Da Revista Piauí, 24 de junho 2024
Pedro Pannunzio, de Havana 24 Jun 2026
Pedro Pannunzio, de Havana 24 Jun 2026
![]() |
Falta de energia elétrica tem deixado Havana às escuras - Magdalena Chodownik/Anadolu via Getty Images |
No interior do Floridita, um quinteto de músicos tocava salsa para uma plateia enxuta, de apenas quatro clientes. Ainda assim, o vocalista, um homem negro de sorriso permanente, e o restante o grupo, executavam o repertório com dedicação. “No começo do ano, tinha fila de gente do lado de fora. Mas desde fevereiro, não vem mais ninguém”, disse uma das garçonetes do bar famoso pelos seus daiquiris – coquetel cubano clássico à base de rum – e por ter sido frequentado pelo escritor Ernest Hemingway, que morou em Cuba entre 1939 e 1960.
A poucos metros dali, o Gran Hotel Manzana, que ocupa um quarteirão inteiro em frente ao Parque Central da cidade, mantinha apagadas as luzes das vitrines de grife no piso térreo do edifício. “O hotel fechou no último sábado”, disse um homem de óculos escuros e camisa branca de manga curta, parado sob os pórticos de entrada do estabelecimento. As portas de madeira de mais de 2 metros de altura estavam fechadas, assim como as janelas dos quartos que compunham a fachada do hotel.
Inaugurado no início do século XX como um centro de compras, o Manzana foi reformado nos anos 2010, na esteira da ascensão do turismo na ilha. A reestruturação fez parte de uma parceria entre o governo cubano e a rede de hotéis suíça Kempinski, que, em 2017 reinaugurou o espaço, descrito pela empresa como “o primeiro hotel de luxo do país”. Hoje, no entanto, o espaço está vazio. “Eu mesmo trabalhava em outro hotel, que também fechou por enquanto. Daí me mandaram pra cá, ficar de vigilante”, me disse o rapaz.
O público cada vez mais escasso do Floridita e o fechamento temporário do Manzana, até agosto, são reflexos da diminuição do fluxo de turistas. A circulação cada vez menor de estrangeiros, por sua vez, é resultado de um outro problema: a falta de petróleo – e de energia elétrica – para manter o país funcionando. A conjunção de adversidades jogou Cuba em uma crise profunda, comparável apenas à vivida nos anos 1990, no chamado “Período Especial”, quando o colapso da União Soviética praticamente extinguiu o fornecimento de petróleo e suprimentos à ilha caribenha.
O colapso atual em Cuba tem influência direta dos Estados Unidos. Em janeiro, após a operação militar contra a Venezuela, Cuba perdeu seu aliado internacional e principal fornecedor de petróleo. Trump não só determinou a suspensão das exportações do líquido fóssil à ilha, como ameaçou impor tarifas aos países que furassem o bloqueio energético. Desde então, o nível das ameaças têm crescido. A Marinha e a Força Aérea norte-americanas têm realizado sobrevoos em áreas bastante próximas ao território cubano, numa repetição de movimentos semelhantes aos observados antes do ataque à Venezuela. O republicano já disse que “teria a honra” de tomar o controle do país, e que voltaria sua atenção à ilha depois da guerra do Irã.
Desde o fim de março, apenas a Rússia enviou um carregamento com cerca de 100 mil toneladas de petróleo bruto. A carga colocada em circulação no fim de abril foi rapidamente consumida. O volume era suficiente para cobrir apenas um terço da demanda mensal, segundo Irenaldo Pérez Cardoso, diretor-adjunto da empresa estatal União Cuba-Petróleo.
Para tentar amenizar a crise, o parlamento cubano aprovou por unanimidade uma reforma econômica na semana passada que vai abrir ainda mais a economia a investimentos privados em setores como turismo, agricultura, imobiliário e cambial. Bancos estrangeiros poderão se instalar no país. Algumas medidas são a transformação de empresas estatais em sociedades anônimas ou empresas de capital aberto, a possibilidade dos cubanos possuírem mais de um negócio privado e a participação em outras empresas.
“Não estamos fazendo isso devido à pressão dos 'ianques'. Estamos fazendo isso como um ato soberano”, afirmou o presidente Díaz-Canel. E completou: “São transformações que visam corrigir o rumo, mas sempre em defesa do socialismo.”
Estive em Havana por uma semana, no início de abril. Foi a minha segunda vez no país – em 2016, viajei por vinte dias, passando por cidades como Havana, Santa Clara e Santiago de Cuba. Ainda que o povo cubano nunca tenha vivido em abundância de suprimentos, o que se vê agora é bem diferente.
Pelas ruas da capital, montanhas de lixo aguardam a coleta do serviço público, que segue praticamente inoperante com a falta de combustível para abastecer os caminhões que fazem o recolhimento. Assim que o sol se põe, a cidade fica às escuras, como resultado dos apagões cada vez mais frequentes.
Desde o início da década de 2020, o país sofre com a falta de eletricidade, que afetava, sobretudo, as regiões do interior do país. Na capital, há registros de cortes mais severos no fornecimento desde 2022. Dois anos depois, Cuba passou a enfrentar grandes apagões nacionais, após falhas nos sistemas de geração de energia. Nada se compara, porém, à situação vivida neste ano. Após um alívio momentâneo pela chegada do petróleo russo, moradores de Havana relataram, em mais de uma ocasião, dias em que tiveram acesso a apenas duas horas de energia por dia. O governo cubano culpa o bloqueio norte-americano pelos apagões.
A escassez de energia elétrica fez o governo adotar estratégias para diminuir o consumo. Um dos setores mais atingidos é o turismo, justamente a área responsável por fazer o dinheiro circular na ilha. Em fevereiro, Óscar Pérez-Oliva Fraga, vice-primeiro-ministro cubano, anunciou a suspensão do fornecimento de querosene em seus aeroportos, o que impossibilita o abastecimento das aeronaves. Como consequência, diversas companhias aéreas suspenderam suas operações ao país caribenho. Além disso, hotéis foram fechados provisoriamente para “compactar as instalações turísticas”. A proposta prevê a suspensão das atividades em alguns hotéis administrados pelo Estado, para concentrar as operações nos poucos estabelecimentos que permanecem abertos.
