Por JOHN KARLEY DE SOUSA AQUINO*
A história do instituto que desafiou o academicismo tradicional e converteu o pensamento social em ferramenta de emancipação política e desenvolvimento nacional
Nosso objetivo é explicar o que foi o ISEB, na tentativa de resgatar seu papel intelectual e político que foi vítima primeiro de uma historiografia do silêncio e posteriormente de uma historiografia da desqualificação, como diz Angélica Lovatto.[i]
1.
A pré-história do ISEB começa nos anos 1940 quando foi concedida uma página do Jornal do Comércio a um grupo de jovens intelectuais cariocas liderados por Hélio Jaguaribe (1923-2018) para escrever sobre questões culturais.[ii] Os textos foram bem recepcionados pelo público e através de um leitor paulista, Roland Corbisier (1914-2005), um grupo de paulistas entrou em contato com Hélio Jaguaribe e os cariocas e então decidiram se reunir para discutir questões teóricas diversas, mas com enfoque na realidade brasileira. Da união desses dois grupos de intelectuais surgiu o chamado “Grupo de Itatiaia”, que a partir do ano de 1952 se reunia mensalmente em Itatiaia (Fronteira entre Rio de Janeiro e São Paulo) para discutir ciências sociais e filosofia.
O grupo de Itatiaia durou pouco tempo devido às desavenças intelectuais e políticas existentes entre cariocas e paulistas. Segundo assinala Roland Corbisier, enquanto os paulistas tinham preocupações mais abstratas, o grupo do Rio possuía preocupações mais concretas e tentavam pensar não só a realidade brasileira, mas “procurava-se compreender o mundo, mas na perspectiva do Brasil” (CORBISIER, 1978, p. 84).
Além disso, os cariocas eram intelectuais com convicções mais progressistas,[iii] enquanto os paulistas eram ex-integralistas e se localizavam à direita do espectro político.[iv] Com exceção de Roland Corbisier, todos os paulistas saíram do grupo. Segundo Hélio Jaguaribe, este filósofo “passou a ter uma postura crítica em relação ao integralismo, caminhando inicialmente para uma postura de catolicismo de esquerda, para mais tarde aproximar-se do marxismo” (JAGUARIBE, 2005, p. 33).
O Grupo de Itatiaia já sem os paulistas deu origem ao IBESP (Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política), que visava interpretar a realidade brasileira e apontar soluções para os problemas nacionais. Para intervir politicamente o IBESP editou um periódico chamado Cadernos do nosso tempo, que tratava de temáticas nacionais e internacionais, sempre por uma ótica brasileira, como por exemplo, no contexto da Guerra Fria, qual deveria ser a política internacional brasileira mais vantajosa.
Tudo era pensado pela perspectiva nacional, tanto que o lema dos Cadernos era “O Brasil, na perspectiva de nosso tempo. Nosso tempo, na perspectiva do Brasil”. Com exceção das instalações, concedidas pelo Ministério da Educação, tudo era financiado pelos próprios membros do IBESP, “todos jovens iniciando suas carreiras” (JAGUARIBE, 2014, p. 237), o que significava pouca verba para manter uma revista e a oferta de cursos regulares.
2.
Hélio Jaguaribe propôs ao ministro da educação da época, Antônio Balbino, a criação de uma instituição de nível superior no Brasil dedicada a questões de política e planejamento, além de uma editora que possibilitasse aos intelectuais brasileiros difundirem suas ideias. Tudo estava sendo encaminhado até que o suicídio de Getúlio Vargas e a mudança de governo interromperam a iniciativa. Contudo, em 1955 o governo formalizou a criação de uma instituição de planejamento e de ensino superior: o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB).
Hélio Jaguaribe credita a saída do ISEB do papel ao então ministro da educação do governo Café Filho, “um homem de ampla cultura e visão intelectual, o professor Cândido Motta Filho” (JAGUARIBE, 2014, p. 237) que decidiu dar prosseguimento ao projeto, mas de maneira mais modesta. No lugar de uma instituição de pesquisa e uma editora, apenas uma instituição “de estudos que desenvolvesse um esforço editorial apoiado no Ministério da Educação” (JAGUARIBE, 2005, p. 34).
No ato de sua fundação o ISEB possuía cinco departamentos: um de ciência política, comandado por Hélio Jaguaribe, um de sociologia sob direção de Guerreiro Ramos (1915-1982), o de história com Cândido Mendes (1928-2022) a frente, que depois seria substituído por Nelson Werneck Sodré (1911-1999), o de economia a cargo de Ewaldo Correia de Lima (1915-1992) que foi sucedido por seu discípulo Ignácio Rangel (1914-1994) e por fim o departamento de filosofia que estava na responsabilidade de Álvaro Vieira Pinto (AVP) (1909-1987). A direção geral do Instituto ficou com Roland Corbisier.
Fundado em 1955, a aula inaugural do ISEB ocorreu em 1956 e foi ministrada por Álvaro Vieira Pinto. Ocorreu no auditório do MEC e contou com a presença do então presidente da república, Juscelino Kubitschek, além de ministros, parlamentares e membros das forças armadas (GOMES, 2011, p. 43-44), ou seja, foi uma solenidade prestigiada pelo alto escalão do governo federal e do Estado. O tema da aula de Álvaro Vieira Pinto foi Ideologia e desenvolvimento nacional, que posteriormente foi publicada.
Os Cursos do ISEB eram ofertados originalmente a funcionários públicos e pessoas com nível superior, funcionando como uma instituição de pós-graduação. O formato dos cursos tinha um diferencial: enquanto nos bancos das universidades tradicionais havia uma ênfase no diagnóstico dos problemas existentes com quase nenhum encaminhamento prático, consistindo naquilo que no vocabulário do senso comum é chamado de “crítica negativa”, que consiste na identificação do problema, mas sem apontar nenhuma solução, se esgotando na “reclamação”; o discurso do ISEB era crítico e propositivo, consistindo no “diagnóstico da crise seguido da apresentação de soluções” (PEREIRA, 2005, p. 127).
