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A economia libidinal do capitalismo algorítmico

Do A Terra É Redonda, 24 de junho 2026
Por GABRIEL VEZEIRO*


Imagem: Goost Eight

Ao atualizar a biopolítica de Foucault, o capitalismo algorítmico abandona a censura para dominar pela saturação, transformando afetos, desejos e a ecologia da consciência em ativos financeiros

A passagem do capitalismo industrial-fordista para um regime financeirizado, plataformado e algorítmico reorganizou simultaneamente o trabalho, a linguagem, a atenção e os mecanismos de produção de valor. Portanto, não pode ser compreendido apenas como transformação econômica, tecnológica e produtiva. O capital já não opera exclusivamente por meio da exploração material do trabalho no interior da fábrica; passa a incidir diretamente sobre comunicação, cognição, afetos e circulação semiótica, capturando a vida social em sua totalidade.

É nesse ponto que a noção de economia libidinal se torna axial. O capitalismo algorítmico não captura apenas atenção no sentido funcional do termo; captura também disposição afetiva, expectativa, desejo, ansiedade, reconhecimento e necessidade de validação. A plataforma não se limita a oferecer conteúdos, já que organiza pequenos circuitos de recompensa, frustração e promessa, nos quais o sujeito é continuamente chamado a expressar-se, reagir, comparar-se, desejar e reaparecer.

A vida psíquica torna-se, assim, matéria de valorização. Barbara Ehrenreich já havia mostrado, na crítica ao pensamento positivo, como o capitalismo tardio exigia do indivíduo uma administração permanente da própria atitude: sorrir, adaptar-se, eliminar a negatividade, transformar sofrimento em oportunidade.

O capitalismo algorítmico prolonga essa pedagogia da normalização ou adaptativa, mas a inscreve numa infraestrutura técnica. A antiga obrigação moral de ser positivo reaparece agora como obrigação de engajar, performar, manter visibilidade, produzir sinais de entusiasmo e converter a própria presença em dado. A economia libidinal da plataforma opera precisamente aí, onde não reprime simplesmente o desejo, mas o mobiliza, excita, mede e reconduz aos circuitos de acumulação.

Por isso, a dominação contemporânea não funciona apenas pela censura ou pela imposição ideológica direta. Funciona pela administração dos afetos. A raiva, a alegria, o medo, a inveja, a indignação, a neurodivergência e até a esperança tornam-se formas de circulação rentável. O sujeito acredita estar expressando espontaneamente sua interioridade, mas essa expressão é organizada por arquiteturas que selecionam, hierarquizam e monetizam intensidades afetivas.

A economia libidinal do capitalismo algorítmico consiste, portanto, em transformar desejo em engajamento, engajamento em dado e dado em expectativa de valorização futura. Essa administração dos afetos deve ser pensada também como administração da normalidade. Robert Chapman mostrou, em Empire of normality: neurodiversity and capitalism, que a distinção moderna entre normalidade e patologia não é apenas médica ou psicológica, mas histórica e econômica.

A passagem de uma ideia de saúde como harmonia para uma ideia de saúde como normalidade acompanha a formação de sociedades capitalistas que classificam corpos e mentes segundo a sua utilidade produtiva, a sua adaptabilidade e a sua proximidade a um padrão médio. Aquilo que aparece como desvio individual revela uma relação social: há modos de perceber, trabalhar, falar, sofrer ou desejar que se tornam “problemáticos” porque não se ajustam às exigências dominantes de produtividade, rendimento, flexibilidade e autocontrole.

Plataformas, financeirização e mediação cognitiva

É precisamente nesse plano que o capitalismo algorítmico introduz uma mutação fulcral. Pela primeira vez, grandes corporações privadas controlam, em escala planetária, infraestruturas cotidianas de mediação cognitiva: motores de busca, redes sociais, plataformas de vídeo, sistemas de recomendação, interfaces de mensagens, assistentes automatizados, ambientes educacionais digitais e ferramentas de inteligência artificial generativa. Não se trata apenas de controlar conteúdos. Trata-se de organizar as condições de visibilidade, atenção, memória, circulação da linguagem e formação do juízo.

Nesse contexto, torna-se insuficiente analisar separadamente o capitalismo digital e a financeirização. A plataformização da vida social e a hegemonia financeira constituem dimensões inseparáveis da mesma reorganização histórica da acumulação. As plataformas digitais funcionam como infraestrutura material da financeirização contemporânea, enquanto as finanças dependem crescentemente da extração contínua de dados, atenção e padrões comportamentais produzidos nesses ambientes.

