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SUS faz 38 anos sob ataque de interesses poderosos, em várias frentes. Entrevista com o professor Jairnilson Paim

Edição do vídeo: Leon Sousa Domingues

Edição do vídeo: Leon So























Do Viomundo,19 de maio 2026
Por Conceição Lemes


“Filho feio não tem pai’’, diz o ditado popular usado quando ninguém assumir a responsabilidade por algo negativo.

“Filho bonito tem muitos pais’’ significa o oposto. O sucesso do feito é tamanho que há candidatos na fila do ‘’teste de paternidade’’.

O segundo corresponde ao Sistema Único de Saúde (SUS).

É o “filho’’ bonito que hoje muitos se arvoram de “pai’’.

Até antigos opositores já se dizem “defensores’’, desde que o sistema era “criancinha”.

O SUS foi criado pela Assembleia Nacional Constituinte em 17 de maio de 1988.



Em 17 de maio de 1988, a Assembleia Nacional Constituinte aprovou a criação do SUS

Neste domingo, portanto, o SUS completa 38 anos.

São 38 anos de vida. E de muitas lutas.

O lobby da iniciativa privada tentou impedir o seu nascimento, depois a sua institucionalização. O Movimento da Reforma Sanitária, tal qual o brasileiro, persistiu.

O SUS nasceu, cresceu, tornou-se patrimônio do povo brasileiro. Foi fundamental no enfrentamento da pandemia de covid-19. É citado no mundo como modelo de saúde pública.

Porém, está sob ataque de interesses poderosos, em diferentes frentes.

Atualmente, é alvo de cobiça geral. O motivo principal, seu ‘’dote’’ bilionário.

O SUS é tripartite. Tem recursos federal, estaduais e municipais.

Em 2024, o orçamento da União para o SUS, via Ministério da Saúde, foi de R$ 245 bilhões. Em 2025, atingiu R$ 269,92 bilhões. Para 2026, estão previstos R$ 271,3 bilhões.

Não à toa segmentos empresariais ligados à saúde, cada vez mais vorazes, abocanham fatias crescentemente maiores desse orçamento, graças a “janelas de oportunidades’’ disponibilizadas em várias frentes, tais como:Emendas parlamentares de deputados federais e senadores;

Entrega desenfreada por parte de governos estaduais e municipais da gestão de serviços de públicos a Organizações Sociais de Saúde (OSS), abrindo mão da execução, função para a qual foram eleitos;

Política atual do Ministério da Saúde, que escancarou a porteira para a iniciativa privada, entregando-lhe cada vez mais programas e serviços.

Nesse cenário, com a participação de representantes do Legislativo, Executivo e Judiciário, foi lançado recentemente o Instituto Consenso, que se vende como “um novo marco para a articulação técnica entre a saúde privada e pública’’.



Representantes dos poderes Legislativo e Executivo no evento: Fotos: Instituto Consenso e reprodução de vídeo

“Historicamente há várias tentativas de organização do setor privado no Brasil. Isso já vem desde Oitava Conferência’’, diz Jairnilson Silva Paim, em entrevista exclusiva ao Viomundo. O vídeo dela está no topo, e a íntegra da transcrição mais abaixo.

“Para mim, que acompanho há muito tempo essas iniciativas deles, não há nenhuma surpresa. Assim como não é novidade o discurso de integração público-privado’’, observa.

Jairnilson Paim é médico sanitarista, pesquisador e professor titular em Política de Saúde, aposentado, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Também professor emérito da mesma instituição.

O livro Planos de Saúde e dominância financeira, de José Sestelo, publicado em 2018, é justamente sobre esta temática.

‘’Sestelo mostra que o discurso da integração público-privado é muito cínico, porque na realidade o setor privado quer disputar um mercado ou quer usar os recursos dos fundos públicos para seus interesses particulares, e que isso não tem nenhuma condição objetiva de facilitar a vida do SUS’’, expõe Paim.

— Na prática, mais um lobby da iniciativa privada para se apoderar de mais dinheiro no SUS?

“Certamente, certamente. Eu só não sei se são outros, devem ser os mesmos com outros nomes’’, afirma.

