Por Thiago Gama.
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Foto: Ed Us | Unsplash |
Peter Hotez é médico e cientista, decano fundador da Escola Nacional de Medicina Tropical no Baylor College of Medicine, professor de pediatria e de virologia e microbiologia molecular, codiretor do Centro de Desenvolvimento de Vacinas do Texas Children's Hospital, autor de uma obra que vai da bancada laboratorial ao ensaio histórico. Ele pertence a uma linhagem rara de pesquisadores: a dos que decidiram, cedo, que a ciência só se justifica quando desce até onde o mercado já não vê lucro.
Foi o que escolheu ao concluir, nos anos 1980, o duplo doutorado em Medicina e Ciências. Quarenta anos depois, a escolha tem um nome técnico e um peso moral: a vacina sem patentes que ele e sua equipe cederam à Índia e à Indonésia e que já imunizou mais de cem milhões de pessoas — entre elas, por uma circunstância que o próprio Hotez não previra, a primeira vacina halal* contra a covid-19.
Há nele, antes do virologista, um historiador clandestino. Seu próximo livro reconstrói a longa duração da fronteira entre o Texas e o México — da Nova Espanha às missões franciscanas, da prata de Potosí às epidemias de varíola e sarampo que despovoaram a região — não por antiquarismo, mas para ler o presente, porque as enfermidades que a modernização havia recuado estão voltando: a dengue, o tifo, a malária, o ebola. E voltam, diz ele, empurradas por três forças. Duas são velhas conhecidas da epidemiologia — a mudança climática e a urbanização. A terceira é nova, e é a que mais o assombra: a desinformação organizada, que sequestra a própria capacidade humana de responder.
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Dr. Peter Hotez (Foto: Reprodução de videochamada)
É aqui que sua análise recusa o atalho fácil. Seria cômodo personalizar a catástrofe num único rosto — e Hotez, com uma generosidade que vale a pena reter, não o faz: o fenômeno anticientífico, lembra, é maior do que qualquer presidente, globalizado, financiado pela indústria do bem-estar, visível do Brasil de Bolsonaro à AfD alemã.
Há uma ironia que a própria sobriedade de Hotez não dissolve, pois o fenômeno difuso encontrou, nos Estados Unidos, um rosto, um sobrenome e um ministério. Robert F. Kennedy Jr. — herdeiro de um nome que a história americana associa ao idealismo público assassinado — preside hoje, como secretário de Saúde, ao desmonte daquilo que esse mesmo nome um dia encarnou: em maio de 2026, sob sua gestão, os Estados Unidos reduziram o calendário vacinal infantil, retirando da recomendação geral as vacinas contra a gripe, a hepatite e outras enfermidades; um juiz federal já decidira que o governo, ao abandonar décadas de método sanitário, comprometera a integridade dos próprios atos. O sobrenome que significou serviço significa, agora, subtração. A perseguição que isso autoriza tem rosto e endereço.
Em 2023, quando recusou transformar a ciência em espetáculo de auditório — aceitando o diálogo, mas não o circo de um “debate” com Robert F. Kennedy Jr. patrocinado por apostas milionárias de Joe Rogan e Elon Musk —, Hotez foi seguido até a porta de sua casa, em Houston.
O detalhe que dá a medida moral do homem está inscrito em suas ações: ele é pai de uma filha autista e escreveu um livro inteiro para desmentir, de dentro da própria família, a mentira de que as vacinas teriam causado o autismo dela.
Recusou-se, em suma, a fazer da dor da filha uma arma. Há nisso algo do drama que Henri de Lubac diagnosticou no humanismo que se desliga da transcendência: uma indústria que promete saúde e liberdade e termina, nas palavras do próprio Hotez, deixando as pessoas mais ignorantes e mais doentes — devorando o humano em nome do ego e do lucro político imediato.
Não à toa ele insiste em que nenhuma das grandes religiões é, em si, contrária à ciência; que o Papa, como os demais líderes de fé, a defende; e que são pequenos grupos isolados os que a convertem em arma — não por ganho religioso, mas político.
Ao Brasil, Hotez dirige um elogio que traz um espinho. A ciência brasileira é, para ele, o presente do país ao mundo — o SUS, a Fiocruz, o Butantan e sua nova vacina contra a dengue compõem um patrimônio que poucas nações de renda média conseguem sustentar. Mas a franqueza vem inteira: a USP, a Unicamp, a UFMG deveriam figurar entre as melhores universidades do planeta, e não figuram, por falta de um investimento — sobretudo privado — que os muito ricos do país ainda não se dispuseram a fazer. O Sul Global, adverte, não será resgatado por Washington; terá de inovar a partir de si mesmo.