A simbiose entre plataformização e financeirização consiste precisamente na transformação da vida social em fluxo capitalizável. As plataformas capturam atenção, interações, deslocamentos, desejos, consumo, trabalho e linguagem sob a forma de dados; a financeirização converte essa capacidade de captura em expectativa de rendimento futuro. O valor da plataforma não reside apenas nos lucros presentes, mas na promessa de monopolizar infraestruturas de mediação social e transformar comportamentos futuros em ativos calculáveis.

Por isso, o capitalismo digital não pode ser separado do capitalismo financeiro. A plataforma extrai a matéria-prima comportamental; a finança capitaliza a promessa de sua exploração futura.

Essa dinâmica ajuda também a evitar uma confusão recorrente. As rendas de plataforma, as assinaturas, os preços por API, a dependência de nuvem e os ecossistemas fechados podem produzir uma sensação de vassalagem digital, mas não indicam a saída do capitalismo para uma ordem tecnofeudal. O que aí aparece é antes uma forma concentrada de propriedade capitalista sobre infraestruturas indispensáveis à circulação social.

A coerção não se exerce por vínculos pessoais de servidão, mas por contratos, bloqueios técnicos, padrões proprietários, custos de saída e dependência econômica. A plataforma torna-se portagem porque controla meios de acesso ao trabalho, à comunicação, à visibilidade e ao consumo. A novidade não está numa regressão neomedieval, mas na capacidade capitalista de transformar mediações sociais básicas em gargalos rentáveis.

Obscurecimento por saturação

Entre o antigo monopólio da verdade e o atual monopólio da atenção, há a mediação determinante da mídia corporativa moderna. Michael Parenti mostrou que os grandes meios de comunicação não apenas informam sobre a realidade; participam da sua produção pública. Definem que acontecimentos existem como problema, que conflitos merecem visibilidade, que sujeitos aparecem como racionais ou perigosos, que violências são nomeadas e quais permanecem fora do campo perceptivo. A mídia empresarial não exerce poder apenas quando mente, mas quando seleciona, enquadra, hierarquiza, repete e delimita o espaço do discurso aceitável.

O capitalismo algorítmico não rompe com essa lógica; radicaliza-a. A antiga mídia de massas produzia realidade por meio de propriedade concentrada, publicidade, dependência de fontes oficiais, enquadramento editorial e repetição. As plataformas acrescentam outra camada quando medem a reação de cada sujeito, personalizam a circulação, testam estímulos, hierarquizam visibilidade em tempo real e convertem atenção em dado.

A produção capitalista da realidade deixa de operar apenas pela agenda pública comum e passa a funcionar também por modulação diferencial da percepção. Michael Parenti ajuda, portanto, a compreender que a plataforma não é apenas tecnologia nova, mas a continuação, em forma algorítmica, de uma velha estrutura de poder de classe sobre os meios de produzir mundo.

No passado, o obscurecimento podia estar associado ao monopólio religioso ou estatal do saber. No presente, ele aparece de forma mais difusa e tecnicamente sofisticada. Não opera primariamente pela proibição da informação, mas pela sua sobreprodução desestruturada. O sujeito contemporâneo não é necessariamente impedido de saber; é submerso e mergulhado num fluxo contínuo que dificulta hierarquizar, reter, relacionar e elaborar. A censura clássica retirava palavras de circulação. A plataforma tende a dissolver a continuidade da palavra no excesso de estímulos por saturação.

Ecologia social da inteligência

A questão central, portanto, não é a inteligência individual. É a ecologia social da inteligência. Por ecologia social da inteligência, entendo o conjunto das mediações materiais, linguísticas, institucionais, técnicas e afetivas que tornam possível a formação da consciência. A inteligência não é uma faculdade abstrata depositada no indivíduo isolado; ela se forma em ambientes de língua, leitura, memória, transmissão, conflito, atenção e reconhecimento. Uma comunidade pensa por meio das suas línguas, dos seus arquivos, das suas escolas, dos seus corpos autorizados a falar, das mulheres e homens admitidos à interpretação, dos tempos concedidos à demora e dos dispositivos que organizam a circulação da palavra.

O capitalismo algorítmico não destrói simplesmente a inteligência; reconfigura a sua ecologia social. Substitui mediações relativamente estáveis – leitura demorada, memória compartilhada, debate público, transmissão institucional, comunidades interpretativas – por ambientes de reação contínua, recompensa intermitente, visibilidade competitiva e fragmentação da linguagem. O resultado não é necessariamente um sujeito menos inteligente, mas uma inteligência socialmente treinada para operar em regime de estímulo, velocidade e adaptação, isto é, em formas menos propícias à abstração crítica.

No capitalismo algorítmico, porém, essa degradação não depende apenas de propaganda estatal ou manipulação ideológica explícita. Ela resulta de uma economia da atenção que recompensa a simplificação, a agressividade, a repetição, o reconhecimento imediato e a aderência emocional. A linguagem que circula melhor tende a ser a que exige menos demora. O pensamento que resiste precisa de tempos que a plataforma não favorece.

