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Colômbia: a difícil luta pela virada

Diante de uma ultradireita que promete submissão aos EUA, corte de 40% nos gastos públicos e megaprisões, Ivan Cepeda tem um plano, neste domingo: escancarar o risco de retrocesso e chamar às urnas quem não votou no 1º turno


De Outras Palavras, 17 de junho 2026
Por Aaron Tauss, no Nuso | Tradução: Rôney Rodrigues



Foto: Fernando Vergara / AP

No dia 31 de maio, cerca de 41 milhões de colombianos foram convocados às urnas para eleger o sucessor de Gustavo Petro, que, de acordo com a Constituição, não podia concorrer a um segundo mandato. As eleições foram vistas como um plebiscito sobre a continuidade de seu projeto político, baseado em maior investimento social e no diálogo com grupos armados. Muitos veículos de imprensa destacavam que sua popularidade estava “inusitadamente alta” para a fase final de seu mandato, segundo algumas pesquisas próxima de 50%, apesar de diversos percalços durante sua gestão. Porém, o primeiro turno das eleições presidenciais terminou com a surpreendente primeira colocação de Abelardo de la Espriella, um outsider de extrema direita que obteve 43,7% dos votos, superando Iván Cepeda, representante da coalizão governista, que alcançou 40,9%. A senadora conservadora Paloma Valencia, candidata do setor do ex-presidente Álvaro Uribe, ficou muito atrás de ambos os candidatos e abaixo de suas próprias expectativas, atingindo apenas 6,9%. A participação foi de 57,88%, a maior registrada em um primeiro turno presidencial na história recente do país.

Enquanto em 2022 Petro obteve um percentual semelhante (40,34%), mas ficou 12 pontos à frente do segundo colocado, Cepeda começará a caminhada para o segundo turno do dia 21 de junho em desvantagem. A maioria das pesquisas lhe dava um confortável primeiro lugar, de modo que o resultado foi um golpe no ânimo de sua campanha.

“O Tigre” e a reconfiguração da direita

Uma das chaves para compreender os resultados do primeiro turno – e as dinâmicas que provavelmente também definirão o segundo – é que a direita colombiana, hegemonizada nas últimas duas décadas pelo uribismo, concorreu às eleições com duas candidaturas em disputa e, assim como nos pleitos presidenciais anteriores, foi novamente um candidato independente quem conseguiu atrair a maior parte desse eleitorado e garantir sua passagem ao segundo turno.

Como em outros países, a direita radical acabou “devorando” o voto da direita tradicional. Embora De la Espriella tenha procurado projetar uma imagem alheia às estruturas tradicionais da direita colombiana, ele faz parte do universo político do uribismo, com o qual manteve estreitos vínculos durante anos.

De la Espriella se autodenomina “o Tigre”, apelido que remete ao usado pelo presidente argentino Javier Milei, que recorreu à figura do leão durante sua campanha presidencial. A irrupção na arena pública deste empresário, advogado criminalista e dono de suas próprias marcas de rum e vinho, foi precedida por uma intensa presença nas redes sociais, onde exibiu sem pudor aviões particulares, Rolls-Royce Phantom e casas em Miami, Bogotá e no interior da Itália. Uma vida que, segundo ele mesmo declarou apenas um ano antes de lançar sua candidatura, era boa demais para ser trocada pela Presidência.

Com um discurso repleto de insultos e desqualificações anti-esquerdistas, De la Espriella conseguiu consolidar ampla visibilidade pública antes mesmo de anunciar sua candidatura presidencial. Declarou-se “inimigo ferrenho” dos líderes de esquerda, “que fará todo o possível para estripá-los e enfrentá-los, de forma determinada e decidida”, já que “essa praga precisa ser erradicada”. Mas não parou por aí: construiu uma campanha que o apresentou como um outsider disposto a desafiar a classe política tradicional e a reformar profundamente o sistema político colombiano.

Em matéria econômica, De la Espriella defende um programa de austeridade e promete reduzir drasticamente o tamanho do Estado. Entre suas principais propostas, figura um corte de 40% dos gastos públicos, medida que, segundo ele, permitiria sanear as finanças e aumentar a eficiência do aparato estatal.

Seu programa – batizado de “País Milagro” – mistura a linguagem empresarial das startupscom promessas como a fumigação aérea de 330 mil hectares de cultivos ilícitos, o restabelecimento do controle territorial em zonas dominadas por grupos armados em um prazo de 90 dias – para o que invocou, sem aparente ironia, o conceito de “paz romana” – e a construção de dez megaprisões de segurança máxima, administradas por operadores privados e inspiradas no modelo Bukele. Para executar tudo isso, anunciou que precisa do apoio dos Estados Unidos e de Israel, o que inclui aviões estadunidenses para bombardear acampamentos “narcoterroristas” desde os primeiros dias de seu governo.

