada e moralmente desgastada, não uma novidade histórica. A terceira é que temas como escala de trabalho, renda, saúde, segurança, educação e custo de vida podem recolocar a materialidade no centro da disputa. A quarta é que a juventude em deslocamento não está necessariamente consolidada à direita; ela está disponível para quem conseguir nomear sua frustração sem desprezá-la.
5.
A tarefa teórica e política, portanto, seria distinguir frente democrática de pacto oligárquico. A frente democrática é necessária para derrotar o autoritarismo. O pacto oligárquico é perigoso quando, em nome dessa derrota, bloqueia o conteúdo social da democracia. A frente democrática deve ser tática de defesa e abertura; o pacto oligárquico transforma a defesa em limite. A primeira protege a possibilidade da história; o segundo administra o fim da história.
A formulação central poderia ser esta: O Brasil pode estar caminhando para uma nova conciliação pelo alto: o povo é chamado a salvar a democracia pelo voto, mas não a reorganizar a sociedade pelo poder. O pacto aparece como defesa republicana contra o fascismo; sua estrutura, porém, pode repetir o velho acordo oligárquico que admite a presença popular desde que ela não toque no comando do orçamento, da propriedade, do trabalho, da comunicação e do tempo social.
A tendência mais provável, se nada deslocar o quadro, é esta: Lula segue favorito ou altamente competitivo; a extrema direita permanece capaz de organizar medo e ressentimento; o centro parlamentar aumenta seu preço; o mercado exigirá garantias; e a campanha tenderá a empurrar o campo democrático para uma moderação cada vez mais defensiva. A vitória, se vier, virá cercada. A derrota, se vier, será catastrófica. O problema é que a vitória cercada pode preparar a próxima catástrofe se não produzir duração histórica.
Em termos conceituais, eu diria assim: o pacto oligárquico brasileiro se modernizou. Antes bloqueava a entrada do povo; agora administra sua entrada para impedir que ela se converta em poder histórico. Essa é a passagem fundamental. A oligarquia aprendeu a conviver com eleições, políticas sociais limitadas e linguagem democrática. O que ela não aceita é que o povo governe a estrutura.
Por isso, 2026 não deve ser lido apenas como pleito. Deve ser lido como teste da democracia dependente sob capital fictício. Se a democracia for reduzida à derrota eleitoral da extrema direita, ela sobreviverá como forma sitiada. Se conseguir transformar a defesa institucional em reorganização social do tempo, pode abrir outro ciclo. Mas, hoje, a tendência dominante é a primeira: preservação defensiva da democracia com recomposição oligárquica da governabilidade.
Fecho com uma formulação mais literária, no seu tom: O Brasil talvez esteja diante de sua velha astúcia histórica: chama o povo às urnas quando a casa ameaça incendiar, mas entrega a chave da casa aos mesmos administradores do incêndio. A democracia aparece como salvação; a oligarquia, como condição da salvação. O voto barra o abismo, mas não reconstrói a ponte. E, enquanto a ponte não for reconstruída, cada eleição será menos uma escolha de futuro do que uma operação de resgate do presente.
*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados) [https://amzn.to/4fLXTKP].
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Imagem: Marco Bianchetti |
A forma nova do pacto oligárquico combina cinco elementos: Congresso-orçamento, mercado-dívida, mídia-plataforma, judicialização seletiva e segurança como gramática social
1.
A semana passada confirmou que 2026 está deixando de ser apenas disputa eleitoral e está se tornando uma negociação antecipada de regime. Não se trata só de saber quem vence. Trata-se de saber em que condições sociais, parlamentares, econômicas e simbólicas o vencedor governará. E aí a sua hipótese é forte: há sinais de que o país pode estar repetindo, em nova forma, um velho movimento brasileiro – um pacto social de superfície que, na estrutura, preserva o pacto oligárquico.
A semana trouxe quatro sinais principais. Primeiro, Lula segue competitivo e ainda aparece à frente de Flávio Bolsonaro em pesquisas recentes: o Datafolha divulgado em 20 de junho indicou Lula com 41% no primeiro turno contra 31% de Flávio, e 47% a 43% em eventual segundo turno; a CNT/MDA, poucos dias antes, mostrou vantagem mais larga, 49,3% a 36,8%. Segundo, a extrema direita não desapareceu; ela se reorganiza como herança familiar, ressentimento social, antipetismo moral e candidatura de continuidade.