Os hotéis privados, por sua vez, tentam manter as portas abertas. Serguei, um garçom do hotel Santa Clara, em Havana Vieja, no Centro Histórico, afirmou que, desde a saída de duas dinamarquesas, no início de março, o local, que comporta até catorze hóspedes, estava prestes a completar um mês de desocupação total. “Depois que suspenderam os voos, a gente teve muitos pedidos de cancelamento. Tinha gente que iria chegar aqui na semana seguinte, mas ligou cancelando a reserva.”
O icônico Hotel Nacional, que já abrigou alguns dos principais líderes mundiais em visitas oficiais a Cuba, estava praticamente às moscas quando o visitei. As mesas do bar no jardim, com vista para o Malecón, estavam parcialmente ocupadas, onde moradores locais e alguns poucos turistas tomavam um mojito. Na parte interna reinava o vazio absoluto. No bar que leva o nome do ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill não havia ninguém – nem clientes, nem bartenders – e algumas funcionárias aguardavam entediadas a chegada de algum freguês. Michel, um recepcionista que trabalha no Nacional há 36 anos, afirmou que o hotel estava com menos da metade da ocupação preenchida e que ele nunca havia visto o local tão desabitado – nem mesmo após o atentado de 1997, quando cinco hotéis da cidade foram bombardeados, segundo o governo cubano, por grupos financiados pela Fundação Nacional Cubano-Americana, uma organização anticastrista sediada em Miami, que desejava minar o crescente desenvolvimento do turismo na ilha.
A história do turismo em Cuba se mistura com o desenvolvimento do Estado nacional. A partir do fim da Primeira Guerra Mundial, o setor cresceu de forma organizada, impulsionado pelas divisas provenientes da exportação de açúcar. Praias paradisíacas, somadas a uma curta distância até a Flórida são alguns dos fatores que explicam o interesse no país, o que permitiu um rápido desenvolvimento do setor. Entre os anos de 1924 e 1925, Cuba recebeu mais de um terço de todos os turistas que viajaram ao Caribe.
Naquele momento, os norte-americanos eram grandes aliados – embora a relação entre os dois países estivesse longe de ser equilibrada. Separados por apenas 90 milhas marítimas – quase 150 km – os turistas norte-americanos respondiam por 85% do total de visitantes da ilha em 1930, de acordo com o estudo O Turismo em Cuba: Desenvolvimento, desafios e perspectivas, publicado em 2019 pelos irmãos Eduardo e Eros Salinas Chávez e Lluís Mundet Cerdan.
O estudo diz que, após o fim da Segunda Guerra Mundial, no período que “coincidiu com o auge dos jogos de azar e a abertura de numerosos cassinos, principalmente em Havana”, a presença de turistas norte-americanos aumentou para quase 90%. Eros é professor aposentado da Faculdade de Turismo de Havana e trabalhou por mais de duas décadas em agências de turismo do governo. Ele me disse que os investimentos no turismo cubano tornaram os Estados Unidos “donos de boa parte do território nacional” e que o objetivo dos investidores era transformar Cuba em “um grande cassino, com drogas, prostituição, bares, etc.”.
Isso mudou a partir de janeiro de 1959, com o triunfo da Revolução Cubana, que afastou os norte-americanos da ilha. Como resposta, os Estados Unidos promoverem, a partir do ano seguinte, uma série de sanções, incluindo o bloqueio econômico, para minguar as receitas do país. Ainda assim, nos primeiros meses depois da tomada de poder, o turismo era visto por Fidel como “um componente essencial para desenvolver nossa economia”, me disse Liliam Maldonado, pesquisadora da Universidade do Oriente, sediada em Santiago de Cuba.
Não por acaso, em 11 de julho de 1959, Fidel promoveu um jantar no Hilton em Havana para a Asta, a principal associação do setor de agências de viagens dos EUA. “Tanto o turismo nacional, ao gastar aqui o que antes gastava no exterior, quanto o aumento do fluxo de turistas estrangeiros beneficiarão todos os setores da produção nacional”, disse, na ocasião, segundo um artigo publicado pela professora Maldonado em 2021.
Com o avanço da Guerra Fria, Cuba se aproximou da União Soviética e se tornou a principal aliada do bloco socialista nas Américas. Com acordos comerciais extremamente vantajosos, que possibilitaram o desenvolvimento do projeto socialista no país, o turismo foi relegado ao segundo plano. Neste momento, segundo Eros Chávez, o contato entre turistas e a população cubana não era desejável do ponto de vista ideológico, já que isso poderia influenciar negativamente os valores revolucionários.
A situação mudou com a derrocada soviética e a crise dos anos 1990. Fidel e a cúpula do Partido Comunista entenderam que o turismo poderia ser uma importante fonte de renda para o país. “É notável o crescimento das receitas provenientes do turismo, e é muito importante que se compreenda a necessidade que o país tem do turismo, ainda que isso implique alguns sacrifícios para nós. Trata-se de salvar a pátria, a Revolução e o socialismo”, disse Fidel no congresso do Partido Comunista em outubro de 1991. Na mesma época, o governo criou o Gaesa, o principal conglomerado empresarial do país, controlado pelas Forças Armadas, que administra setores estratégicos da economia – como a rede hoteleira.
Se nas primeiras décadas após a Revolução o país recebia, majoritariamente, entusiastas do modelo socialista, curiosos para conhecer o país de Fidel Castro, o perfil de visitantes se tornou mais heterogêneo. Cuba investiu no turismo de sol e praia, o que ampliou a chegada de viajantes que se sentiam mais atraídos pelos resorts caribenhos do que pela mística em torno da mais importante revolução americana do século XX.
Com o passar dos anos, a tensão com os Estados Unidos diminuiu, tanto que o democrata Barack Obama visitou a ilha em 2016, interrompendo um hiato de 88 anos sem que um presidente norte-americano fosse a Cuba. O turismo ia bem – em 2018, pouco mais de 4,7 milhões de viajantes desembarcaram na ilha, a maior parte vindos do Canadá, de acordo com dados do Escritório Nacional de Estatística e Informação, a Onei.
