Por ADRIAN CASTRO*
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| Imagem: Nareeta Martin |
A tentativa de transformar embates socioambientais concretos em meras disputas semânticas ignora a realidade das populações amazônicas e enfraquece suas lutas políticas reais
1.
Recentemente, minha tia-avó reclamou comigo que o quilo do mapará está caro demais. Ela explicou que isso ocorre porque o peixe está vindo de outros municípios, visto que há cada vez menos maparás na região onde meus familiares moram. Na visão dela, esse peixe está com os dias contados.
Tal visão parte de uma problemática ambiental que se iniciou décadas atrás. Com a instalação da hidrelétrica de Tucuruí, no baixo Tocantins paraense, alterou-se o ciclo natural de diversos animais. O tempo de chegada dos peixes à região de Cametá diminuiu, sendo introduzidos aos ambientes tradicionais de pesca muito mais novos que no ciclo anterior à barragem. Desde então, sendo capturados juvenis (Fifiti), incide-se um menor índice natural de reprodução das espécies, ocasionando um menor número de peixes e demandando intervenção estatal para que não entre em risco de extinção.
Interferir nos recursos hídricos amazônicos tem consequências perigosas às populações tradicionais e nativas da região. Trata-se de um fato, uma obviedade que pode ser alcançada por uma variedade de pensamentos distintos. Do pescador no rio Madeira ao chefe de estado em Brasília, todos possuem acesso a elementos simbólicos capazes de ilustrar isso. Porém, para o texto “A privatização dos rios do Pará” – publicado no site A Terra é Redonda –, isso é incerto e leviano de se afirmar.
Para o autor do texto, o embate entre o governo federal e as populações locais, em relação à transformação de rios paraenses em grandes hidrovias, é sinal de uma “polarização” decorrente de um desacordo profundo entre a gramática liberal e a gramática regional periférica. Segundo ele, há: “De um lado, argumentos sobre eficiência, investimento e desenvolvimento. De outro, falas que parecem ‘exageradas’ ou ‘irracionais’, como a de uma liderança indígena que afirma: ‘o rio é o nosso ancestral’”. (Silva Filho, 2026).
A redução da origem dos entraves socioambientais relativos às explorações dos rios paraenses a uma “disputa gramatical” é de uma apatia comum aos estudos analíticos na filosofia. É uma área que crê em “setups lógicos” capazes de abarcar todos os embates sociais contemporâneos, independentemente de suas bases sócio-históricas.
Trazendo as noções de certezas fulcrais e desacordos profundos, o autor decidiu desconsiderar a complexidade do debate e representar a discussão acerca da exploração de rios paraenses em uma suposta disputa entre argumentos baseados em dados e falas sentimentais lastreadas na cultura. Tudo isso para encaixar uma discussão socioambiental séria, de projeção internacional, no escopo de uma tímida teoria filosófica.
2.
A cooptação de temas de alta relevância à atualidade e a falta de uma pesquisa responsável sobre os mesmos são as principais características do generalismo predatório executado nesses estudos. Nele, acredita-se que tudo é encaixável na estrutura de sua investigação normativa, dando a possibilidade de se falar genericamente sobre qualquer assunto, mesmo sem o mínimo domínio epistêmico acerca do abordado.
Para aqueles verdadeiramente comprometidos com a compreensão da questão fluvial paraense, parte-se do reconhecimento de que a premissa principal do desacordo é que a potencialidade do impacto socioambiental é um risco às populações regionais, sejam elas nativas ou tradicionais. Inclusive, ambas sempre utilizaram dos rios como recurso natural, desenvolvendo uma variedade de atividades laborais e empreendimentos privados que dependem diretamente dos recursos hídricos. Elas, mais que todos, compreendem o papel econômico que os rios desempenham na vida dos seres humanos.
Dessa forma, o texto é extremamente equivocado em afirmar que se trata de um conflito normativo e gramatical entre lógicas distintas, de formas de vida que não compartilham os mesmos eixos conceituais. A relação emocional com os rios na Amazônia, fruto da peculiaridade dos seus ethos, não é um impeditivo à sua exploração, geração de lucro, otimização via gestão eficiente ou até mesmo de propriedade definida. O problema reside em como esses processos são conduzidos.