A candidatura de Flávio Bolsonaro foi apresentada como sucessão escolhida por Jair Bolsonaro, que segue influente mesmo condenado e inelegível, segundo cobertura da agência Associated Press. Terceiro, há deslocamento geracional importante: a Reuters registrou nesta semana crescimento da rejeição a Lula entre jovens, sobretudo homens jovens, combinando frustração econômica, descrédito institucional e atração por discursos de ordem, anticorrupção e direita radicalizada.
Quarto, o Congresso continua operando como centro real de veto: a Agência Brasil registrou a semana com PEC da escala 6×1 travada no Senado, troca de liderança do governo após saída de Jaques Wagner, agenda do MEI, depoimento de Jair Bolsonaro e movimentos do governo em torno de defesa, saúde e segurança.
A tendência, portanto, não é linearmente favorável nem à esquerda nem à direita. A tendência é mais grave: a política brasileira está sendo reorganizada por uma dupla contenção. De um lado, a contenção da extrema direita pela via eleitoral e institucional. De outro, a contenção de qualquer transformação social substantiva pela via parlamentar, fiscal, midiática e financeira. É aqui que aparece o perigo da repetição histórica: a democracia pode derrotar eleitoralmente o autoritarismo e, ao mesmo tempo, preservar o núcleo oligárquico que o produz.
2.
O que ocorreu nesta semana, em termos profundos, foi a confirmação de que o voto continua decisivo, mas cada vez menos soberano. Ele decide o governo, mas não decide sozinho o regime de acumulação, a forma do Estado, o orçamento, a dívida, a estrutura tributária, o sistema de comunicação, a propriedade da terra, o comando das polícias, a captura do fundo público, nem a temporalidade real da vida popular.
O voto aparece como momento de escolha; a estrutura aparece como sistema de bloqueio. Essa é a chave de leitura do meu artigo “A escolha sitiada”: o voto popular é indispensável para barrar a herança autoritária, mas ele opera dentro de uma cidadania incompleta e de uma democracia cercada. O voto popular de 2026, embora decisivo contra a herança autoritária, esbarra nas contradições de uma cidadania marcada pela modernização dependente.
A pergunta decisiva, então, não é apenas: Lula vence? A pergunta é: o que fica depois da vitória? Essa já era a pergunta do artigo, “O que fica?”, divulgado em 7 de junho no site A Terra é Redonda: para além das pesquisas e do marketing de campanha, o pleito de 2026 testa a capacidade política brasileira de produzir algo que permaneça. A semana parece responder de modo inquietante: pode ficar uma vitória defensiva, necessária, mas socialmente insuficiente. Pode ficar a contenção do pior, sem abertura efetiva do novo.
A hipótese do pacto social que repete, na estrutura, o pacto oligárquico é plausível porque o Brasil tem uma forma histórica recorrente: quando a crise ameaça sair do controle, as classes dominantes aceitam alguma recomposição política desde que o núcleo material da dominação seja preservado.
Foi assim em vários momentos: conciliação pelo alto, cidadania regulada, modernização conservadora, abertura lenta e segura, redemocratização pactuada, Constituição social tensionada por política econômica conservadora, lulismo como inclusão via consumo sem ruptura com os grandes pactos da propriedade, e agora talvez uma nova etapa: antifascismo eleitoral com acomodação oligárquico-financeira.
O ponto não é acusar moralmente Lula ou o governo. A questão é estrutural. O lulismo governa um país em que o Congresso se autonomizou como poder orçamentário, o mercado financeiro opera como tribunal permanente, a mídia converte estabilidade em sinônimo de moderação fiscal, e a extrema direita monopoliza parte da linguagem popular do ressentimento.
O jornal Folha de S. Paulo registrou em maio que 70% viam a relação entre Lula e Congresso mais como confronto do que colaboração, sinalizando que a percepção social já identifica o Legislativo como força de bloqueio e barganha. A Agência Brasil também mostrou na semana passada que pautas de apelo popular, como a PEC da escala 6×1, permanecem travadas no Senado, enquanto o governo reorganiza sua articulação parlamentar.
