Por ÍCARO REBOUÇAS*
A ausência de muros entre universidade e comunidade não ignora os riscos da cidade, mas afirma que conhecimento, cultura e direitos precisam circular onde historicamente foram negados
1.
Há uma pergunta que volta a aparecer sempre que a violência ocupa o centro do debate público nas grandes cidades brasileiras: o que fazer quando o medo passa a organizar a vida urbana?
As respostas costumam surgir rapidamente. Mais grades. Mais barreiras. Mais controle. Mais restrições à circulação. A lógica parece intuitiva: se existe perigo do lado de fora, basta fortalecer o lado de dentro.
Mas a experiência das cidades brasileiras sugere que a questão é mais complexa. Nas últimas décadas, condomínios fechados, cercas elétricas, guaritas, câmeras de vigilância e sistemas de controle de acesso passaram a fazer parte da paisagem urbana. Nunca houve tantas barreiras físicas. E, paradoxalmente, nunca o tema da segurança esteve tão presente na vida cotidiana. A multiplicação dos muros não eliminou o medo. Em muitos casos, apenas o reorganizou.
Mais do que uma resposta à violência, os muros expressam uma determinada forma de compreender a cidade: a convivência passa a ser percebida como risco; a circulação, como ameaça; e o isolamento, como solução. Nesse modelo, a cidade deixa de ser um espaço de encontro para se transformar em um conjunto de territórios separados pela desconfiança.
O problema é que a violência urbana não pode ser compreendida apenas como uma questão de controle territorial. Ela também está relacionada à desigualdade social, à ausência de oportunidades, à fragilidade das políticas públicas e às dificuldades históricas de acesso a direitos. Por isso, toda vez que o medo se transforma em política, a primeira vítima costuma ser o encontro.
Os espaços públicos perdem vitalidade. A convivência entre diferentes torna-se cada vez mais rara. A cidade deixa de ser vivida como experiência coletiva. Esse processo produz outro efeito igualmente preocupante: determinados territórios passam a ser definidos exclusivamente pelos conflitos que neles ocorrem. As pessoas desaparecem atrás das manchetes. A complexidade social desaparece atrás dos índices de violência. Os bairros passam a ser conhecidos apenas por suas feridas.
2.
Salvador conhece bem esse fenômeno. A Engomadeira é um exemplo eloquente. Sempre que episódios de violência atingem a região, o bairro retorna ao noticiário associado quase exclusivamente à criminalidade. Evidentemente, os problemas existem e não podem ser ignorados. Os moradores convivem há anos com os impactos de confrontos armados, operações policiais e profundas desigualdades sociais.
Mas reduzir a Engomadeira à violência significa produzir uma segunda injustiça. A primeira é a própria violência. A segunda é apagar tudo aquilo que existe para além dela. Porque a Engomadeira também é feita de trabalho, cultura, religiosidade, organização comunitária, solidariedade, empreendedorismo, criatividade e projetos de futuro. É um território onde milhares de pessoas constroem suas vidas, educam seus filhos, desenvolvem atividades econômicas e produzem formas de convivência que raramente aparecem nas narrativas predominantes sobre a cidade.
É nesse contexto que a presença de instituições públicas em territórios populares adquire relevância. Entre o Cabula e a Engomadeira está localizado o Campus I da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Em momentos de agravamento da violência na região, volta e meia reaparece uma proposta recorrente: restringir acessos, ampliar barreiras e transformar a universidade em um espaço isolado de seu entorno.
A preocupação com a segurança é legítima. Nenhuma instituição está imune aos impactos da violência urbana. Mas a questão central talvez esteja em outro lugar. A violência não surgiu porque existe uma universidade na região. A universidade foi instalada ali porque existia uma população historicamente afastada das oportunidades educacionais, culturais e científicas concentradas em áreas mais privilegiadas da cidade. Essa diferença é fundamental.
Ela ajuda a compreender que o debate não diz respeito apenas à proteção de um campus universitário. O que está em discussão é o próprio papel das instituições públicas na produção da vida urbana.
Ao longo de sua história, a UNEB construiu uma identidade vinculada aos territórios baianos. Sua estrutura multicampi expressa uma compreensão simples e profundamente democrática: o conhecimento não deve permanecer isolado dos problemas concretos da sociedade.
Essa escolha não se manifesta apenas nos discursos institucionais ou nos projetos de pesquisa e extensão. Ela também se expressa de maneira concreta na relação cotidiana entre universidade e comunidade.
Quem frequenta o Campus I encontra uma realidade cada vez mais rara nas grandes cidades brasileiras. Não existe um muro separando rigidamente a universidade da Engomadeira. Também não existem catracas controlando a circulação cotidiana entre o campus e o seu entorno. A livre circulação de moradores pelo espaço universitário faz parte da paisagem do local há décadas.