Nesse ponto, a crítica cultural deve reencontrar a economia política. A regressão cognitiva não é um acidente moral da juventude, nem uma decadência espontânea dos hábitos de leitura. Ela está ligada ao modelo de negócios das plataformas. A atenção capturada é valor econômico. Reação é dado. Engajamento é métrica. Permanência é rendimento. Quanto mais a linguagem se torna breve, repetível, emocionalmente intensa e facilmente classificável, mais se adapta à circulação algorítmica.

A superficialidade não é apenas defeito cultural; é funcional à valorização. Marazzi percebeu que linguagem e comunicação deixaram de ser esferas exteriores à produção para se tornarem forças produtivas centrais da acumulação contemporânea. A linguagem já não pode ser tratada como esfera exterior à produção, nem como simples revestimento simbólico da economia. No capitalismo pós-fordista, comunicação, informação, circulação semiótica e cooperação linguística tornam-se forças produtivas diretas. O capital não produz apenas mercadorias; produz ambientes comunicacionais, disponibilidade subjetiva, interação social e fluxos de sentido. A linguagem deixa de ser apenas meio de expressão e passa a integrar os mecanismos de valorização.

À primeira vista, esse movimento sugeriria que o capital finalmente conseguiu absorver integralmente aquilo que, em Karl Marx, permanecia como exterioridade relativa: o trabalho vivo. Entretanto, a centralidade dessa categoria não desaparece; desloca-se. Em Marx, o trabalho vivo nunca designa apenas atividade física imediata ou trabalho manual industrial. Ele nomeia a potência viva, criativa, cooperativa e temporal da atividade humana que o capital necessita explorar, mas jamais consegue absorver completamente. O capital depende estruturalmente dessa vitalidade social, mas não consegue produzi-la autonomamente. Pode apenas organizá-la, explorá-la, acelerar sua circulação e converter seus efeitos em valorização.

Inteligência artificial generativa e apropriação do arquivo cultural

A Inteligência artificial generativa aprofunda essa lógica ao acrescentar uma segunda camada de apropriação. Já não se trata apenas de capturar comportamentos presentes, mas de absorver trabalho intelectual e cultural previamente acumulado. Quando as grandes empresas tecnológicas falam em “dados”, apresentam como matéria bruta aquilo que, em muitos casos, é conteúdo elaborado: reportagens, livros, arquivos, música, imagens, investigação científica, crítica, edição e memória cultural. A palavra “dados” funciona, assim, como uma operação ideológica: naturaliza como recurso disponível aquilo que foi produzido por trabalho humano situado.

A denúncia recente do suspeito A. G. Sulzberger, editor do The New York Times, torna esse processo particularmente visível. Os grandes modelos generativos dependem de talento técnico, capacidade computacional, eletricidade e dados. Pelos três primeiros elementos, as empresas pagam fortunas; pelo quarto, procuram frequentemente pagar pouco ou nada. Mas esse quarto elemento não é exterior à produção social. É a sedimentação de anos de trabalho jornalístico, científico e criativo. A inteligência artificial aparece como tecnologia do futuro, mas alimenta-se de um passado cultural que não criou.

No caso do jornalismo, quando uma aplicação de Inteligência artificial responde diretamente a uma pergunta sem conduzir o leitor à fonte que produziu a informação, rompe-se o circuito material que sustenta a reportagem: investigar, entrevistar, verificar, deslocar-se, contextualizar, editar e publicar. A plataforma já tinha capturado grande parte da publicidade; a Inteligência artificial ameaça capturar também a relação entre pergunta, fonte e leitura.

O risco não é apenas econômico para os meios de comunicação, mas político. Uma esfera pública com mais respostas automáticas e menos instituições capazes de produzir informação verificável, contextualizada e responsável. Essa apropriação permite compreender melhor por que a categoria marxiana de trabalho vivo continua presente. A Inteligência artificial não produz autonomamente o mundo cultural de que se alimenta. Recombina, modela e comercializa linguagem, conhecimento e memória social previamente produzidos.

O capital algorítmico transforma a cooperação intelectual acumulada em infraestrutura proprietária e expectativa financeira. Aquilo que aparece como inteligência da máquina é, em grande medida, trabalho social capturado, abstraído de suas condições de produção e devolvido ao mercado como serviço automatizado. A Inteligência artificial generativa amplia a captura algorítmica da linguagem, agora não apenas como interação presente, mas como arquivo cultural acumulado. É precisamente nesse ponto que a categoria marxiana de trabalho vivo conserva toda a sua força.

