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A reabertura do Estreito de Ormuz

Do A Terra É Redonda, 05 de junho 2026
Por MIKE SCHULER*



Imagem: Agência de Notícias Tasnim / Míssil iraniano
(imagem recortada)

Setor de transportes marítimos afirma que o acordo de paz no Estreito de Ormuz, por si só, não trará de volta os navios

1.

Executivos do setor de transportes marítimos reunidos na feira marítima Posidonia, na Grécia, na segunda-feira, transmitiram uma mensagem clara: mesmo que Washington e Teerã cheguem a um acordo de cessar-fogo, é improvável que o transporte marítimo comercial retorne à normalidade de suas operações no Estreito de Ormuz sem regras claras, garantias de segurança e a certeza de que os navios podem transitar em segurança.

Os comentários surgiram enquanto os negociadores dos EUA e do Irã continuam as discussões sobre uma proposta de prorrogação de 60 dias do atual marco de cessar-fogo, um acordo que poderá eventualmente pavimentar o caminho para a reabertura de uma das vias navegáveis estrategicamente mais importantes do mundo.

Contudo, os oradores na conferência da Capital Link sugeriram que, do ponto de vista do transporte marítimo, um acordo de paz é apenas o primeiro passo.

“O que precisamos é, obviamente, de um marco, de um regulamento, de algo que nos indique exatamente como podemos entrar e sair”, disse Pankaj Khanna, presidente da Heidmar Maritime Holdings. “Portanto, mesmo que tenha sido assinado um acordo de paz, isso tem que ser esclarecido, o que até o momento não sabemos”.

Os comentários ecoam as preocupações repetidamente levantadas por armadores, seguradoras e organizações de segurança marítima ao longo dos três meses de crise. Enquanto as discussões diplomáticas têm focado cada vez mais em cessar-fogos e acordos políticos, os executivos do setor de transportes marítimos têm apontado consistentemente para questões operacionais não resolvidas, que estão relacionadas com procedimentos de circulação, instruções militares, cobertura de seguros e riscos de responsabilização civil.

Yiannis Procopiou, CEO da Centrofin Management, afirmou que a disponibilidade de seguros, por si só, não seria suficiente para restaurar a confiança. “Embora possa haver seguros disponíveis, isso não significa que o estreito seja realmente um lugar por onde se queira transitar”, disse Yiannis Procopiou. “Ao menos até termos regras de intervenção claras, como indústria de transporte marítimo, sobre como lidar com as duas nações envolvidas nesta questão, os EUA e o Irã”. “Isto é, neste momento, uma proposta de risco muito elevado”, acrescentou.

A cautela do setor de transportes marítimos surge apesar do otimismo crescente entre alguns líderes políticos de que poderá surgir um acordo mais abrangente nas próximas semanas.

2.

Evangelos Marinakis, fundador e presidente da Capital Maritime & Trading Corp., afirmou que o setor poderia suportar uma espera mais longa se isso resultasse num acordo duradouro. “Do que vimos até agora, podemos suportar uma espera de mais duas semanas, mais um mês, se o acordo final for bom para todos nós”, disse Evangelos Marinakis. “Um acordo que nos faça sentir seguros e confiantes em relação ao futuro”. Evangelos Marinakis disse que continua otimista quanto à possibilidade de se encontrar uma solução dentro de algumas semanas.

A crise deixou centenas de navios parados e milhares de marinheiros retidos na região. As organizações marítimas têm ressaltado repetidamente que qualquer plano de reabertura deve abordar não apenas as operações comerciais, mas também as preocupações humanitárias que envolvem as tripulações que estão há meses impedidas de sair do Golfo.

O secretário-geral da Organização Marítima Internacional, Arsenio Dominguez, afirmou que a confirmação de um cessar-fogo que abranja o Estreito de Ormuz permitiria que o plano de evacuação da organização avançasse imediatamente.

“Se isso incluir, evidentemente, o Estreito de Ormuz, e eu puder obter garantias dos países de que é seguro começar a utilizar essa via navegável, então o plano de evacuação entrará imediatamente em ação”, afirmou Arsenio Dominguez.

“O primeiro objetivo é sempre os marinheiros”. Khanna observou que um dos navios da Heidmar permaneceu retido no Golfo durante toda a crise. “Os marinheiros a bordo estão perdendo não apenas a oportunidade de ver suas famílias, mas também nascimentos, mortes e casamentos”, afirmou.

O ministro grego dos transportes marítimos, Vasilis Kikilias, disse que a imprevisibilidade do conflito continua pesando fortemente no comércio global. “Não podemos aceitar que não haja livre passagem para os navios em todo o mundo”, afirmou Kikilias. “Gostaria que deixassem a indústria naval, os marinheiros e o comércio global fora da equação, mas parece que isso é impossível”.

George Procopiou, fundador da Dynacom Tankers Management e da Dynagas, enfatizou que a liberdade de navegação continua sendo um princípio fundamental. “A liberdade de navegação é essencial e ninguém pode impor taxas ou qualquer outro encargo”, afirmou.

3.

Os comentários reforçam um consenso crescente em todo o setor marítimo de que a reabertura do Estreito de Ormuz exigirá mais do que meros comunicados diplomáticos. Grupos do setor, incluindo a BIMCO, a Câmara Internacional de Navegação, seguradoras e armadores, têm alertado repetidamente que é improvável que o tráfego marítimo se recupere enquanto os operadores não tiverem a certeza de que as garantias de segurança, os acordos de seguro, os procedimentos de coordenação militar e as regras de navegação estão claramente definidos.

Outra grande questão não resolvida é a situação das minas navais. Os responsáveis do setor de transportes marítimos têm alertado repetidamente que um cessar-fogo, por si só, não eliminaria o risco representado pelas minas possivelmente colocadas durante o conflito.

A BIMCO já tinha alertado anteriormente que a restauração da confiança no Estreito de Ormuz exigiria semanas de operações direcionadas de remoção de minas, corredores de trânsito designados e verificação independente de que as principais rotas marítimas estão seguras, antes que os armadores estejam dispostos a retomar as operações normais.

Para os armadores, a questão já não é se será possível alcançar um cessar-fogo. É se algum acordo poderá restaurar a confiança necessária para persuadir os navios comerciais a regressarem a uma das rotas marítimas mais importantes – e, recentemente, mais perigosas – do mundo.

*Mike Schuler, jornalista, é editor-chefe do portal gCaptain.

Tradução: Fernando Lima das Neves.

Publicado originalmente no portal gCaptain.

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