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Aquecimento global: devido às atividades humanas, o ponto de não retorno será em 2030

Do IHU, 12 Junho 2026
Por Pablo Esteban, publicada em Página|12, 12-06-2026.


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Em apenas quatro anos, o mundo poderá ultrapassar o aumento de 1,5 grau em comparação com a era pré-industrial, um limite que a diplomacia internacional havia prometido não ultrapassar.

O Acordo de Paris foi um dos pactos mais importantes sobre o aquecimento global. Assinado em 2015, as autoridades de quase 200 países se comprometeram a limitar as emissões de gases de efeito estufa. O objetivo: manter o aumento da temperatura abaixo de 1,5 graus Celsius em comparação com a era pré-industrial (1850-1900). Esta semana, um novo estudo internacional, reunindo contribuições de cientistas de 17 nações, anuncia que esse compromisso será descumprido até 2030. Ou seja, em quatro anos, devido à atividade humana, o mundo ultrapassará essa barreira aparentemente intransponível e chegará a um ponto sem retorno. No âmbito geopolítico, a situação está paralisada: enquanto há tentativas louváveis ​​por parte das nações desenvolvidas de transformar suas fontes de energia, há potências como os Estados Unidos que só pioram a situação. Para piorar o cenário, a Argentina está seguindo o mesmo caminho e ignorando a vasta quantidade de evidências científicas acumuladas. Nas palavras do próprio Milei, o aquecimento global "é uma invenção do socialismo".

O relatório, publicado na revista Earth System Science Data, reúne as contribuições de 70 cientistas de 56 instituições em 17 países diferentes. De acordo com o relatório, “o sistema climático está aquecendo em um ritmo recorde”, com impactos significativos nos ecossistemas e oceanos. Até o final da década, o mundo terá ultrapassado o limite de aumento de temperatura de 1,5 grau Celsius em comparação com os níveis pré-industriais, uma meta estabelecida por representantes de quase 200 nações. De fato, 2025 foi o terceiro ano mais quente já registrado.

Intitulado “Indicadores Globais de Mudanças Climáticas” (IGCC, na sigla em inglês), o relatório indica que a meta de aquecimento de 1,37 grau já foi atingida em 2025 e que o limite de 1,5 grau poderá ser ultrapassado até 2030. Além disso, afirma que, nos últimos anos, o calor se acumulou no sistema climático a uma taxa duas vezes maior do que a observada nas décadas anteriores. Conhecido como “desequilíbrio energético”, esse é um indicador fundamental, pois ajuda a compreender a aceleração do problema.

Resultados mais desanimadores


Entretanto, os especialistas que participaram do estudo apontam que as emissões de gases de efeito estufa atingiram um nível recorde, chegando a 56,8 bilhões de toneladas. Em outras palavras, longe de cumprir as obrigações assumidas em fóruns internacionais, os Estados aumentaram a poluição. A queima de combustíveis fósseis continua sendo a principal culpada e, embora algumas nações estejam desenvolvendo fontes alternativas de energia, os esforços são insuficientes e ainda não inclinaram a balança a favor de uma produção de energia mais limpa e menos poluente.

O estudo internacional também fornece novos dados que não foram tão amplamente considerados em pesquisas anteriores: ondas de calor marinhas. Estas podem ser definidas como períodos de temperaturas oceânicas anormalmente elevadas e persistentes que impactam a vida marinha. Comparando 2025 com 1991, os pesquisadores relatam que o número dessas ondas de calor triplicou, com sua presença identificada em 65 dias.

Como fator adicional, a elevação global do nível do mar também bateu seu próprio recorde. Estima-se que tenha subido 23 centímetros desde 1901, o que equivale a 1,8 mm por ano. Embora a mudança possa parecer minúscula, uma transformação dessa magnitude pode ser suficiente para aumentar significativamente as inundações em áreas baixas ao redor do mundo.

Efeitos que já podem ser vistos


Um dos artigos mais interessantes que mensuram os efeitos concretos das mudanças climáticas foi publicado recentemente por Mariano Rabassa e Christian García-Witulski, dois especialistas da UCA (Universidade Católica Argentina), que apresentaram dados convincentes. Segundo um artigo publicado na revista The Lancet Global Health, até meados do século, as altas temperaturas poderão causar entre 470 mil e 700 mil mortes prematuras adicionais por ano.

Pesquisadores realizaram uma análise detalhada do que está acontecendo com as pessoas em 156 países. Eles utilizaram dados coletados por meio de questionários respondidos pelos próprios participantes, conduzidos entre 2000 e 2022, e a partir daí projetaram o que aconteceria nas próximas décadas. Entre as principais conclusões, observaram que cada mês com temperatura média acima de 27,8°C se traduz em um aumento de 1,44 ponto percentual na inatividade física. Em outras palavras, se o calor persistir, ele leva as pessoas a um estilo de vida sedentário, e isso constitui um fator de risco decisivo para morte prematura (isto é, para pessoas que morrem entre os 39 e 65 anos).

Além das mortes e da inatividade física, também há impactos econômicos. "A diminuição da força muscular, o declínio cognitivo e a má qualidade do sono se traduzem em menor desempenho no trabalho e aumento do absenteísmo", destaca o artigo. No geral, até meados do século e em nível global, poderá haver perdas anuais de produtividade entre US$ 2,4 bilhões e US$ 3,68 bilhões.

Talvez mais do que qualquer outro problema, a mudança climática exponha as fragilidades da diplomacia internacional como meio de resolução de conflitos. Desde 1995, autoridades de quase 200 nações se reúnem anualmente para chegar a um consenso sobre o desenvolvimento de estratégias globais para combater o aumento constante da temperatura e seus efeitos devastadores sobre as populações. O Acordo de Paris, que até recentemente era lembrado como um marco crucial para a construção da governança global, já começa a cair no esquecimento. O calor derrete até as melhores intenções.

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