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Vladimir Sacchetta (1950-2026)

Do A Terra É Redonda, 16 de maio 2026
Por EMILIANO JOSÉ*


Vladimir Sacchetta (1950-2026)

A partida de um mestre da investigação arquivística que combinou o compromisso ético contra as tiranias e uma rara generosidade humana no resgate do patrimônio político nacional

1.

A memória histórica perdeu um gigante. A luta, um bravo. A humanidade, um ser generoso, solidário, íntegro. Sempre de bem com a vida, pronto a resolver problemas, principalmente se das amizades.

Talvez, no caso dele, se possa dizer: tinha a quem puxar, ou quem sai aos seus não degenera. Filho de Hermínio Sacchetta, jornalista e revolucionário de nomeada, cuja atitude ousada e solidária com o comandante Carlos Marighella já está inscrita na história.

Recebi a triste notícia hoje pelo amigo e companheiro Paulo Vannuchi.

Ouso dizer ter sido nas últimas décadas o pesquisador brasileiro mais completo, capaz de escarafunchar a história, trazer à memória coisas do subsolo, desconhecidas – só ele era capaz disso. Se ele não conseguisse, ninguém mais.

Era homem capaz de descobrir segredos. Para alguns, um perigo.

Maria Cláudia Badan Ribeiro lembrou de uma afirmação do amigo Franklin Martins: se o Vladimir Sacchetta não sabe onde encontrar algum documento, ninguém mais neste Brasil sabe!

Tinha razão. Pesquisador e escritor consagrado. Notabilizou-se na revelação sobre a vida de Monteiro Lobato. Enveredou por estudos acerca de revolucionários inconformistas. Foi prêmio Jabuti nas categorias Ensaio e Fotografia e Livro do Ano.

Uma vida de pesquisa, e a relação é ampla demais para caber aqui, nessa tentativa de homenagem – e digo tentativa porque duro de dar conta pela dor e amplitude da vida dele.

2.

Tive a alegria de contar com ele quando do trabalho em torno do livro Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar, no final dos anos 1990. Depois, trabalho intenso de pesquisa dele quando escrevi biografia de Waldir Pires, dois volumes lançados entre 2018 e 2019.

E agora já havia trabalhado bastante no levantamento de arquivos em torno do senador Jaques Wagner, sobre quem comecei a produzir a biografia.

Estava juntando o material para me mandar, trabalhando em conjunto com a historiadora Beatriz Kushnir, com quem troquei palavras hoje, os dois tristes com a partida.

Não sabia estivesse doente, não sei as circunstâncias da partida súbita dele.

Abraço todos os familiares na pessoa de Paula Sacchetta, a filha, de quem ele falava sempre com profundo amor, chegando a me mandar instigante estudo dela sobre o velho Hermínio Sacchetta, uma crítica profunda em torno da atitude de Jorge Amado em relação ao avô dela.

Afora todas as qualidades de jornalista, escritor, pesquisador, há de se registrar ser um homem de convicções profundas, um inimigo de tiranias, adversário de ditaduras, um militante, revolucionário.

Na minha memória, ele se parecia, pela doçura, ternura, pela alegria, com outro amigo, já também no reino dos encantados, muito parecido com José Carlos Zanetti, cuja partida se deu no início de 2022.

Acreditasse em vida eterna, e diria do alegre encontro dos dois em outras dimensões. Os dois, revolucionários amorosos, o oposto dos militantes ortodoxos, incapazes de viver a vida alegremente.

Em mim, no coração, ficam a dor, inevitável, pela perda e, de modo aparentemente contraditório, a alegria e a honra por ter contado com a amizade dele, com aquele sorriso largo, com aquela serenidade, com aquele jeito feliz de viver a revolução e a vida.

*Emiliano José é jornalista, escritor, membro da Academia de Letras da Bahia. Autor, entre outros livros, de O cão morde a noite (EDUFBA). [https://amzn.to/46i5Oxb]

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