De Outras palavras, 9 de junho 2026
Por James Görgen
O espelho chinês
O paralelo com a China incomoda com razão. Desde 2015, Pequim recolhe as chamadas golden shares, fatias de cerca de 1% em subsidiárias de Alibaba, Tencent e ByteDance, por meio de fundos amarrados ao regulador da internet. O dinheiro nunca foi o ponto. O que conta é o assento no conselho, possibilidade de veto sobre a estratégia dos conglomerados, o acesso aos dados — o controle exercido por dentro da corporação. David Sacks, que foi o czar de IA da própria Casa Branca, avisou que a “nacionalização da IA” aceleraria a fusão entre Estado e corporação no figurino chinês. Mas este modelo não é um privilégio de Pequim mas também se reproduz, com nuances, na Noruega, França e Singapura.
E ele carrega uma ironia mais profunda, que nenhum porta-voz vai sublinhar. Os Estados Unidos passaram uma década dizendo aos aliados que não confiassem em tecnologia chinesa precisamente porque o Partido tem assento nos conselhos das empresas. No dia em que o Tesouro estadunidense virar acionista da OpenAI, esse argumento se vira contra quem o inventou. Não se vende “IA democrática” ao planeta enquanto se estatiza a tabela de capitalização em casa. A diplomacia tecnológica de Washington repousa sobre uma promessa que o próprio Trump está prestes a quebrar pela segunda vez.
Repare também em quem não foi convidado para o banquete do lastro público financeiro. Ainda segundo a NOTUS, a Anthropic não está nas conversas sobre ceder ações ao governo, enquanto a OpenAI, que enviou os papéis para seu IPO esta semana, conduz a dança. A ausência é eloquente. A relação entre a empresa e a administração já vinha corroída, a ponto de o governo restringir o uso da tecnologia da Anthropic por agências federais no início de 2026 — ruptura que veio depois de a empresa recusar as exigências do Pentágono e manter duas linhas vermelhas, não ceder o Claude para vigilância em massa de americanos nem para armas autônomas. Horas depois, foi a OpenAI quem fechou com o Pentágono o contrato para operar em redes classificadas.
Não enxergo aí um acaso de agenda. Enxergo o desenho do instrumento. Quando o Estado distribui participação, ele não está fazendo política industrial. Está montando um sistema de espólios com cláusula de contrato de investimento. A fatia acionária deixa de ser ferramenta econômica e vira aferidor de fidelidade. É o quadro de acionistas convertido em lista de lealdade. E um governo que possui a OpenAI mas não a Anthropic, que passou a valer mais que a adversária, não tem como arbitrar a disputa entre as duas sem que cada decisão regulatória carregue a suspeita do favorecimento.
Derrota do neoliberalismo
Poucos assuntos desorganizam tanto a bússola ideológica. Pela esquerda, Bernie Sanders quer o mais ousado, um imposto único de 50% pago em ações, assentos nos conselhos e um fundo soberano. O combustível é o ressentimento legítimo de quem vê o sistema viciado e se sente impotente. Pela direita, Trump chega ao mesmo lugar pela porta oposta, sem nenhum verniz populista, movido pelo faro de quem brincou que “deveria ser corretor da bolsa” e se gaba do lucro com a Intel. Um quer justiça redistributiva. O outro quer um bom negócio.
O encontro dos extremos esconde o verdadeiro derrotado. Quando o socialista de Vermont e o bilionário de Mar-a-Lago concordam que o Estado deve possuir a IA, quem perde não é a esquerda nem a direita. É o centro liberal que ainda acreditava na regulação à distância de braço, no Estado que apita o jogo sem entrar em campo. Esse consenso neoliberal é o cadáver na sala. A bem da verdade, o defunto já agonizava havia uma década, corroído pelas tarifas, pelo CHIPS Act e pelo IRA; o que muda agora é a proporção. Do lado da resistência, a coisa também atravessa partidos. O libertário Rand Paul chamou o negócio da Intel de passo rumo ao socialismo e Sacks atacou pela mesma trincheira. A briga real não é esquerda contra direita. É entre quem quer o Estado dentro do jogo e quem o quer fora dele.