Resta a pergunta que nenhuma epidemiologia responde: de onde tira forças um homem assim, atravessando o que ele chama, sem eufemismo, de dias muito sombrios? A resposta é quase um exame de consciência: encontra sentido em criar — vacinas, livros, alunos — e em cruzar com gente que se importa.
É uma fidelidade que persevera justamente quando a desolação aconselharia recuar. Talvez seja esse o segredo menos científico e mais antigo de sua obstinação: a de quem faz da bancada do laboratório uma forma de contemplação na ação, e da ciência um modo de dar sem contabilizar o custo, de trabalhar sem pedir repouso. Uma generosidade que não precisa pronunciar o próprio nome para que se reconheça, nela, de que matriz vem.
Esta entrevista foi concedida pelo Dr. Hotez por video conferência ao mestre e doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Thiago Gama.
Eis a entrevista.
Comecemos pelo seu próximo livro. A fronteira entre o Texas e o México sempre foi uma região de migração intensa, de ecologia singular e de profundo isolamento econômico. De uma perspectiva histórica, de que modo essa realidade política influenciou a maneira pela qual a ciência médica se aproximou das doenças tropicais naquela região?
Peter Hotez – É uma boa pergunta. Após o colapso do Império Asteca, no início do século XVI, aquela região tornou-se o Reino da Nova Espanha. E a Nova Espanha, naturalmente, era enorme: estendia-se da atual Califórnia, atravessando o Texas, até lugares como a Guatemala. Geograficamente, correspondia a cerca de metade do tamanho da Rússia atual — essa era a dimensão da Nova Espanha.
O centro do império da Nova Espanha era, evidentemente, a Cidade do México — uma cidade poliglota e multicultural nos séculos XVI e XVII. Mas o objetivo central da Nova Espanha era gerar receita, enviar riquezas de volta à Espanha e à Europa. Havia, portanto, uma ênfase acentuada na extração da prata, remetida das minas de Potosí e de Durango à Espanha.
O problema do território que viria a se tornar a província do Texas, no século XVI e ainda no XVII, era que ali não havia prata — não havia nada capaz de gerar receita para a Espanha. Assim, a região foi praticamente abandonada.
Era habitada sobretudo por populações indígenas. Chamavam-na, de fato, de Fronteira Nordeste da Nova Espanha. Era um território desolado: viviam talvez 40 mil pessoas em toda aquela região do mundo. Então começaram as incursões da França, interessada na área, e a expansão dos Estados Unidos. Foi nesse momento que se estabeleceram as missões franciscanas na Fronteira Nordeste. Os frades franciscanos passaram a fundar essas missões — e, infelizmente, foi quando as epidemias começaram a chegar, como a varíola e o sarampo, provocando uma severa despovoação da região.
O que conhecemos como Texas — nome derivado dos índios Caddo — foi intensamente despovoado ao longo do século XVIII, a ponto de o governo da Nova Espanha precisar de gente. Foi isso que trouxe os anglo-americanos para a colônia de Austin. E então começamos a ver a malária, a cólera e outras doenças disseminadas pelo tráfego comercial — e a febre amarela.
O seu livro, mais uma vez, conecta a história à nossa crise presente. Em sua avaliação, o isolamento histórico dessa região criou as condições para o atual movimento anticiência, ou estamos diante de um fenômeno inteiramente novo?
Peter Hotez – Ao longo das centenas de anos da história do Texas — depois que o Texas se tornou um país independente, em 1836, e, em seguida, um estado —, a região foi profundamente marcada pelas enfermidades. Doenças como a malária e a cólera mudaram completamente o curso da história texana, e é sobre isso que estou escrevendo. Mas, agora, algumas dessas doenças estão retornando.
Com a modernização, a prevalência diminuiu. Agora, porém, elas voltaram — e voltaram em razão de forças próprias do século XXI, como a mudança climática e a urbanização. É por isso que começamos a ver, evidentemente, fenômenos como a covid-19, mas também o retorno das doenças transmitidas por carrapatos. Assistimos ao retorno do tifo ao Texas; ao retorno de infecções virais transmitidas por mosquitos, como a dengue — quase exclusivamente no Brasil, mas não só. Começamos a ver a malária retornar ao Texas. E penso que os vetores desse processo são as mudanças climáticas e a urbanização.
