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A crise global de alimentos

Do A Terra É Redonda, 20 de março 2026
Por RUBEN BAUER NAVEIRA*


Diante do bloqueio de rotas vitais do petróleo, a extrema dependência da agricultura moderna por insumos fósseis prenuncia não apenas carestia, mas uma escassez alimentar capaz de gerar convulsão social global

O presente texto tem por objetivo alertar quanto à provável ocorrência de uma crise global de alimentos em futuro próximo, por conta da quebra das cadeias de suprimentos para o sistema agroalimentar decorrente da guerra contra o Irã e do consequente bloqueio do estreito de Ormuz, perspectiva esta que vem passando despercebida à grande maioria dos agentes políticos e econômicos.

O fato de acabar de ter sido assinado de um memorando de entendimento para uma retomada de negociações entre os Estados Unidos e o Irã não afasta a perspectiva dessa crise; virá, contudo, agravar ainda mais esse estado de desatenção.

Crises de oferta se resolvem pela lei da oferta e da procura. Com menos oferta os preços sobem, e aí quem consegue pagar reclama mas paga e quem não consegue substitui por algum correlato mais em conta. Ou passa sem. Mas aqui estamos falando de alimento, indispensável à vida.

Àqueles que acreditam que “o mercado se autorregula” e que assim a crise de oferta será compensada por uma alta de preços (carestia) sem que chegue a haver falta de produtos (escassez), eu digo que existe uma fronteira entre uma redução na oferta que signifique apenas comida mais cara (e empobrecimento) e um grau de redução que signifique que não haverá comida para todo mundo – mesmo que todos tenham dinheiro para comprá-la. Pode-se consultar por exemplo este artigo o qual explica bem essa circunstância: se a lei da oferta e da procura é o mecanismo de homeostase (restauração de uma situação de equilíbrio frente a perturbações) por excelência da economia global, as cadeias de suprimentos são o seu calcanhar de Aquiles.

Quebras nas cadeias de suprimentos ou eventos climáticos extremos volta e meia assolam um país ou outro, e são compensadas pelo comércio global. Mas nunca antes houve uma situação como a de agora, em que agricultores por todos os cantos do mundo estão simultaneamente tendo que lidar com redução na oferta e aumento no custo dos seus insumos (fertilizantes, defensivos, diesel, lubrificantes, transporte). E pode-se ter certeza que, em qualquer lugar do mundo, um agricultor é alguém mais bem-informado e mais interessado em saber sobre o “Super El Niño” do que a média da população.

A agricultura é desde sempre uma atividade de margens apertadas e incerteza constante, em que os desincentivos têm peso. A decisão de cada produtor rural, grande ou pequeno, quanto a deixar de plantar nesta safra, ou quanto a plantar menos, é individual. Agricultura é uma atividade pulverizada, sob muito pouca coordenação. Simplesmente não há como saber quantos produtores estão deixando de plantar. Mas, desde o dia 28 de fevereiro, são milhões, pelo mundo todo. Mesmo com as negociações de paz sendo retomadas a partir de agora, serão ainda muitos milhões mais, por muito tempo – até que a oferta e os preços dos insumos agrícolas voltem a se estabilizar em níveis que não temos como saber quais serão, o que pode demorar ainda meses ou anos.

Um alimento que seja plantado no dia de hoje levará vários meses até que venha a ser colhido, beneficiado, eventualmente processado, transportado e distribuído, para que possa ser finalmente consumido. Os alimentos que estamos consumindo no dia de hoje foram plantados há meses atrás, talvez há mais de ano (inclusive os de origem animal, pois animais são alimentados com ração de origem vegetal para engordar). Isso significa que o mundo está contratando uma crise que não irromperá amanhã, mas sim somente daqui a meses, possivelmente no ano que vem.

Ademais, governos contabilizam safras, ou seja, alimentos após terem sido colhidos, mas não contabilizam plantios – nem tampouco aquilo que deixou de ser plantado. Somente após as colheitas (menores) é que se darão conta da real dimensão do problema.

Já teria o mundo ultrapassado a fronteira entre carestia (somente) e escassez (com carestia também)? Não há como saber. Cada dia a mais que se passou até aqui com Ormuz fechado agravou essa situação. E, mesmo depois que Ormuz seja reaberto, levará ainda muitos meses até que o fluxo marítimo volte a se estabilizar – em algum ponto que ainda ficará abaixo do volume histórico. Ou seja, o problema (a crise futura) continua a se agravar, apenas a um ritmo mais lento.