Segundo Alexsandro Eugênio Pereira, “não se trata mais de desenvolver um pensamento que serve apenas para fins intelectuais. É preciso produzir para atender a fins e interesses situados fora do campo intelectual” (PEREIRA, 2005, p. 127).
3.
Os cursos regulares oferecidos pelo ISEB eram divididos em duas partes, (i) a primeira parte que era de caráter “teórico”, em que se definiam conceitos principais e se explicava os fundamentos da disciplina e (ii) a segunda parte em que era selecionado um aspecto da realidade brasileira pelo aluno que devia analisar e explicar o objeto de estudo pela ótica da disciplina e no final “redigir uma sucinta tese sobre a problemática escolhida, dentro das matérias do curso” (JAGUARIBE, 2005, p. 35). Os cursos do Instituto tinham duração de um ano e aulas regulares de 3 horas de duração. Além das aulas regulares havia seminários, trabalhos em grupos e conferências com convidados externos todas as sextas feiras (GOMES, 2011, p. 42).
Os cursos do ISEB fizeram sucesso e a instituição passou a desfrutar de amplo prestígio intelectual e político.[v] Suas ideias passaram a influenciar movimentos sociais, como as ligas camponesas, movimentos sindicais e estudantis, mas também políticos e militares, tendo destaca atuação na Frente Parlamentar Nacionalista. Não custa lembrar que Paulo Freire estudou no ISEB e se referia a Álvaro Vieira Pinto como “mestre brasileiro”,[vi] a quem credita ser o inspirador da sua basilar noção de conscientização, “conceito central de minhas ideias sobre a educação” (FREIRE, 1979, p. 15).
Em 1958 o ISEB passa por uma crise interna que ocasiona a saída de dois importantes quadros: Hélio Jaguaribe e Guerreiro Ramos. O ISEB não era uma instituição homogênea nem intelectual e nem politicamente, pelo menos durante sua primeira fase.
Se na segunda fase os isebianos já compartilhavam mais pressupostos filosóficos em comum e defendiam pautas políticas comuns, durante a primeira fase a instituição era mais heterogênea e estava em definição, sendo palco de “embates internos cujo propósito era assegurar a afirmação de alguns intelectuais em detrimento dos outros” (GOMES, 2011, p. 56-57). A principal disputa interna era entre Hélio Jaguaribe e Guerreiro Ramos e foi justamente o desentendimento entre ambos que ocasionou o “racha” de 1958.
Guerreiro Ramos demandava mais verbas para o departamento de sociologia do qual era diretor em detrimento dos demais setores, mas tinha como principal obstáculo a liderança de Hélio Jaguaribe que dificultava o aumento de verbas para o setor de Guerreiro Ramos e foi visando enfraquecer politicamente o intelectual carioca que o sociólogo baiano realizou uma manobra que o indispôs com os demais isebianos e levou a sua repreensão.
4.
No ISEB havia a prática de ler e comentar os textos dos seus colaboradores antes de serem publicados. Eram feitas sugestões, críticas e observações visando melhorar o texto. Seguindo tal protocolo, Hélio Jaguaribe entregou o manuscrito de Nacionalismo na atualidade brasileira (1958) em que defendeu posições consideradas “entreguistas” pela esquerda da época. Guerreiro Ramos, visando diminuir a influência de Jaguaribe no grupo, vazou o texto para a UNE que, ao lê-lo, convocou Jaguaribe para um interrogatório.
Isso causou um mal-estar interno[vii] e a “posição de Guerreiro Ramos foi condenada, o que levou no ato, a se demitir do ISEB” (JAGUARIBE, 2005, p. 37). Roland Corbisier, diz Jaguaribe, votou a favor do sociólogo baiano e foi voto vencido no colegiado e por isso ficou com receio de ser destituído do cargo de diretor do ISEB e fez uma manobra política em que supostamente se aproveitou da sua amizade com o presidente Juscelino Kubistchek para alterar o regulamento do ISEB e tornar o colegiado órgão consultivo, transferindo a nomeação da direção para o Ministério da Educação. Tal manobra ocasionou a saída de Hélio Jaguaribe.[viii]
A ruptura significou o fim da primeira fase isebiana, marcada pela influência de Hélio Jaguaribe, considerada mais intelectual e menos ativa politicamente, pois “ele concebia o instituto como centro de estudos que agruparia uma intelligentsia voltada à compreensão dos problemas brasileiros. No período mencionado (1955-1958), o ISEB efetivamente funciona como centro de estudos” (PEREIRA, 2005, p. 132). Segundo o próprio Hélio Jaguaribe, sua ideia era que o ISEB harmonizasse duas preocupações, uma teórica voltada para a análise da realidade nacional, “com o propósito de estabelecer os fundamentos de uma política de desenvolvimento nacional” (JAGUARIBE, 2014, p. 238), e outra prática dedicada a formulação de um projeto político adequado ao país.
Porém, diz ele, a prática dependia da realização da tarefa teórica de conhecer a realidade brasileira, o que ainda não havia sido feito. Nesse sentido a ênfase da instituição deveria ser na teoria para só depois enfatizar a prática.
Existem autores que consideram o período de 1958 até 1962, que vai da saída de Hélio Jaguaribe até o afastamento de Roland Corbisier da direção (eleito deputado estadual pelo PTB), como sendo uma segunda fase e a última fase a da direção de Álvaro Vieira Pinto (1962-1964), considerada a fase mais radical do grupo. Por outro lado, concordamos com os que defendem que de 1958 até 1964 constitui uma única fase em que por opção de Roland Corbisier o ISEB se torna mais engajado politicamente, se aproximando de trabalhistas e aderindo explicitamente ao reformismo, e que esse engajamento apenas se radicaliza ainda mais com a direção de Vieira Pinto, que é quando o ISEB se aproxima do PCB e se engaja fortemente na campanha pelas “Reformas de base”.