Na época da Oitava Conferência, realizada de 17 a 21 de março de 1986, a Federação Brasileira de Hospitais (FBH) e a Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge) eram principais representações do setor privado.

‘’Elas boicotaram a Oitava, não comparecendo, possivelmente para não a legitimar’’, conjectura.

“Em 1988, na criação do SUS, denunciavam a ‘estatização da saúde’’’, sem mencionar o SUS’’, relembra.

Abramge e FBH existem até hoje.

A Abramge é uma das quatro entidades que formam o recém-lançado Instituto Consenso, do qual participam também a Confederação Nacional de Saúde, Hospitais, Estabelecimentos e Serviços (CNSaúde), a Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) e a Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Serviços de Saúde.

A FBH integra o Instituto, mas atua em estreita colaboração com dois participantes: a CNSaúde (na representação dos interesses dos hospitais privados) e a Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Serviços de Saúde.

“São camaleônicos, vão mudando alguns nomes, mas na essência defendem os mesmos interesses em torno da saúde como mercadoria’’, frisa Paim, que gosta de ser referido como militante da Reforma Sanitária Brasileira.

Nesta entrevista, o professor falou também sobre a sua participação na Oitava Conferência e a One Health (Saúde Única/Uma Só Saúde), abordagem que surgiu nos EUA, na primeira década dos anos 2000, apoiada pelo Banco Mundial e Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em 31 de dezembro de 2025, Lia Giraldo da Silva Augusto, Heleno Rodrigues Corrêa Filho, Carlos Fidelis Ponte, Anamaria Testa Tambellini, Marcelo Firpo Porto, Karen Friedrich e Ana Maria Costa publicaram como preprint na plataforma Scielo o ensaio “One Health como disputa de hegemonia: uma resposta na perspectiva da Saúde Coletiva”.


Da esquerda para a direita: Lia Giraldo, Heleno Corrêa, Carlos Fidelis, Anamaria Tambellini, Marcelo Porto, Karen Friedrich e Ana Costa

No artigo, os autores afirmam:

‘’Atendendo a acordos multilaterais e interesses corporativos, o Brasil passou a induzir a abordagem ‘One Health’ (OH), contradizendo o modelo explicativo da determinação social para o processo saúde-doença, construído na América Latina’’.

“One Health é uma repetição de fórmulas passadas e de intervenções estrangeiras que desconsidera a política de saúde soberana desenvolvida no Brasil’’.

“O tema foi tratado pelas autoridades do Ministério da Saúde com pouca transparência e zelo’’.

“Em 2023, de modo açodado e sem o devido debate, começa se instituir a One Health no Brasil’’.


Entidades históricas que estão vinculadas à abordagem One Health /Saúde Única/Uma Só Saúde no mundo e no Brasil. Interesses ocultos ameaçam a soberania brasileira e o SUS. Imagem: Ilustração de Lia Giraldo da Silva Augusto

O professor Jairnilsom Paim leu o artigo no preprint e observa:

— Essa iniciativa transcende o Brasil.

— Nós incorporamos, por um processo ainda não muito claro, essa proposta de uma maneira, como você diz, um tanto sorrateira. Ela foi penetrando em algumas instituições, inclusive no SUS, porque Fiocruz assim ou assado é SUS.

— Isso saiu dentro de um governo considerado progressista e que não foi voltado exclusivamente para a saúde. Tinha muito a ver com outros setores econômicos, como agricultura, de alguma maneira com a questão ambiental.

— Essa iniciativa tem o patrocínio, o respaldo, de organismos internacionais.

— Então, o Cebes — todos esses colegas que você mencionou aí militam no Centro Brasileiro de Estudos de Saúde — soltou a lebre: ”Olha aí, essa é uma iniciativa que pode ter essas e essas características”.

— Uma das básicas é ignorar tudo o que a saúde coletiva, ou a medicina social latino-americana, produziu nos últimos 40 ou 50 anos, mostrando a determinação social do processo saúde-doença ou da determinação socioambiental desse processo.

Paim lembra que, na passagem da primeira para a segunda década do século 21, os defensores dos sistemas públicos e universais tiveram que se deparar com a proposta de cobertura universal da saúde:

— Essa cobertura universal da saúde [jocosamente conhecida nos movimentos de saúde pela sigla CUS] foi também de organismos internacionais.