Fome massiva significará conturbação social. O que se está incubando pelos desdobramentos da guerra contra o Irã avança silenciosamente para desembocar naquela que poderá vir a ser a maior crise econômica e social de todos os tempos.

A ruptura das cadeias de suprimentos

Devo de início deixar muito claro que estamos tratando não somente de uma crise global de alimentos, mas de uma crise em praticamente todas as cadeias globais de suprimentos, uma vez que os produtos derivados de petróleo estão presentes em praticamente todas elas: A carestia e a escassez de nafta petroquímica impactarão cadeias como a dos plásticos e inúmeras outras, como tintas, o que acabará por impactar cadeias como a automobilística; a carestia e escassez de querosene de aviação impactarão o turismo, o que por sua vez impactará segmentos como os de hotelaria e restaurantes.

A carestia e escassez de combustível para navios (chamado “bunker”) impactarão o comércio marítimo no mundo todo, com reflexos imensuráveis; a carestia e a escassez de lubrificantes e graxas impactarão a indústria, uma vez que toda ela utiliza maquinário; a carestia e a escassez de enxofre, um subproduto do refino de petróleo, impactarão a produção de ácido sulfúrico, o produto químico mais utilizado no mundo, presente em uma infinidade de cadeias produtivas como por exemplo na mineração, a ser bastante afetada.

Especificamente as perdas na mineração do cobre e do níquel impactarão as cadeias de tudo o que faz uso de eletricidade, como baterias, o que por sua vez virá impactar a transição energética para energias limpas pelo mundo; o ácido sulfúrico está presente ainda nos processos de tratamento de água e esgoto no saneamento urbano, no refino de petróleo e na produção de aço, têxteis, celulose, borracha, couro, químicos, farmacêuticos e cosméticos.

A carestia e a escassez de gás hélio, um subproduto da liquefação de gás natural, impactarão a produção de microchips, o que impactará todas as cadeias de eletrônicos, bem como até mesmo a realização na medicina de exames de ressonância magnética (uma vez que os aparelhos de ressonância consomem gás hélio).

Os países do Golfo Pérsico respondiam ainda (antes da guerra) por uma parcela expressiva das exportações mundiais de alumínio. Tudo isso junto acabará por impactar o sistema financeiro mundial.

Essas repercussões são de tamanha monta, e tamanho alcance, que não têm como ser completamente percebidas até que se irradiem levando a efeitos como esses, e aos efeitos desses efeitos. Já ao início da guerra contra o Irã (no dia 04 de março, apenas cinco dias após o início dos combates) Craig Tindale delineou um esquema geral para essas repercussões, mapeando uma sequência em cascata de doze transformações ao longo de um período de mais de cinco anos, a culminar em um rearranjo civilizacional geral do mundo.

Os EUA e o Irã acabam de assinar um memorando de entendimento que estipula a reabertura do estreito de Ormuz. Ainda que a partir de agora tudo corra bem e o seguimento das negociações chegue a bom termo (o que é incerto), tais repercussões ainda assim se farão sentir (veja por exemplo este vídeo), ao contrário do que preferiria o wishful thinking predominante no assim chamado “mercado” em sua ânsia por um “retorno à normalidade”. Para além do necessário intervalo de tempo (vários meses) entre uma recuperação gradual do fluxo marítimo e a normalização que seja possível das cadeias globais de suprimentos (porque já foi tornado impossível qualquer retorno a níveis pré-guerra; veja este vídeo do minuto 55’ ao minuto 59’45”), há diversos outros fatores.

O que foi ajustado não foi um acordo de paz, foi tão somente um memorando de entendimento (cujos termos, muito mais favoráveis ao Irã que aos Estados Unidos, atestam o quanto os EUA passaram a temer a débâcle econômica global – veja este vídeo e também aqui), o qual estabelece as premissas de cada lado para aceitar entrar novamente em negociações. Os termos do memorando não são vinculantes, ou seja, trata-se de declarações de intenção ao invés de compromissos. As negociações propriamente ditas se iniciam a partir de agora, com uma profusão de divergências por resolver de conciliação extremamente difícil, e com qualquer novo impasse podendo levar ao rompimento das negociações e à retomada das hostilidades a qualquer momento;

Uma reabertura de Ormuz deverá ainda por algum tempo ocorrer de forma apenas parcial, até uma conclusão completa das negociações: o Irã somente deverá liberar o trânsito de cargas de/para os países do chamado “Ocidente coletivo” mediante uma liberação de seus ativos e fundos retidos nesses países, bem como mediante o levantamento por esses países de suas sanções contra o Irã; do mesmo modo, o Irã somente deverá liberar o trânsito de cargas de/para os países do Golfo Pérsico mediante um desmantelamento das bases militares dos Estados Unidos naqueles países.

