Pages

Trabalho, raça e gênero no Brasil

Do A Terra É Redonda, 26 de maio 2026
Por CARLOS A. P. VASQUES*


Imagem: Markus Spiske

Quem sustenta esse capitalismo bizarro que mistura tecnologia com estruturas arcaicas e de superexploração da trabalho?

1.

O capitalismo contemporâneo não funciona apenas por meio da exploração do trabalho assalariado. Essa é apenas sua face mais visível, mais legalizada e socialmente reconhecida. Sob ela, coexistem outras formas de extração de riqueza e administração da vida que permanecem parcialmente invisíveis: o trabalho expropriado e o trabalho domesticado.

A crença de que o capitalismo opera exclusivamente por meio do contrato salarial impede compreender como sociedades profundamente desiguais, como a brasileira, continuam dependendo da coerção, da racialização e da invisibilização sistemática de determinados corpos para manter sua estrutura de funcionamento. O salário não aboliu a violência. Apenas reorganizou socialmente quem pode ser protegido dela e quem continuará exposto.

No Brasil contemporâneo, basta observar a organização concreta do trabalho para perceber que diferentes grupos sociais ocupam posições radicalmente distintas dentro da ordem econômica. Há aqueles inseridos na esfera relativamente protegida do trabalho formal; há os permanentemente ameaçados pela superexploração e pela informalidade; e há ainda os que permanecem próximos de zonas onde a própria condição humana se torna precária: trabalhadores resgatados em condições análogas à escravidão, migrantes submetidos à coerção econômica extrema, mulheres negras encarregadas do trabalho invisível de reprodução da vida.

Essas formas não aparecem isoladamente. Elas se conectam. O capitalismo brasileiro funciona através de um contínuo expropriatório-doméstico que distribui diferentes graus de exploração, coerção e invisibilidade conforme classe, raça e gênero.




O contínuo expropriatório-doméstico não deve ser entendido apenas como uma classificação abstrata das formas de trabalho. Ele funciona como uma tecnologia social de distribuição desigual da proteção, da cidadania e da própria humanidade. Em uma extremidade encontram-se os trabalhadores relativamente protegidos pela legalidade salarial; na outra, aqueles cuja vida pode ser consumida pela coerção econômica, pela violência racial ou pela invisibilidade social sem produzir grande escândalo público. Entre ambos, multiplicam-se formas híbridas de precarização que aproximam amplos setores da população da insegurança permanente. O capitalismo brasileiro organiza essas zonas de maneira profundamente racializada e generificada.

2.

A teoria política clássica ajuda parcialmente a compreender essa estrutura. Thomas Hobbes afirmava que os indivíduos transferiam seus direitos ao soberano para escapar do estado de natureza, marcado pela insegurança e pela violência permanente. O Estado surgiria, assim, como garantidor da paz e da proteção da vida.

Mas a experiência histórica das sociedades coloniais revela algo diferente: o estado de natureza nunca desapareceu para todos. Ele foi seletivamente preservado para determinados grupos sociais.

A escravidão colonial talvez tenha sido a maior demonstração disso. Enquanto cidadãos livres podiam participar da esfera pública e da vida política, populações escravizadas permaneciam submetidas à violência permanente, tratadas como recursos econômicos descartáveis. O contrato social sempre conviveu com zonas de expropriação.

Essa lógica não desapareceu. Apenas assumiu novas formas.

No capitalismo contemporâneo, trabalhadores de plataformas digitais atravessam jornadas exaustivas sem garantias mínimas de proteção social. Migrantes indocumentados aceitam condições degradantes sob ameaça de deportação. Trabalhadores rurais continuam sendo encontrados em carvoarias e fazendas submetidos a regimes de servidão por dívida. Em todos esses casos, existe uma fronteira instável entre exploração e expropriação.

Achille Mbembe ajuda a compreender essa dinâmica ao mostrar que o poder moderno não opera apenas administrando a vida, mas também decidindo quem pode ser exposto à morte social, econômica ou física. A necropolítica não se manifesta apenas nas guerras ou nos regimes de exceção explícitos. Ela também aparece na gestão cotidiana da precariedade.