— Então, o Cebes, logo em 2013, através de alguns autores, especialmente o José Noronha, alertou para a questão da cobertura universal da saúde.

— A professora Lígia Giovanella depois sistematizou e mostrou as diferenças entre cobertura universal de saúde e sistemas únicos, ou sistemas universais públicos de saúde.

— Eu acho que esse texto que foi publicado em preprint, logo que for reconhecido mais pela comunidade científica, vai ter tanta importância quanto os textos de José Noronha e da professora Lígia Giovanella.




Pois a quarta-feira, 13/5, a Revista Saúde em Debate, do Cebes, publicou o ensaio de Lia Giraldo, Heleno Corrêa Filho, Carlos Fidelis, Anamaria Testa Tambellini, Marcelo Firpo Porto, Karen Friedrich e Ana Costa. Confira-o no link.

A entrevista completa com o professor Jairnilson Paim está no topo. Assista-a.

Edição do vídeo: Leon Sousa Domingues

Abaixo, a íntegra da transcrição.


O médico sanitarista Jairnilson Paim foi um dos palestrantes na 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986. Nas fotos acima, Paim durante a sua apresentação, que teve como título ”Direito à Saúde, Cidadania e Estado”. Íntegra está nos Anais da Oitava (ao final), páginas 45 a 59

ÍNTEGRA DA ENTREVISTA COM JAIRNILSON PAIM

Viomundo — O senhor teve articipação superimportante na 8.ª Conferência Nacional de Saúde, que aconteceu de 17 a 21 de março de 1986. Justamente na semana em que se comemorava os 40 anos da Oitava, foi lançado em Brasília o Instituto Consenso, que se vende como um ”novo marco para a articulação técnica entre a saúde privada e pública’‘. O que acha de eles terem escolhido o dia 18? Tem algum sentido, alguma mensagem ou não?

Jairnilson Paim — Pode ter algum sentido, alguma intencionalidade, pode ser até uma estratégia, mas até onde eu tenho informação pode ter sido uma coincidência também.

Eles já fazem iniciativas desse tipo há algum tempo. Esse novo instituto, se é que é possível chamar de novo, essa nova iniciativa, vamos dizer assim, se dá historicamente. Há várias tentativas — algumas com mais sucesso, outras com menos sucesso—de organização do setor privado no Brasil.

Na época da Oitava Conferência, a representação maior que eles tinham era através da Federação Brasileira de Hospitais, que já tinha esse nome e era fundamentalmente de hospitais privados, e da Associação Brasileira de Medicina de Grupo, a Abramge, que existe até hoje.

Eu diria ainda mais. A própria Associação Médica Brasileira, a AMB. Apesar do nome de médico, também tinha muitos interesses e ainda mantém hoje interesses privados não só de médicos liberais, mas também de médicos empresariais.

Quando a AMB fala não é em torno de todos os médicos, nem apenas dos médicos que exercem o seu consultório como medicina liberal, mas também dos interesses empresariais que estão perpassando a medicina.

Para mim, que acompanho há muito tempo essas iniciativas deles, isso já vem desde a Oitava Conferência. Só que mais recentemente eles estão se configurando de outros formatos. Na aproximação com o governo, eles se diferenciam, eles têm uma estratégia mais específica. Enfim, isso é o que eu poderia te responder imediatamente.

Inclusive, vale a pena considerar a necessidade — eu sempre registro essa minha visão — de setores da academia fazerem efetivamente pesquisas sobre esse setor privado, sua forma de organização, sua forma de atuação, eventualmente os seus lobbies, para a gente poder entender qual é a diversificação que ele vem sofrendo no Brasil nos últimos tempos.


Lançamento em Brasília no dia 18 de março de 2026. Foto: Divulgação

Viomundo — O que acha da proposta desse instituto, que se diz uma ‘’articulação técnica entre a saúde privada e pública’’? Isso é possível?

Jairnilson Paim — Isso está também em outras iniciativas que antecederam esse instituto. Por exemplo, o Instituto Todos pela Saúde [ITPS], que é o mais conhecido. O Todos pela Saúde, assim como o Todos pela Educação, que é ainda mais conhecido, tem o discurso da integração do público com o privado.