Agora, temos um terceiro problema. Não se trata apenas da mudança climática e da urbanização, mas das forças anticientíficas, que bloqueiam a nossa capacidade de resposta. Esse será o grande ponto de interrogação sobre o que o futuro reserva ao Texas como consequência.
Para compreender esta crise: onde começou o moderno movimento antivacina nos Estados Unidos? Ele foi, desde a origem, um instrumento político, ou tornou-se político ao longo do tempo?
Peter Hotez – Escrevi sobre isso em um livro anterior, Science Under Siege (Ciência sob cerco), com Michael Mann, em 2025. O movimento antivacina começou a se acelerar em torno das falsas alegações de que as vacinas causariam autismo — isso teve início por volta de 1998, e esse fio condutor jamais desapareceu.
Há cerca de doze ou treze anos, porém, o movimento tornou-se mais político, articulado em torno dos conceitos de “liberdade sanitária” e de “liberdade médica”, e passou a receber dinheiro político. Começamos, então, a ver candidatos concorrendo com plataformas antivacina. Essa foi a versão 2.0: o autismo foi a versão 1.0; a inflexão política, a versão 2.0.
Agora temos uma versão 3.0, que é a indústria dos influenciadores de saúde e bem-estar — suplementos e vitaminas. Eles vendem ivermectina, ou vendem hidroxicloroquina, como substitutos de intervenções médicas reais, e isso também está provocando um enorme problema. Temos, portanto, três componentes no movimento antivacina: o autismo, iniciado em 1998; o componente político, de cerca de doze anos atrás; e, agora, a indústria dos influenciadores de bem-estar.
Esta quarta pergunta é essencial, porque hoje assistimos a uma transformação massiva em Washington: a saída dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde, os cortes à USAID, com Donald Trump e Robert Kennedy Jr. agora à frente da política de saúde. Quão perigoso é este momento para a ciência global?
Peter Hotez – A grande preocupação, agora, é que o mesmo fenômeno que ocorre no Texas e no México — o retorno dessas ameaças pandêmicas — está acontecendo em escala global, e com vetores semelhantes: a mudança climática e a urbanização.
As próximas décadas serão as décadas das ameaças pandêmicas. Já tivemos três epidemias e pandemias de coronavírus: a SARS, depois a SARS-2, depois a MERS. E, agora, três grandes epidemias de ebola: em 2014, em 2019 e em 2026.[1] O nosso novo normal são essas pandemias.
As próximas décadas serão as décadas das ameaças pandêmicas — Dr. Peter J. Hotez Tweet.
Agora, mais do que nunca, é importante apoiar os nossos virologistas e os nossos epidemiologistas. Porque, do contrário, não apenas os Estados Unidos, mas países do mundo inteiro enfrentarão uma crise real diante dessas ameaças pandêmicas.
O livro que escrevi com Michael Mann no ano passado dizia, em essência, que temos três ameaças existenciais à humanidade. A primeira são as pandemias; a segunda é a mudança climática. Mas agora há uma terceira: a má informação e a desinformação, que bloqueiam a nossa capacidade de responder adequadamente. É isso que precisamos resolver.
Doutor Hotez, o senhor escreveu que Trump criou uma identidade política baseada na rejeição à ciência. Trata-se de um fenômeno singularmente estadunidense, ou já estamos diante de uma ideologia anticiência global, com Trump em seu centro?
Peter Hotez – Penso que não é correto atribuir a culpa a Trump em si. Na verdade, esse processo se acelerou, em muitos aspectos, fora de Trump. Não que ele esteja ajudando — mas trata-se de um problema muito maior do que o presidente. Tornou-se um fenômeno anticientífico globalizado. É político, sem dúvida; mas é também fortemente alimentado por muito dinheiro, vindo da indústria do bem-estar e dos influenciadores.
Por isso considero um tanto equivocado concentrar o foco no presidente Trump. Penso que precisamos encarar isso como um fenômeno que observamos com mais frequência entre regimes autoritários — e foi por isso que o vimos no Brasil, com Bolsonaro, por exemplo. Esse é um caso. E agora o vemos inclusive em partidos políticos de extrema direita na Alemanha, como a AfD, a Alternativa para a Alemanha. Vemos esse fenômeno despontar até mesmo na América Latina — no México, por exemplo, começamos a ver forças anticientíficas. É um fenômeno multidimensional, mas muito poderoso. Sou frequentemente atacado por causa dele — e é muito perigoso.