Em seus primeiros passos como candidato, De la Espriella propôs retirar a Colômbia da Organização das Nações Unidas (ONU), em linha com as denúncias da extrema direita contra esse organismo, ao qual classificou, junto à Organização dos Estados Americanos (OEA), de “diretório político da esquerda”. Além disso, o candidato chegou ao primeiro turno com um passado profissional polêmico: durante anos foi advogado de defesa do colombiano Alex Saab, considerado o principal operador financeiro do regime de Nicolás Maduro, e, uma semana antes das eleições, o jornalista Daniel Coronell publicou documentos que comprovariam transferências de mais de 370 mil dólares de empresas ligadas a Saab para contas associadas ao candidato. De la Espriella classificou a revelação como “montagem política” e não perdeu nem um ponto nas pesquisas.

Durante a campanha, ele recorreu de forma sistemática aos meios de comunicação e às redes sociais para apresentar o candidato progressista não apenas como um adversário político, mas como uma ameaça à estabilidade econômica, à segurança e às instituições democráticas do país. Nesse contexto, foram difundidas reiteradamente acusações e conteúdos falsos sobre supostos vínculos de Cepeda com antigos comandantes guerrilheiros, que buscavam associar sua candidatura à violência política e ao conflito armado.

Os dois aspirantes de direita concordam quanto à necessidade de abandonar as abordagens de negociação impulsionadas nos últimos anos e apostar em uma estratégia de confrontação mais direta contra as organizações armadas. Para isso, propõem estreitar ainda mais a cooperação militar com os Estados Unidos e promover uma versão renovada do Plano Colômbia, que durante as primeiras décadas do século XXI constituiu o principal marco de colaboração em matéria de segurança entre Bogotá e Washington.

Iván Cepeda – filho do dirigente comunista e senador da União Patriótica Manuel Cepeda, assassinado em 1994 durante a campanha de extermínio contra aquele movimento político – contou com o apoio de Petro. No entanto, os resultados do primeiro turno mostraram que a consolidação da esquerda como força política vai muito além da figura do presidente. Já nas eleições legislativas de março de 2026, o bloco progressista havia se tornado a principal força do Congresso e agora obteve 40% dos votos.

Cepeda é uma das figuras mais reconhecidas da esquerda colombiana. Ao longo das últimas décadas, desempenhou um papel de destaque em diversos esforços de negociação com grupos armados, incluindo o processo de paz com as já desmobilizadas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e os posteriores diálogos com o Exército de Libertação Nacional (ELN). Também adquiriu notoriedade por sua participação no processo judicial que levou à condenação inicial de Álvaro Uribe por manipulação de testemunhas em uma causa relacionada a seus supostos vínculos com estruturas paramilitares.

Em termos programáticos, Cepeda propõe aprofundar o rumo reformista iniciado durante o governo de Petro. Sob o atual governo, foi impulsionada a reforma agrária mais ambiciosa das últimas décadas, que incluiu a distribuição de uma quantidade de terras sem precedentes e a formalização de títulos de propriedade para comunidades camponesas, afrodescendentes e indígenas. Da mesma forma, o governo promoveu transformações territoriais, conseguiu reduzir significativamente os índices de pobreza, aumentou de forma sustentada o salário mínimo e aprovou reformas trabalhistas e previdenciárias há muito reivindicadas por setores populares. Mas, apesar de alguns avanços sociais, a Colômbia continua figurando entre os países com maiores níveis de desigualdade do mundo. O mercado de trabalho segue marcado por uma elevada informalidade, que afeta cerca de seis em cada dez trabalhadores, enquanto os níveis de investimento permanecem abaixo das expectativas. Ao mesmo tempo, a decisão do governo de suspender a aprovação de novos projetos de exploração de petróleo e gás gerou incerteza entre alguns setores empresariais. A emigração de cerca de um milhão de colombianos nos últimos anos também é interpretada por muitos analistas como um sinal do persistente mal-estar econômico e social que atravessa amplos setores da população.

Mas a campanha de Cepeda teve déficits próprios, apontados por vários analistas. Embora apareça como uma pessoa ética e coerente, ele não tem o magnetismo emocional de Petro para se conectar com as multidões. Nas palavras de Juanita León, diretora do La Silla Vacía: “Iván Cepeda é muito de esquerda, mas não é populista. Não o ouvimos prometendo coisas absurdas, ele não divide o mundo entre inimigos. Mas isso, que pode ser uma fortaleza para um presidente, pode ser uma fraqueza para um candidato”.