5.
Durante essa fase o ISEB se torna o principal porta-voz da esquerda brasileira e sua interpretação do Brasil, seu projeto político e estratégia se tornam hegemônicos na esquerda nacional. O vocabulário isebiano é apropriado por deputados da Frente Parlamentar Nacionalista, por líderes sindicais e pela UNE. Jamais um grupo de intelectuais conseguiu participar tão ativamente da vida política como o ISEB. O preço por se expor foi a crítica severa feita pela mídia burguesa patrocinada pelos imperialistas (O Globo, Folha e Estadão).
Segundo Alzira Alves Abreu, quando o grupo se aproximou dos movimentos populares, “jornais de grande circulação (…) passaram a denunciar o ISEB como órgão de ideias marxistas” (ABREU, 2005, p. 113). O jornal O Globo, pertencente a Roberto Marinho, crítico do governo Jango e da agenda reformista, “publicou um suplemento especial de oito páginas para denunciar as atividades subversivas do ISEB” (ABREU, 2005, p. 113).
Apesar das ideias do ISEB não terem sido bem recepcionado pelo meio acadêmico, foram muito bem acolhidas pelo público mais amplo e por lideranças populares como Julião das Ligas Camponesas, em iniciativas como o Movimento de Cultura Popular de Recife, que foi onde se desenvolveu o método de alfabetização freireano, também influenciou o Centro de Cultura Popular da UNE, que além das ideias, se utilizava do vocabulário isebiano.
Segundo Renato Ortiz, o Cinema Novo de Glauber Rocha também reflete a influência isebiana. Em síntese, “na esfera cultural a influência do ISEB foi profunda. […] Toda uma série de conceitos políticos e filosóficos que são elaborados no final dos anos 1950 se difundem pela sociedade e passam a constituir categorias de apreensão e compreensão da realidade brasileira” (ORTIZ, 2012, p. 47).
No meio universitário, sobretudo na USP, os isebianos eram criticados por não serem cientistas no sentido rigoroso do termo, mas amadores “desprovidos de uma formação científica em sociologia, ciência política, economia, história ou antropologia” (ABREU, 2005, p. 111). Os departamentos universitários, como o de sociologia da USP, defendiam a importação de métodos científicos dos grandes centros de pesquisa dos países desenvolvidos, enquanto os isebianos reivindicavam a criação de uma epistemologia contextualizada, em que as ideias para pensar a realidade nacional se originariam da própria realidade concreta ou seriam adaptações de ideias externas a realidade interna, em suma, era a realidade nacional que deveria configurar as ideias e não o contrário.
A polêmica entre Guerreiro Ramos e Florestan Fernandes acerca de uma sociologia brasileira exemplifica bem essa oposição entre a visão isebiana e a uspiana de ciência (LYNCH, 2011, p. 36).
Com a honrosa exceção de Florestan Fernandes que se dispôs a debater e polemizar com Guerreiro Ramos, via de regra os intelectuais da USP não interagiam com os colegas do Rio de Janeiro. Para eles os isebianos não seriam interlocutores dignos.[ix]
6.
Uma das principais críticas da intelectualidade uspiana ao ISEB era a instrumentalização que os isebianos faziam do conhecimento científico. Para o acadêmico tradicional, o conhecimento não está a serviço de nada e nem ninguém, e dispor o saber a qualquer projeto político, seja qual for, é instrumentalizar a inteligência. Ora, na ótica isebiana o intelectual tem a obrigação de divulgar suas ideias e fazer delas um instrumento político sendo capaz de pelo discurso persuadir e influenciar os atores políticos e sociais, assim como alterar o rumo da política, com isso “conferindo a produção das ideias um caráter político (grifo nosso)” (PEREIRA, 2005, p. 128).
De fato, era uma concepção instrumental da ciência, como acertadamente criticavam os uspianos, mas os isebianos jamais negaram o caráter instrumental das suas ideias, pois acreditavam que o papel das ideias era influenciar ações. Nada mais estranho ao ISEB do que a concepção academicista do saber pelo saber. Para eles as ideias deveriam ter utilidade, serem usadas como ferramentas epistemológicas e políticas, possuindo um para quê e um para quem claro e objetivo.
Imediatamente após o golpe militar de 64, a instituição foi invadida e depredada, sua sede foi “praticamente destruída e seus documentos, arquivos e livros foram apreendidos pelas forças de segurança ou então consumidos pelo fogo” (GOMES, 2011, p. 06). Segundo consta, parte do acervo do ISEB foi levado para a Escola Superior de Guerra (ESG) pelo marechal Osvaldo Cordeiro Farias (GOMES, 2011, p. 06). A instituição depredada um dia após o golpe foi extinta oficialmente mediante o decreto 53.884 de 13/04/1964.
Enquanto existiu, o ISEB foi “a vanguarda do pensamento social e político brasileiro” (GOMES, 2011, p. 07), mas especialmente da esquerda brasileira, pautando o debate através do seu vocabulário menos rebuscado do que o acadêmico e por meio das intervenções públicas dos seus membros através de jornais, entrevistas, comícios e pronunciamentos no congresso federal e assembleias legislativas.
A história do ISEB termina tragicamente em 1964, com o golpe militar. Seus membros foram presos e responderam IPMs (inquérito policial militar). Terminava assim a história da mais influente iniciativa intelectual brasileira.[x]
Caso tal instituição que reuniu a nata da intelectualidade brasileira do século XX fosse nativa de algum país da Europa, provavelmente já constaria nos capítulos da história das ideias universais, como é o caso da Escola de Frankfurt, também uma instituição multi e interdisciplinar, mas como a instituição remonta suas origens a Itatiaia e não a Frankfurt ou a Hamburgo, ainda não conquistou seu merecido lugar de destaque no cânone filosófico. Compete a nós salvar o ISEB do imerecido e injusto esquecimento a qual foi injustamente relegado.[xi]
*John Karley de Sousa Aquino é professor de filosofia no Instituto Federal do Ceará (IFCE).