Parceria unilateral
Falta o mais mundano, que é como tudo isso funcionaria na prática. Há três modelos sobre a mesa e eles não são variações de grau, são filosofias distintas. A doação voluntária da OpenAI entregaria ações a um fundo sem custo para o contribuinte, numa engenharia jurídica que ninguém ainda testou. O figurino da Intel converte subsídios não pagos em fatia passiva, sem cadeira no conselho. A via de Sanders tomaria as ações via imposto e sentaria o governo nos conselhos das empresas. As perguntas em aberto valem o debate inteiro. É possível transferir ações privadas ao Estado sem o aval do Congresso. A participação será silenciosa, como na Intel, ou terá voz, como quer o senador democrata?
E é aqui que devolvo a palavra mágica do presidente dos EUA. Trump fala em “parceria”, mas parceiro é quem divide risco e decisão. O que se oferece ao “público americano” é um acionista que não pode vender, não pode votar, não pode sair e nem sequer escolheu entrar. É o pior negócio de ações do mundo. Chamar isso de sociedade já é elogio. Soa mais como gorjeta, uma migalha do lucro entregue para que ninguém pergunte quem manda. O modelo amigável que os defensores invocam é o fundo do petróleo do Alasca, que paga dividendos aos cidadãos. O temido pelos opositores do modelo protecionista é a golden share de Pequim. Tudo o que separa um do outro é uma única variável, o direito de mando, e é precisamente essa variável que ninguém quis cravar antes de sentar à mesa na Casa Branca.
E há um cidadão que sequer entra na conta — o que vive fora dos Estados Unidos. Se Washington se torna coproprietária da camada de inteligência artificial sobre a qual o mundo inteiro processa, comunica e decide, todo país que depende dessa infraestrutura, passa a hospedar no próprio cotidiano digital os ativos de um Estado estrangeiro com interesse direto no resultado que ultrapassa as questões de segurança nacional. A soberania digital alheia deixa de ser ameaçada apenas pelas plataformas privadas e passa a sê-lo por um sócio público sentado na Casa Branca. Para o Sul Global, a “parceria com o público americano” é, no melhor dos casos, uma parceria com o público dos outros.
No século passado, Washington só injetava recursos públicos em empresas monopolistas quando elas estavam quebrando ou intervia para garantir o famoso too big to fail. Mas não é mais o too big to fail de 2008, em que o Estado socorria a contragosto empresas das quais nada possuía. É um grande demais para cair fundado na origem — o governo entra já como dono, e um dono não deixa a própria carteira derreter. O resgate, antes exceção vergonhosa, vira reflexo de autopreservação. Agora, Trump quer comprá-las enquanto estão na alta. Essa inversão, do segurador para o especulador, do resgate para o palpite, é a mudança que de fato importa. E ela está acontecendo de forma atabalhoada e às escuras. O mínimo que os cidadãos e os estados nacionais deveriam exigir é que se chame a coisa pelo nome e que as decisões sejam tomadas à luz do dia. Tudo que parece que não irá acontecer no atual momento.
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para outrosquinhentos@outraspalavras.net e fortaleça o jornalismo crítico.
Por James Görgen
De Outras palavras, 9 de junho 2026
Por James Görgen
Há uma frase que Donald Trump soltou a bordo do Air Force One, em 5 de junho, que merecia ter travado o noticiário dos últimos dias. O governo dos Estados Unidos, disse o presidente, estuda adquirir participação acionária nas maiores empresas de inteligência artificial do planeta, num arranjo que “quase vira uma parceria com o público americano”. Os líderes de todas as grandes do setor já foram convocados à Casa Branca e deverão ocorrer reuniões nesta semana. O detalhe que passou em brancas nuvens é a origem da ideia. Ela não brotou de nenhum instinto estatizante de Washington. Veio de Sam Altman. Foi o CEO da OpenAI quem, segundo apurou a NOTUS, plantou a semente ainda no começo do segundo mandato, depois de peregrinar para conhecer os fundos soberanos do Golfo e da Ásia. E quando o fundador de uma das empresas mais valiosas do setor demanda que o Estado seja seu sócio, convém desconfiar da generosidade. Ninguém doa um naco de uma futura empresa trilionária por altruísmo. Doa-se para comprar alguma coisa. O que Altman compra, ao oferecer ações, é a apólice mais barata do mercado contratada do único regulador que de fato importa.