A isso se somou uma decisão tática possivelmente equivocada: Cepeda optou por não participar de debates e concedeu poucas entrevistas, apostando em percursos territoriais com discursos estruturados de antemão. A estratégia permitiu que ele se blindasse contra os ataques, mas também limitou sua exposição e sua capacidade de construir um discurso próprio para além do aparato petrista. A própria Carolina Corcho, senadora eleita pelo Pacto Histórico, reconheceu publicamente “erros” na campanha – em particular, na estratégia de redes sociais –, enquanto a ex-prefeita de Bogotá Claudia López, situada no centro, afirmou, enquanto precisa decidir sua posição no segundo turno: “Eu sei que Iván é um homem decente, mas, Iván querido, não podem fazer a campanha por você eternamente. Chegou a hora de assumir a liderança de sua própria campanha, de dar a cara, de debater e de defender suas teses”.

Enquanto De la Espriella propõe uma estratégia baseada na confrontação militar e no endurecimento da política de segurança, Cepeda sustenta que a violência não pode ser compreendida nem resolvida exclusivamente pela via armada. Em sua opinião, os conflitos que persistem em amplas regiões do país estão estreitamente vinculados a profundas desigualdades sociais, à exclusão histórica de vastos setores da população e ao abandono estatal de numerosos territórios rurais. Por isso, além de manter os esforços de negociação com os grupos armados, Cepeda defende a necessidade de impulsionar reformas estruturais que reduzam a pobreza, fortaleçam o investimento social e ampliem as oportunidades para os setores historicamente marginalizados. Em particular, ele insiste que será impossível consolidar economias camponesas sustentáveis e construir uma paz duradoura enquanto milhões de colombianos continuarem sem acesso a serviços básicos como água potável, eletricidade, infraestrutura viária e conectividade.

Ao mesmo tempo, Cepeda sustenta que um novo governo progressista só pode ter sucesso se mantiver uma relação estreita com os movimentos sociais e as organizações populares que impulsionaram o ciclo de mudanças inaugurado em 2022. É nesse contexto que deve ser entendida sua decisão de escolher como candidata à Vice-Presidência Aida Quilcué, ex-senadora indígena do povo Nasa e uma das principais dirigentes do Conselho Regional Indígena do Cauca (CRIC). A escolha foi interpretada como um sinal de que o Pacto Histórico não está disposto a moderar substancialmente seu programa nem a se distanciar de suas bases sociais para ampliar seu apelo eleitoral. Com essa chapa, a coalizão progressista buscou projetar para a Presidência lideranças surgidas das lutas sociais e territoriais, especialmente de setores historicamente marginalizados dos espaços de poder estatal. Quilcué nasceu em uma reserva indígena do departamento de Cauca e dedicou grande parte de sua trajetória política à defesa dos direitos indígenas, à proteção dos territórios ancestrais e à construção de propostas de paz a partir das comunidades.

Duas visões opostas

Para além das diferenças em matéria econômica, social e de segurança, o segundo turno presidencial também definirá o rumo da política externa colombiana. Uma vitória de Abelardo de la Espriella significaria um retorno ao estreito alinhamento com Washington que caracterizou a política externa colombiana durante boa parte das últimas décadas.

Herdereiro político do uribismo e próximo aos setores conservadores e oligárquicos que respaldam Donald Trump, De la Espriella deixou claro que buscaria reconstruir uma relação privilegiada com os Estados Unidos, que durante anos constituiu um dos pilares estratégicos do Estado colombiano. No âmbito econômico, um governo de De la Espriella provavelmente colocaria fim aos esforços para acelerar a transição energética impulsionados por Petro e promoveria uma maior abertura ao investimento privado nos setores extrativos. Essa estratégia está em consonância com os interesses das grandes corporações transnacionais, particularmente as estadunidenses, vinculadas à exploração de hidrocarbonetos e recursos minerais. Ao mesmo tempo, contribuiria para reforçar o tradicional alinhamento da Colômbia com Washington em um contexto de crescente competição geoeconômica entre Estados Unidos e China pela influência na América Latina.

Por outro lado, uma vitória de Iván Cepeda significaria a continuidade da orientação inaugurada pelo governo de Petro. Embora os Estados Unidos continuem sendo o principal parceiro comercial da Colômbia, um governo de Cepeda tentaria preservar maiores margens de autonomia na política externa, aprofundando uma estratégia de diversificação de alianças internacionais e fortalecendo as relações com atores como China, União Europeia e outros países do Sul global. O objetivo seria ampliar as margens de manobra do Estado colombiano frente às tradicionais estruturas de dependência que caracterizaram sua inserção internacional.