Referências
ABREU, Alzira Alves. A ação política dos intelectuais do ISEB. In: TOLEDO, Caio Navarro (org.). Intelectuais e política no Brasil: a experiência do ISEB. Rio de Janeiro: Revan, 2005.
BRASIL. Decreto nº 37.608, de 14 de julho de 1955. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1950-1959/decreto-37608-14-julho-1955-336008-publicacaooriginal-1-pe.html.
CORBISIER, Roland. Autobiografia filosófica: das ideologias à teoria da práxis. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1978.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.
GOMES, Fabrício Augusto Sousa. Conspirações em Botafogo sob a sombra das palmeiras: o ISEB, os militares e a imprensa. 127 f. Dissertação (Mestrado em História). Programa de Pós-graduação em História. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2011.
JAGUARIBE, Hélio. Condições Institucionais do Desenvolvimento. Rio de Janeiro: ISEB, 1958.
JAGUARIBE, Hélio. ISEB: Um breve depoimento e uma reapreciação crítica. Cadernos do Desenvolvimento, Rio de Janeiro, v. 9, n. 14, p. 231-260, jan.-jun. 2014.
JAGUARIBE, Hélio. O ISEB e o desenvolvimento nacional. In: TOLEDO, Caio Navarro (org.). Intelectuais e política no Brasil: a experiência do ISEB. Rio de Janeiro: Revan, 2005.
LOVATTO, Angélica. Iseb: do nacional-desenvolvimentismo à revolução brasileira. Revista Princípios. no. 162 jul./out. p. 9-40, 2021.
LYNCH, Christian Edward Cyril. Saquaremas e Luzias: a sociologia do desgosto com o Brasil. Insight Inteligência. Rio de Janeiro, v. 55, p. 21-37, 2011.
ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 2012.
PEREIRA, Alexsandro Eugênio. Intelectuais e cultura na formação do ISEB. In: TOLEDO, Caio Navarro (org.). Intelectuais e política no Brasil: a experiência do ISEB. Rio de Janeiro: Revan, 2005.
Notas
[i] “Quando não é mais possível silenciar sobre um autor ou um acontecimento, entra em cena a natural substituta da historiografia do silêncio, a historiografia da desqualificação. Menciona-se o autor para dizer que ele não tem padrão científico e que sua produção intelectual está pautada pelo caráter “ideológico”. E ponto-final. Em regra, não se enfrenta uma discussão apurada dos fundamentos de seu pensamento nem se leva em consideração o contexto histórico de suas formulações” (LOVATTO, 2021, p. 13).
[ii] “O Iseb constituiu um aperfeiçoamento institucional de um movimento de ideias que vinha de anos anteriores. Seu antecessor remoto foi o grupo da “5ª Página”, que mantivera em 1949, a partir de 24 de julho, o equivalente a um suplemento cultural na 5ª página do Jornal do Commercio, aos domingos” (JAGUARIBE, 2014, p. 236).
[iii] Segundo Jaguaribe, “do lado carioca, muitos do grupo provinham do trotskismo” (JAGUARIBE, 2005, p. 33).
[iv] “Os de São Paulo eram de direita, alguns ex-integralistas. Os do Rio, já eram tendencialmente de esquerda, embora não fossem marxistas” (CORBISIER, 1978, p. 83).
[v] “Seus professores partiam de uma análise teórica das ciências sociais para, em seguida, diagnosticar e interpretar os problemas que a sociedade brasileira enfrentava, e indicar soluções e os rumos que deveriam ser tomados visando ao desenvolvimento” (ABREU, 2005, p. 111).
[vi] Segundo Paulo Freire é “indispensável a leitura de estudos sérios e profundos do Mestre brasileiro Álvaro Vieira Pinto” (FREIRE, 1967 , p.58).
[vii] Gomes afirma que “falava-se nos corredores do instituto que Guerreiro Ramos queria criar um ‘isebinho’ dentro do ISEB” (GOMES, 2011, p. 57). O vazamento da obra de Jaguaribe que ainda estava no prelo para a UNE foi considerado pelos pares “ gota d’água” (GOMES, 2011, p. 57).
[viii] Segundo Gomes, Jaguaribe “deixou a instituição por não concordar com a mudança do regimento, conseguida por Roland Corbisier junto a Juscelino Kubitscheck” (GOMES, 2011, p. 58).
[ix] “Bem se sabe que a maior parte da intelectualidade de São Paulo – particularmente aquela reunida em torno da Universidade de São Paulo – manteve-se motu próprio afastada das realizações e atividades patrocinadas pelo ISEB. As ideologias isebianas jamais tiveram guarida no seio daquela camada de intelectuais; da mesma forma, raramente chegaram a se exteriorizar, a partir dali, críticas e objeções (latentes) ao ‘nacionalismo-desenvolvimentista’. A razão disso parece ser muito simples: em nenhum momento se reconhece a instituição como possível interlocutor para um debate comum acerca dos problemas que afetam o capitalismo dependente brasileiro” (TOLEDO, 1978, p. 26, nota 5).
[x] “A leitura dos isebianos nos traz um misto de sentimento de atualidade e passado sem eu muitas vezes saibamos nos situar de maneira segura no tempo. Quando, nos artigos de jornais, nas discussões políticas ou acadêmicas, deparamos com conceitos como ‘cultura alienada’, ‘colonialismo’ ou ‘autenticidade cultural’, agimos com uma naturalidade espantosa, esquecendo-nos de que eles foram forjados em um determinado momento histórico e, creio eu, produzidos pela intelligentsia do ISEB. Penso que não seria exagero considerar o ISEB como matriz de um tipo de pensamento que baliza a discussão da questão cultural do Brasil dos anos 1960 até hoje” (ORTIZ, 2012, p. 46).
[xi] Excerto do artigo Um capítulo esquecido da história intelectual brasileira: o caso do ISEB que consta na coletânea VII Colóquio Pensadores Brasileiros (In: https://www.editorafi.org/ebook/a049-vii-coloquio-pensadores-brasileiros).