No Brasil, raça continua sendo um dos principais critérios de distribuição dessa vulnerabilidade. Não por acaso, a maioria dos trabalhadores resgatados em condições análogas à escravidão é negra ou parda. Tampouco é coincidência que a violência policial se concentre sobre corpos racializados nas periferias urbanas. Certos grupos permanecem mais próximos da necrozona social produzida pelo próprio funcionamento da economia.

3.

Mas talvez nenhuma figura revele tão claramente essa engrenagem quanto a trabalhadora doméstica negra.

A sociedade brasileira foi construída sobre a continuidade histórica entre a mucama colonial e a empregada doméstica contemporânea. Mesmo após a abolição formal da escravidão, milhões de mulheres negras permaneceram confinadas ao trabalho doméstico precário, mal remunerado e socialmente invisível.

Essa permanência não constitui um acidente histórico. Ela expressa a maneira como raça, gênero e classe se articulam na organização do trabalho no Brasil.

O trabalho doméstico ocupa uma posição paradoxal. Ele é absolutamente indispensável para a reprodução da sociedade – cozinhar, limpar, cuidar de crianças, idosos e doentes – mas continua sendo tratado como obrigação moral feminina, não como atividade econômica central.

Grande parte da estabilidade do trabalho assalariado depende justamente desse trabalho invisível realizado dentro das casas. O trabalhador formal só consegue vender diariamente sua força de trabalho porque existe alguém reproduzindo gratuitamente as condições básicas de sua sobrevivência.

Silvia Federici mostrou que o capitalismo não nasceu apenas da fábrica e do salário. Ele também dependeu historicamente da domesticação dos corpos femininos e da naturalização do trabalho reprodutivo não remunerado.

Hannah Arendt, embora tenha percebido a centralidade do labor na modernidade, jamais enfrentou plenamente a pergunta decisiva: quem realiza concretamente esse trabalho necessário à manutenção da vida? Em sociedades profundamente racializadas, essa resposta possui cor, gênero e classe definidos.

Lélia Gonzalez talvez tenha sido uma das intelectuais brasileiras que melhor compreendeu essa engrenagem histórica. Ao analisar a permanência da mulher negra no trabalho doméstico, ela mostrou que a abolição da escravidão não rompeu a estrutura racial da divisão do trabalho no Brasil. A expropriação apenas mudou de forma.

A trabalhadora doméstica negra tornou-se a síntese mais acabada do contínuo expropriatório-doméstico brasileiro: simultaneamente explorada, invisibilizada e permanentemente exposta à precarização extrema.

4.

A interseccionalidade não deve ser entendida apenas como sobreposição abstrata de opressões. Ela funciona concretamente como mecanismo de distribuição desigual da vulnerabilidade social. O capitalismo racializado organiza quem será protegido, quem será precarizado e quem poderá ser descartado.

Por isso, a ideia de que o mercado de trabalho opera de forma universal é uma ficção. Diferentes grupos sociais pagam preços radicalmente distintos para participar da mesma economia.

Enquanto alguns acessam contratos relativamente protegidos, outros entregam o próprio corpo à insegurança permanente em troca da sobrevivência. Enquanto alguns conseguem transformar trabalho em cidadania, outros permanecem aprisionados em zonas onde a cidadania nunca se realiza plenamente.

O capitalismo contemporâneo não explora apenas trabalho. Ele administra hierarquicamente vidas.

E talvez a medida mais precisa de uma sociedade continue sendo aquela proposta implicitamente por Lélia Gonzalez: observar a condição da mulher negra trabalhadora doméstica. Enquanto ela permanecer confinada entre a exploração, a invisibilidade e a necrozona, qualquer promessa de democracia continuará incompleta.

*Carlos A. P. Vasques, economista, é pós-graduado em Administração, Finanças e Contabilidade pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-Rio).

Nenhum comentário:

Postar um comentário