Tudo mudou com a chegada de Trump ao poder. Em 2019, após dois anos na Casa Branca, ele voltou a apertar o cerco contra o regime socialista e retomou a restrição aos cruzeiros norte-americanos – houve uma queda de quase 10% no total de visitantes anuais em Cuba naquele ano. Em 2021, o republicano devolveu Cuba à lista dos Estados patrocinadores do terrorismo.
No começo de maio, a ofensiva de Trump se voltou contra o Gaesa, que controla a rede hoteleira. O presidente assinou um pacote de sanções que estabelece punições a empresas que mantenham relações comerciais com a estatal. Para fugir de eventuais problemas, as redes hoteleiras espanholas Meliá e Iberostar, que mantinham parcerias comerciais com o Gaesa, anunciaram uma redução drástica de suas operações. A canadense Blue Diamond decidiu suspender todas as atividades.
Segundo dados da Onei, até o fim de maio, Cuba tinha recebido 359 mil turistas internacionais, uma queda de 60% em comparação com o mesmo período do ano passado. A retração entre janeiro e março, após a suspensão das operações das companhias aéreas, foi de 81%: de 184 mil visitantes para 35 mil. “Cuba deixou de ser um destino atrativo e não vejo uma saída para esse momento”, disse Eros Chávez.
Para além das estatísticas oficiais, o turismo em Havana sustenta uma dinâmica menos visível, mas que impacta diretamente a população, sobretudo a parcela mais pobre, já que os visitantes estrangeiros funcionam como uma rede informal de sobrevivência. “Costumo pedir muita ajuda aos turistas porque, como falo inglês, aproveito a oportunidade, e, às vezes, eles me dão remédios para as dores ou para a febre da minha mãe”, disse Rafael Navarro, de 61 anos, aposentado por invalidez.
Navarro é um homem negro com não mais do que 1,70 metro de altura. Ele passa os dias perambulando pelo Centro da cidade, enquanto tenta vender um souvenir meio improvisado que ele criou: um pacotinho com uma nota e algumas moedas que levam o rosto de Che Guevara, líder revolucionário que presidiu o Banco Nacional de Cuba após o triunfo da Revolução. “Vendo por um ou dois dólares para conseguir comer alguma coisa. Faz uma semana que estou tentando vender essa, mas ainda não consegui.”
Nos encontramos por acaso em quatro oportunidades. Em todas as vezes ele vestia a mesma roupa: chinelos, uma bermuda com a bandeira dos Estados Unidos estampada, uma camiseta laranja do Paris Saint-Germain e um boné vermelho com a bandeira do México. Após um desses encontros, Navarro me convidou para conhecer sua casa. Caminhamos até o modesto apartamento térreo em Havana Vieja, onde mora com a mãe. Ali, eles dividem uma cama, um sofá, uma pequena televisão e um mesmo cômodo onde ficam o banheiro e a cozinha. Sem a renda extra vinda dos turistas, os dias de Navarro e sua mãe são difíceis.
Ele recebe uma aposentadoria de 2,5 mil pesos cubanos por mês – o equivalente a 25 reais no câmbio paralelo, o mais utilizado pelos turistas (no câmbio oficial, a quantia equivale a 530 reais). Oficialmente, o piso da aposentadoria é de 3 mil pesos (30 reais no câmbio paralelo e 637 reais no oficial), o preço de uma cartela com trinta ovos no mercado privado. “Tento resolver meu problema e da minha mãe nas cafeterias, como a que você me viu agora”, afirmou. Para ele, que viveu o Período Especial, a crise atual é a pior que já enfrentou. “Com Fidel Castro nunca passamos fome ou tivemos a falta de remédios. Pelo menos tínhamos alguma comida. As bodegas agora estão todas vazias.”
As bodegas foram criadas pelo governo nos anos 1960 para distribuir alimentos e produtos básicos. São pequenos mercados que operam por meio da libreta de abastecimiento, uma caderneta de racionamento que define a quantidade mensal de itens subsidiados destinada a cada família. “Já tem muito tempo que não chega nada de proteína por aqui. Acho que pelo menos uns dois meses”, disse o funcionário de umas das bodegas da região central de Havana.
Uma alternativa às bodegas são os mercados privados, que surgiram nos anos 1990 como uma das formas de mitigar os efeitos do declínio durante o Período Especial. Naquele momento, o governo autorizou a criação de pequenos negócios familiares, restaurantes privados e mercados agropecuários, que permitiam aos agricultores e cooperativas venderem parte da produção diretamente ao consumidor final. Em 2008, Fidel Castro, com a saúde debilitada, passou o poder a seu irmão Raúl, e uma nova leva de reformas abriu um pouco mais a economia. Mas é a partir de 2021, já com Miguel Diaz-Canel à frente da presidência, que há o surgimento dos mercados privados popularmente chamados de Mipymes – sigla para micro, pequeñas y medianas empresas –, espalhados por toda Havana. Eles importam produtos do exterior e pagam imposto ao governo cubano.
Até o recrudescimento do cenário atual, o cubano a pie, como é chamado o cubano “comum”, conseguia encontrar produtos no comércio estatal. Agora, isso já não é mais possível, já que eles estão desabastecidos. A saída tem sido recorrer às Mipymes, que têm garantido as provisões da ilha, mas que não operam com preços tabelados e ofertam itens a preços mais elevados. Por isso, é comum ver longas filas em Mipymes com mercadorias cujo valor é mais acessível.
No Centro da cidade, por exemplo, um desses mercados vendia meio quilo de carne de porco por 900 pesos cubanos – valor considerado aceitável neste momento. Joaquín, um homem de 65 anos, esperava ansiosamente pela sua vez. Depois de uns 20 minutos, os funcionários do estabelecimento avisaram que a carne tinha acabado. “Hoje não consegui comprar. Está difícil. Vou caminhar por aqui para ver se encontro alguma coisa em outro lugar”, disse o homem que, apesar das adversidades, ainda conseguia manter um sorriso no rosto.
