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Vira-mundo – a materialização da maldade

Do A Terra É Redonda, 25 de maio 2026
Por MÁRIO MAESTRI*



Imagem: M Shiva

Como o resgate da cultura material do cativeiro desmascara o revisionismo acadêmico que tenta projetar uma imagem idílica e paternalista da barbárie escravista

Em memória do historiador Théo Lobarinhas Piñero

1.

Minha companheira Florence e eu, visitando lojas de móveis usados, na rua do Senado, no Rio de Janeiro, vimos que nos daríamos mal, pois os proprietários se comportavam, todos, como se fossem antiquários. Uma cadeira quebrada é vendida como um trono principesco. Estávamos desistindo, quando, em um canto de um segundo andar, de uma loja mambembe, deparei-me, não com um, mas com quatro vira-mundos? Foi um choque. Fiquei congelado.

Há décadas, procuro palmatórias, máscaras de flandres, bacalhaus, gargalheiras, enxadões e por aí vai, materializações do terrível passado escravista, sobre as quais li e jamais manuseei, sem jamais encontrar um só exemplar, mesmo por preços exorbitantes. Esses objetos são oferecidos, apenas, vez e outra, em leilões, a preços salgadíssimos. Ao máximo, me aproximei deles em museus. É como se tivessem evaporado no ar ou jamais tivessem existido.

Quase comecei a acreditar nas afirmações de tantos colegas historiadores e historiadoras, que propõem que esses instrumentos de tortura fossem invenções dos abolicionistas, no passado, e dos historiadores marxistas, no presente. Isso porque, juram, de mãos postas, que os cativos não apanhavam e eram, ao máximo, punidos, leve e raramente.

Colega, estudioso da escravidão nos anos 1970-80, que enveredou por outros temas, sem jamais deixar de se interessar pela história do cativeiro, tem me brindado com depoimentos magníficos que circulam na internet. Cito apenas um. Baladíssima historiadora revelou, sem engasgar, que a “segunda comunidade” mais rica da colônia era formada “por mulheres pretas” “comerciantes”. Eta empreendedorismo cativo de sucesso!

Compreendemos, portanto, por que nesse proposto universo de maravilhoso equilíbrio social, inexistiam reprimendas duras aos trabalhadores escravizados no quotidiano negreiro. Não eram necessárias. Se um cativo ou cativa descumprisse seus compromissos, o senhor ou a senhora lhe dariam algumas palmadas, mais ou menos forte, conforme o malfeito, como fazem os bons pais.

Portanto, meu companheiro, o piauense Solimar Lima, vai para o panteão dos historiadores marxistas mentirosos, ao propor cativos feridos por até 1.500 chicotadas, em doses homeopáticas de 50, no tradicional seis por um, já que o feitor não podia trabalhar em dia santo! As cativas apanhavam menos, de seiscentos a mil golpes.[1]

Entretanto, no mundo real, nos mais de três séculos de cativeiro, produziram-se talvez centenas de milhares de tais instrumentos. Uma residência escravista tinha diversos tipos de palmatórias, sobretudo de madeira: pequenas, grandes, leves, pesadas e por aí vai. A palmatória variava segundo o castigo de um ganhador parrudo ou de um crioulinho de 6 ou 7 anos, que quebrara uma xícara portuguesa da sinhá.

2.

É outra, minha hipótese explicativa para a raridade, hoje, desses objetos icônicos pra lá de abundantes quando da escravidão. Mesmo antes da Abolição, as famílias escravistas, que vendiam seus cativos, começavam a se livrar dos instrumentos de suplício. Seus descendentes guardaram móveis coloniais, lavatórios de latão, cristaleiras, espelhos bissetados, santos vestidos e despidos, e mesmo os urinóis dos sinhôs, sinhás, sinhazinhas, com tampas ou sem tampas, como depoimentos dos idos dos ancestrais aristocráticos e endinheirados.

Os escravistas desfizeram-se rapidamente dos instrumentos de tortura, apenas o último cativo deixava a casa urbana, o engenho, a charqueada, etc., assim como também fizeram os seus herdeiros, conscientes do depoimento que eles registravam sobre o tratamento dado aos trabalhadores escravizados. Todos eles afirmavam que os cativos tinham sido, sempre, tratados com desvelo e benevolência, como quase filhos.