Não por acaso, no mesmo 8 de junho em que deu o primeiro passo formal para seu pedido de IPO, a OpenAI publicou um manifesto cujo refrão é que o poder da IA não deve “se concentrar em poucas empresas, governos ou indivíduos”. É a luva de veludo do IPO — prega prosperidade repartida e uma fatia significativa dos ganhos para todos no exato gesto em que seu autor negocia ceder ao governo um pedaço da própria empresa. Condenar a concentração de poder enquanto se oferece o capital ao Estado só deixa de ser contradição quando se entende que repartir dividendo nunca foi repartir mando.
O enquadramento oficial é sedutor e enganoso. Fala-se em “partilhar os ganhos” da IA com o cidadão, como se o governo fosse repartir os dividendos que receber com 340 milhões de pessoas. Para a avaliação de uma empresa com valor de mercado de US$ 2 trilhões, isso significaria US$ 59 por habitante. O escândalo silencioso se verifica por seu ineditismo. Todas as vezes em que os EUA compraram pedaços de empresas privadas — a General Motors em 2009, os bancos na crise financeira no ano anterior — foi para catar cacos no chão, em meio a um desastre econômico. Trump propõe o avesso disso. Quer entrar no capital destas empresas quando OpenAI, Anthropic e SpaceX caminham para aberturas de capital que devem gerar companhias de trilhões de dólares.
E o relógio anda. Em 8 de junho, três dias após a fala de Trump, a OpenAI confirmou ter protocolado, em sigilo, seu S-1 na SEC — o primeiro passo formal do IPO. O Estado não cogita comprar uma empresa madura; cogita entrar pela porta do pregão antes mesmo dele abrir. Não é o anteparo de uma crise anunciada. É um investidor-anjo armado com poder de polícia. E é aqui que a retórica esconde o seu truque mais fino. Socializar o lucro parece o oposto de socializar o prejuízo, mas não é algo tão distinto.
Um Estado que aposta em ações de uma companhia antes do seu IPO, em meio a uma bolha prestes a estourar, não pode mais se dar ao luxo de deixar a própria carteira mobiliária derreter. No instante em que vira acionista, passa a ter um motivo fiscal para socorrer o setor caso a bolha estoure. O tal “fundo de riqueza pública” proposto por Altman nasceria, portanto, como fundo de resgate fantasiado de dividendo. Repartir a alta de hoje é a maneira elegante de assinar, em letra miúda, a garantia da queda de amanhã. O investimento na Intel, cuja ação disparou mais de 50% nas semanas seguintes depois que o governo comprou 10% do seu capital e impulsionada também por Nvidia e SoftBank, serve de vitrine justamente porque calou esse risco enquanto deu certo. Esse “fundo de riqueza pública” é, na prática, uma operação de securitização pois pega as participações do governo nas empresas de IA e as transforma em direitos a dividendos, picotados e distribuídos ao cidadão. Securitiza-se a aposta, não o poder. O contribuinte herda o papel e a torcida pelo lucro, jamais o assento à mesa onde se decide.
Um defensor do plano dirá que nada disso se sustenta — a perda de um acionista é limitada ao que investiu, e distribuir dividendos a milhões de cidadãos é, sim, espalhar a riqueza. O contra-argumento tem duas falhas. A primeira é que a IA é sistêmica demais para se deixar quebrar; o Estado a socorreria de todo modo, e a participação apenas troca o resgate relutante pelo interesse próprio. A segunda é que distribuir dinheiro não é distribuir poder — o cidadão recebe o cheque, mas o comando segue concentrado no par Estado-empresa, justamente a concentração que o manifesto da OpenAI jura combater.