O autor omite que o ponto crucial da revolta foi a concessão dos rios para três anos de dragagem, sem qualquer laudo técnico ou jurídico aprofundado acerca do seu impacto socioambiental na região. Não foram apenas os indígenas que apontaram isso. Os ribeirinhos, as entidades de pesquisa, o Ministério Público Federal (MPF) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) indicaram a mesma questão.
Porém, esse “detalhe” não colabora com a análise filosófica dos neopragmatistas. Por isso, não é relevante para eles. O que realmente importa ao seu debate é que alguma senhora indígena, de etnia desconhecida, disse que o rio é seu ancestral, vivo, e que por conta disso possui direitos. Também que, do outro lado da polarização, há agentes do executivo brasileiro e da Cargill privilegiando a exploração econômica dos rios para fins de exportação de grãos. Ambos não se convencem pois, supostamente, não compartilham os critérios básicos do debate, estando assim em situação de desacordo profundo.
A princípio, pode parecer apenas mais uma instrumentalização de pautas sociais a fim de dar evidência a autores e conceitos “nichados”. Porém, é muito mais que isso. O texto, por meio de seus diversos equívocos e omissões, colabora com o enfraquecimento da pauta socioambiental no Pará, ao retratar com exotismo as mobilizações populares no estado.
3.
É a continuidade de um preconceito histórico com a região: o amazônida é visto como um ser peculiar, cujo pensamento tem lastro em cosmovisões apegadas às entidades da natureza e com suas práticas restringidas pelos modos de vida de seus antepassados. Ele é descrito como o oposto do brasileiro médio, visto que partem de origens distintas: um é consequência do legado euro-africano, dos ideais de modernidade e trabalho resultados da colonização portuguesa; o outro, da hereditariedade nativa no país, de ideais arraigados em culturas autóctones.
A suposta polarização identificada pelo texto é um reflexo desse preconceito. A disputa gramatical, inferida como cerne do debate em relação às privatizações hídricas no Pará, seria entre as hinges exóticas das formas de vida amazônidas, desapegadas do factual e do científico, e as hinges do modelo econômico brasileiro, cujas regras do jogo são definidas por diretrizes econômicas atreladas aos princípios de mensurabilidade e falseabilidade.
Em suma, o universo simbólico regional e sua gramática “periférica” são postos como inaptos à compreensão de uma gramática técnico-científica, assim como a cadeia de significados construída nessa gramática “colonizadora” é descrita como insuficiente para entender o que as populações locais estão reivindicando. De certo modo, repete-se a ideologia preconceituosa novecentista, encarnada nos ciclos de neocolonização da Amazônia brasileira, onde a cultura local é posta em oposição à economia nacional.
Para determinados modos de pensamento, o exótico precisa habitar o lugar do estranhamento. A escolha da fala da indígena como representante de um lado da polarização, enquanto o outro é retratado pelo viés lúcido, cumpre exatamente esse papel. Como já apontava Frantz Fanon (2021, p. 12-13), a preocupação com respeito à cultura do exótico não significa sua aceitação como parâmetro de valor. Demonstrar apreço ao Outro ao mesmo tempo que lhe desqualifica é a característica central do exotismo.
A tendência que está sendo construída na filosofia analítica brasileira, de teorias e conceitos socialmente engajados em pautas progressistas, funciona muito mais como desestabilizadora dos movimentos sociais existentes do que como aliada às pautas defendidas. A falta de tato e de domínio teórico acerca das questões sociais abordadas é reflexo da negligência em relação à complexidade daquilo que está sendo abordado. Não falta apenas método. Falta leitura, falta empatia e falta comprometimento.