Nas farmácias estatais, onde os preços também são tabelados, a lógica é a mesma dos mercados – faltam remédios e a maioria deles só pode ser encontrada no mercado privado ou clandestinamente. “O que temos no momento são medicamentos à base de ervas”, disse a farmacêutica Elizabeth, que convive diariamente com as prateleiras vazias e já não se lembra da última vez que recebeu uma caixa de paracetamol – o remédio era vendido por 4 pesos. Nas ruas de Havana, em barracas improvisadas, medicamentos de toda sorte podem ser encontrados, apesar de a venda ser, em tese, proibida. Uma cartela de paracetamol pode custar até 600 pesos.
A explicação para esse mercado informal é, digamos, nebulosa, como muitas coisas que acontecem em Cuba. Alguns produtos entram no país como doação e, depois, são revendidos na rua. Existem pessoas que também saem da ilha para buscar mercadorias em outros países – o trecho Caracas-Havana, como o que eu fiz, é uma espécie de grande mercado aéreo.
O desabastecimento dos mercados estatais e a oferta contínua dos estabelecimentos privados têm escancarado uma desigualdade social entre os “cubanos comuns” que, se não é inédita, era menos perceptível. Para aqueles que dependem do governo, a decadência é total – falta luz, água, comida e medicamentos. Para o cubano comum que tem parentes no exterior e recebe alguma ajuda financeira, a situação não é tão ruim, porque eles podem comprar nas Mipymes ou no mercado informal, mesmo com preço elevado. Assim, alguns teóricos têm afirmado que Cuba passa por uma “sulamericanização”: recrudescimento da desigualdade social e da pobreza para uma parcela da população em detrimento de outra.
Para Miguel Padrón Aleman, doutor em história contemporânea pela Universidade de Zaragoza, que morou três anos em Cuba e tem pesquisas publicadas sobre o país caribenho, as adversidades de agora são as piores enfrentadas pelos cubanos desde que a Revolução chegou ao poder. “No Período Especial havia mais produtos nas bodegas, isso é verdade. Uma outra diferença importante é que, naquele momento, os cubanos acreditavam que a crise se tratava de um momento passageiro. Agora, a sensação é de que se trata de algo estrutural. Há uma falta de perspectiva.”
Afalta de perspectiva mencionada por Aleman ajuda a explicar um sentimento recorrente entre os cubanos: o desejo de que algo mude. “Para mim, pouco importa quem vai estar à frente do governo, mas desse jeito não dá pra viver”, disse Yoanis, morador do bairro de Alamar, na periferia de Havana, que me recebeu em sua casa.
Alamar é um bairro de conjuntos habitacionais de arquitetura soviética, resquícios de décadas passadas. As ruas são amplas e arborizadas e há pouco lixo acumulado nas calçadas – diferentemente do que se vê em Havana Vieja. A aparente sensação de tranquilidade, no entanto, não faz com que o lugar – e seus habitantes – estejam imunes às dificuldades.
Yoanis vive com a mulher e os dois filhos em um edifício de três andares, com dois apartamentos por andar. Seu apartamento tem três quartos, uma sala e uma cozinha equipada com todos os eletrodomésticos básicos. Mas, no momento, seu fogão não tem utilidade.
Ao contrário dos bairros mais centrais, Alamar não tem gás encanado e, sem petróleo, não há produção de botijão de gás. Acompanhei Yoanis ao pequeno depósito a dois quarteirões de sua casa onde os botijões são vendidos. O local está trancado e cercado por uma grade verde. “Faz muito tempo que não chega nenhum botijão”, afirmou ele.
Sem gás, Yoanis e seus vizinhos tiveram que recorrer ao carvão. A escassez acabou criando um pequeno mercado informal: pelas ruas do bairro, surgiram barracas improvisadas vendendo sacos de carvão. Em frente à sua casa, uma lata do produto, suficiente para refeições por quatro dias, é vendida por mil pesos, cerca de 10 reais no câmbio paralelo e 212 reais no oficial.
Para cozinhar, os moradores do edifício montaram, nos lances intermediários dos andares, um sistema improvisado. No chão, há uma bandeja de alumínio. Em cima dela, uma tigela de ferro e, por cima, uma grade, também de ferro. O carvão é colocado na tigela. A panela vai sobre a grade. “Foi o jeito que encontramos. Dá um trabalho bem grande e nos toma um tempão para cozinhar. Mas não tem o que fazer”, lamentou Yoanis.
Além da falta de gás, essa região da cidade também tem convivido com apagões severos – em alguns casos, são 20 horas diárias sem luz. Para driblar a escuridão, Yoanis desenvolveu um sistema caseiro utilizando uma bateria de carro conectada a um extensor com tomadas onde os aparelhos podem ser ligados. A geringonça transformou sua casa em um pequeno ponto de apoio para a vizinhança. “Isso aqui garante a eletricidade da casa toda. Até a geladeira consigo deixar ligada”, explicou ele, orgulhoso.
Caminhar por Havana é se deparar com a instabilidade econômica e social e as várias formas de enfrentá-las. Em La Rampa, tradicional ponto de encontro noturno no bairro de Vedado, no Centro Histórico de Havana, ainda havia espaço para música, bebida e algum tipo de leveza, em meio a ruas escuras e prostitutas à procura de clientes.
Por volta das 23 horas, adentrei um bar repleto de jovens cubanos. Em certo momento da noite, uma atriz trans iniciou uma performance que terminava com ela aos gritos jogando camisinhas ao público. Os preservativos eram amostras grátis enviadas pelo governo da cidade de Madri, na Espanha. O público foi à loucura. Diante de uma escassez generalizada, perguntei a um rapaz se era fácil conseguir camisinhas na cidade, uma vez que nas farmácias o item estava em falta. “Não é tão simples. Quando eu preciso, compro em grupos de vendas do Telegram”, disse o jovem.