3.
Moradores atravessam o campus, participam de atividades culturais, frequentam eventos, utilizam serviços e circulam por um espaço que nunca foi pensado como uma ilha apartada da cidade. Essa característica não é um detalhe arquitetônico. Ela expressa uma concepção de universidade pública. Para muitos, essa abertura passa despercebida. Para outros, especialmente nos momentos em que a violência ganha visibilidade, ela se transforma em motivo de questionamento.
Não são raras as cobranças para que a universidade construa muros, restrinja acessos ou estabeleça mecanismos mais rígidos de controle da circulação. A proposta costuma ser apresentada como uma resposta natural aos problemas de segurança. Mas talvez seja justamente aí que reside uma das questões centrais deste debate.
A violência que afeta a região não foi produzida pela abertura da universidade. Tampouco a convivência entre universidade e comunidade é responsável pelos conflitos que atravessam o território. Transformar a proximidade em problema significa ignorar a complexidade das causas da violência e deslocar a atenção para soluções que atuam mais sobre os símbolos do que sobre as origens do problema.
Mais do que uma característica arquitetônica, a ausência de um muro representa uma concepção de universidade pública. Representa a compreensão de que a instituição não existe para se apartar da sociedade, mas para dialogar com ela. Representa a ideia de que conhecimento, cultura, ciência e educação devem circular. Representa, sobretudo, a recusa em aceitar que o medo seja o único critério para definir como ocupamos os espaços coletivos.
Naturalmente, essa relação não elimina os problemas da realidade urbana. Não impede que a violência afete estudantes, professores, trabalhadores e moradores. Mas demonstra algo importante: a convivência não é a causa da violência. Em muitos casos, ela constitui uma das condições necessárias para enfrentá-la.
Há ainda uma dimensão histórica que merece atenção. O Cabula integra uma região marcada pela memória dos antigos quilombos e pela forte presença da cultura afro-brasileira. Trata-se de um território de herança quilombola, moldado por experiências históricas de resistência, organização comunitária e luta por dignidade. Muito antes de aparecer nos noticiários pelos seus problemas, essa região já era conhecida por sua capacidade de produzir comunidade.
4.
Talvez não seja coincidência que uma universidade pública comprometida com a democratização do conhecimento tenha se consolidado justamente nesse território. Não porque universidades e quilombos sejam equivalentes, mas porque ambos, em contextos distintos, expressam a recusa em aceitar que a liberdade, a dignidade e o acesso aos bens fundamentais da vida social sejam privilégios reservados a poucos.
O debate sobre os muros, portanto, não diz respeito apenas à UNEB ou à Engomadeira. Trata-se de uma questão cada vez mais presente nas cidades brasileiras.
Diante da violência, a resposta predominante tem sido a fragmentação do espaço urbano. Multiplicam-se barreiras físicas, mecanismos de vigilância e formas de controle da circulação. A promessa é produzir segurança. O resultado, muitas vezes, é a naturalização da separação social.
Nesse modelo de cidade, o espaço público perde centralidade. O encontro torna-se exceção. A convivência entre diferentes passa a ser percebida como risco. A cidadania cede espaço à lógica da suspeita. Talvez por isso a discussão sobre muros seja tão reveladora.
O que está em jogo não é apenas uma solução arquitetônica para um problema de segurança. O muro representa uma determinada visão de cidade. Uma visão segundo a qual a proteção depende da separação, a convivência é um risco e os territórios populares devem ser mantidos à distância.
A experiência construída ao longo de décadas entre a universidade e a comunidade aponta na direção oposta. Ela sugere que instituições públicas não cumprem plenamente sua função quando se isolam da sociedade, mas quando se conectam a ela.
Sugere que segurança não pode ser pensada apenas como contenção. Ela também depende da ampliação de direitos, da presença do Estado, do fortalecimento da educação, da cultura, das oportunidades e dos vínculos sociais que sustentam a vida coletiva.
Em última instância, o debate sobre os muros é um debate sobre democracia. Porque uma democracia não se sustenta apenas por meio de eleições, leis ou instituições. Ela depende da existência de espaços de convivência. Depende da possibilidade de encontro entre pessoas diferentes. Depende da capacidade de reconhecer o outro como cidadão e não apenas como ameaça.
Os muros podem proteger edifícios. Mas apenas as pontes são capazes de fortalecer a vida coletiva. E talvez seja exatamente esse o desafio colocado às cidades contemporâneas: enfrentar a violência sem abrir mão da convivência que torna possível a própria ideia de sociedade.
*Ícaro Rebouças é jornalista e coordenador da TV UNEB.

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