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Aprender a pensar com os pobres

Do A Terra É Redonda, 6 de junho 2026
Por LEONARDO BOFF*



Imagem: Ray Huang

A verdadeira dimensão da graça divina revela-se na resiliência das periferias, onde a solidariedade dos oprimidos transcende a rigidez dos dogmas tradicionais

1.

Nisso se caracteriza alguém que pratica a teologia da libertação: ele tem um pé na academia, na faculdade de teologia, e outro no meio dos filhos e filhas da pobreza, nas periferias. Este tipo de teologia sustenta algo óbvio: a pobreza significa eticamente uma injustiça social e politicamente uma opressão. Contra a opressão vale a libertação. Esta é levada avante pelos próprios pobres que se conscientizam oprimidos, se organizam e começam lá nas bases com práticas que visam a superar sua situação.

Isso é feito a partir da leitura comunitária da Bíblia: confrontam uma página da Bíblia com outra página de sua realidade sofrida. Daí tiram, depois de muita reza, cantoria e reflexão, os passos concretos a serem assumidos por todos. Os teólogos que se dispõem a caminhar com as comunidades mudam sua visão da sociedade e da Igreja.

Tudo isso é tão cristalino que me espanta o fato de que a teologia da libertação tenha sofrido e ainda sofra perseguição e difamação. Se bem repararmos este procedimento vem dos grupos que nunca vivenciaram realmente os padecimentos do mundo dos pobres e oprimidos. Isso mesmo me confessou pessoalmente o amigo Cardeal Joseph Ratzinger, aquele que, por ofício, presidiu meu julgamento nos espaços da antiga ex-Inquisição. Mas especialmente são os setores conservadores da Igreja e da sociedade que veem em todo movimento dos pobres, algo perigoso para a ordem vigente, coisa de comunistas. Por esse argumento Jesus, acusado de subversivo, pelos religiosos da época, como atesta Lucas (cf. 23,5) nunca teria sido crucificado, mas morrido na cama cercado de discípulos.

O que distingue um teólogo da libertação de outros colegas do centro e também da periferia é a opção pelos pobres, contra a pobreza e a favor da justiça social e da libertação. Esta diligência implica um grande aprendizado, coisa que não ocorre quando o teólogo não restringe seu ofício ao mundo acadêmico. Mas com a inserção, descobre a garra dos pobres, sua resiliência e profunda fé no Deus que escuta o grito dos oprimidos e mostra sua ternura para com os condenados da Terra.

Surpreende a presença da graça de Deus nas situações mais inusitadas que nos obrigam a pensar para além do bem e do mal. Assim o sugere a mensagem de Jesus, cujo Abba (Paizinho querido) ama a todos, para além das categorias do bem e do mal e mostra misericórdia aos ingratos e maus (Lucas, 6,35).

2.

Vou narrar duas experiências vividas na periferia pobre enquanto lecionava na faculdade o Tratado de Graça, um dos mais difíceis da teologia pois encerra muitas condenações.

Encontrei-me com Raimundo em Canindé que logo me pediu: Frei, vim buscar água benta. Para que você quer a água benta, perguntei. Ele respondeu: é para benzer minha casa. Mas isso, eu como padre, posso fazer e vou aí com você. Não pode, frei. É até feio dizer, mas vou confessar: vivo com uma mulher sem ter casado na igreja. Tenho dois erros com ela: primeiro, porque é preta, segundo, porque a tirei da prostituição. Quero experimentar viver com ela, dar-lhe carinho e compreensão. Se ela for capaz de viver com um homem só, comigo, então vou casar na igreja. Agora estou em pecado. Por isso vim pegar água benta para benzê-la e rezar para eu sair do pecado. Se tudo der certo, o senhor, frei, fará nosso casamento. Tempos depois, fiz o casamento com muita pipoca e Coca-cola.

Esse homem, Raimundo, amou. Seguramente nem saberia que o verdadeiro nome de Deus é amor. E quem ama, está com Deus, como diz São João em sua epístola (1 Jo 4.16) e não com o pecado.

Encontrei religiosas em Xapuri no coração da floresta do Acre. Mantinham na sala um seringueiro que parecia ter lepra. Passando por uma ruela, uma das religiosas viu uma placa com os dizeres “Casa da caridade”. Foi se informar e soube que a Casa pertencia à dona Josefina. A religiosa convidou-a para ir até ao conventinho e ver um doente de lepra. Logo ao entrar e olhar longamente o doente, Josefina disse: Irmãzinha, isso não é lepra, é só micose. Deixa, que vou tratá-lo na Casa da Caridade.

Curiosa, a religiosa perguntou: para que serve esta Casa? Josefina respondeu: é para todos os doentes do interior da mata e para quem não tem onde dormir. Como a senhora mantém a Casa da Caridade? Josefina, um pouco constrangida, respondeu: eu tenho uma boate. Preciso me sustentar. As mulheres daqui não têm trabalho e quase todas são prostitutas. Precisam alimentar a família e eu o pessoal que fica na Casa.

Só pego para mim o necessário. O que sobra é para manter a Casa da Caridade. Cozinho para eles, lavo as roupas e compro os remédios. Tudo de graça. Para pagar o meu pecado. Sei que é contra a lei de Deus. Mas a lei da vida não é também aceita por Deus?

Ao ouvir a história fiquei abismado e pensei comigo: o amor de Josefina é o que significa a graça que eu ensino, quer dizer, o amor concreto de Deus na situação concreta das pessoas. Lembrei-me da mulher, tida por prostituta, que beijou os pés de Jesus e os ungiu com perfume, chorava e com os cabelos enxugava as lágrimas (Lucas 7,38). Face aos que pensavam mal, Jesus disse: “onde quer que no mundo se pregar a boa-nova, será lembrado o que ela fez” (Marcos 14,9). Foi puro amor, graça divina.

Esses dois fatos mostram o amor de Deus que é o que chamamos de graça: ela vem quando quer, sobre quem quer e em qualquer situação. Há flores que florescem nos pântanos. E são as mais brancas e belas. Essa flor tem um nome: Josefina da Casa da caridade. O amor generoso se chama Raimundo, aquele da água benta.

*Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros livros, de Graça e experiência humana (Vozes). [https://amzn.to/43QrVbV]

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