3.
A forma nova do pacto oligárquico não é mais apenas café com leite, coronelismo ou mando agrário direto. Hoje ela combina cinco elementos: Congresso-orçamento, mercado-dívida, mídia-plataforma, judicialização seletiva e segurança como gramática social. A oligarquia contemporânea não precisa aparecer como aristocracia rural. Ela aparece como “responsabilidade fiscal”, “governabilidade”, “empreendedorismo”, “combate à corrupção”, “segurança pública”, “modernização administrativa” e “paz institucional”. A linguagem muda; a estrutura permanece.
Por isso, o perigo de 2026 é a produção de um pacto social regressivo com aparência democrática. Ele poderia assumir a seguinte forma: setores populares votam para impedir a volta plena do bolsonarismo; setores médios aceitam Lula como mal menor; frações empresariais aceitam estabilidade; o Congresso exige controle de orçamento, cargos e emendas; o mercado exige disciplina fiscal; a mídia exige “moderação”; e os movimentos sociais são chamados a defender a democracia, mas não a expandir seu conteúdo material. O resultado seria uma democracia defendida contra o fascismo, mas administrada em favor da ordem.
Essa é a repetição estrutural do pacto oligárquico: o povo entra como força eleitoral, mas não como sujeito constituinte. Ele é convocado para barrar a catástrofe, mas não para redefinir a propriedade, o orçamento, o trabalho, a cidade, a universidade, o crédito, o tempo social. A cidadania aparece no momento do voto; desaparece no momento da decisão estrutural. O pacto social, nesse caso, seria social apenas na retórica: defesa da democracia, combate à fome, proteção dos pobres, ampliação de políticas públicas. Mas sua arquitetura permaneceria oligárquica se a repartição real do poder continuasse intocada.
A semana passada também mostrou uma contradição geracional importante. A matéria da agência Reuters sobre jovens brasileiros afastando-se de Lula é um sinal grave porque indica que parte da juventude não se sente herdeira da inclusão lulista. O jovem precarizado, endividado, com diploma desvalorizado ou sem expectativa de ascensão, pode não reconhecer a democracia social como promessa concreta.
A extrema direita entra justamente nesse vazio: ela oferece culpados, masculinidade compensatória, ordem moral, anticorrupção performática e promessa de pertencimento. Quando a esquerda não consegue traduzir futuro, a direita oferece vingança. Quando a política não organiza esperança material, o ressentimento organiza identidade.
4.
Aqui entra sua categoria da duração bloqueada. O pacto oligárquico contemporâneo não apenas distribui desigualmente renda e poder; ele bloqueia a experiência do futuro. A juventude não sente que a história está aberta. O trabalhador não sente que o esforço vira estabilidade. O professor não sente que a universidade forma futuro. O morador da cidade não sente que pertence ao lugar onde vive. O eleitor não sente que seu voto se prolonga em mudança. A democracia, sem duração social, vira evento periódico. E evento periódico, sozinho, não sustenta projeto histórico.
A tendência, então, é de polarização administrada. A extrema direita continuará existindo como ameaça indispensável para disciplinar o campo democrático. O centro oligárquico usará essa ameaça para exigir moderação da esquerda. A esquerda institucional usará a ameaça autoritária para pedir unidade. Os movimentos sociais serão pressionados a adiar demandas. E o Congresso converterá cada urgência democrática em moeda de troca. Essa é a engrenagem mais perigosa: o fascismo ameaça; a oligarquia arbitra; a esquerda administra; o povo espera.
Mas há uma diferença importante em relação aos pactos anteriores. O Brasil de 2026 não vive apenas sob pacto oligárquico nacional; vive sob dependência financeirizada. Isso significa que o pacto interno é subordinado a uma temporalidade externa: juros, dívida, agências, fundos, câmbio, commodities, plataformas, cadeias globais, orçamento capturado. A oligarquia nacional não governa sozinha; ela administra localmente uma forma mundial de coerção. Por isso, seu conceito de capital fictício como forma de bloqueio do tempo histórico ilumina a conjuntura. A política nacional parece decidir; mas decide sob chantagem permanente da valorização financeira.