Nosso objetivo é explicar o que foi o ISEB, na tentativa de resgatar seu papel intelectual e político que foi vítima primeiro de uma historiografia do silêncio e posteriormente de uma historiografia da desqualificação, como diz Angélica Lovatto.[i]
1.
A pré-história do ISEB começa nos anos 1940 quando foi concedida uma página do Jornal do Comércio a um grupo de jovens intelectuais cariocas liderados por Hélio Jaguaribe (1923-2018) para escrever sobre questões culturais.[ii] Os textos foram bem recepcionados pelo público e através de um leitor paulista, Roland Corbisier (1914-2005), um grupo de paulistas entrou em contato com Hélio Jaguaribe e os cariocas e então decidiram se reunir para discutir questões teóricas diversas, mas com enfoque na realidade brasileira. Da união desses dois grupos de intelectuais surgiu o chamado “Grupo de Itatiaia”, que a partir do ano de 1952 se reunia mensalmente em Itatiaia (Fronteira entre Rio de Janeiro e São Paulo) para discutir ciências sociais e filosofia.
O grupo de Itatiaia durou pouco tempo devido às desavenças intelectuais e políticas existentes entre cariocas e paulistas. Segundo assinala Roland Corbisier, enquanto os paulistas tinham preocupações mais abstratas, o grupo do Rio possuía preocupações mais concretas e tentavam pensar não só a realidade brasileira, mas “procurava-se compreender o mundo, mas na perspectiva do Brasil” (CORBISIER, 1978, p. 84).
Além disso, os cariocas eram intelectuais com convicções mais progressistas,[iii] enquanto os paulistas eram ex-integralistas e se localizavam à direita do espectro político.[iv] Com exceção de Roland Corbisier, todos os paulistas saíram do grupo. Segundo Hélio Jaguaribe, este filósofo “passou a ter uma postura crítica em relação ao integralismo, caminhando inicialmente para uma postura de catolicismo de esquerda, para mais tarde aproximar-se do marxismo” (JAGUARIBE, 2005, p. 33).
O Grupo de Itatiaia já sem os paulistas deu origem ao IBESP (Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política), que visava interpretar a realidade brasileira e apontar soluções para os problemas nacionais. Para intervir politicamente o IBESP editou um periódico chamado Cadernos do nosso tempo, que tratava de temáticas nacionais e internacionais, sempre por uma ótica brasileira, como por exemplo, no contexto da Guerra Fria, qual deveria ser a política internacional brasileira mais vantajosa.
Tudo era pensado pela perspectiva nacional, tanto que o lema dos Cadernos era “O Brasil, na perspectiva de nosso tempo. Nosso tempo, na perspectiva do Brasil”. Com exceção das instalações, concedidas pelo Ministério da Educação, tudo era financiado pelos próprios membros do IBESP, “todos jovens iniciando suas carreiras” (JAGUARIBE, 2014, p. 237), o que significava pouca verba para manter uma revista e a oferta de cursos regulares.
2.
Hélio Jaguaribe propôs ao ministro da educação da época, Antônio Balbino, a criação de uma instituição de nível superior no Brasil dedicada a questões de política e planejamento, além de uma editora que possibilitasse aos intelectuais brasileiros difundirem suas ideias. Tudo estava sendo encaminhado até que o suicídio de Getúlio Vargas e a mudança de governo interromperam a iniciativa. Contudo, em 1955 o governo formalizou a criação de uma instituição de planejamento e de ensino superior: o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB).
Hélio Jaguaribe credita a saída do ISEB do papel ao então ministro da educação do governo Café Filho, “um homem de ampla cultura e visão intelectual, o professor Cândido Motta Filho” (JAGUARIBE, 2014, p. 237) que decidiu dar prosseguimento ao projeto, mas de maneira mais modesta. No lugar de uma instituição de pesquisa e uma editora, apenas uma instituição “de estudos que desenvolvesse um esforço editorial apoiado no Ministério da Educação” (JAGUARIBE, 2005, p. 34).
No ato de sua fundação o ISEB possuía cinco departamentos: um de ciência política, comandado por Hélio Jaguaribe, um de sociologia sob direção de Guerreiro Ramos (1915-1982), o de história com Cândido Mendes (1928-2022) a frente, que depois seria substituído por Nelson Werneck Sodré (1911-1999), o de economia a cargo de Ewaldo Correia de Lima (1915-1992) que foi sucedido por seu discípulo Ignácio Rangel (1914-1994) e por fim o departamento de filosofia que estava na responsabilidade de Álvaro Vieira Pinto (AVP) (1909-1987). A direção geral do Instituto ficou com Roland Corbisier.
Fundado em 1955, a aula inaugural do ISEB ocorreu em 1956 e foi ministrada por Álvaro Vieira Pinto. Ocorreu no auditório do MEC e contou com a presença do então presidente da república, Juscelino Kubitschek, além de ministros, parlamentares e membros das forças armadas (GOMES, 2011, p. 43-44), ou seja, foi uma solenidade prestigiada pelo alto escalão do governo federal e do Estado. O tema da aula de Álvaro Vieira Pinto foi Ideologia e desenvolvimento nacional, que posteriormente foi publicada.
Os Cursos do ISEB eram ofertados originalmente a funcionários públicos e pessoas com nível superior, funcionando como uma instituição de pós-graduação. O formato dos cursos tinha um diferencial: enquanto nos bancos das universidades tradicionais havia uma ênfase no diagnóstico dos problemas existentes com quase nenhum encaminhamento prático, consistindo naquilo que no vocabulário do senso comum é chamado de “crítica negativa”, que consiste na identificação do problema, mas sem apontar nenhuma solução, se esgotando na “reclamação”; o discurso do ISEB era crítico e propositivo, consistindo no “diagnóstico da crise seguido da apresentação de soluções” (PEREIRA, 2005, p. 127).