Há uma frase que Donald Trump soltou a bordo do Air Force One, em 5 de junho, que merecia ter travado o noticiário dos últimos dias. O governo dos Estados Unidos, disse o presidente, estuda adquirir participação acionária nas maiores empresas de inteligência artificial do planeta, num arranjo que “quase vira uma parceria com o público americano”. Os líderes de todas as grandes do setor já foram convocados à Casa Branca e deverão ocorrer reuniões nesta semana. O detalhe que passou em brancas nuvens é a origem da ideia. Ela não brotou de nenhum instinto estatizante de Washington. Veio de Sam Altman. Foi o CEO da OpenAI quem, segundo apurou a NOTUS, plantou a semente ainda no começo do segundo mandato, depois de peregrinar para conhecer os fundos soberanos do Golfo e da Ásia. E quando o fundador de uma das empresas mais valiosas do setor demanda que o Estado seja seu sócio, convém desconfiar da generosidade. Ninguém doa um naco de uma futura empresa trilionária por altruísmo. Doa-se para comprar alguma coisa. O que Altman compra, ao oferecer ações, é a apólice mais barata do mercado contratada do único regulador que de fato importa.
Não por acaso, no mesmo 8 de junho em que deu o primeiro passo formal para seu pedido de IPO, a OpenAI publicou um manifesto cujo refrão é que o poder da IA não deve “se concentrar em poucas empresas, governos ou indivíduos”. É a luva de veludo do IPO — prega prosperidade repartida e uma fatia significativa dos ganhos para todos no exato gesto em que seu autor negocia ceder ao governo um pedaço da própria empresa. Condenar a concentração de poder enquanto se oferece o capital ao Estado só deixa de ser contradição quando se entende que repartir dividendo nunca foi repartir mando.
O enquadramento oficial é sedutor e enganoso. Fala-se em “partilhar os ganhos” da IA com o cidadão, como se o governo fosse repartir os dividendos que receber com 340 milhões de pessoas. Para a avaliação de uma empresa com valor de mercado de US$ 2 trilhões, isso significaria US$ 59 por habitante. O escândalo silencioso se verifica por seu ineditismo. Todas as vezes em que os EUA compraram pedaços de empresas privadas — a General Motors em 2009, os bancos na crise financeira no ano anterior — foi para catar cacos no chão, em meio a um desastre econômico. Trump propõe o avesso disso. Quer entrar no capital destas empresas quando OpenAI, Anthropic e SpaceX caminham para aberturas de capital que devem gerar companhias de trilhões de dólares.
E o relógio anda. Em 8 de junho, três dias após a fala de Trump, a OpenAI confirmou ter protocolado, em sigilo, seu S-1 na SEC — o primeiro passo formal do IPO. O Estado não cogita comprar uma empresa madura; cogita entrar pela porta do pregão antes mesmo dele abrir. Não é o anteparo de uma crise anunciada. É um investidor-anjo armado com poder de polícia. E é aqui que a retórica esconde o seu truque mais fino. Socializar o lucro parece o oposto de socializar o prejuízo, mas não é algo tão distinto.
Um Estado que aposta em ações de uma companhia antes do seu IPO, em meio a uma bolha prestes a estourar, não pode mais se dar ao luxo de deixar a própria carteira mobiliária derreter. No instante em que vira acionista, passa a ter um motivo fiscal para socorrer o setor caso a bolha estoure. O tal “fundo de riqueza pública” proposto por Altman nasceria, portanto, como fundo de resgate fantasiado de dividendo. Repartir a alta de hoje é a maneira elegante de assinar, em letra miúda, a garantia da queda de amanhã. O investimento na Intel, cuja ação disparou mais de 50% nas semanas seguintes depois que o governo comprou 10% do seu capital e impulsionada também por Nvidia e SoftBank, serve de vitrine justamente porque calou esse risco enquanto deu certo. Esse “fundo de riqueza pública” é, na prática, uma operação de securitização pois pega as participações do governo nas empresas de IA e as transforma em direitos a dividendos, picotados e distribuídos ao cidadão. Securitiza-se a aposta, não o poder. O contribuinte herda o papel e a torcida pelo lucro, jamais o assento à mesa onde se decide.