Houve alguma destruição física pelos bombardeios de instalações petrolíferas, pelo que uma parte da oferta estará perdida ainda por anos. A retomada da produção de petróleo após o fechamento forçado de poços devido ao esgotamento da capacidade de estocagem (o que afeta muito mais os países do Golfo do que o Irã, já acostumado a isso por décadas de sanções à sua exportação de petróleo) será tanto lenta quanto incompleta.

Os empresários do ramo do comércio marítimo (armadores, seguradoras) lidam com custos elevados (valor do navio; valor da carga; tripulação por longos períodos; combustível do navio; taxas portuárias e alfandegárias e inúmeros outros custos associados), e precisarão se sentir psicologicamente seguros quanto a levar seus navios a atravessarem novamente o estreito.

Como uma ilustração, já há mais de um ano haviam cessado os ataques dos Houthis à navegação comercial no estreito de Bab-el-Mandeb no Mar Vermelho, porém até hoje o volume de tráfego retornou somente a 75% dos níveis anteriores (assista a este vídeo a partir do minuto 6’15”). Por que isso? Apenas porque os Houthis continuam lá (tanto é que acabaram de fechar novamente o Bab-el-Mandeb) – assim como os iranianos também continuarão ao largo de Ormuz. Do mesmo modo, especialistas supõem (mas não têm como prever) que uma reabertura de Ormuz, hoje, levaria ao final deste ano a uma retomada de apenas cerca de 40% do tráfego anterior à guerra (veja este vídeo ao minuto 1’20” e também aqui, aqui, aqui e aqui);

Para uma síntese de tudo isso, assista a este vídeo a partir do minuto 27’15”.

A crise global de alimentos

As cadeias de suprimento para os alimentos (fertilizantes, defensivos, máquinas agrícolas, diesel, lubrificantes, transporte etc.) serão impactadas tanto quanto as demais cadeias. Os alimentos são, contudo, o nosso foco pelo seu caráter indispensável à sobrevivência humana. Se vier a ocorrer de os sacos de lixo desaparecerem das prateleiras dos supermercados (porque são feitos de plástico, feito de polímeros, feitos de nafta, feita de petróleo) as pessoas passarão a ter que lavar as suas latas e latões de lixo, porém para a falta de alimento não há alternativa. Qualquer ruptura nas cadeias de produção de alimentos é uma receita certa para a conturbação social.

Previamente a este artigo, vieram a ser publicadas as traduções para o português de dez textos e reportagens sobre esta ruptura nas cadeias de produção de alimentos, assim para um adequado entendimento desta problemática recomendo como imprescindível uma leitura dessas matérias: primeira (fertilizantes), segunda (ácido sulfúrico), terceira (), primeira parte da quarta (policrise), segunda parte da quarta (policrise – 2), quinta (enxofre), sexta (pequenos produtores), sétima (cotações), oitava (crash global), nona (mudança climática) e décima (cui bono).

De todo modo, como um resumo:

Os países do Golfo Pérsico respondiam (antes da guerra) por cerca de 35% da produção mundial de ureia, cerca de 40% da de enxofre e cerca de 20% da de gás natural liquefeito (GNL). A ureia é o principal insumo para os fertilizantes nitrogenados, do enxofre se faz o ácido sulfúrico que é o principal insumo para os fertilizantes fosfatados e a partir do GNL também se produz ureia; há por exemplo fábricas de ureia em Bangladesh, mas que utilizavam o GNL que vinha do Qatar (uma das indústrias mais bombardeadas) e assim se encontram paralisadas. O bloqueio das exportações do Golfo Pérsico é uma quebra nas cadeias globais de fertilizantes, com impacto direto nas cadeias globais de alimentos.

Grandes exportadores de fertilizantes, como a Rússia e a China, suspenderam suas exportações para privilegiar a sua segurança alimentar doméstica (a Índia solicitou emergencialmente o fornecimento de fertilizantes à China, porém esta negou alegando priorizar suas necessidades próprias).