Quando os Estados Unidos cortam os fundos internacionais destinados à saúde, qual é o impacto sobre o Sul Global? Estamos contemplando um futuro de novas pandemias sem controle?
Peter Hotez – Essa é uma grande preocupação. Por causa do império da desinformação, somado aos cortes globais, estamos hoje menos preparados para responder a pandemias do que estávamos antes. Estou extremamente preocupado, por exemplo, com a perigosíssima epidemia de ebola na República Democrática do Congo: algumas projeções de modelagem sugerem que ela pode assumir grandes proporções — talvez tão extensas quanto as da epidemia de 2014. E, quando isso começa a acontecer, há transbordamento para outros países.
A questão é que, se olharmos para os últimos vinte ou vinte e cinco anos, vemos agora uma espécie de cadência regular, uma sequência de pandemias e epidemias. Podemos percorrê-la: em 2002, a SARS original; em 2012, a Síndrome Respiratória do Oriente Médio; em 2014, o ebola na África Ocidental; em 2016, a zika, que emergiu do Brasil e do Caribe e alcançou o sul do Texas e o sul da Flórida; em 2019, uma enorme epidemia de ebola no leste da República Democrática do Congo — e, também em 2019, evidentemente, a covid-19.[2] E agora temos o H5N1, que nos preocupa muito, e uma terceira grande epidemia de ebola. A mensagem é clara: isso se tornou algo regular. Veremos essas epidemias e pandemias em bases regulares.
Precisamos, antes de tudo, oferecer melhor sustentação à Organização Mundial da Saúde — e o apoio do governo americano precisa, agora, alinhar-se mais estreitamente à OMS. Isso precisa ser corrigido. Os perigos da retirada dos Estados Unidos do financiamento global também nos fizeram reconhecer que precisamos que as demais economias do G20 — o grupo das vinte maiores economias — ampliem o seu apoio à saúde global.
Sempre estivemos em perigo, porque nos tornamos, desde o início, dependentes demais dos Estados Unidos. Agora a mensagem é clara: é disso que precisamos. Quais são os países do G20 na América Latina? A Argentina, o Brasil, o México. São países ricos, em certos aspectos, e precisamos que eles avancem — tanto oferecendo apoio quanto oferecendo inovações. Precisamos de mais apoio global, vindo de lugares como a Índia, a China e o Japão, da Ásia e, evidentemente, da União Europeia. Porque, do contrário, continuaremos enfrentando esse declínio regular por causa das pandemias.
Durante a covid, o senhor e a sua equipe desenvolveram uma vacina livre de patentes, disponibilizada aos países de baixa renda. Foi um ato político consciente, ou uma decisão científica que teve consequências políticas?
Peter Hotez – Foi, na verdade, ambas as coisas. Criamos, no Baylor College of Medicine, um centro singular, no Texas Children’s Hospital. Era uma visão que eu alimentava desde que concluí o meu duplo doutorado, em Medicina e em Ciências, nos anos 1980. Foi quando decidi que queria usar a ciência em favor da humanidade; queria encontrar um modo de fazer ciência interessante, mas também de produzir vacinas que as grandes companhias farmacêuticas não produziriam. Passei a vida desenvolvendo uma vacina de baixo custo contra a anemia por ancilostomíase. A ancilostomíase é uma doença importante em lugares como o Brasil, a Venezuela e a América Central; é também um grande problema na Índia e no continente africano. E agora, quarenta anos depois, demonstramos que ela funciona.
Decidi que queria usar a ciência em favor da humanidade — Dr. Peter J. Hotez Tweet.
Usamos essa mesma tecnologia para produzir vacinas de baixo custo contra coronavírus, inclusive contra a covid. E, quando o fizemos — porque havia pessoas morrendo no mundo inteiro por não terem acesso à vacina de RNA mensageiro —, decidimos ceder a nossa tecnologia vacinal minimizando as condicionalidades, e o fizemos sem patentes. Licenciamos a tecnologia para a Índia e para a Indonésia.