Eu evito falar em saúde pública, porque pra mim saúde pública é uma determinada área de produção de conhecimento, e não apenas como uma forma de contrapor saúde pública versus saúde privada.

Mas essa iniciativa de integração é uma iniciativa discursiva relativamente recente. Estou dando o exemplo do Todos pela Saúde. Mas alguns anos atrás teve o Instituto Coalizão Saúde, que também trazia essa perspectiva de articulação do público com o privado, ou de integração, como eles falam.

Eu ainda diria que quando apresentam documentos, especialmente nos anos que têm eleições, eles têm muito cuidado para não criticar o SUS. Pelo contrário, eles dizem que o SUS é uma maravilha, que o setor privado trabalhando com o SUS tem um potencial melhor de atender todos.

E tem até uma falácia que eles utilizam muito. A de que quanto mais o setor privado trabalhar com o público, e sendo responsável pela parte que lhe cabe nesse latifúndio, o SUS estaria mais aliviado para atender aqueles que mais precisam, diminuindo as filas.

Só que com isso – e eles não dizem – é que o SUS ficaria confinado a atender os muito pobres. E eles [o setor privado] ficariam com os que podem pagar os planos de saúde ou cujos empregos viabilizam planos coletivos, empresariais. Eles, portanto, fecham com esse mercado.

Então, pra mim, também não é novidade o discurso de integração público-privado.

Tem um livro no final da década passada do José Sestelo sobre esta temática. É a tese de doutorado dele.
Sestelo mostra que é um discurso muito cínico, porque na realidade o setor privado quer disputar um mercado ou quer usar os recursos dos fundos públicos para seus interesses particulares, e que isso não tem nenhuma condição objetiva de facilitar a vida do SUS.

Viomundo – Na prática, mais um lobby da iniciativa privada para se apoderar de mais dinheiro no SUS?

Jairnilson Paim – Certamente, certamente. Eu só não sei se são outros, devem ser os mesmos com outros nomes.

Como sua pergunta foi muito inteligente e provocadora para relacionar a inauguração do Instituto com os 40 anos da Conferência Nacional de Saúde, eu diria que talvez, tanto quanto isso, seja um lançamento envolvendo o Executivo, o Legislativo e o Judiciário no ano eleitoral.

Quer dizer, eles estão se apresentando perante a sociedade brasileira como um setor capaz de formular e que tem a preocupação com a saúde, o que os credenciaria a ser o interlocutor dos vários candidatos ou de um ou outro que seja mais importante para eles.

Eu teria uma hipótese de que o lançamento agora tem muito mais a ver com esse protagonismo que eles pretendem exercer neste ano e nos próximos do que propriamente uma forma de festejar, ironicamente respondendo à Oitava Conferência Nacional de Saúde.

Viomundo — Professor, como eu disse logo no começo, o senhor teve uma participação importante na Oitava Conferência. O senhor gosta de ser referido como um militante da Reforma Sanitária brasileira. O senhor defende o SUS público e estatal. Qual o sentimento que tem quando se depara com uma proposta como essa do Instituto? Como é que isso funciona para o senhor?

Jairnilson Paim — Olha só, quem está nessa luta há muito tempo, quem está na estrada por essas décadas todas, quem tem muito pó na estrada, eu diria que, com todas as aspas possíveis, já estou acostumado com iniciativas desse tipo.

Claro que como militante eu posso até ficar indignado e irritado. Mas, como professor, como pesquisador, eu sempre procuro entender o que é que tem de conhecimento que possa ser produzido nessa temática e que tipo de referencial teórico a gente pode, de alguma maneira, articular para tentar não só compreender, mas explicar essa situação que se apresenta para que os sujeitos políticos, os sujeitos da práxis, sobretudo os que fazem política, atuem.

Ou seja, ao lado da indignação, eu sempre procuro entender que há espaços para a luta e que a gente não pode, com isso, cruzar as mãos.

Quer dizer, é debater, como você está propondo aqui, é estudar, é pesquisar e, sobretudo, acionar os sujeitos da práxis que vão se organizar para mudar a correlação de forças que até então não nos é favorável.