Em em inícios dos anos 1990, o historiador rio-grandense Agostinho Mário Dalla Vecchia registrou, nas dezenas de entrevistas, que recolheu e publicou, de senhores e senhoras negros idosos, o tratamento duríssimo dos “filhos de criação”. Ou seja, crianças negras entregues pelos pais livres paupérrimos, na pós-Abolição, para serem criadas por ex-proprietários escravistas de Pelotas e imediações. Fixou memórias de vida próximas às do Mississipi nos USA, no período pós-Reconstrução.[2]

Narrativas piedosas e apologéticas dos escravizadores de antes e de após a Abolição sobre o tratamento dos escravizados, retomadas e refinadas pelos historiadores e historiadoras, que repetiram Gilberto Freyre, sem a elegância e inovação da narrativa do pernambucano, o mais inteligente e cabotino sociólogo que produziu a já denominada Terra dos Papagaios.

Esses epígonos do pernambucano genial e farsante se desdobraram em tecer loas à “escravidão feliz” do Brasil, em descrições apologéticas e gentis tidas, nesses tempos bicudos, como clássicos de nossa historiografia. A primeira que alcançou o pináculo mentindo sem freio foi, certamente, Kátia de Queirós Mattoso, com seu livro Ser escravo no Brasil, aplaudido em uníssono pela Academia, que recebeu prefácio elogiosíssimo do Ciro Flamarión.[3]

Um livro realmente hilário, desancado na época, com elegância, coragem e toda a razão, em resenha publicada no jornal Folha de S. Paulo, por Clóvis Moura, quase linchado pelo ato iconoclasta, já que então já era raquete cancelado, para não dizer mais, por ser marxista e, ainda por cima, comunista de carteirinha.[4]

Mas, como o conservadorismo não parou de avançar e a força do mundo do trabalho organizado se apequenou incessantemente, os historiadores e historiadoras de aluguel, para seguirem conquistando o apoio das classes dominantes, tiveram que radicalizar suas construções esdrúxulas sobre um passado escravista já quase maravilhoso, que superaram de longe as paisagens doce-amargas freyrianas.

3.

Nessas elucubrações apologéticas do passado, os cativos dobravam os escravistas em negociações sem fins; enriqueciam explorando parcelas minúsculas de terras, que raramente as tinham; alforriavam-se às centenas de milhares; tinham direito a criar famílias estáveis e, sobretudo, trabalhavam pouco, comiam muito, apanhavam quase nunca.

Por tudo isso, após 1888, os cativos teriam passado a amaldiçoar – dizem – a conspiração das elites brancas que pôs fim à Terra de Canaã que haviam conhecido. Tempos de escravidão feliz que teriam sido os principais defensores, tese de uma outra sumidade acadêmica brasileira contemporânea. Movimento historiográfico de cunho ideológico esmiuçado com virtuosidade por Jacob Gorender em A escravidão reabilitada, de 1990, ou seja, quando da Queda do Muro e do Fim da História. Livro magnífico que não recebeu uma resenha crítica minimamente séria, mas motivou que o autor fosse coberto de ofensas pessoais.[5]

Mas voltemos àquela tarde, há poucos dias, na rua do Senado, quando perguntei, temeroso, ao proprietário dos trastes velhos metido a antiquário, quanto pedia pelos “objetos de ferro que tinha no segundo andar”. Temia que pedisse, um, dois, três contos de réis, e eu tivesse que meter a mão na algibeira para não deixar escapar o objeto histórico excepcional com o qual me deparara pela primeira vez em minha vida, ao alcance de minha mão. Caso a avareza me dominasse, sabia que me arrependeria para todo o sempre!

O velho – menos velho do que eu, folga dizer – respondeu amigavelmente que “não podia dar preço”, já que não sabia se eram “originais” ou “cópias”. Eles tinham vindo com móveis e bugigangas de uma velha fazenda do rio Paraíba. Procurei não perder o controle. Por que raios, perguntei-me a mim mesmo, alguém faria uma cópia de objeto tão estranho e fora de qualquer circulação!

Avencei dizendo que era historiador, que estudava a escravidão, e, se fosse cópia ou original, sempre me serviria para mostrar aos meus alunos. Fui, reconheço, algo oportunista. Ou seja, deixei de ser cientista social, para regatear e quase mentir, como se estivesse em uma feira de rua. Tudo para não meter a mão muito fundo no bolso. O senhor me disse que desse um preço.

Lasquei quinhentos reais, nem tanto, nem pouco, para quem tinha quatro daqueles objetos. Fiquei gelado, quando me respondeu: – Muito pouco, professor! Compreendi que estava perdido. Mas ele completou, para minha alegria: – Dá pouco mais de 150 por peça! Aliviado, após compreender o que dizia, respondi. – Caro senhor, me referi a um! E o proprietário, sempre simpático, bateu o martelo: – Fechado, ainda mais que vai ter utilidade pro professor e seus alunos! Fiquei um pouco envergonhado.

