Por ADALBERTO DA SILVA RETTO JR.*
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Carlo Ginzburg (1939-2026) |
Carlo Ginzburg recusou certezas dogmáticas e resgatou vozes silenciadas, eternizando uma trajetória intelectual pautada pela ética e pela urgência de um mundo novo
1.
Com a morte de Carlo Ginzburg, em 15 de junho de 2026, aos 87 anos, multiplicaram-se no Brasil as manifestações de pesar vindas de universidades, grupos de pesquisa, revistas acadêmicas e intelectuais de diferentes áreas do conhecimento. Esse movimento de homenagens não se explica apenas pelo reconhecimento internacional de um dos historiadores mais influentes das últimas décadas. Ele também revela a profundidade com que sua obra foi lida, debatida e incorporada à vida intelectual brasileira, atravessando disciplinas e estimulando diálogos entre historiadores, antropólogos, cientistas sociais, arquitetos e urbanistas. Poucos autores estrangeiros alcançaram, entre nós, uma circulação tão transversal de suas ideias.
Para a arquitetura e o urbanismo, sua ausência recoloca uma questão debatida pelo próprio autor em um de seus últimos diálogos públicos: existe um terreno comum entre o projeto arquitetônico e o projeto historiográfico? Em outras palavras, o que o método de Carlo Ginzburg ainda pode ensinar à teoria e à prática do projeto?
Em maio de 2023, durante o encontro internacional Architettura e Storia, realizado na Università IUAV di Venezia, Carlo Ginzburg foi convidado a refletir sobre as relações entre arquitetura, história e projeto. O resultado foi uma das sínteses mais densas de seu pensamento tardio, oferecendo uma chave privilegiada para compreender o alcance de seu legado para além das fronteiras estritas da disciplina histórica.
O encontro, concebido como um diálogo polifônico entre historiadores, arquitetos e teóricos, partia de uma inquietação comum: seria possível ultrapassar os limites disciplinares cristalizados e repensar conjuntamente o estatuto da história e da arquitetura? Mais do que buscar analogias superficiais, tratava-se de interrogar o que ambas compartilham enquanto formas de conhecimento e de intervenção no mundo. Como observou Gundula Rakowitz na abertura dos debates, a questão dizia respeito ao próprio sentido do projeto, entendido não como aplicação de regras previamente dadas, mas como atividade arriscada, aberta ao julgamento público, à incerteza e à responsabilidade.
A resposta de Carlo Ginzburg foi ao mesmo tempo discreta e decisiva. Embora reconhecesse a diferença entre os materiais com os quais trabalham historiadores e arquitetos – documentos, testemunhos e imagens, de um lado; edifícios, espaços e construções, de outro –, insistiu que ambos participam de uma mesma operação intelectual. Tanto o historiador quanto o arquiteto avançam por meio de hipóteses: constroem experimentos mentais, formulam interpretações provisórias, testam caminhos, corrigem percursos e descartam soluções quando estas não resistem ao confronto com o real.
2.
Essa observação condensa um dos núcleos de sua obra. Ao longo de mais de seis décadas de pesquisa, Carlo Ginzburg sustentou que o conhecimento histórico não nasce da aplicação mecânica de métodos, mas da interação contínua entre perguntas, indícios e evidências. O método, em sua perspectiva, não constitui um sistema fechado de regras, mas um conjunto de operações situadas, enraizadas no terreno material da história, entendida simultaneamente como prática de investigação, forma de linguagem e exercício de responsabilidade intelectual.
É dessa orientação que emerge o chamado paradigma indiciário. Em obras fundamentais como Os andarilhos do bem (I benandanti, 1966), O queijo e os vermes (Il formaggio e i vermi, 1976), Mitos, emblemas e sinais (1986) e Olhos de madeira (1998), Carlo Ginzburg demonstrou como um detalhe aparentemente marginal pode abrir acesso a estruturas históricas amplas. Um depoimento fragmentário, uma imagem, um lapso, uma crença popular ou um processo inquisitorial podem funcionar como portas de entrada para universos culturais inteiros.
Essa atenção ao detalhe não implicava qualquer recusa da totalidade. Ao contrário: como observaram diversos participantes do encontro de Veneza, a singularidade do caso funciona em Carlo Ginzburg como um operador crítico capaz de tensionar generalizações excessivamente rápidas. O caso particular não confirma automaticamente uma regra; pode, antes, colocá-la em crise. Em O queijo e os vermes, por exemplo, a cosmovisão singular de Menocchio não ilustra uma cultura popular homogênea, mas desestabiliza as fronteiras entre cultura erudita e cultura popular, entre oralidade e escrita, entre indivíduo e contexto histórico.