Disso resultaram, na verdade, duas vacinas: a Corbevax, fabricada pela Biological E, uma grande produtora de vacinas da Índia, e a IndoVac, da grande produtora de vacinas da Indonésia. O aspecto interessante da IndoVac é que, por não conter células animais nem células humanas — é uma tecnologia vegana —, ela recebeu a designação halal. Foi a vacina halal contra a covid também para o mundo muçulmano — algo que eu não havia antecipado fazer, mas foi assim que as coisas se desdobraram. Como consequência, 100 milhões de pessoas foram imunizadas. Foi muito bom oferecer essa contribuição. E ela forneceu uma prova de conceito: não é preciso ser uma grande companhia farmacêutica para realizar coisas importantes no campo das vacinas.
Doutor Hotez, o Brasil possui um sistema público de saúde muito forte, o SUS, e instituições como a Fiocruz e o Butantan. O senhor acredita que países como o Brasil podem liderar um novo modelo de ciência aberta, livre de patentes, capaz de desafiar o sistema tradicional de patentes das grandes farmacêuticas?
Peter Hotez – Sim — embora eu colocasse a questão de um modo um pouco diferente. Não se trata apenas das patentes, nem apenas das vacinas. Não é somente uma questão de patentes e de propriedade intelectual, porque o decisivo é o conhecimento técnico e a capacidade de produzir em escala, sob controle e garantia de qualidade. E não há muitos grandes países de renda média capazes disso. Quem pode fazê-lo? A Índia pode. A Indonésia pode. E penso que é preciso acrescentar o Brasil. O futuro do mundo depende, realmente, de países como o Brasil oferecerem essa inovação e assumirem esse papel mais global.
Estou muito entusiasmado, por exemplo, com o que está acontecendo agora no Butantan, com a sua nova vacina contra a dengue — que foi licenciada pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos [NIH]. Parece uma vacina bastante promissora. Precisamos de mais iniciativas assim. Eu gostaria de ver o Brasil tornar-se o foco da inovação para o mundo, como a Índia tem sido. E não apenas o Brasil: a Argentina precisa avançar nesse sentido; o México também. Eu gostaria de ver até países menores, como o Panamá — o Panamá poderia se tornar a Singapura da América Latina. Precisamos de mais dessa inovação vinda dos países latino-americanos.
Penso, porém, que, para que isso aconteça, não bastam as fábricas, não bastam os produtores de vacinas: é preciso apoio às universidades, à formação da próxima geração de cientistas — lugares como a Universidade de São Paulo ou a Universidade Federal de Minas Gerais. Penso que precisamos vê-las receber um nível mais alto de apoio. Uma das coisas que noto nas universidades brasileiras é a falta de apoio privado. Nos Estados Unidos, se olharmos para as grandes universidades — como Harvard, Yale, a Universidade da Pensilvânia e a Johns Hopkins —, elas recebem muito apoio privado. Recebem também apoio governamental, dos NIH, mas recebem muito de indivíduos de altíssimo patrimônio. Há muita gente rica no Brasil, e precisamos que essas pessoas avancem e comecem realmente a apoiar as nossas universidades. Porque, hoje, se olharmos globalmente para as cem melhores universidades do mundo, o que vemos? Vemos Harvard, Caltech, MIT, Oxford, Cambridge. E onde estão as universidades brasileiras? Há muitos professores e estudantes brilhantes, mas a diferença é que elas não dispõem desse nível de apoio privado. Isso será decisivo.
Falemos da internet. Dia após dia, as plataformas digitais propagam mensagens anticientíficas. Como a comunidade científica pode responder, quando essas empresas de tecnologia lucram com a desinformação?
Peter Hotez – Penso que você tem razão, e penso que esse é um problema enorme. Uma das coisas que noto é que, quando sou atacado — porque sou cientista —, as pessoas que me atacam deixaram de frequentar a biblioteca. Não estão mais lendo livros: extraem todo o seu conteúdo de portais conspiratórios. E isso mudou algo — penso que reconfigurou. Não sei se reconfigura o cérebro ou o quê, mas precisamos reconstruir as habilidades de pensamento crítico e levar as pessoas de volta à biblioteca, de volta à leitura de livros. Se você observar as minhas redes sociais, falo muito de livros, porque penso que essa é a chave: precisamos de uma força de trabalho educada.