O preço dos fertilizantes no mundo já disparou. A China, o maior produtor e exportador mundial de ácido sulfúrico (mais de 40% da produção mundial), suspendeu as exportações, comprometendo assim por exemplo a mineração de cobre no Chile e na República Democrática do Congo, de níquel na Indonésia e de urânio no Cazaquistão. Cerca de metade do consumo de ácido sulfúrico no mundo destina-se à produção de fertilizantes fosfatados.

Em qualquer lugar do mundo, as culturas cultivadas possuem janelas de plantio bastante estreitas, em função das estações do ano. Plantios realizados imediatamente antes da guerra não sofrerão efeitos, mas as respectivas colheitas ainda levarão meses para acontecer, o que mascarará ainda por um bom tempo os efeitos da crise (o mundo está consumindo hoje alimentos que foram plantados ou mesmo colhidos há meses atrás). Plantios que eram para ter sido realizados depois que a guerra estourou possivelmente ocorreram também sem problemas, porém desde que os respectivos fertilizantes já tivessem sido estocados.

Do contrário, aqueles agricultores necessitados de fertilizantes que transitariam pelo Canal de Suez os receberam/receberão com um retardo de cerca de vinte dias, tempo a mais necessário para que os navios contornem o Cabo da Boa Esperança. Desta forma, mesmo que esses fertilizantes tenham sido adquiridos a um preço premium, tal atraso na entrega já implicou em uma aplicação do produto fora do período ideal, com redução na produtividade da colheita. O pior caso é o do aumento de preços que leva ao abandono do plantio, como já está acontecendo em lugares tão distantes como os Estados Unidos (caso da soja, malgrado a China ter aberto novamente o seu mercado para a soja americana – assista a este vídeo do minuto 12’ ao minuto 15’), ou a Tailândia (caso do arroz – leia esta reportagem);

Se, a despeito das tratativas de paz, o estreito de Ormuz ainda vier a estar bloqueado até por volta de setembro/outubro, a escassez global de enxofre esgotará os estoques nos países desprovidos de produção própria, levando a uma paralisação das suas fábricas de fertilizantes fosfatados;

Reduzir a quantidade de fertilizantes (para uma mesma área plantada) não é uma opção. Após plantios por anos a fio, os solos já se encontram exauridos; sem a adição de NPK (nitrogênio, fósforo e potássio) eles simplesmente não rendem. Qualquer resposta a uma redução na quantidade de fertilizante será não-linear; assim, 10% a menos de fertilizante podem vir a representar 30% a menos de colheita (claro que isso varia de cultura para cultura; por exemplo, o milho é mais exigente em fertilizante do que a soja). Para os grandes produtores não há alternativa aos fertilizantes agora tanto caros quanto escassos; os pequenos buscam sofregamente encontrar alguma (ver aqui e aqui).

Um efeito disso será a troca de culturas (por exemplo, plantadores de milho passando a plantadores de soja); isso acarretará a necessidade de mudanças nos hábitos alimentares dos consumidores.

Para além dos fertilizantes, haverá quebra também nas cadeias de suprimentos dos defensivos agrícolas (agrotóxicos), cuja produção depende de nafta petroquímica; é da nafta pesada que se extrai reformado rico em tolueno e xileno, e é do craqueamento a vapor da nafta leve que se produz gasolina de pirólise rica em benzeno. Benzeno, tolueno e xileno (conhecidos pela sigla BTX) estão na base das fórmulas de praticamente todos os pesticidas (herbicidas, fungicidas e inseticidas) comerciais.

Ademais, para uma aplicação efetiva, os princípios ativos dos defensivos necessitam ainda ser dissolvidos em solventes (chamados aromáticos pesados), os quais são também derivados do BTX. A atual produção agrícola somente pode existir sob condições de intensa defesa química porque, sem os defensivos, as plantações da agricultura moderna não possuem por si sós a necessária resistência às pragas.

No mundo todo a agricultura é um negócio de margens estreitas e custos fixos; além da carestia e da escassez de fertilizantes e defensivos os agricultores se deparam com aumentos de custo do diesel e dos lubrificantes para seus tratores e colheitadeiras, e ainda com maiores custos de transporte e frete. Será comum (e já está sendo) que agricultores simplesmente desistam de plantar nesta safra, aguardando por dias melhores (o que pode demorar anos, até que a situação normalize), ou mesmo abandonando de vez a atividade, muito antes que os governos compreendam a dimensão do problema e se proponham a intervir: uma vez que as safras plantadas (ou não) agora somente serão(iam) colhidas daqui a vários meses, os efeitos da crise somente serão sentidos de forma mais aguda em 2027.