Só para dar um exemplo. Tinha um vice-presidente da República no lançamento desse instituto. Mas, ao mesmo tempo, tem a presença na semana passada do presidente da República, Lula, no hospital Incor, falando da importância da defesa do SUS, etc.

O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, prestigiaram o lançamento do Instituto Consenso. Foto: Divulgação

É esse o jogo político e a gente tem que aproveitar o máximo possível para quem tem uma proposta em defesa efetiva do direito à saúde poder ter algum ganho. Porque se nós ficarmos apenas denunciando e nos lamentando, eles vão ocupar o espaço.

Você tem uma experiência jornalística muito grande, entende a política e já deve ter ouvido muita gente falando que política não tem vácuo. Quando um não ocupa, o outro ocupa, enfim, é isso.



Cenas da histórica Oitava Conferência Nacional de Saúde, realizada de 17 a 21 de março de 1986, em Brasília (DF). Fotos: Reprodução

Viomundo — Tem-se falado muito sobre a Oitava Conferência. E, como eu já disse antes, o senhor teve um papel importante. Dá para resgatar um pouco do que ela foi para o senhor naquele momento?

Jairnilson Paim – Eu vou poder falar, obviamente, do meu sentimento, que é isso que você está colocando, a parte mais subjetiva.

Mas, antes disso, eu sempre lembro, quando me entrevistam, que há uma farta documentação sobre a Oitava.

A própria UnB produziu um conjunto de vídeos (links, ao final) e que hoje estão disponíveis provavelmente no Ministério da Saúde, na Fiocruz, sobre a Oitava Conferência: o que tinha antes, o que estava no processo, o que veio depois.

Os próprios Anais da 8.ª Conferência (na íntegra, ao final) trazem os documentos que foram apresentados no evento, aqueles encomendados, como foi o meu caso.

Eu fui convidado para a primeira mesa e, também, ao ser convidado, me solicitaram que elaborasse o texto que iria fundamentar as discussões daquela primeira temática.

Além dessas pessoas convidadas, outros colegas, outros companheiros, escreveram textos e encaminharam para a conferência. Então isso tudo está dentro dos anais.

Além disso, por lá circularam jornaizinhos de partidos que na época ainda estavam deixando de ser clandestinos, posições do Cebes [Centro Brasileiro de Estudos de Saúde], da Abrasco [Associação Brasileira de Saúde Coletiva], etc.

Então, tem uma farta documentação. Isso para dizer que tem uma base objetiva, em vez de eu dizer que o meu texto foi muito importante ou que eu fiz isso e fiz aquilo. Quem quiser conferir, está lá no escrito e nos vídeos.



Mas, do ponto de vista de sentimento, o que mais me impressionou na Oitava, mais me chamou atenção e emocionou foi a presença do povo, do povo organizado dentro da conferência.

Naquela época, como professor, eu circulava muito nas periferias daqui de Salvador. Eu levava meus alunos residentes, para vários bairros de Salvador.

E pessoas que nunca tomaram um avião na vida, arrumarem a sua mala, entrarem no avião, chegarem em festa nos ônibus…Isso foi emocionante.

Essa é lembrança que eu tenho positiva do ponto de vista subjetivo da Oitava.

Do ponto de vista não tão positivo, vamos dizer assim, eram os boatos que a gente recebia. Alguns provavelmente mais verdadeiros do que outros.

Inclusive o setor privado, através de seus porta-vozes, estava mandando um recado: ‘’Presidente Sarney, cuidado, vai aí um bando de melancia pra Brasília’’.

Outros diziam: ‘’Olha, deixa eles lá brincarem de fazer participação, na realidade a gente vai fazer uma outra coisa’’.

Então, isso daí fica também pelo folclore.

Viomundo — Seria possível hoje reeditar a Oitava, em outros termos, claro? Isso é factível?

Jairnilson Paim — Depende do que está para além das suas palavras nessa pergunta.

Quer dizer, fazer um grande happening, eu não tenho dúvida de que a gente poderia reeditar ou quem sabe até com muito mais atividade, com muito mais entusiasmo. Hoje, gostando ou não, sendo efetiva ou não, nós temos uma participação social muito intensa em saúde no Brasil.