Segundo Alexsandro Eugênio Pereira, “não se trata mais de desenvolver um pensamento que serve apenas para fins intelectuais. É preciso produzir para atender a fins e interesses situados fora do campo intelectual” (PEREIRA, 2005, p. 127).
3.
Os cursos regulares oferecidos pelo ISEB eram divididos em duas partes, (i) a primeira parte que era de caráter “teórico”, em que se definiam conceitos principais e se explicava os fundamentos da disciplina e (ii) a segunda parte em que era selecionado um aspecto da realidade brasileira pelo aluno que devia analisar e explicar o objeto de estudo pela ótica da disciplina e no final “redigir uma sucinta tese sobre a problemática escolhida, dentro das matérias do curso” (JAGUARIBE, 2005, p. 35). Os cursos do Instituto tinham duração de um ano e aulas regulares de 3 horas de duração. Além das aulas regulares havia seminários, trabalhos em grupos e conferências com convidados externos todas as sextas feiras (GOMES, 2011, p. 42).
Os cursos do ISEB fizeram sucesso e a instituição passou a desfrutar de amplo prestígio intelectual e político.[v] Suas ideias passaram a influenciar movimentos sociais, como as ligas camponesas, movimentos sindicais e estudantis, mas também políticos e militares, tendo destaca atuação na Frente Parlamentar Nacionalista. Não custa lembrar que Paulo Freire estudou no ISEB e se referia a Álvaro Vieira Pinto como “mestre brasileiro”,[vi] a quem credita ser o inspirador da sua basilar noção de conscientização, “conceito central de minhas ideias sobre a educação” (FREIRE, 1979, p. 15).
Em 1958 o ISEB passa por uma crise interna que ocasiona a saída de dois importantes quadros: Hélio Jaguaribe e Guerreiro Ramos. O ISEB não era uma instituição homogênea nem intelectual e nem politicamente, pelo menos durante sua primeira fase.
Se na segunda fase os isebianos já compartilhavam mais pressupostos filosóficos em comum e defendiam pautas políticas comuns, durante a primeira fase a instituição era mais heterogênea e estava em definição, sendo palco de “embates internos cujo propósito era assegurar a afirmação de alguns intelectuais em detrimento dos outros” (GOMES, 2011, p. 56-57). A principal disputa interna era entre Hélio Jaguaribe e Guerreiro Ramos e foi justamente o desentendimento entre ambos que ocasionou o “racha” de 1958.
Guerreiro Ramos demandava mais verbas para o departamento de sociologia do qual era diretor em detrimento dos demais setores, mas tinha como principal obstáculo a liderança de Hélio Jaguaribe que dificultava o aumento de verbas para o setor de Guerreiro Ramos e foi visando enfraquecer politicamente o intelectual carioca que o sociólogo baiano realizou uma manobra que o indispôs com os demais isebianos e levou a sua repreensão.
4.
No ISEB havia a prática de ler e comentar os textos dos seus colaboradores antes de serem publicados. Eram feitas sugestões, críticas e observações visando melhorar o texto. Seguindo tal protocolo, Hélio Jaguaribe entregou o manuscrito de Nacionalismo na atualidade brasileira (1958) em que defendeu posições consideradas “entreguistas” pela esquerda da época. Guerreiro Ramos, visando diminuir a influência de Jaguaribe no grupo, vazou o texto para a UNE que, ao lê-lo, convocou Jaguaribe para um interrogatório.
Isso causou um mal-estar interno[vii] e a “posição de Guerreiro Ramos foi condenada, o que levou no ato, a se demitir do ISEB” (JAGUARIBE, 2005, p. 37). Roland Corbisier, diz Jaguaribe, votou a favor do sociólogo baiano e foi voto vencido no colegiado e por isso ficou com receio de ser destituído do cargo de diretor do ISEB e fez uma manobra política em que supostamente se aproveitou da sua amizade com o presidente Juscelino Kubistchek para alterar o regulamento do ISEB e tornar o colegiado órgão consultivo, transferindo a nomeação da direção para o Ministério da Educação. Tal manobra ocasionou a saída de Hélio Jaguaribe.[viii]
A ruptura significou o fim da primeira fase isebiana, marcada pela influência de Hélio Jaguaribe, considerada mais intelectual e menos ativa politicamente, pois “ele concebia o instituto como centro de estudos que agruparia uma intelligentsia voltada à compreensão dos problemas brasileiros. No período mencionado (1955-1958), o ISEB efetivamente funciona como centro de estudos” (PEREIRA, 2005, p. 132). Segundo o próprio Hélio Jaguaribe, sua ideia era que o ISEB harmonizasse duas preocupações, uma teórica voltada para a análise da realidade nacional, “com o propósito de estabelecer os fundamentos de uma política de desenvolvimento nacional” (JAGUARIBE, 2014, p. 238), e outra prática dedicada a formulação de um projeto político adequado ao país.
Porém, diz ele, a prática dependia da realização da tarefa teórica de conhecer a realidade brasileira, o que ainda não havia sido feito. Nesse sentido a ênfase da instituição deveria ser na teoria para só depois enfatizar a prática.
Existem autores que consideram o período de 1958 até 1962, que vai da saída de Hélio Jaguaribe até o afastamento de Roland Corbisier da direção (eleito deputado estadual pelo PTB), como sendo uma segunda fase e a última fase a da direção de Álvaro Vieira Pinto (1962-1964), considerada a fase mais radical do grupo. Por outro lado, concordamos com os que defendem que de 1958 até 1964 constitui uma única fase em que por opção de Roland Corbisier o ISEB se torna mais engajado politicamente, se aproximando de trabalhistas e aderindo explicitamente ao reformismo, e que esse engajamento apenas se radicaliza ainda mais com a direção de Vieira Pinto, que é quando o ISEB se aproxima do PCB e se engaja fortemente na campanha pelas “Reformas de base”.
5.