Por alguns momentos, acreditei que aquela festa havia conseguido suspender a dura realidade cubana do lado de fora do bar. Mas durou pouco, até o momento que precisei ir ao banheiro: abri a torneira para lavar as mãos e não saiu água. Os geradores conseguiam manter a música alta e as luzes acesas, mas a infraestrutura da cidade seguia colapsada.

Assine nossa newsletter
toda semana uma seleção de conteúdos em destaque na piauí
Seu e-mailassine
A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.

Pedro Pannunzio
É jornalista baseado em Caracas
A poucos metros dali, o Gran Hotel Manzana, que ocupa um quarteirão inteiro em frente ao Parque Central da cidade, mantinha apagadas as luzes das vitrines de grife no piso térreo do edifício. “O hotel fechou no último sábado”, disse um homem de óculos escuros e camisa branca de manga curta, parado sob os pórticos de entrada do estabelecimento. As portas de madeira de mais de 2 metros de altura estavam fechadas, assim como as janelas dos quartos que compunham a fachada do hotel.
Inaugurado no início do século XX como um centro de compras, o Manzana foi reformado nos anos 2010, na esteira da ascensão do turismo na ilha. A reestruturação fez parte de uma parceria entre o governo cubano e a rede de hotéis suíça Kempinski, que, em 2017 reinaugurou o espaço, descrito pela empresa como “o primeiro hotel de luxo do país”. Hoje, no entanto, o espaço está vazio. “Eu mesmo trabalhava em outro hotel, que também fechou por enquanto. Daí me mandaram pra cá, ficar de vigilante”, me disse o rapaz.
O público cada vez mais escasso do Floridita e o fechamento temporário do Manzana, até agosto, são reflexos da diminuição do fluxo de turistas. A circulação cada vez menor de estrangeiros, por sua vez, é resultado de um outro problema: a falta de petróleo – e de energia elétrica – para manter o país funcionando. A conjunção de adversidades jogou Cuba em uma crise profunda, comparável apenas à vivida nos anos 1990, no chamado “Período Especial”, quando o colapso da União Soviética praticamente extinguiu o fornecimento de petróleo e suprimentos à ilha caribenha.
O colapso atual em Cuba tem influência direta dos Estados Unidos. Em janeiro, após a operação militar contra a Venezuela, Cuba perdeu seu aliado internacional e principal fornecedor de petróleo. Trump não só determinou a suspensão das exportações do líquido fóssil à ilha, como ameaçou impor tarifas aos países que furassem o bloqueio energético. Desde então, o nível das ameaças têm crescido. A Marinha e a Força Aérea norte-americanas têm realizado sobrevoos em áreas bastante próximas ao território cubano, numa repetição de movimentos semelhantes aos observados antes do ataque à Venezuela. O republicano já disse que “teria a honra” de tomar o controle do país, e que voltaria sua atenção à ilha depois da guerra do Irã.
Desde o fim de março, apenas a Rússia enviou um carregamento com cerca de 100 mil toneladas de petróleo bruto. A carga colocada em circulação no fim de abril foi rapidamente consumida. O volume era suficiente para cobrir apenas um terço da demanda mensal, segundo Irenaldo Pérez Cardoso, diretor-adjunto da empresa estatal União Cuba-Petróleo.
Para tentar amenizar a crise, o parlamento cubano aprovou por unanimidade uma reforma econômica na semana passada que vai abrir ainda mais a economia a investimentos privados em setores como turismo, agricultura, imobiliário e cambial. Bancos estrangeiros poderão se instalar no país. Algumas medidas são a transformação de empresas estatais em sociedades anônimas ou empresas de capital aberto, a possibilidade dos cubanos possuírem mais de um negócio privado e a participação em outras empresas.
“Não estamos fazendo isso devido à pressão dos 'ianques'. Estamos fazendo isso como um ato soberano”, afirmou o presidente Díaz-Canel. E completou: “São transformações que visam corrigir o rumo, mas sempre em defesa do socialismo.”
Estive em Havana por uma semana, no início de abril. Foi a minha segunda vez no país – em 2016, viajei por vinte dias, passando por cidades como Havana, Santa Clara e Santiago de Cuba. Ainda que o povo cubano nunca tenha vivido em abundância de suprimentos, o que se vê agora é bem diferente.
Pelas ruas da capital, montanhas de lixo aguardam a coleta do serviço público, que segue praticamente inoperante com a falta de combustível para abastecer os caminhões que fazem o recolhimento. Assim que o sol se põe, a cidade fica às escuras, como resultado dos apagões cada vez mais frequentes.
Desde o início da década de 2020, o país sofre com a falta de eletricidade, que afetava, sobretudo, as regiões do interior do país. Na capital, há registros de cortes mais severos no fornecimento desde 2022. Dois anos depois, Cuba passou a enfrentar grandes apagões nacionais, após falhas nos sistemas de geração de energia. Nada se compara, porém, à situação vivida neste ano. Após um alívio momentâneo pela chegada do petróleo russo, moradores de Havana relataram, em mais de uma ocasião, dias em que tiveram acesso a apenas duas horas de energia por dia. O governo cubano culpa o bloqueio norte-americano pelos apagões.
A escassez de energia elétrica fez o governo adotar estratégias para diminuir o consumo. Um dos setores mais atingidos é o turismo, justamente a área responsável por fazer o dinheiro circular na ilha. Em fevereiro, Óscar Pérez-Oliva Fraga, vice-primeiro-ministro cubano, anunciou a suspensão do fornecimento de querosene em seus aeroportos, o que impossibilita o abastecimento das aeronaves. Como consequência, diversas companhias aéreas suspenderam suas operações ao país caribenho. Além disso, hotéis foram fechados provisoriamente para “compactar as instalações turísticas”. A proposta prevê a suspensão das atividades em alguns hotéis administrados pelo Estado, para concentrar as operações nos poucos estabelecimentos que permanecem abertos.
Os hotéis privados, por sua vez, tentam manter as portas abertas. Serguei, um garçom do hotel Santa Clara, em Havana Vieja, no Centro Histórico, afirmou que, desde a saída de duas dinamarquesas, no início de março, o local, que comporta até catorze hóspedes, estava prestes a completar um mês de desocupação total. “Depois que suspenderam os voos, a gente teve muitos pedidos de cancelamento. Tinha gente que iria chegar aqui na semana seguinte, mas ligou cancelando a reserva.”