A ideia de um Wittgenstein “anticolonial”, de teorias raciais analíticas, de um neopragmatismo “periférico” e “quilombola”, não se compromete com as pautas que utiliza. Essas são tratadas como objetos instrumentalizados em pesquisas, tendo em vista os benefícios de utilizar questões de amplo alcance midiático e adesão social. Assim, na lógica da performance acadêmica, a produção em massa desses textos, ou de ensaios sobre a maior variedade de “hot–topics” possíveis, é responsável por fabricar volume e abrangência às pesquisas, dando a falsa impressão de relevância aos conceitos trabalhados.
4.
Porém, não se trata apenas de uma questão de relevância e visibilidade. O generalismo predatório executado nessas pesquisas analíticas, que performam engajamento social, possui um viés econômico claro: produzir para conquistar investimento. Tais pesquisas são projetadas para captar recursos financeiros, seja pelo comercial, com a venda de livros e cursos, ou pelo âmbito do financiamento, ao disputar editais ou listas de recursos governamentais atrelados às ODS e aos planos de inclusão social nacional.
De todo modo, trata-se de um modelo de negócios. As investidas que a analítica filosófica realiza em direção às pautas sociais brasileiras não se diferenciam das visitas e dos projetos realizados por multimilionários e big-techs junto às populações subalternizadas no país. Sua preocupação é alimentar-se das pautas para benefício próprio, dando o mínimo de atenção aos elementos relevantes a elas.
O esforço de Luciano “Hulck” em montar uma fotografia sem indígenas usando shorts e celulares em uma aldeia, pedindo para que as pessoas “limpem sua cultura”, e o esforço do texto para retratar a população amazônida como primal partem do mesmo ponto: manter a imagem do exótico. Sem ela, não há clamor midiático. Não há compadecimento comunitário. Não há enquadramento inclusivo.
Sobre o debate das privatizações dos rios paraenses, não é viável comunicar que seu Getúlio – que lucra com pesca desde a mocidade e que sabe metodicamente onde é a área de desova e onde é a área de engorda de uma variedade de bagres, da pirarara ao Filhote, dos internacionalmente protegidos piramutaba e dourada – é contra a dragagem do rio por saber que vai prejudicar tanto sua subsistência quanto seus negócios.
Não é viável comunicar que as etnias indígenas próximas ao rio Tapajós sabem que, historicamente, as intervenções estatais nos recursos naturais de suas regiões trazem riscos ao seu modo de vida (econômica e culturalmente) e à sua integridade física. Mas é viável inventar que a problemática é gramatical, pois supostamente o significado de “rio” está sendo disputado.
É importante alimentar a ideia de que as populações subalternizadas pensam de maneira distinta, sendo incapazes de participar de determinados diálogos. Tem que se manter a ideia de que ribeirinhos não têm entendimento técnico por conta de sua gramática. Que indígenas não possuem conhecimento histórico por conta das peculiaridades de seu universo simbólico. E vice-versa.
A importância reside na necessidade de mantê-los como sujeitos que precisam de outros para “tradução” de suas pautas, como uma forma moderna da histórica tutelagem. Precisa haver a demanda por sujeitos intermediários, que falem em nome dessas populações de “gramática exótica”. Como consequência, também há a demanda por modelos teóricos que auxiliem e descrevam o exercício desses intermediários. Essa forma de neopragmatismo, praticada no texto, ocupa-se com ambas.
A cadeia informacional é comprometida, por serem essas pesquisas as que têm mais chance de serem reproduzidas entre nichos filosóficos das outras regiões do país. Enquanto a produção local batalha para legitimar as pautas e reivindicações das populações amazônicas, são essas pesquisas as mais prováveis de irem para Portugal, para a Alemanha, para os Estados Unidos e outros centros de produção de conhecimento para serem tomadas como “hinches” nos debates sobre a questão socioambiental na Amazônia.
5.
O sucesso da predação generalista ocorre às custas da fragilização de pautas densas e importantes. O texto é apenas um exemplo das mais variadas formas que essa predação ocorre em discussões sobre gênero, cultura, raça e sexualidade. Enquanto houver silêncio e tolerância em relação a essas práticas, elas continuarão ganhando espaço e conquistando adeptos.