Um defensor do plano dirá que nada disso se sustenta — a perda de um acionista é limitada ao que investiu, e distribuir dividendos a milhões de cidadãos é, sim, espalhar a riqueza. O contra-argumento tem duas falhas. A primeira é que a IA é sistêmica demais para se deixar quebrar; o Estado a socorreria de todo modo, e a participação apenas troca o resgate relutante pelo interesse próprio. A segunda é que distribuir dinheiro não é distribuir poder — o cidadão recebe o cheque, mas o comando segue concentrado no par Estado-empresa, justamente a concentração que o manifesto da OpenAI jura combater.
O espelho chinês
O paralelo com a China incomoda com razão. Desde 2015, Pequim recolhe as chamadas golden shares, fatias de cerca de 1% em subsidiárias de Alibaba, Tencent e ByteDance, por meio de fundos amarrados ao regulador da internet. O dinheiro nunca foi o ponto. O que conta é o assento no conselho, possibilidade de veto sobre a estratégia dos conglomerados, o acesso aos dados — o controle exercido por dentro da corporação. David Sacks, que foi o czar de IA da própria Casa Branca, avisou que a “nacionalização da IA” aceleraria a fusão entre Estado e corporação no figurino chinês. Mas este modelo não é um privilégio de Pequim mas também se reproduz, com nuances, na Noruega, França e Singapura.
E ele carrega uma ironia mais profunda, que nenhum porta-voz vai sublinhar. Os Estados Unidos passaram uma década dizendo aos aliados que não confiassem em tecnologia chinesa precisamente porque o Partido tem assento nos conselhos das empresas. No dia em que o Tesouro estadunidense virar acionista da OpenAI, esse argumento se vira contra quem o inventou. Não se vende “IA democrática” ao planeta enquanto se estatiza a tabela de capitalização em casa. A diplomacia tecnológica de Washington repousa sobre uma promessa que o próprio Trump está prestes a quebrar pela segunda vez.
Repare também em quem não foi convidado para o banquete do lastro público financeiro. Ainda segundo a NOTUS, a Anthropic não está nas conversas sobre ceder ações ao governo, enquanto a OpenAI, que enviou os papéis para seu IPO esta semana, conduz a dança. A ausência é eloquente. A relação entre a empresa e a administração já vinha corroída, a ponto de o governo restringir o uso da tecnologia da Anthropic por agências federais no início de 2026 — ruptura que veio depois de a empresa recusar as exigências do Pentágono e manter duas linhas vermelhas, não ceder o Claude para vigilância em massa de americanos nem para armas autônomas. Horas depois, foi a OpenAI quem fechou com o Pentágono o contrato para operar em redes classificadas.
Não enxergo aí um acaso de agenda. Enxergo o desenho do instrumento. Quando o Estado distribui participação, ele não está fazendo política industrial. Está montando um sistema de espólios com cláusula de contrato de investimento. A fatia acionária deixa de ser ferramenta econômica e vira aferidor de fidelidade. É o quadro de acionistas convertido em lista de lealdade. E um governo que possui a OpenAI mas não a Anthropic, que passou a valer mais que a adversária, não tem como arbitrar a disputa entre as duas sem que cada decisão regulatória carregue a suspeita do favorecimento.
Derrota do neoliberalismo
Poucos assuntos desorganizam tanto a bússola ideológica. Pela esquerda, Bernie Sanders quer o mais ousado, um imposto único de 50% pago em ações, assentos nos conselhos e um fundo soberano. O combustível é o ressentimento legítimo de quem vê o sistema viciado e se sente impotente. Pela direita, Trump chega ao mesmo lugar pela porta oposta, sem nenhum verniz populista, movido pelo faro de quem brincou que “deveria ser corretor da bolsa” e se gaba do lucro com a Intel. Um quer justiça redistributiva. O outro quer um bom negócio.