O icônico Hotel Nacional, que já abrigou alguns dos principais líderes mundiais em visitas oficiais a Cuba, estava praticamente às moscas quando o visitei. As mesas do bar no jardim, com vista para o Malecón, estavam parcialmente ocupadas, onde moradores locais e alguns poucos turistas tomavam um mojito. Na parte interna reinava o vazio absoluto. No bar que leva o nome do ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill não havia ninguém – nem clientes, nem bartenders – e algumas funcionárias aguardavam entediadas a chegada de algum freguês. Michel, um recepcionista que trabalha no Nacional há 36 anos, afirmou que o hotel estava com menos da metade da ocupação preenchida e que ele nunca havia visto o local tão desabitado – nem mesmo após o atentado de 1997, quando cinco hotéis da cidade foram bombardeados, segundo o governo cubano, por grupos financiados pela Fundação Nacional Cubano-Americana, uma organização anticastrista sediada em Miami, que desejava minar o crescente desenvolvimento do turismo na ilha.
A história do turismo em Cuba se mistura com o desenvolvimento do Estado nacional. A partir do fim da Primeira Guerra Mundial, o setor cresceu de forma organizada, impulsionado pelas divisas provenientes da exportação de açúcar. Praias paradisíacas, somadas a uma curta distância até a Flórida são alguns dos fatores que explicam o interesse no país, o que permitiu um rápido desenvolvimento do setor. Entre os anos de 1924 e 1925, Cuba recebeu mais de um terço de todos os turistas que viajaram ao Caribe.
Naquele momento, os norte-americanos eram grandes aliados – embora a relação entre os dois países estivesse longe de ser equilibrada. Separados por apenas 90 milhas marítimas – quase 150 km – os turistas norte-americanos respondiam por 85% do total de visitantes da ilha em 1930, de acordo com o estudo O Turismo em Cuba: Desenvolvimento, desafios e perspectivas, publicado em 2019 pelos irmãos Eduardo e Eros Salinas Chávez e Lluís Mundet Cerdan.
O estudo diz que, após o fim da Segunda Guerra Mundial, no período que “coincidiu com o auge dos jogos de azar e a abertura de numerosos cassinos, principalmente em Havana”, a presença de turistas norte-americanos aumentou para quase 90%. Eros é professor aposentado da Faculdade de Turismo de Havana e trabalhou por mais de duas décadas em agências de turismo do governo. Ele me disse que os investimentos no turismo cubano tornaram os Estados Unidos “donos de boa parte do território nacional” e que o objetivo dos investidores era transformar Cuba em “um grande cassino, com drogas, prostituição, bares, etc.”.
Isso mudou a partir de janeiro de 1959, com o triunfo da Revolução Cubana, que afastou os norte-americanos da ilha. Como resposta, os Estados Unidos promoverem, a partir do ano seguinte, uma série de sanções, incluindo o bloqueio econômico, para minguar as receitas do país. Ainda assim, nos primeiros meses depois da tomada de poder, o turismo era visto por Fidel como “um componente essencial para desenvolver nossa economia”, me disse Liliam Maldonado, pesquisadora da Universidade do Oriente, sediada em Santiago de Cuba.
Não por acaso, em 11 de julho de 1959, Fidel promoveu um jantar no Hilton em Havana para a Asta, a principal associação do setor de agências de viagens dos EUA. “Tanto o turismo nacional, ao gastar aqui o que antes gastava no exterior, quanto o aumento do fluxo de turistas estrangeiros beneficiarão todos os setores da produção nacional”, disse, na ocasião, segundo um artigo publicado pela professora Maldonado em 2021.
Com o avanço da Guerra Fria, Cuba se aproximou da União Soviética e se tornou a principal aliada do bloco socialista nas Américas. Com acordos comerciais extremamente vantajosos, que possibilitaram o desenvolvimento do projeto socialista no país, o turismo foi relegado ao segundo plano. Neste momento, segundo Eros Chávez, o contato entre turistas e a população cubana não era desejável do ponto de vista ideológico, já que isso poderia influenciar negativamente os valores revolucionários.
A situação mudou com a derrocada soviética e a crise dos anos 1990. Fidel e a cúpula do Partido Comunista entenderam que o turismo poderia ser uma importante fonte de renda para o país. “É notável o crescimento das receitas provenientes do turismo, e é muito importante que se compreenda a necessidade que o país tem do turismo, ainda que isso implique alguns sacrifícios para nós. Trata-se de salvar a pátria, a Revolução e o socialismo”, disse Fidel no congresso do Partido Comunista em outubro de 1991. Na mesma época, o governo criou o Gaesa, o principal conglomerado empresarial do país, controlado pelas Forças Armadas, que administra setores estratégicos da economia – como a rede hoteleira.
Se nas primeiras décadas após a Revolução o país recebia, majoritariamente, entusiastas do modelo socialista, curiosos para conhecer o país de Fidel Castro, o perfil de visitantes se tornou mais heterogêneo. Cuba investiu no turismo de sol e praia, o que ampliou a chegada de viajantes que se sentiam mais atraídos pelos resorts caribenhos do que pela mística em torno da mais importante revolução americana do século XX.
Com o passar dos anos, a tensão com os Estados Unidos diminuiu, tanto que o democrata Barack Obama visitou a ilha em 2016, interrompendo um hiato de 88 anos sem que um presidente norte-americano fosse a Cuba. O turismo ia bem – em 2018, pouco mais de 4,7 milhões de viajantes desembarcaram na ilha, a maior parte vindos do Canadá, de acordo com dados do Escritório Nacional de Estatística e Informação, a Onei.
Tudo mudou com a chegada de Trump ao poder. Em 2019, após dois anos na Casa Branca, ele voltou a apertar o cerco contra o regime socialista e retomou a restrição aos cruzeiros norte-americanos – houve uma queda de quase 10% no total de visitantes anuais em Cuba naquele ano. Em 2021, o republicano devolveu Cuba à lista dos Estados patrocinadores do terrorismo.