Paguei logo e subi, com Florence, pela escada estreia e cambaleante, em busca de minha recente conquista. O problema foi descê-la. A Inteligência artificial e a internet falam de vira-mundos de 10 a 15 kg, em ferro fundido. Não pesei ainda. Pretendo fazer proximamente. Mas tivemos que transportá-lo, até um Uber, e subir, mais tarde, dois lances de escada, até nosso apartamento, Florence e eu, com dificuldades.

Sirvo-me – e peço desculpa – pela falsa literatura. Ela não tem o objetivo de contar minha satisfação pessoal em encontrar o vira-mundo, mas de descrever o sentimento inesperado que ele me causou. E não apenas a mim. Depois de ter pago o meu, para garantir a posse, contei ao simpático senhor como se chamava o objeto, sua raridade, para que servia, onde podia encontrar maior informação. Era o menos que podia fazer, em agradecimento à gentileza com que fora tratado.

Durante minha explicação, a atendente da loja, uma jovem, de uns vinte anos, seguiu com atenção minha explicação, olhando para o vira-mundo, negro, de ferro fundido, pesado, esdrúxulo, sobre a mesa, como uma aranha disforme. No passado, eu diria que a menina era uma mulata bonita, bastante clara. O que não digo, agora, para não ser cancelado e achincalhado, ainda mais. Mas dizer que fosse negra é faltar com a verdade à objetividade cromática. Para respeitar a manipulação ideológica identitária oportunista, que já apresentou Marighella como negro preto, cancelando seu pai que ele tanto admirava, operário anarquista da Emília-Romanha, então parte da Itália operária e vermelha. Mas, sobre isso, já me referia em detalhes.[6]

A menina, simpática e atenciosa, ao compreender o que se tratava, começou a empalidecer e uma profunda tristeza lhe cobriu o rosto, uma resposta talvez inconsciente a memórias e recordações atávicas. Não foi impressão minha, subjetiva, já que Florence me comentou, ainda ao pé da loja, em francês, séria, a reação da gentil atendente.

Falar de um vira-mundo, ler sobre ele, olhá-lo em uma ilustração, foto ou em um museu é uma coisa. As percepções que ele nos passa são mediadas por inevitável racionalização. É diferente defrontar-se, cara a cara, com a violência materializada nesse objeto horrendo, de ferro enferrujado, de peso desproporcionado, para que o aprisionado não o pudesse arrastar, construído para o castigo doloroso de trabalhadores rebeldes.

A angústia despertada pelo vira-mundo foi ainda maior ao compreender que trabalhadores feitorizados, cobertos pelo anonimato, tiveram ali mãos e pés atados, sofrendo as agruras da prisão e do que lhes esperava a seguir. O traste maldito, do passado, nos fala, imensamente, do Brasil em que vivemos, hoje. Enquanto em Paris os trabalhadores assaltavam o poder, no Brasil, eram manietados, com violência, pelas mãos e pelos pés, já que tidos e havidos como propriedades de seus exploradores.

Compreende-se por que milhares de vira-mundos dos tempos da Colônia e do Império desapareceram. Nenhuma família descendente de escravistas se arriscaria a colocar, na sala de visita, como recordação, um objeto como esse que, como poucos, na sua objetividade, materializa em forma tão perfeita o mal. Mal que praticaram no passado os impiedosos escravistas, que são rememorados, hoje, por seus orgulhosos descendentes e cobertos de elogios pelos intelectuais orgânicos do grande capital.

*Mário Maestri é historiador. Autor, entre outros livros, de Filhos de Cã, filhos do cão. O trabalhador escravizado na historiografia brasileira (FCM Editora).

Notas

LIMA, Solimar Oliveira. Triste pampa: resistência e punição de escravos em fontes jurídicas no RS/1818 – 1833. Porto Alegre: IEL: EDIPUCRS, 1997. 208 pp.

VECCHIA, Agostinho M. Dalla. Vozes do Silencio: Depoimentos de descendentes de escravos do Meridião Gaúcho. Pelotas: Universitária, 1994. 2 vol.

3.MAESTRI, M. Como era Gostoso ser Escravo no Brasil: A Apologia da Servidão Voluntária de Kátia de Queirós Mattoso. Revista crítica histórica, https://periodicos.ufal.br/criticahistorica/article/view/2989/pdf

MOURA, Clóvis. Escravismo, análise e ação social. Folha de S. Paulo, Folhetim, domingo, 16 de maio de 1982.

GORENDER, Jacob. A escravidão reabilitada. 1 ed. 1990. São Paulo: Expressão Popular/Perseu Abramo, 2016.

MAESTRI, Mário. Pintaram Marighella de Preto. O identitarismo e a manipulação da história e das consciências. A Terra é Redonda. 07/07/2021. https://aterraeredonda.com.br/pintaram-marighella-de-preto/

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