Obviamente, pequenos agricultores com pouco capital padecerão mais, alimentando o surgimento de mercados negros e paralelos para fertilizantes e defensivos desviados ou falsificados. A criação animal sofrerá tanto quanto as plantações, uma vez que o milho e a soja são também a base alimentar da pecuária, de modo a que a perda de grãos levará a uma liquidação forçada de rebanhos de aves e suínos.

Pelo mundo todo, os países buscarão importar alimentos, o que fará os preços explodirem – inclusive em seus mercados domésticos. Qualquer país que detenha estoques de grãos, potássio, fosfatos ou defensivos irá tratá-los como ativos estratégicos em vez de bens comercializáveis (tal como a China já fez com o ácido sulfúrico). Haverá uma tendência mundial aos controles de exportação, ao racionamento de emergência, ao açambarcamento em lugar do comércio habitual ou mesmo ao confisco puro e simples.

Os brasileiros devem se recordar de um episódio havido no início da pandemia de Covid-19 em que uma compra proveniente da China de 600 respiradores para intubação de pacientes em hospitais foi confiscada nos EUA em uma escala do voo em Miami; ao final, a culpa foi atribuída à empresa chinesa vendedora, porque, é claro, uma vez que os respiradores não seguiriam mesmo para o Brasil, a alternativa dela a romper o contrato para vendê-los nos EUA seria a de perder tudo (esse episódio pode ser revisitado aqui, aqui e aqui).

O que virá agora será pior: frente a necessidades críticas de segurança alimentar das populações, pode-se esperar toda espécie de açambarcamento e de confisco de insumos para a produção de fertilizantes e defensivos, de fertilizantes e defensivos acabados, e de alimentos em geral.

Como se isso tudo não bastasse, eventos extremos decorrentes da mudança climática incidirão de forma dramática a partir do segundo semestre de 2026 e adentrando 2027, justamente quando a crise global de alimentos se fará sentir, no que pode ser chamada uma tempestade perfeita que tende a devastar colheitas e a espalhar fome por todo o mundo.

Meteorologistas preveem a provável ocorrência de um “Super El Niño”, a provocar secas, enchentes e ondas de calor extremo por todo o planeta, em magnitude igual ou superior à da “grande fome” em 1877 de um século e meio atrás (também causada pelo El Niño) que matou mais de 50 milhões de pessoas pelo mundo todo.

À medida que o tempo passa, as probabilidades de este vir a constituir um evento climático catastrófico vêm em um crescendo: eram essas as perspectivas em 29 de abril, em 12 de maio, em 14 de maio, em 17 de maio, em 05 de junho, em 08 de junho, em 09 de junho, em 11 de junho, em 14 de junho e em 17 de junho.

Ambos os extremos, secas e inundações, comprometem criticamente a eficácia dos fertilizantes. Nas regiões atingidas pela seca, a água atua como diluente. Sem umidade suficiente no solo, os fertilizantes aplicados não chegam a se dissolver para serem absorvidos pelas plantas. Já nas regiões atingidas por inundações o excesso de chuvas acaba por remover o nitrogênio e o fosfato altamente solúveis do solo antes que a absorção pelas plantas venha a ocorrer.

O El Niño, uma anomalia oceânica no Pacífico equatorial, altera fundamentalmente a ressurgência de águas profundas o que compromete os cardumes de anchoveta peruana, a espécie fundamental para a produção global de farinha e de óleo de peixe, acarretando um déficit de proteína nos mercados de ração para pecuária e aquicultura. Os subprodutos da farinha de peixe são também muito procurados como fertilizantes orgânicos premium e como condicionadores de solo. A perda simultânea dos fertilizantes sintéticos (derivados do ácido sulfúrico e da ureia) e dos substitutos orgânicos (devido ao colapso da pesca causado pelo El Niño juntamente com o aumento do preço do combustível para os barcos) representa outra tempestade perfeita desabando sobre os produtores agropecuários.

Este artigo tem como propósito alertar quanto à gravidade da crise vindoura e procurar mostrar os seus principais componentes. Para discorrer sobre como essa crise poderá vir a afetar especificamente o Brasil foi escrito um outro artigo, “O Brasil na Crise de Alimentos”.

*Ruben Bauer Naveira é concursado do poder executivo federal como Analista Técnico de Justiça e Defesa (aguardando chamamento). Autor também do estudo O Pós-Guerra Nuclear no Brasil: Ou juntos, ou nada.

[Este artigo terá continuidade nas próximas publicações]


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