No começo de maio, a ofensiva de Trump se voltou contra o Gaesa, que controla a rede hoteleira. O presidente assinou um pacote de sanções que estabelece punições a empresas que mantenham relações comerciais com a estatal. Para fugir de eventuais problemas, as redes hoteleiras espanholas Meliá e Iberostar, que mantinham parcerias comerciais com o Gaesa, anunciaram uma redução drástica de suas operações. A canadense Blue Diamond decidiu suspender todas as atividades.
Segundo dados da Onei, até o fim de maio, Cuba tinha recebido 359 mil turistas internacionais, uma queda de 60% em comparação com o mesmo período do ano passado. A retração entre janeiro e março, após a suspensão das operações das companhias aéreas, foi de 81%: de 184 mil visitantes para 35 mil. “Cuba deixou de ser um destino atrativo e não vejo uma saída para esse momento”, disse Eros Chávez.
Para além das estatísticas oficiais, o turismo em Havana sustenta uma dinâmica menos visível, mas que impacta diretamente a população, sobretudo a parcela mais pobre, já que os visitantes estrangeiros funcionam como uma rede informal de sobrevivência. “Costumo pedir muita ajuda aos turistas porque, como falo inglês, aproveito a oportunidade, e, às vezes, eles me dão remédios para as dores ou para a febre da minha mãe”, disse Rafael Navarro, de 61 anos, aposentado por invalidez.
Navarro é um homem negro com não mais do que 1,70 metro de altura. Ele passa os dias perambulando pelo Centro da cidade, enquanto tenta vender um souvenir meio improvisado que ele criou: um pacotinho com uma nota e algumas moedas que levam o rosto de Che Guevara, líder revolucionário que presidiu o Banco Nacional de Cuba após o triunfo da Revolução. “Vendo por um ou dois dólares para conseguir comer alguma coisa. Faz uma semana que estou tentando vender essa, mas ainda não consegui.”
Nos encontramos por acaso em quatro oportunidades. Em todas as vezes ele vestia a mesma roupa: chinelos, uma bermuda com a bandeira dos Estados Unidos estampada, uma camiseta laranja do Paris Saint-Germain e um boné vermelho com a bandeira do México. Após um desses encontros, Navarro me convidou para conhecer sua casa. Caminhamos até o modesto apartamento térreo em Havana Vieja, onde mora com a mãe. Ali, eles dividem uma cama, um sofá, uma pequena televisão e um mesmo cômodo onde ficam o banheiro e a cozinha. Sem a renda extra vinda dos turistas, os dias de Navarro e sua mãe são difíceis.
Ele recebe uma aposentadoria de 2,5 mil pesos cubanos por mês – o equivalente a 25 reais no câmbio paralelo, o mais utilizado pelos turistas (no câmbio oficial, a quantia equivale a 530 reais). Oficialmente, o piso da aposentadoria é de 3 mil pesos (30 reais no câmbio paralelo e 637 reais no oficial), o preço de uma cartela com trinta ovos no mercado privado. “Tento resolver meu problema e da minha mãe nas cafeterias, como a que você me viu agora”, afirmou. Para ele, que viveu o Período Especial, a crise atual é a pior que já enfrentou. “Com Fidel Castro nunca passamos fome ou tivemos a falta de remédios. Pelo menos tínhamos alguma comida. As bodegas agora estão todas vazias.”
As bodegas foram criadas pelo governo nos anos 1960 para distribuir alimentos e produtos básicos. São pequenos mercados que operam por meio da libreta de abastecimiento, uma caderneta de racionamento que define a quantidade mensal de itens subsidiados destinada a cada família. “Já tem muito tempo que não chega nada de proteína por aqui. Acho que pelo menos uns dois meses”, disse o funcionário de umas das bodegas da região central de Havana.
Uma alternativa às bodegas são os mercados privados, que surgiram nos anos 1990 como uma das formas de mitigar os efeitos do declínio durante o Período Especial. Naquele momento, o governo autorizou a criação de pequenos negócios familiares, restaurantes privados e mercados agropecuários, que permitiam aos agricultores e cooperativas venderem parte da produção diretamente ao consumidor final. Em 2008, Fidel Castro, com a saúde debilitada, passou o poder a seu irmão Raúl, e uma nova leva de reformas abriu um pouco mais a economia. Mas é a partir de 2021, já com Miguel Diaz-Canel à frente da presidência, que há o surgimento dos mercados privados popularmente chamados de Mipymes – sigla para micro, pequeñas y medianas empresas –, espalhados por toda Havana. Eles importam produtos do exterior e pagam imposto ao governo cubano.
Até o recrudescimento do cenário atual, o cubano a pie, como é chamado o cubano “comum”, conseguia encontrar produtos no comércio estatal. Agora, isso já não é mais possível, já que eles estão desabastecidos. A saída tem sido recorrer às Mipymes, que têm garantido as provisões da ilha, mas que não operam com preços tabelados e ofertam itens a preços mais elevados. Por isso, é comum ver longas filas em Mipymes com mercadorias cujo valor é mais acessível.
No Centro da cidade, por exemplo, um desses mercados vendia meio quilo de carne de porco por 900 pesos cubanos – valor considerado aceitável neste momento. Joaquín, um homem de 65 anos, esperava ansiosamente pela sua vez. Depois de uns 20 minutos, os funcionários do estabelecimento avisaram que a carne tinha acabado. “Hoje não consegui comprar. Está difícil. Vou caminhar por aqui para ver se encontro alguma coisa em outro lugar”, disse o homem que, apesar das adversidades, ainda conseguia manter um sorriso no rosto.
Nas farmácias estatais, onde os preços também são tabelados, a lógica é a mesma dos mercados – faltam remédios e a maioria deles só pode ser encontrada no mercado privado ou clandestinamente. “O que temos no momento são medicamentos à base de ervas”, disse a farmacêutica Elizabeth, que convive diariamente com as prateleiras vazias e já não se lembra da última vez que recebeu uma caixa de paracetamol – o remédio era vendido por 4 pesos. Nas ruas de Havana, em barracas improvisadas, medicamentos de toda sorte podem ser encontrados, apesar de a venda ser, em tese, proibida. Uma cartela de paracetamol pode custar até 600 pesos.
