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As novas diretrizes da CAPES

Do A Terra É Redonda, 6 de junho 2026
Por CARLOS BAUER*


Imagem: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil

A reestruturação da avaliação acadêmica ameaça as humanidades ao subordinar a pesquisa nacional a métricas bibliométricas estrangeiras e lógicas mercantis de visibilidade

1.

A recente reformulação do sistema de avaliação da pós-graduação brasileira, anunciada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior para o ciclo 2025-2028, inaugura uma mudança paradigmática na classificação da produção científica nacional.

Pela primeira vez, o foco da avaliação desloca-se dos periódicos para os artigos individualmente considerados, articulando indicadores bibliométricos, métricas de impacto e apreciação qualitativa por pares. O novo modelo procura superar limitações históricas do antigo sistema Qualis Periódicos, frequentemente criticado pela excessiva centralidade atribuída ao prestígio editorial e pelas distorções produzidas pela mercantilização do campo científico.

À primeira vista, a proposta parece responder a reivindicações antigas da comunidade acadêmica: reduzir a dependência da “marca” do periódico e examinar a contribuição efetiva de cada artigo para o avanço do conhecimento. Entretanto, um exame mais atento das diretrizes revela ambiguidades, lacunas metodológicas e riscos substantivos para áreas como educação, humanidades e ciências sociais. O que se anuncia como modernização pode, paradoxalmente, aprofundar desigualdades estruturais e acelerar tendências já preocupantes no cenário científico internacional.

Um dos problemas mais evidentes do novo modelo reside no silêncio acerca das chamadas publicações predatórias. Apesar de reconhecerem distorções produzidas pela expansão de periódicos de baixa credibilidade científica, as diretrizes não explicitam mecanismos objetivos de exclusão, punição ou descredenciamento desses veículos.

Nos últimos anos, consolidou-se um mercado editorial de revistas nacionais e estrangeiras que opera mediante pagamento de taxas de publicação, prometendo rapidez na tramitação e oferecendo indexações duvidosas ou indicadores artificiais de impacto. A ausência de critérios transparentes para impedir a validação dessas produções mantém aberta uma brecha que fragiliza a credibilidade da avaliação.

A inexistência de uma política pública clara de enfrentamento ao problema, seja por meio de listas de alerta, auditorias independentes ou critérios rigorosos de indexação faz com que o novo sistema continue vulnerável às mesmas práticas que pretendia combater. Em outras palavras, altera-se a unidade de avaliação, mas não se enfrenta adequadamente a lógica mercantil que distorce a circulação do conhecimento científico.

2.

Outro aspecto problemático diz respeito à crescente centralidade atribuída às métricas bibliométricas. O documento enfatiza indicadores de citação, rastreamento de impacto e métricas normalizadas por área, como o Field-Weighted Citation Impact (FWCI), reforçando uma tendência internacional de matematização da avaliação científica. Todavia, tais indicadores não são neutros, pelo contrário, refletem desigualdades linguísticas, econômicas e geopolíticas historicamente consolidadas no sistema acadêmico global.

A hegemonia da língua inglesa constitui talvez o exemplo mais evidente dessa assimetria. Artigos publicados em inglês circulam mais amplamente, são mais facilmente mercantilizados e indexados por grandes bases internacionais e acumulam maior volume de citações. A consequência previsível é o enfraquecimento progressivo dos periódicos científicos em língua portuguesa. Em nome da internacionalização, corre-se o risco de reduzir drasticamente os espaços de produção intelectual voltados às realidades nacionais e latino-americanas, rompendo vínculos entre universidade e sociedade.

O problema assume especial gravidade nas áreas de humanidades e educação. Diferentemente de campos altamente internacionalizados das chamadas ciências duras, grande parte da produção educacional dialoga diretamente com políticas públicas locais, práticas pedagógicas nacionais e contextos socioculturais específicos. A imposição indireta do inglês como idioma privilegiado da circulação científica ameaça transformar pesquisadores brasileiros em produtores periféricos de conteúdos ajustados às agendas e interesses editoriais do Norte global.

Ao mesmo tempo, as métricas bibliométricas tendem a favorecer aquilo que já possui visibilidade consolidada. Grandes conglomerados editoriais internacionais controlam simultaneamente revistas, bases indexadoras e mecanismos de mensuração de impacto. O resultado é um círculo cumulativo de prestígio: periódicos centrais recebem mais submissões, mais citações e mais reconhecimento institucional, enquanto revistas periféricas enfrentam dificuldades crescentes para sobreviver. Trata-se de um processo de concentração simbólica e econômica que amplia a dependência acadêmica dos países periféricos.

A diversidade disciplinar também parece insuficientemente contemplada pelo novo modelo. As áreas do conhecimento possuem temporalidades, públicos e práticas de citação profundamente distintas. Um artigo altamente especializado em matemática teórica ou filosofia clássica pode produzir impacto decisivo em uma comunidade restrita de especialistas, sem jamais alcançar números expressivos de citação. Em contrapartida, temas conjunturalmente populares podem gerar intensa circulação imediata mesmo quando suas contribuições científicas são superficiais.

3.