O que aconteceu, penso eu, é que esses magnatas da tecnologia que querem dominar — o modo pelo qual controlam as pessoas é torná-las estúpidas e torná-las doentes. Estúpidas no sentido de que as pessoas não estão lendo livros, estão recorrendo a portais conspiratórios; e doentes porque estão rejeitando a medicina científica em favor da indústria do bem-estar e dos influenciadores. Isso está enriquecendo uns poucos, mas está tornando o mundo estúpido e doente — e precisamos encontrar um modo de reverter tudo isso. Não será fácil: precisamos de vontade política para que aconteça, e precisamos apoiar melhor os nossos professores, tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio.
O modo pelo qual controlam as pessoas é torná-las estúpidas e torná-las doentes. Estúpidas no sentido de que as pessoas não estão lendo livros, estão recorrendo a portais conspiratórios — Dr. Peter J. Hotez Tweet.
Tenho uma pergunta pessoal. A Lancet noticiou os intensos ataques que o senhor e a sua família sofrem da parte desses grupos radicais. Onde o senhor encontra a energia psicológica e moral para continuar essa luta todos os dias?
Peter Hotez – Bem, eu me canso, às vezes. Parte do que me sustenta é encontrar pessoas como você, que se importam, e organizações de difusão de ideias como a sua. Há muita gente boa no mundo, e procuro me manter otimista — mas há dias muito sombrios, em que se atravessam períodos de ataque continuado. Infelizmente, os métodos empregados pelos grupos anticiência estão se tornando mais sofisticados. Veremos.
Para mim, o que dá sentido é criar intervenções, como as vacinas, e escrever livros — isso ainda é muito significativo para mim. Amo ser professor de uma escola de medicina, e continuarei a sê-lo enquanto puder. Mas não há dúvida de que o mundo está se tornando, em muitos aspectos, um lugar mais sombrio.
Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, alguns grupos religiosos conservadores converteram-se em centros de propaganda antivacina. Como dialogar com essas comunidades religiosas sem criar uma divisão ainda mais profunda nas nações?
Peter Hotez – Se pensarmos bem, não há — nos tempos modernos, ao menos — proibições religiosas contra as vacinas ou contra a ciência. Não há nada no cristianismo que seja contrário às vacinas ou à ciência; não há nada no islã que seja contrário às vacinas e à ciência; não há nada no judaísmo que seja contrário às vacinas e à ciência. E, no entanto, toda religião tem grupos dissidentes, grupos pequenos, que transformam a anticiência em arma — não para ganho religioso, mas para ganho político.
Esse é o ponto importante a sublinhar: em todas as grandes religiões do mundo — o hinduísmo, o islã, o cristianismo, o judaísmo, e a lista continua —, os líderes religiosos de todos esses grupos, seja o Papa, seja qualquer outro, apoiam fortemente a ciência. São os pequenos grupos isolados que, de tempos em tempos, a transformam em arma. Mas é muito importante reafirmar que não se trata de nada inerente à religião enquanto tal: o que existe são pequenos grupos que a instrumentalizam.
Grupos pequenos, que transformam a anticiência em arma — não para ganho religioso, mas para ganho político — Dr. Peter J. Hotez Tweet.
Muito obrigado, professor Hotez. A última e derradeira pergunta: a elite intelectual e a comunidade científica do Brasil o leem neste momento. Qual é a sua mensagem central ao povo brasileiro que luta, agora, pela ciência e pela saúde pública neste país?
Peter Hotez – Penso que a mensagem é recordar ao povo brasileiro a força da ciência brasileira. A ciência brasileira é muito forte, em muitos aspectos. Todos os dias, no meu laboratório, há cientistas brasileiros — e a minha experiência não é única. A chave está em os líderes políticos do Brasil reconhecerem que a ciência é o presente do Brasil ao mundo — certamente o presente à América Latina, mas o presente ao mundo.
E, para ser uma grande nação, é preciso ser forte em suas universidades de pesquisa. Isso significa a continuidade do apoio governamental às universidades e às instituições de pesquisa. Ao mesmo tempo, porém, penso ser muito importante que o Brasil angarie mais apoio privado para as suas universidades.
Para ser uma grande nação, é preciso ser forte em suas universidades de pesquisa — Dr. Peter J. Hotez Tweet.
Vocês têm muito a seu favor, mas, com toda a franqueza, a Universidade de São Paulo, a de Campinas ou a de Minas Gerais — essas deveriam estar entre as melhores universidades do mundo. E não estão, hoje. São muito boas, mas não dispõem do apoio financeiro privado que as levaria a esse patamar. Elas não podem depender apenas do governo: precisam do investimento privado nas universidades brasileiras. Essa é, talvez, a mensagem mais importante.