O risco, portanto, é que 2026 produza uma vitória progressista sem progressão histórica. Uma vitória que impeça a regressão aberta, mas normalize a regressão lenta. Uma vitória que diga “derrotamos o autoritarismo”, enquanto mantém a escala 6×1 bloqueada, a reforma tributária limitada, a universidade subfinanciada, a cidade financeirizada, a juventude sem futuro, o trabalho precarizado, a comunicação concentrada e o fundo público disputado por frações parlamentares. Isso não seria derrota imediata. Seria algo mais brasileiro: vitória sitiada.
Mas a hipótese não deve ser fechada como fatalismo. Há brechas. A primeira é que Lula ainda mantém força popular real, e as pesquisas mostram que a extrema direita não conseguiu converter automaticamente a herança de Jair Bolsonaro em maioria nacional. A segunda é que a candidatura de Flávio Bolsonaro carrega o peso de uma sucessão familiar, judicializada e moralmente desgastada, não uma novidade histórica. A terceira é que temas como escala de trabalho, renda, saúde, segurança, educação e custo de vida podem recolocar a materialidade no centro da disputa. A quarta é que a juventude em deslocamento não está necessariamente consolidada à direita; ela está disponível para quem conseguir nomear sua frustração sem desprezá-la.
5.
A tarefa teórica e política, portanto, seria distinguir frente democrática de pacto oligárquico. A frente democrática é necessária para derrotar o autoritarismo. O pacto oligárquico é perigoso quando, em nome dessa derrota, bloqueia o conteúdo social da democracia. A frente democrática deve ser tática de defesa e abertura; o pacto oligárquico transforma a defesa em limite. A primeira protege a possibilidade da história; o segundo administra o fim da história.
A formulação central poderia ser esta: O Brasil pode estar caminhando para uma nova conciliação pelo alto: o povo é chamado a salvar a democracia pelo voto, mas não a reorganizar a sociedade pelo poder. O pacto aparece como defesa republicana contra o fascismo; sua estrutura, porém, pode repetir o velho acordo oligárquico que admite a presença popular desde que ela não toque no comando do orçamento, da propriedade, do trabalho, da comunicação e do tempo social.
A tendência mais provável, se nada deslocar o quadro, é esta: Lula segue favorito ou altamente competitivo; a extrema direita permanece capaz de organizar medo e ressentimento; o centro parlamentar aumenta seu preço; o mercado exigirá garantias; e a campanha tenderá a empurrar o campo democrático para uma moderação cada vez mais defensiva. A vitória, se vier, virá cercada. A derrota, se vier, será catastrófica. O problema é que a vitória cercada pode preparar a próxima catástrofe se não produzir duração histórica.
Em termos conceituais, eu diria assim: o pacto oligárquico brasileiro se modernizou. Antes bloqueava a entrada do povo; agora administra sua entrada para impedir que ela se converta em poder histórico. Essa é a passagem fundamental. A oligarquia aprendeu a conviver com eleições, políticas sociais limitadas e linguagem democrática. O que ela não aceita é que o povo governe a estrutura.
Por isso, 2026 não deve ser lido apenas como pleito. Deve ser lido como teste da democracia dependente sob capital fictício. Se a democracia for reduzida à derrota eleitoral da extrema direita, ela sobreviverá como forma sitiada. Se conseguir transformar a defesa institucional em reorganização social do tempo, pode abrir outro ciclo. Mas, hoje, a tendência dominante é a primeira: preservação defensiva da democracia com recomposição oligárquica da governabilidade.
Fecho com uma formulação mais literária, no seu tom: O Brasil talvez esteja diante de sua velha astúcia histórica: chama o povo às urnas quando a casa ameaça incendiar, mas entrega a chave da casa aos mesmos administradores do incêndio. A democracia aparece como salvação; a oligarquia, como condição da salvação. O voto barra o abismo, mas não reconstrói a ponte. E, enquanto a ponte não for reconstruída, cada eleição será menos uma escolha de futuro do que uma operação de resgate do presente.
*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados) [https://amzn.to/4fLXTKP].

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