Durante essa fase o ISEB se torna o principal porta-voz da esquerda brasileira e sua interpretação do Brasil, seu projeto político e estratégia se tornam hegemônicos na esquerda nacional. O vocabulário isebiano é apropriado por deputados da Frente Parlamentar Nacionalista, por líderes sindicais e pela UNE. Jamais um grupo de intelectuais conseguiu participar tão ativamente da vida política como o ISEB. O preço por se expor foi a crítica severa feita pela mídia burguesa patrocinada pelos imperialistas (O Globo, Folha e Estadão).
Segundo Alzira Alves Abreu, quando o grupo se aproximou dos movimentos populares, “jornais de grande circulação (…) passaram a denunciar o ISEB como órgão de ideias marxistas” (ABREU, 2005, p. 113). O jornal O Globo, pertencente a Roberto Marinho, crítico do governo Jango e da agenda reformista, “publicou um suplemento especial de oito páginas para denunciar as atividades subversivas do ISEB” (ABREU, 2005, p. 113).
Apesar das ideias do ISEB não terem sido bem recepcionado pelo meio acadêmico, foram muito bem acolhidas pelo público mais amplo e por lideranças populares como Julião das Ligas Camponesas, em iniciativas como o Movimento de Cultura Popular de Recife, que foi onde se desenvolveu o método de alfabetização freireano, também influenciou o Centro de Cultura Popular da UNE, que além das ideias, se utilizava do vocabulário isebiano.
Segundo Renato Ortiz, o Cinema Novo de Glauber Rocha também reflete a influência isebiana. Em síntese, “na esfera cultural a influência do ISEB foi profunda. […] Toda uma série de conceitos políticos e filosóficos que são elaborados no final dos anos 1950 se difundem pela sociedade e passam a constituir categorias de apreensão e compreensão da realidade brasileira” (ORTIZ, 2012, p. 47).
No meio universitário, sobretudo na USP, os isebianos eram criticados por não serem cientistas no sentido rigoroso do termo, mas amadores “desprovidos de uma formação científica em sociologia, ciência política, economia, história ou antropologia” (ABREU, 2005, p. 111). Os departamentos universitários, como o de sociologia da USP, defendiam a importação de métodos científicos dos grandes centros de pesquisa dos países desenvolvidos, enquanto os isebianos reivindicavam a criação de uma epistemologia contextualizada, em que as ideias para pensar a realidade nacional se originariam da própria realidade concreta ou seriam adaptações de ideias externas a realidade interna, em suma, era a realidade nacional que deveria configurar as ideias e não o contrário.
A polêmica entre Guerreiro Ramos e Florestan Fernandes acerca de uma sociologia brasileira exemplifica bem essa oposição entre a visão isebiana e a uspiana de ciência (LYNCH, 2011, p. 36).
Com a honrosa exceção de Florestan Fernandes que se dispôs a debater e polemizar com Guerreiro Ramos, via de regra os intelectuais da USP não interagiam com os colegas do Rio de Janeiro. Para eles os isebianos não seriam interlocutores dignos.[ix]
6.
Uma das principais críticas da intelectualidade uspiana ao ISEB era a instrumentalização que os isebianos faziam do conhecimento científico. Para o acadêmico tradicional, o conhecimento não está a serviço de nada e nem ninguém, e dispor o saber a qualquer projeto político, seja qual for, é instrumentalizar a inteligência. Ora, na ótica isebiana o intelectual tem a obrigação de divulgar suas ideias e fazer delas um instrumento político sendo capaz de pelo discurso persuadir e influenciar os atores políticos e sociais, assim como alterar o rumo da política, com isso “conferindo a produção das ideias um caráter político (grifo nosso)” (PEREIRA, 2005, p. 128).
De fato, era uma concepção instrumental da ciência, como acertadamente criticavam os uspianos, mas os isebianos jamais negaram o caráter instrumental das suas ideias, pois acreditavam que o papel das ideias era influenciar ações. Nada mais estranho ao ISEB do que a concepção academicista do saber pelo saber. Para eles as ideias deveriam ter utilidade, serem usadas como ferramentas epistemológicas e políticas, possuindo um para quê e um para quem claro e objetivo.
Imediatamente após o golpe militar de 64, a instituição foi invadida e depredada, sua sede foi “praticamente destruída e seus documentos, arquivos e livros foram apreendidos pelas forças de segurança ou então consumidos pelo fogo” (GOMES, 2011, p. 06). Segundo consta, parte do acervo do ISEB foi levado para a Escola Superior de Guerra (ESG) pelo marechal Osvaldo Cordeiro Farias (GOMES, 2011, p. 06). A instituição depredada um dia após o golpe foi extinta oficialmente mediante o decreto 53.884 de 13/04/1964.
Enquanto existiu, o ISEB foi “a vanguarda do pensamento social e político brasileiro” (GOMES, 2011, p. 07), mas especialmente da esquerda brasileira, pautando o debate através do seu vocabulário menos rebuscado do que o acadêmico e por meio das intervenções públicas dos seus membros através de jornais, entrevistas, comícios e pronunciamentos no congresso federal e assembleias legislativas.
A história do ISEB termina tragicamente em 1964, com o golpe militar. Seus membros foram presos e responderam IPMs (inquérito policial militar). Terminava assim a história da mais influente iniciativa intelectual brasileira.[x]
Caso tal instituição que reuniu a nata da intelectualidade brasileira do século XX fosse nativa de algum país da Europa, provavelmente já constaria nos capítulos da história das ideias universais, como é o caso da Escola de Frankfurt, também uma instituição multi e interdisciplinar, mas como a instituição remonta suas origens a Itatiaia e não a Frankfurt ou a Hamburgo, ainda não conquistou seu merecido lugar de destaque no cânone filosófico. Compete a nós salvar o ISEB do imerecido e injusto esquecimento a qual foi injustamente relegado.[xi]
*John Karley de Sousa Aquino é professor de filosofia no Instituto Federal do Ceará (IFCE).