*Vacina halal é o imunizante fabricado em total conformidade com a lei islâmica, o que significa que ele não contém componentes proibidos (como derivados de porco ou álcool) e não entra em contato com substâncias consideradas impuras durante o seu processo de desenvolvimento e armazenamento. (Nota do IHU)
Bússola crítica:
Repertório de contextos para a leitura da entrevista com Peter J. Hotez
Rachel Hotez
Filha de Peter Hotez, diagnosticada com autismo em 1994, aos 19 meses de idade. Na entrevista, Hotez não a menciona pelo nome — a referência surge na cabeça de texto do entrevistador: “ele é pai de uma filha autista e escreveu um livro inteiro para desmentir, de dentro da própria família, a mentira de que as vacinas teriam causado o autismo dela.”
O livro em questão é Vaccines Did Not Cause Rachel's Autism: My Journey as a Vaccine Scientist, Pediatrician, and Autism Dad (Johns Hopkins, 2018). Nele, Hotez — que teria mais razão do que qualquer pessoa para querer encontrar uma “causa” externa para o autismo da filha — demonstra sistematicamente que as vacinas não têm qualquer relação com o autismo de Rachel, de origem genética, com vias neurodesenvolvimentais iniciadas antes do nascimento.
O gesto tem peso moral preciso: Hotez recusou transformar a dor da filha em argumento emocional do movimento antivacina. Escreveu para refutar, com ciência e vivência pessoal.
Project MUSE / Johns Hopkins University Press.
Acessado em 14 de junho de 2026 [clique aqui]
Robert F. Kennedy Jr. (RFK Jr.) — perfil, posse e o que fez de errado
Sobrinho do presidente John F. Kennedy (assassinado em 1963) e filho do senador Robert F. Kennedy (assassinado em 1968), RFK Jr. construiu carreira como advogado ambiental antes de se tornar uma das vozes mais influentes do movimento antivacina americano. Em 2007, fundou a Children's Health Defense, organização centrada na propagação da ligação — cientificamente refutada — entre vacinas e autismo.
Após candidatar-se à presidência em 2024 e apoiar Trump, foi indicado como Secretário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS). O Senado o confirmou em 13 de fevereiro de 2025, por 52 votos a 48, em votação quase exclusivamente partidária. O único republicano a votar contra foi o senador Mitch McConnell (Kentucky), sobrevivente da paralisia infantil, que declarou não poder “consentir com a re-litigação de curas comprovadas”. RFK Jr. prestou juramento no Salão Oval da Casa Branca, Washington D.C., administrado pelo ministro do Supremo Neil Gorsuch, na presença de Trump e de sua esposa, Cheryl Hines.
O que fez de errado como secretário:
Maio de 2025: CDC removeu recomendação das vacinas contra covid-19 para crianças saudáveis e grávidas, sem consultar o comitê técnico.
Junho de 2025: Demitiu todos os 17 membros do ACIP (comitê vacinal criado em 1964) e os substituiu por indicados críticos às vacinas.
5 de janeiro de 2026: CDC reduziu o calendário vacinal infantil de 17 para 11 vacinas recomendadas, eliminando influenza, rotavírus, hepatite A, hepatite B, meningite e RSV.
16 de março de 2026: O juiz federal Brian Murphy (Distrito de Massachusetts) bloqueou temporariamente as mudanças, declarando que o governo havia “abandonado os métodos [científicos e legais] e, com isso, comprometido a integridade de seus atos.”
Confirmação pelo Senado — STAT News.
Acessado em 14 de junho de 2026 [clique aqui]
Posse e decreto (Salão Oval) — ABC News.
Acessado em 14 de junho de 2026 [clique aqui]
Histórico de ações — U.S. News.
Acessado em 14 de junho de 2026 [clique aqui]
Decisão do juiz Murphy — ABC News.
Acessado em 14 de junho de 2026 [clique aqui]
Joe Rogan
Comediante e apresentador americano, criador de The Joe Rogan Experience, o podcast mais ouvido do mundo (disponível no Spotify). Em junho de 2023, após entrevistar RFK Jr. num episódio de três horas repleto de desinformação sobre vacinas, Rogan ofereceu US$ 100 mil — depois ampliados, com contribuições de seguidores, a US$ 1,5 milhão — para a instituição escolhida por Hotez, caso ele aceitasse debater RFK Jr. ao vivo no programa. Hotez recusou. A menção de Hotez na entrevista (“apostas milionárias de Joe Rogan e Elon Musk”) refere-se a essa soma.