Nesse cenário, os sistemas de mensuração quantitativa tendem a incentivar pesquisas orientadas por modismos acadêmicos, agendas midiáticas ou tendências de alta circulação internacional. O risco é substituir a originalidade intelectual pela busca estratégica de visibilidade. Em vez de promover inovação, o sistema pode estimular o conformismo temático e a homogeneização epistemológica.

Mesmo mecanismos de normalização estatística por área, como o FWCI, não eliminam essas distorções. A média de citações de um campo não distingue, necessariamente, trabalhos de relevância intelectual duradoura daqueles que apenas se beneficiam de debates momentaneamente em evidência. Ademais, persistem práticas conhecidas de “citação cruzada” e formação de redes fechadas de auto consagração acadêmica, cuja identificação e controle permanecem extremamente difíceis.

Outro elemento crítico refere-se à chamada “meia-vida” da produção científica. Nas ciências experimentais, os ciclos de obsolescência costumam ser rápidos e o impacto frequentemente se manifesta nos primeiros anos após a publicação. Já nas humanidades, na educação e, como já advertiu o professor Luís Felipe Miguel, em diversas ciências sociais, o reconhecimento pode ocorrer lentamente e prolongar-se durante décadas.

Autores como Maria Teresa Mantoan, Emília Ferreiro, Paulo Freire, Maria Montessori, Jean Piaget, Ana Teberosky, Lev Vygotsky, Antonio Gramsci, Michel Foucault, Pierre Bourdieu, John Dewey, Ana Mae Barbosa, Karl Marx, Dermeval Saviani, Selma Garrido Pimenta, Antonio Joaquim Severino e José Carlos Libâneo continuam sendo lidos e reinterpretados décadas após suas obras originais.

Avaliar o impacto de artigos em um intervalo relativamente curto de quatro anos pode induzir comportamentos oportunistas, favorecendo publicações rápidas, fragmentadas e voltadas à obtenção imediata de visibilidade. Lembrando ainda que, a própria lógica temporal do ciclo quadrienal produz assimetrias internas: artigos publicados no início do período possuem mais tempo para acumular citações do que aqueles divulgados nos anos finais da avaliação.

As diretrizes também sugerem a valorização da circulação dos pesquisadores em plataformas sociodigitais e a aderência das pesquisas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Embora a divulgação científica seja uma dimensão importante da vida universitária contemporânea, há riscos evidentes quando a visibilidade digital passa a operar como critério implícito de reconhecimento acadêmico.

4.

A pressão para transformar pesquisadores em produtores permanentes de conteúdo compromete o tempo necessário à leitura rigorosa, à investigação empírica, à reflexão teórica e à orientação acadêmica. O cientista passa a disputar atenção em ambientes regidos pela velocidade, simplificação e lógica algorítmica da viralização. Em vez de fortalecer a ciência pública, tal movimento pode reforçar sua espetacularização.

Quanto aos ODS, o problema não reside em sua relevância política global, mas na forma genérica e frequentemente acrítica com que aparecem incorporados às diretrizes. Há o risco de subordinar agendas de pesquisa à adesão performática a vocabulários institucionais internacionalmente legitimados, em detrimento da autonomia intelectual e da pluralidade epistemológica que deveriam caracterizar a universidade pública.

Finalmente, permanece pouco esclarecido o funcionamento concreto da avaliação qualitativa dos artigos. O documento prevê classificações em escalas de qualidade baseadas na contribuição científica do texto, mas não apresenta detalhes suficientes sobre a composição das bancas, os critérios de julgamento ou os mecanismos de transparência e recurso. Surge então uma questão inevitável: quem lerá milhares de artigos produzidos pelos programas de pós-graduação brasileiros?

O trabalho docente já se encontra intensamente sobrecarregado por exigências administrativas, orientação, ensino, pesquisa e extensão. A ampliação do volume de avaliação qualitativa tende a produzir duas consequências igualmente preocupantes: superficialidade nos pareceres ou hiperconcentração de poder em pequenos grupos de especialistas. Sem mecanismos claros de transparência, corre-se o risco de substituir a objetividade ilusória das métricas por formas ainda mais opacas de subjetividade avaliativa.

A intenção de superar os limites do Qualis centrado em periódicos é legítima e necessária. Entretanto, o modelo proposto pela CAPES parece transferir problemas antigos para uma nova arquitetura avaliativa sem resolver questões estruturais do sistema científico brasileiro. Persistem os desafios relacionados às publicações predatórias, aos vieses linguísticos da bibliometria, à diversidade disciplinar, às temporalidades distintas do conhecimento, à pressão por visibilidade digital e à ausência de clareza sobre os processos de avaliação qualitativa.

Mais do que nunca, torna-se indispensável ampliar o debate com a comunidade científica, especialmente, com as áreas de Educação e Humanidades para construir critérios capazes de valorizar a produção em língua portuguesa, a relevância social da pesquisa, a pluralidade metodológica e a autonomia intelectual das universidades. Sem isso, a prometida modernização poderá converter-se apenas em mais um movimento de adaptação periférica às dinâmicas globais de mercantilização da ciência.

*Carlos Bauer é professor do programa de pós-graduação em Educação da Universidade Nove de Julho (UNINOVE) e autor do livro A construção da história dos trabalhadores em educação (Pedro & João Editores, 2025). [https://amzn.to/4fzWNEZ]

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