Infelizmente, a história da Amazônia é a história da exploração contínua da sua população e do seu espaço natural, como Loureiro (2002, p. 107-114) resume: “A Amazônia foi no passado “um lugar com um bom estoque de índios” para servirem de escravos, no dizer dos cronistas da época; uma fonte de lucros no período das “drogas do sertão”, enriquecendo a Metrópole; ou ainda a maior produtora e exportadora de borracha tornando-se uma das regiões mais rentáveis do mundo, numa certa fase. Na Segunda Guerra Mundial, fez um monumental esforço para produzir borracha para as tropas e equipamentos dos Aliados. Mas é mais recentemente que ela tem sido mais explorada […] Índios, negros (quilombolas) e caboclos têm sido considerados nos planos e nos projetos econômicos criados para a região como sendo portadores de uma cultura pobre, primitiva, tribal e, portanto, inferior. Assim, eles nada teriam a aportar de positivo ao processo de desenvolvimento”.
Nas últimas décadas, para além de passar por esse aprofundamento das iniciativas violentas de exploração, ainda precisamos lidar com grupos de “intelectuais” emitindo opiniões, produzindo teses e teorias equivocadas sobre nossa realidade. Essas sendo não somente desnecessárias, mas extremamente maliciosas. Apesar de haver entrevistas, reportagens e perfis de redes sociais acompanhando cada passo dos grupos que fazem frente à exploração descuidada nos territórios paraenses, ainda há a constante preocupação: quantas pessoas, que não possuem acesso às vozes locais, estão tomando narrativas falaciosas como verdade?
Em relação à privatização do rio Tapajós, no Pará, ainda não há nada definido. O recuo do governo federal frente à luta organizada pelas populações locais — com protagonismo dos povos indígenas — significou apenas uma vitória parcial. Como as lideranças indígenas já comunicavam, a demanda em relação à privatização do Tapajós está intimamente atrelada à construção da “Ferrogrão”, obra inegociável aos planos do atual presidente da república, mesmo com a resistência da população e dos órgãos competentes.
No final de maio de 2026, a Câmara dos Deputados Federais e o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiram em favor do atual governo, aprovando a modificação da lei que assegurava a preservação do Parque de Jamanxim, no Sudoeste paraense, possibilitando a redução de quase 40% de seu tamanho atual para a construção da Ferrogrão.
Como outra etapa do mesmo projeto de escoamento da produção do agronegócio por hidrovias nos rios paraenses, a explosão do rio Tocantins – habitat do mapará, comentado no início do ensaio – está avançando nos trâmites federais mesmo com o MPF acusando as irregularidades ambientais e incongruências compensatórias às comunidades locais.
Com a constante pressão das instâncias federais realizada até aqui, é bem provável que outras tias-avós, assim como a minha, passem a acreditar na extinção dos peixes amazônicos nos próximos anos. O conhecimento tradicional é plenamente capaz de relacionar as políticas públicas com as consequências socioambientais em sua vizinhança, motivo pelo qual há, e haverá cada vez mais, oposição aos projetos atuais.
Porém, para os discordantes rasos, o descontentamento dos regionais com o projeto do executivo é de cunho normativo, já que os primeiros acreditam que os elementos da natureza são seus parentes e o presidente da república e seus ministros enxergam apenas árvores gigantes, animais esquisitos e rios caudalosos.
*Adrian Castro é mestre em filosofia pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
Referências
FANON, Frantz Omar. Racismo e Cultura. Editora Terra sem Amos: Brasil, 2021.
LOUREIRO, Violeta Refkalefsky. Amazônia: uma história de perdas e danos, um futuro a (re)construir. Estudos Avançados, v. 16, n. 45, p. 107-121, 2002.
SILVA, Marcos. Um Modelo Neopragmatista de Alavancagem Gramatical. Trans/Form/Ação: revista de filosofia da Unesp, Marília, v. 49, n. 1, 2026.
SILVA FILHO, Marcos Antônio da. A privatização dos rios do Pará. A terra é redonda, 14 março 2026. Disponível em https://aterraeredonda.com.br/a-privatizacao-dos-rios-do-para/

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