Do ponto de vista de happening, eu não tenho dúvida que a gente poderia reproduzir. O que eu acho mais difícil é que o momento histórico é outro.

Na época, nós éramos vitoriosos contra uma ditadura. Hoje, a gente tem um fascismo como uma espada de Dâmocles na nossa cabeça, não só no Brasil, mas no mundo.

Hoje, as relações internacionais e a forma como o capitalismo se expressa é distinta do final dos anos dos anos 70 para o início da década de 80.

O contexto nacional, o contexto internacional, a vida no capitalismo mudaram radicalmente. Então, pra isso eu acho difícil dizer vamos reeditar.

Uma outra coisa também muito importante é que nós tivemos muito embate dentro da conferência, inclusive na questão do público e do privado. Mas havia um consenso muito grande de que aquela conferência poderia ser uma pré-constituinte.

Então, quanto mais a gente conseguisse acordar coisas, convergir, ter um texto relativamente enxuto, para facilitar as negociações posteriores com os deputados e senadores que fossem eleitos pra Assembleia Constituinte, tanto melhor.

Eu acho um primor o relatório final escrito pela equipe de redação, particularmente sob a liderança – vocês vamos vão me permitir um pouco– de um grande baiano, Guilherme Rodrigues da Silva, professor titular da Faculdade de Medicina da USP.

Ele teve essa capacidade, essa liderança, de num texto muito sintético dizer noventa e tantos por cento do que a gente queria expressar para a sociedade brasileira.

Hoje, como as lutas são muito fracionadas, você conseguir um texto quase que unitário seria muito difícil.

Viomundo — O SUS era e continua sendo disputado por todos os lados, cada vez mais.

‘’O Brasil, atendendo a acordos multilaterais e interesses corporativos, passou a induzir a abordagem Saúde Única, a One Health, contradizendo com o modelo explicativo da determinação social para o processo saúde-doença construído na América Latina’’.

Este é um trecho de um artigo de colegas do senhor, que deve ser publicado brevemente [foi nessa quarta-feira/13/5]. Já saiu preprint, entre eles tem a Lia Geraldo, a professor Heleno, a Ana Costa…

Jairnilson Paim — Todos eles militantes históricos da Oitava Conferência, de uma parte, e do Movimento da Reforma Sanitária, de outra. Ana Costa foi uma das redatoras do relatório final…

Viomundo — …Não bastasse isso, o processo foi feito todo sorrateiramente, sem uma ampla discussão. Todo mundo foi pego de surpresa. Você tem hoje na Fiocruz setor de Saúde Única, você tem setor no próprio Ministério da Saúde já está cuidando disso. Mas não foi feito às claras. Essa é a impressão que me passa. Eles também têm essa impressão. O que o senhor acha disso tudo?

Jairnilson Paim — A primeira coisa a registrar é que essa iniciativa, até você usou a expressão em inglês, transcende o Brasil.

Quer dizer, nós incorporamos, por um processo que ainda não está muito claro, essa proposta de uma maneira, como você diz, um tanto sorrateira. Ela foi penetrando em algumas instituições, inclusive no SUS, porque Fiocruz, assim ou assado, é SUS.

Isso saiu dentro de um governo considerado progressista e que não foi voltado exclusivamente para a saúde. Tinha muito a ver com outros setores econômicos, como agricultura, de alguma maneira com a questão ambiental, etc.

Essa iniciativa tem o patrocínio, o respaldo, de organismos internacionais. Em princípio, vou mencionar a Organização Mundial da Saúde, em que o Brasil é um participante.

Então, veja bem, o Cebes — todos esses colegas que você mencionou aí — militam no Centro Brasileiro de Estudos de Saúde e soltaram a lebre: Olha aí, essa é uma iniciativa que pode ter essas e essas características.

E uma das básicas é ignorar tudo o que a saúde coletiva, ou a medicina social latino-americana, produziu nos últimos 40 ou 50 anos, mostrando a determinação social do processo saúde-doença ou da determinação socioambiental desse processo.

Mas, em outros momentos, também chegaram coisas desse tipo no Brasil. E os brasileiros são muito criativos e a partir da crítica refuncionalizam propostas desse tipo.

Eu vou dar dois exemplos para você. Você já ouviu falar muito bem, inclusive, do David, David Capistrano. Depois, eu vou falar um pouquinho dele.

