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Trump e os Bolsonaros

Do GGN, 29 de maio 2026
Por  Luiz Gonzaga Belluzzo


Estamos diante de novo ataque “democrático” aos países da América Latina, tal como o perpetrado pela Operação Condor em meados dos anos 70.


Imagem gerada por ChatGPT

Trump exercita, sem peios, as formas imperialistas para constranger os países da América Latina. Invadiu Venezuela. Agora, ameaça Cuba. Na última quinta-feira, 28 de maio, o Agente Laranja realizou uma incursão no Brasil sob os auspícios dos Bolsonaros, hoje agentes do Imperialismo descarado e criminoso dos Estados Unidos. Vergonhosa manifestação antipatriótica, outrora conhecida como “entreguista”.

O pretexto alegado para a prática dessa farândola é combater o tráfico de drogas, rebatizado como “terrorismo”.

Estamos diante de um novo ataque “democrático” aos países da América Latina, tal como o perpetrado pela Operação Condor em meados dos anos 70. Diga-se que o Brasil foi pioneiro, ao embarcar nas naves da repressão e da tortura em 1964, também sob o patrocínio da CIA que, nos anos 70, iria mobilizar militares chilenos, argentinos e uruguaios para promover aventuras golpistas.

No Chile, despontou o general Augusto Pinochet, o mais bárbaro dentre os ditadores da safra produzida pelos “salvadores de democracias” que se espalhavam pelo mundo afora na época da Guerra Fria. Em 1976 a Argentina recebeu os préstimos do truculento Jorge Rafael Videla.

Nas décadas de 60 e 70 os rapazes da CIA peregrinavam por aqui, ensinando às forças de segurança e de ocupação de Latino-América a sequestrar, torturar e matar as lideranças populares e os opositores dos regimes militares. Todo o cidadão medianamente informado sabia e sabe que os fardados foram instalados no poder no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai etc. mediante a ação conjunta das direitas latino-americanas – sempre antinacionais e anti-populares – e dos “democratas” do Departamento de Estado e da CIA.

Estes poderes americanos disseminavam à força a doutrina, um tanto paradoxal, da necessidade das ditaduras como atalhos para a democracia. As ditaduras espalharam-se pelo subcontinente em meio ao entusiasmo e ao júbilo dos bacanas da região.

O resultado desta truculência é de conhecimento geral: desastres econômicos e sociais de enormes proporções que nos largaram na rabeira da tão ansiada e celebrada modernidade.

Ainda hoje, depois do fracasso retumbante das ditaduras e dos ditadores latino-americanos, não escasseiam os entusiastas dos métodos e das práticas do “pega, esfola e mata”. Não bastasse isso, os próceres civis e militares dos regimes autoritários – que aderiram com o mesmo fervor patriótico às “novas democracias” – ditavam regras e jogavam de mão nos parlamentos, nos quartéis, nos ministérios, nos meios de comunicação.

Os meios de comunicação, diga-se, foram pródigos em celebrar os crimes e as barbaridades cometidos em nome da liberdade e da civilização ocidental e cristã. Não faltaram os épicos da mídia, exaltando a coragem e a bravura dos totalitários que se lançaram ao combate pela supressão dos princípios do aclamado liberalismo.

As gerações mais novas, as que foram poupadas das misérias daqueles tempos, devem imaginar o quanto vale uma imprensa livre e independente. Mas não podem imaginar a ânsia de vômito que acomete os mais velhos, quando são obrigados a ler ou a assistir tais espetáculos de elevado cinismo midiático.

Saiba, meu caro jovem, que os grandes senhores da mídia e da informação, os que hoje se apresentam como baluartes dos direitos e da democracia, foram cúmplices e beneficiários dos regimes de exceção. Foi nesta época que constituíram os seus impérios de comunicação. Na base do “é dando que se recebe”, passaram a prestar serviços aos governantes de turno, enquanto cavavam subsídios, incentivos e outros favores não especificados em lei.

As ditaduras latino-americanas naufragaram nas águas de sua própria incompetência. Nos anos 80, a crise da dívida externa machucou gravemente as economias da região, que buscaram financiamento por meio de crédito em dólar. As crises se multiplicaram nas hoje chamadas economias emergentes. Do México à Argentina, sem esquecer o Brasil, as economias balançaram, açoitadas por desvalorizações cambiais dolorosas e crises fiscais e financeiras.

Confrontados com os resultados de suas imprudências, os “donos do pedaço” foram incapazes de um gesto de penitência, ainda que inspirado na moral dos fariseus. Pior: olham o passado como juízes do tribunal da história. Mas é inútil protestar: afinal, eles que se consideram os Donos do Poder. Decidem quem tem o poder de julgar e quem deve sentar-se nos bancos dos réus.

Luiz Gonzaga Belluzzo é professor titular do Instituto de Economia (IE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1985-1987) e de Ciência e Tecnologia de São Paulo (1988-1990). Belluzzo é formado em Direito e Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), pós-graduado em Desenvolvimento Econômico pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) e doutor em economia pela Unicamp. Fundador da Facamp e conselheiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), é autor dos livros “Os Antecedentes da Tormenta”, “Ensaios sobre o Capitalismo no Século XX”, e coautor de “Depois da Queda, Luta Pela Sobrevivência da Moeda Nacional”, entre outros. Em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists. Em 2005, recebeu o Prêmio Intelectual do Ano (Prêmio Juca Pato).

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