Regressão cognitiva e monopólio da atenção

A regressão, portanto, não significa retorno simples à ignorância. Significa deslocamento das capacidades humanas para formas menos propícias à abstração crítica. Pode haver mais informação, mais habilidade técnica e mais velocidade operacional, mas menos densidade conceitual, menos memória interiorizada, menos continuidade argumentativa e menor disposição para sustentar conflitos de interpretação. O sujeito digital não é necessariamente menos capaz; é frequentemente treinado para capacidades que servem melhor à plataforma do que à autonomia reflexiva.

A regressão da consciência não se dá apenas pela redução da capacidade de leitura ou pela fragmentação da atenção. Dá-se também pela reorganização libidinal da experiência. O sujeito é treinado para desejar aquilo que o enfraquece: interrupção, resposta imediata, exposição contínua, reconhecimento mensurável, indignação repetível e pertencimento algorítmico. A plataforma não impõe simplesmente uma falsa consciência; produz uma ambiência na qual a consciência se vincula afetivamente às próprias condições de sua dispersão.

O sujeito é treinado para desejar aquilo que o enfraquece. Essa é a diferença entre o monopólio da fé e o monopólio da atenção. O primeiro pretendia fixar a verdade. O segundo organiza a dispersão. O primeiro subordina o pensamento a uma autoridade doutrinal. O segundo subordina a experiência a uma economia de estímulos. O primeiro combateu a heresia. O segundo absorve a diferença como conteúdo circulável, desde que possa ser convertida em engajamento. O resultado não é silêncio, mas ruído; não é ausência de palavras, mas inflação de mensagens; não é proibição do pensamento, mas enfraquecimento das suas condições materiais.

O capital contemporâneo já não administra apenas mercadorias ou trabalho. Administra percepção, cognição, atenção e vida social. A linguagem deixa de funcionar apenas como meio de comunicação e converte-se em território estratégico da valorização. A consciência transforma-se em campo direto de extração econômica e intervenção política.

O problema do capitalismo digital, portanto, não se reduz à desinformação, à superficialidade cultural ou à manipulação ideológica. O que está em jogo é uma reorganização da própria ecologia da consciência e da produção de subjetividade, na qual as capacidades de abstração, continuidade reflexiva e elaboração crítica passam a ser estruturalmente corroídas por um ambiente técnico organizado em função da captura permanente da atenção. Daí que a luta pela linguagem e pela atenção seja uma luta política de primeira ordem.

Não se trata de defender uma cultura letrada como privilégio elitista, nem de opor nostalgicamente o livro à tela. Trata-se de perguntar que formas de mediação permitem pensamento complexo, deliberação democrática e autonomia subjetiva. Uma sociedade que entrega a infraestrutura da atenção a corporações orientadas pela maximização do engajamento entrega também parte das condições de sua própria consciência. O problema, portanto, não é rejeitar a tecnologia, mas disputar a sua organização social.

A pergunta-chave não é se usamos ou não plataformas, algoritmos e inteligência artificial. A pergunta é sob que propriedade, com que finalidades, segundo que critérios de desenho, sob que formas de controle democrático e com que limites diante da dignidade humana. O obscurantismo algorítmico não nasce da máquina em si, mas da sua integração ao capital como forma de captura da atenção, da linguagem e do tempo psíquico.

Essa disputa, contudo, não pode limitar-se a uma regulação externa das plataformas, como se bastasse tornar mais transparente ou menos abusiva a mesma propriedade privada das infraestruturas digitais. Em algum momento, a pergunta sobre desenho tecnológico conduz à pergunta sobre propriedade, controle democrático e socialização dos meios que organizam a atenção, a linguagem, a comunicação pública e a inteligência artificial.

A crítica do presente deve começar precisamente aí. Defender a consciência não significa preservar uma interioridade abstrata contra o mundo técnico. Significa reconstruir as condições sociais da atenção, da linguagem e da abstração e criar tempos, instituições, práticas educativas, meios públicos e formas coletivas capazes de resistir à conversão integral da experiência neurotípica quanto a neurodivergente, em estímulo rentável.

A luta contra o capitalismo algorítmico é também a luta para que a humanidade não perca, no interior da abundância informacional, a capacidade de pensar o que lhe acontece.

*Gabriel Vezeiro é bacharel em filosofia.

Referências

Chapman, R. (2023). Empire of Normality: Neurodiversity and Capitalism. Pluto Press.

Ehrenreich, B. (2011). Sonríe o muere: La trampa del pensamiento positivo. Turner.

Marazzi, C. (2008). Capital and Language: From the New Economy to the War Economy. Semiotext(e).

Marx, K. (2011). Grundrisse: Manuscritos econômicos de 1857–1858. Boitempo.

Parenti, M. (1986). Inventing Reality: The Politics of the Mass Media. St. Martin’s Press.

Sulzberger, A. G. (2026). “Why and how news publishers should fight AI platforms”. Reuters Institute.

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