Mas muito depois do falecimento de David Capistrano, nós, que sempre defendemos sistemas públicos e universais de saúde, tivemos que nos deparar na passagem da primeira para a segunda década deste nosso século XXI com a proposta de cobertura universal da saúde [conhecida jocosamente nos movimentos de saúde pela sigla CUS].

Essa cobertura universal da saúde foi também de organismos internacionais.

E quando você vai ver a trajetória dela, você vai ver que antes da OMS teve o Banco Mundial e antes do Banco Mundial teve a Fundação Rockefeller.

Antes da Fundação Rockefeller, tinha a preocupação dessa turma da grana que os sistemas públicos exercessem uma certa hegemonia, quer dizer, uma direção política e cultural acerca da forma mais apropriada de organização de serviços de saúde.

Então, esses think tanks, que são muito competentes e têm grana, juntam uma turma na ilha de Bellagio, na Itália, dizem que é lindíssima. É a ilha da Fundação Rockefeller. Eles botam lá alguns intelectuais, que discutem durante uma semana e sai um produto desse tipo, como a cobertura universal da saúde.

Então, o Cebes, logo em 2013, através de alguns autores, especialmente o José Noronha, alertou para a questão da cobertura universal da saúde.

A professora Lígia Giovanella depois sistematizou e mostrou as diferenças entre cobertura universal de saúde e sistemas únicos, ou sistemas universais públicos de saúde.

Então, mais uma vez, Conceição, isso não me surpreende e a gente sempre luta.

Aí, eu vou chegar no Davizinho.

Ainda lá no final dos anos 90 todo mundo estava discutindo a expansão da atenção primária. O Brasil, mais uma vez, começou a despertar o interesse, porque a atenção primária que se desenvolvia aqui no Brasil, através da estratégia de saúde da família, era completamente diferente daquilo que estava hegemônico no mundo, que era a cobertura de saúde através da APS, Atenção Primária à Saúde, somente para os mais pobres dos mais pobres.

E, aí, o que Davizinho dizia?

— Ah, não tem problema, não. Aqui no Brasil, como uma boa parte da população é pobre, o que eles vão chamar de atenção primária, seletiva ou focalizada, a gente vai botar pra mais da metade da população, 60%, 70%.

Aqui, nós aprendemos, como no Nordeste, a tomar o mingau, a comer o mingau, a beber o mingau pelas bordas, enquanto ele está quente.

Isso é um pouco otimismo? Não sei, mas a gente tem tido. Eu acho que esse texto que foi publicado em preprint, logo que for reconhecido mais pela comunidade científica, vai ter tanta importância quanto os textos que eu mencionei, o de José Noronha e da professora Lígia Giovanella.
*****

A propósito, na quarta-feira, 13/5, a Revista Saúde em Debate, do Cebes, publicou o ensaio de Lia Giraldo, Heleno Corrêa Filho, Carlos Fidelis, Anamaria Testa Tambellini, Marcelo Firpo Porto, Karen Friedrich e Ana Costa.


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LIVROS RELACIONADOS

Reforma sanitária brasileira: contribuição para a compreensão e crítica, Jairnilson Silva Paim, Editora Fiocruz, 2008.

Reforma sanitária: em busca de uma teoria, por Sonia Fleury, Cortez Editora, 1989.

Teoria da Reforma Sanitária: diálogos críticos, Sonia Fleury, Editora Fiocruz, 2018.

O que é o SUS, Jairnilson Silva Paim, Editora Fiocruz, 2009

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Discurso completo do sanitarista Sergio Arouca na 8.a Conferência Nacional de Saúde/ VídeoSaúde/Fiocruz.
ACERVO NESP-UnB

Os oito vídeos abaixo — quatro da série Oitava Conferência e quatro da série Caminhos para a Reforma Sanitária — fazem parte do Projeto de Recuperação dos Acervos Fotográfico e Audiovisual do Núcleo de Estudos de Saúde Pública (NESP-UnB).
Oitava Conferência

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4
Caminhos para a Reforma Sanitária

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4


BOLETIM DA OITAVA CONFERÊNCIA


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ANAIS DA OITAVA CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE

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