O encontro dos extremos esconde o verdadeiro derrotado. Quando o socialista de Vermont e o bilionário de Mar-a-Lago concordam que o Estado deve possuir a IA, quem perde não é a esquerda nem a direita. É o centro liberal que ainda acreditava na regulação à distância de braço, no Estado que apita o jogo sem entrar em campo. Esse consenso neoliberal é o cadáver na sala. A bem da verdade, o defunto já agonizava havia uma década, corroído pelas tarifas, pelo CHIPS Act e pelo IRA; o que muda agora é a proporção. Do lado da resistência, a coisa também atravessa partidos. O libertário Rand Paul chamou o negócio da Intel de passo rumo ao socialismo e Sacks atacou pela mesma trincheira. A briga real não é esquerda contra direita. É entre quem quer o Estado dentro do jogo e quem o quer fora dele.
Parceria unilateral
Falta o mais mundano, que é como tudo isso funcionaria na prática. Há três modelos sobre a mesa e eles não são variações de grau, são filosofias distintas. A doação voluntária da OpenAI entregaria ações a um fundo sem custo para o contribuinte, numa engenharia jurídica que ninguém ainda testou. O figurino da Intel converte subsídios não pagos em fatia passiva, sem cadeira no conselho. A via de Sanders tomaria as ações via imposto e sentaria o governo nos conselhos das empresas. As perguntas em aberto valem o debate inteiro. É possível transferir ações privadas ao Estado sem o aval do Congresso. A participação será silenciosa, como na Intel, ou terá voz, como quer o senador democrata?
E é aqui que devolvo a palavra mágica do presidente dos EUA. Trump fala em “parceria”, mas parceiro é quem divide risco e decisão. O que se oferece ao “público americano” é um acionista que não pode vender, não pode votar, não pode sair e nem sequer escolheu entrar. É o pior negócio de ações do mundo. Chamar isso de sociedade já é elogio. Soa mais como gorjeta, uma migalha do lucro entregue para que ninguém pergunte quem manda. O modelo amigável que os defensores invocam é o fundo do petróleo do Alasca, que paga dividendos aos cidadãos. O temido pelos opositores do modelo protecionista é a golden share de Pequim. Tudo o que separa um do outro é uma única variável, o direito de mando, e é precisamente essa variável que ninguém quis cravar antes de sentar à mesa na Casa Branca.
E há um cidadão que sequer entra na conta — o que vive fora dos Estados Unidos. Se Washington se torna coproprietária da camada de inteligência artificial sobre a qual o mundo inteiro processa, comunica e decide, todo país que depende dessa infraestrutura, passa a hospedar no próprio cotidiano digital os ativos de um Estado estrangeiro com interesse direto no resultado que ultrapassa as questões de segurança nacional. A soberania digital alheia deixa de ser ameaçada apenas pelas plataformas privadas e passa a sê-lo por um sócio público sentado na Casa Branca. Para o Sul Global, a “parceria com o público americano” é, no melhor dos casos, uma parceria com o público dos outros.
No século passado, Washington só injetava recursos públicos em empresas monopolistas quando elas estavam quebrando ou intervia para garantir o famoso too big to fail. Mas não é mais o too big to fail de 2008, em que o Estado socorria a contragosto empresas das quais nada possuía. É um grande demais para cair fundado na origem — o governo entra já como dono, e um dono não deixa a própria carteira derreter. O resgate, antes exceção vergonhosa, vira reflexo de autopreservação. Agora, Trump quer comprá-las enquanto estão na alta. Essa inversão, do segurador para o especulador, do resgate para o palpite, é a mudança que de fato importa. E ela está acontecendo de forma atabalhoada e às escuras. O mínimo que os cidadãos e os estados nacionais deveriam exigir é que se chame a coisa pelo nome e que as decisões sejam tomadas à luz do dia. Tudo que parece que não irá acontecer no atual momento.
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para outrosquinhentos@outraspalavras.net e fortaleça o jornalismo crítico.

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