Essa concepção tem implicações diretas para a arquitetura e o urbanismo. Em um contexto em que as cidades são frequentemente apreendidas por meio de grandes abstrações – fluxos econômicos, estatísticas demográficas, modelos de mobilidade ou indicadores territoriais –, Carlo Ginzburg convida a recolocar em jogo o valor epistemológico dos vestígios. A cidade não é apenas um sistema funcional ou uma totalidade mensurável; ela é também uma trama de experiências singulares, memórias locais, conflitos soterrados e temporalidades heterogêneas.
Não por acaso, durante o encontro do IUAV, Daniel Sherer chamou atenção para as implicações policêntricas da micro-história. A partir da leitura que Manfredo Tafuri fez da obra de Ginzburg, Daniel Sherer sugeriu que a lógica do caso singular poderia contribuir para pensar configurações urbanas igualmente policêntricas, menos subordinadas a relações lineares entre parte e totalidade, objeto e contexto. O policentrismo historiográfico encontrava, assim, uma ressonância direta no modo de pensar a cidade.
3.
Talvez a contribuição mais profunda de Carlo Ginzburg para a arquitetura esteja naquilo que o encontro identificou como a dimensão dialógica do conhecimento. Ao refletir sobre sua relação com Mikhail Bakhtin, o historiador retomou um dos temas centrais de sua obra: a atenção às “vozes dos outros”. Mesmo quando um documento parece falar por si só, argumentava Carlo Ginzburg, ele carrega marcas de diálogos, disputas e interlocuções nem sempre visíveis.
Cabe ao historiador tornar perceptíveis essas presenças ocultas, revelando os conflitos e os silêncios que atravessam os textos. Nenhum discurso existe isoladamente; todo discurso responde, explícita ou implicitamente, a outros discursos.
Essa observação abre uma aproximação particularmente fecunda entre história e arquitetura. Se o texto historiográfico pode ser compreendido como uma tessitura de experiências e perspectivas heterogêneas, o mesmo vale para o espaço construído. Também edifícios e cidades podem ser entendidos como composições complexas de tempos, usos, memórias e conflitos. Também eles podem ser lidos como textos – ou, mais precisamente, como texturas – atravessados por camadas sucessivas de significação.
Nessa perspectiva, a tarefa do pesquisador não se limita a descrever formas, mas envolve tornar visível aquilo que permanece oculto. O encontro veneziano insistiu nesse ponto, recorrendo à expressão alemã sichtbar machen: fazer ver.
O compromisso de Carlo Ginzburg com experiências historicamente marginalizadas explica por que sua historiografia sempre esteve atravessada por uma dimensão ética. Seu método não buscava apenas compreender os mecanismos do passado, mas restituir inteligibilidade às experiências dos vencidos, dos perseguidos e dos excluídos. A história aparecia, assim, como uma forma de atenção ao outro.
Essa sensibilidade tem raízes biográficas profundas. Filho de Leone Ginzburg, intelectual antifascista morto sob tortura em uma prisão fascista, e da escritora Natalia Ginzburg, Carlo cresceu marcado pela experiência da perseguição política, do exílio e da resistência. Ao longo de sua trajetória, jamais abandonou a convicção de que a investigação histórica implica responsabilidade cívica.
Por isso, embora recusasse qualquer relativismo complacente, também rejeitava a ideia de uma objetividade absoluta. A verdade histórica, para ele, é sempre parcial, situada e passível de revisão – sem deixar de ser necessária. Em um mundo atravessado por negacionismos, revisionismos ideológicos e disputas pela memória, insistiu na distinção entre interpretação e falsificação, entre investigação crítica e propaganda.
Nos últimos anos, essa posição tornou-se particularmente visível em suas intervenções sobre a guerra em Gaza. Em Il vincolo della vergogna, Carlo Ginzburg condenou a violência do Hamas e, simultaneamente, criticou a resposta militar israelense, reafirmando uma exigência ética que atravessou toda a sua trajetória: julgar os acontecimentos a partir de princípios universais da humanidade.
Em uma de suas últimas reflexões, voltou a Menocchio. Na introdução à nova edição inglesa de The cheese and the worms, publicada cinquenta anos após a primeira edição do livro, encerrou o texto com as palavras do moleiro friulano: “Desejava que houvesse um mundo novo”.
Talvez nessa frase se concentre uma das dimensões mais duradouras de seu legado. Não um conjunto de procedimentos, mas uma ética do conhecimento: ler os vestígios, restituir visibilidade ao que foi esquecido e resistir à tentação de transformar hipóteses em certezas.
*Adalberto da Silva Retto Jr. é professor de arquitetura na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

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