Houston Public Media.
Acessado em 14 de junho de 2026 [clique aqui]
AfD — Alternative für Deutschland
Partido político alemão de extrema direita, fundado em 2013, que nas últimas legislaturas tornou-se o principal partido de oposição no Bundestag. Combina eurofobia, retórica anti-imigração e, crescentemente, negacionismo científico — sobre mudança climática e, durante a pandemia, sobre vacinas e medidas sanitárias. Hotez a menciona como exemplo da globalização do fenômeno anticientífico para além dos EUA e da América Latina.
A cadência das pandemias — cronologia citada por Hotez
2002 — SARS: coronavírus SARS-CoV-1, origem na China, 26 países afetados, ~774 mortes.
2012 — MERS: coronavírus MERS-CoV, epicentro na Arábia Saudita, taxa de letalidade ~35%.
2014 — Ebola (África Ocidental): maior epidemia de Ebola registrada — mais de 28 mil casos, 11 mil mortes em Serra Leoa, Libéria e Guiné.
2016 — Zika: emergiu do Brasil e do Caribe, atingindo o sul do Texas e a Flórida. Associada à microcefalia em bebês.
2019 — Ebola (leste da RDC): segunda maior epidemia de Ebola, mais de 3.400 casos e 2.200 mortes.
2019–2020 — Covid-19: SARS-CoV-2, pandemia global, mais de 7 milhões de mortes reconhecidas pela OMS.
2026 — Ebola/Bundibugyo: epicentro em Ituri, RDC; PHEIC declarada em maio de 2026.
Bibliografia completa dos livros do Dr. Hotez | Observação: Não há nenhuma versão traduzida para os leitores do Brasil até o ano de 2026.
HOTEZ, Peter J. Blue Marble Health: An Innovative Plan to Fight Diseases of the Poor amid Wealth. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2016.
Disponível aqui. Acessado em 14 de junho 2026.
HOTEZ, Peter J. The Deadly Rise of Anti-science: A Scientist's Warning. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2023.
Disponível aqui. Acessado em 14 de junho 2026.
HOTEZ, Peter J. Forgotten People, Forgotten Diseases: The Neglected Tropical Diseases and Their Impact on Global Health and Development. 3. ed. Hoboken: ASM Press/Wiley, 2022.
Disponível aqui. Acessado em 14 de junho 2026.
HOTEZ, Peter J. Poverty and the Impact of COVID-19: The Blue-Marble Health Approach. Baltimore: Johns Hopkins University Press/Project MUSE, 2021.
Disponível aqui. Acessado em 14 de junho 2026.
HOTEZ, Peter J. Preventing the Next Pandemic: Vaccine Diplomacy in a Time of Anti-science. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2021.
Disponível aqui. Acessado em 14 de junho 2026.
HOTEZ, Peter J.; MANN, Michael E. Science Under Siege: How to Fight the Five Most Powerful Forces that Threaten Our World. Nova York: PublicAffairs, 2025.
HOTEZ, Peter J. Texas Fever Frontier: How Deadly Epidemics Shaped the Lone Star State and Will Determine America's Destiny. Cambridge (MA): MIT Press, 2026–2027. (no prelo).
HOTEZ, Peter J. Vaccines Did Not Cause Rachel's Autism: My Journey as a Vaccine Scientist, Pediatrician, and Autism Dad. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2018.
Disponível aqui. Acessado em 14 de junho 2026.
Notas
[1]No original, o entrevistado enumera três grandes epidemias de ebola, datando-as de 2014, 2019 e 2026. Na resposta 6, a mesma sequência reaparece — a epidemia de 2014 situada na África Ocidental e a de 2019 no leste da República Democrática do Congo —, ao passo que a terceira, correspondente ao surto então em curso na RDC, é referida sem data. Preserva-se a formulação do entrevistado, sem harmonização. [N.E.]
[2]O entrevistado situa em 2019 tanto a grande epidemia de ebola no leste da República Democrática do Congo quanto a covid-19. Convencionalmente, a emergência da covid-19 é datada da virada de 2019 para 2020. Mantém-se a datação tal como enunciada na entrevista. [N.E.]


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