Referências
ABREU, Alzira Alves. A ação política dos intelectuais do ISEB. In: TOLEDO, Caio Navarro (org.). Intelectuais e política no Brasil: a experiência do ISEB. Rio de Janeiro: Revan, 2005.
BRASIL. Decreto nº 37.608, de 14 de julho de 1955. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1950-1959/decreto-37608-14-julho-1955-336008-publicacaooriginal-1-pe.html.
CORBISIER, Roland. Autobiografia filosófica: das ideologias à teoria da práxis. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1978.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.
GOMES, Fabrício Augusto Sousa. Conspirações em Botafogo sob a sombra das palmeiras: o ISEB, os militares e a imprensa. 127 f. Dissertação (Mestrado em História). Programa de Pós-graduação em História. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2011.
JAGUARIBE, Hélio. Condições Institucionais do Desenvolvimento. Rio de Janeiro: ISEB, 1958.
JAGUARIBE, Hélio. ISEB: Um breve depoimento e uma reapreciação crítica. Cadernos do Desenvolvimento, Rio de Janeiro, v. 9, n. 14, p. 231-260, jan.-jun. 2014.
JAGUARIBE, Hélio. O ISEB e o desenvolvimento nacional. In: TOLEDO, Caio Navarro (org.). Intelectuais e política no Brasil: a experiência do ISEB. Rio de Janeiro: Revan, 2005.
LOVATTO, Angélica. Iseb: do nacional-desenvolvimentismo à revolução brasileira. Revista Princípios. no. 162 jul./out. p. 9-40, 2021.
LYNCH, Christian Edward Cyril. Saquaremas e Luzias: a sociologia do desgosto com o Brasil. Insight Inteligência. Rio de Janeiro, v. 55, p. 21-37, 2011.
ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 2012.
PEREIRA, Alexsandro Eugênio. Intelectuais e cultura na formação do ISEB. In: TOLEDO, Caio Navarro (org.). Intelectuais e política no Brasil: a experiência do ISEB. Rio de Janeiro: Revan, 2005.
Notas
[i] “Quando não é mais possível silenciar sobre um autor ou um acontecimento, entra em cena a natural substituta da historiografia do silêncio, a historiografia da desqualificação. Menciona-se o autor para dizer que ele não tem padrão científico e que sua produção intelectual está pautada pelo caráter “ideológico”. E ponto-final. Em regra, não se enfrenta uma discussão apurada dos fundamentos de seu pensamento nem se leva em consideração o contexto histórico de suas formulações” (LOVATTO, 2021, p. 13).
[ii] “O Iseb constituiu um aperfeiçoamento institucional de um movimento de ideias que vinha de anos anteriores. Seu antecessor remoto foi o grupo da “5ª Página”, que mantivera em 1949, a partir de 24 de julho, o equivalente a um suplemento cultural na 5ª página do Jornal do Commercio, aos domingos” (JAGUARIBE, 2014, p. 236).
[iii] Segundo Jaguaribe, “do lado carioca, muitos do grupo provinham do trotskismo” (JAGUARIBE, 2005, p. 33).
[iv] “Os de São Paulo eram de direita, alguns ex-integralistas. Os do Rio, já eram tendencialmente de esquerda, embora não fossem marxistas” (CORBISIER, 1978, p. 83).
[v] “Seus professores partiam de uma análise teórica das ciências sociais para, em seguida, diagnosticar e interpretar os problemas que a sociedade brasileira enfrentava, e indicar soluções e os rumos que deveriam ser tomados visando ao desenvolvimento” (ABREU, 2005, p. 111).
[vi] Segundo Paulo Freire é “indispensável a leitura de estudos sérios e profundos do Mestre brasileiro Álvaro Vieira Pinto” (FREIRE, 1967 , p.58).
[vii] Gomes afirma que “falava-se nos corredores do instituto que Guerreiro Ramos queria criar um ‘isebinho’ dentro do ISEB” (GOMES, 2011, p. 57). O vazamento da obra de Jaguaribe que ainda estava no prelo para a UNE foi considerado pelos pares “ gota d’água” (GOMES, 2011, p. 57).
[viii] Segundo Gomes, Jaguaribe “deixou a instituição por não concordar com a mudança do regimento, conseguida por Roland Corbisier junto a Juscelino Kubitscheck” (GOMES, 2011, p. 58).
[ix] “Bem se sabe que a maior parte da intelectualidade de São Paulo – particularmente aquela reunida em torno da Universidade de São Paulo – manteve-se motu próprio afastada das realizações e atividades patrocinadas pelo ISEB. As ideologias isebianas jamais tiveram guarida no seio daquela camada de intelectuais; da mesma forma, raramente chegaram a se exteriorizar, a partir dali, críticas e objeções (latentes) ao ‘nacionalismo-desenvolvimentista’. A razão disso parece ser muito simples: em nenhum momento se reconhece a instituição como possível interlocutor para um debate comum acerca dos problemas que afetam o capitalismo dependente brasileiro” (TOLEDO, 1978, p. 26, nota 5).
[x] “A leitura dos isebianos nos traz um misto de sentimento de atualidade e passado sem eu muitas vezes saibamos nos situar de maneira segura no tempo. Quando, nos artigos de jornais, nas discussões políticas ou acadêmicas, deparamos com conceitos como ‘cultura alienada’, ‘colonialismo’ ou ‘autenticidade cultural’, agimos com uma naturalidade espantosa, esquecendo-nos de que eles foram forjados em um determinado momento histórico e, creio eu, produzidos pela intelligentsia do ISEB. Penso que não seria exagero considerar o ISEB como matriz de um tipo de pensamento que baliza a discussão da questão cultural do Brasil dos anos 1960 até hoje” (ORTIZ, 2012, p. 46).
[xi] Excerto do artigo Um capítulo esquecido da história intelectual brasileira: o caso do ISEB que consta na coletânea VII Colóquio Pensadores Brasileiros (In: https://www.editorafi.org/ebook/a049-vii-coloquio-pensadores-brasileiros).

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