A explicação para esse mercado informal é, digamos, nebulosa, como muitas coisas que acontecem em Cuba. Alguns produtos entram no país como doação e, depois, são revendidos na rua. Existem pessoas que também saem da ilha para buscar mercadorias em outros países – o trecho Caracas-Havana, como o que eu fiz, é uma espécie de grande mercado aéreo.
O desabastecimento dos mercados estatais e a oferta contínua dos estabelecimentos privados têm escancarado uma desigualdade social entre os “cubanos comuns” que, se não é inédita, era menos perceptível. Para aqueles que dependem do governo, a decadência é total – falta luz, água, comida e medicamentos. Para o cubano comum que tem parentes no exterior e recebe alguma ajuda financeira, a situação não é tão ruim, porque eles podem comprar nas Mipymes ou no mercado informal, mesmo com preço elevado. Assim, alguns teóricos têm afirmado que Cuba passa por uma “sulamericanização”: recrudescimento da desigualdade social e da pobreza para uma parcela da população em detrimento de outra.
Para Miguel Padrón Aleman, doutor em história contemporânea pela Universidade de Zaragoza, que morou três anos em Cuba e tem pesquisas publicadas sobre o país caribenho, as adversidades de agora são as piores enfrentadas pelos cubanos desde que a Revolução chegou ao poder. “No Período Especial havia mais produtos nas bodegas, isso é verdade. Uma outra diferença importante é que, naquele momento, os cubanos acreditavam que a crise se tratava de um momento passageiro. Agora, a sensação é de que se trata de algo estrutural. Há uma falta de perspectiva.”
Afalta de perspectiva mencionada por Aleman ajuda a explicar um sentimento recorrente entre os cubanos: o desejo de que algo mude. “Para mim, pouco importa quem vai estar à frente do governo, mas desse jeito não dá pra viver”, disse Yoanis, morador do bairro de Alamar, na periferia de Havana, que me recebeu em sua casa.
Alamar é um bairro de conjuntos habitacionais de arquitetura soviética, resquícios de décadas passadas. As ruas são amplas e arborizadas e há pouco lixo acumulado nas calçadas – diferentemente do que se vê em Havana Vieja. A aparente sensação de tranquilidade, no entanto, não faz com que o lugar – e seus habitantes – estejam imunes às dificuldades.
Yoanis vive com a mulher e os dois filhos em um edifício de três andares, com dois apartamentos por andar. Seu apartamento tem três quartos, uma sala e uma cozinha equipada com todos os eletrodomésticos básicos. Mas, no momento, seu fogão não tem utilidade.
Ao contrário dos bairros mais centrais, Alamar não tem gás encanado e, sem petróleo, não há produção de botijão de gás. Acompanhei Yoanis ao pequeno depósito a dois quarteirões de sua casa onde os botijões são vendidos. O local está trancado e cercado por uma grade verde. “Faz muito tempo que não chega nenhum botijão”, afirmou ele.
Sem gás, Yoanis e seus vizinhos tiveram que recorrer ao carvão. A escassez acabou criando um pequeno mercado informal: pelas ruas do bairro, surgiram barracas improvisadas vendendo sacos de carvão. Em frente à sua casa, uma lata do produto, suficiente para refeições por quatro dias, é vendida por mil pesos, cerca de 10 reais no câmbio paralelo e 212 reais no oficial.
Para cozinhar, os moradores do edifício montaram, nos lances intermediários dos andares, um sistema improvisado. No chão, há uma bandeja de alumínio. Em cima dela, uma tigela de ferro e, por cima, uma grade, também de ferro. O carvão é colocado na tigela. A panela vai sobre a grade. “Foi o jeito que encontramos. Dá um trabalho bem grande e nos toma um tempão para cozinhar. Mas não tem o que fazer”, lamentou Yoanis.
Além da falta de gás, essa região da cidade também tem convivido com apagões severos – em alguns casos, são 20 horas diárias sem luz. Para driblar a escuridão, Yoanis desenvolveu um sistema caseiro utilizando uma bateria de carro conectada a um extensor com tomadas onde os aparelhos podem ser ligados. A geringonça transformou sua casa em um pequeno ponto de apoio para a vizinhança. “Isso aqui garante a eletricidade da casa toda. Até a geladeira consigo deixar ligada”, explicou ele, orgulhoso.
Caminhar por Havana é se deparar com a instabilidade econômica e social e as várias formas de enfrentá-las. Em La Rampa, tradicional ponto de encontro noturno no bairro de Vedado, no Centro Histórico de Havana, ainda havia espaço para música, bebida e algum tipo de leveza, em meio a ruas escuras e prostitutas à procura de clientes.
Por volta das 23 horas, adentrei um bar repleto de jovens cubanos. Em certo momento da noite, uma atriz trans iniciou uma performance que terminava com ela aos gritos jogando camisinhas ao público. Os preservativos eram amostras grátis enviadas pelo governo da cidade de Madri, na Espanha. O público foi à loucura. Diante de uma escassez generalizada, perguntei a um rapaz se era fácil conseguir camisinhas na cidade, uma vez que nas farmácias o item estava em falta. “Não é tão simples. Quando eu preciso, compro em grupos de vendas do Telegram”, disse o jovem.
Por alguns momentos, acreditei que aquela festa havia conseguido suspender a dura realidade cubana do lado de fora do bar. Mas durou pouco, até o momento que precisei ir ao banheiro: abri a torneira para lavar as mãos e não saiu água. Os geradores conseguiam manter a música alta e as luzes acesas, mas a infraestrutura da cidade seguia colapsada.
Assine nossa newsletter
toda semana uma seleção de conteúdos em destaque na piauí
Seu e-mailassine
A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.

Pedro Pannunzio
É jornalista baseado em Caracas

Nenhum comentário:
Postar um comentário