A questão da segurança se tornou, ao mesmo tempo, um dos temas centrais da disputa eleitoral. O assassinato do candidato presidencial Miguel Uribe em junho de 2025 evocou os episódios mais sombrios da história recente do país e evidenciou a deterioração da situação da ordem pública. Desde então, a Colômbia experimentou uma nova escalada de violência. Os últimos meses foram marcados por atentados, sequestros e ataques armados que deixaram dezenas de mortos e feridos. Apesar do acordo de paz assinado com as FARC em 2016, amplas regiões do país continuam afetadas pelos confrontos entre as Forças Armadas, as dissidências das FARC, a guerrilha do ELN, grupos paramilitares como as Autodefesas Gaitanistas da Colômbia (AGC) e organizações ligadas ao narcotráfico. Em extensas zonas do país, a desmobilização das FARC não se traduziu em uma pacificação duradoura.

O último relatório da ONU sobre o Acordo de Paz alerta para os obstáculos que amplos setores ainda enfrentam para exercer seus direitos políticos: em regiões como Catatumbo, Cauca e Guaviare persistem os deslocamentos forçados e os confrontos entre grupos ilegais. Só em um ano, centenas de pessoas perderam a vida e centenas de milhares foram obrigadas a deixar suas casas. É nesse contexto de deterioração da segurança que se joga, em boa medida, o resultado de 21 de junho. Em um vídeo divulgado durante a campanha, De la Espriella prometeu, com sua linguagem habitual, “caçar essas alimárias”.

O que está em jogo


O segundo turno presidencial representa um momento decisivo para a Colômbia. Quatro anos após a chegada de Gustavo Petro à Presidência, a esquerda demonstrou que pode se tornar uma força eleitoral competitiva e disputar com sucesso o poder estatal. No entanto, a experiência do governo de Petro mostrou a capacidade das elites econômicas, políticas e midiáticas de limitar o alcance das reformas por meio de bloqueios institucionais, confrontações judiciais e campanhas permanentes de desgaste. Uma eventual vitória de Cepeda abriria a possibilidade de aprofundar as transformações iniciadas em 2022, mas provavelmente também intensificaria a resistência daqueles setores que percebem essas reformas como uma ameaça a seus interesses históricos. Por outro lado, um triunfo de De la Espriella significaria o retorno ao poder dos setores que dominaram a política colombiana durante grande parte das últimas décadas. Isso implicaria uma recomposição do bloco conservador, integrado por grandes grupos econômicos, elites latifundiárias, setores do uribismo e atores vinculados às estruturas tradicionais de poder.

O que está em jogo no dia 21 de junho é se o ciclo político aberto com a chegada de Petro ao governo conseguirá se consolidar e erodir gradualmente a influência das elites oligárquicas que historicamente controlaram o Estado, ou se estas conseguirão se reorganizar e recuperar plenamente o poder político por meio de uma nova expressão eleitoral da direita.

As perspectivas para o dia 21 de junho são incertas: as pesquisas erraram no primeiro turno, quando praticamente todas colocavam Cepeda em primeiro lugar. De la Espriella chega ao segundo turno com três vantagens estruturais: a inércia da primeira colocação, o apoio formal de Paloma Valencia – respaldada, por sua vez, por Álvaro Uribe e pela direção do Centro Democrático – e o voto anti-Cepeda.

Cepeda precisa que setores abstencionistas próximos à esquerda, que não compareceram no primeiro turno, se mobilizem diante da perspectiva concreta de um governo de De la Espriella. O resultado dependerá em boa medida de qual dessas duas lógicas – a consolidação do voto de direita unificado ou a mobilização do eleitorado progressista – se impuser no dia 21 de junho.

Embora Cepeda tenha uma campanha muito mais difícil pela frente do que todos imaginavam, ele ainda conta com possibilidades reais de vitória. A elevada participação no primeiro turno não esgotou por completo o potencial de mobilização do campo progressista, e uma campanha centrada nos riscos que implicaria um retorno da direita ao poder poderia contribuir para fechar a diferença. Para isso, Cepeda precisará transformar o segundo turno em uma disputa claramente polarizada entre o aprofundamento das transformações iniciadas sob Petro e a restauração das forças políticas, econômicas e sociais que desempenharam um papel central na reprodução das profundas desigualdades e dos ciclos de violência que tanto marcaram a história do país.

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