Por JOÃO FERES JÚNIOR*
Notas sobre o “Manifesto em defesa do pluralismo”
1.
Em abril, um grupo de 53 professores e pesquisadores de diferentes universidades brasileiras se reuniu no Centro Maria Antonia, na USP, e produziu o manifesto “Em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica”.[i] O documento, que no momento em que escrevo este texto já conta com 471 signatários, diagnostica nas instituições públicas de ensino superior um “ambiente de exigência de conformidade ideológica, autocensura e intolerância ao dissenso”, e propõe três pilares para enfrentar o que chama de crise de reputação das universidades: neutralidade institucional, liberdade acadêmica e pluralismo.
A peça se apresenta como intervenção técnica e centrista, equidistante tanto do que classifica como ortodoxias internas quanto das tentativas de intervenção externa que se multiplicaram nos últimos anos no Brasil e nos Estados Unidos. É uma tentativa, em suma, de oferecer um caminho próprio – uma “terceira via” institucional para um problema que os autores tomam como real.
Conheço a maior parte dos colegas que originalmente assinaram o manifesto, e muitos deles são amigos pessoais. Mas isso não deve ser impedimento para que eu manifeste minha opinião, amplamente discordante daquela do documento, ainda mais porque o assunto é de suma relevância pública. Vou direto ao ponto: se lido com atenção, o manifesto replica uma sequência de falácias factuais que usa para justificar escolhas morais injustas, quando não internamente contraditórias. Os problemas que vejo são vários, mas podem ser classificados em duas categorias: os de ordem científica e os de ordem normativa, ou moral.
Começo pela ciência. A falha de partida do manifesto é se deixar seduzir pelo enquadramento da polarização ideológica como problema central da sociedade brasileira – agora aplicado às universidades – e, emendando uma segunda falácia, tratar essa polarização como se ela fosse simétrica. Para sustentar a tese, os autores mobilizam pesquisas da Quaest e do More in Common, instituições explicitamente comprometidas com a promoção desse diagnóstico da “polarização afetiva” e da “maioria silenciosa”, agenda que quase sempre redunda no esforço interpretativo de equiparar os polos.
Ora, é altamente problemática a tomada de pesquisas da Quaest – financiadas pelo banco de investimentos Genial e pela Globo – como fontes de dados científicos. Mesmo sem entrar nos meandros dos interesses dessas organizações na propagação de uma percepção de polarização simétrica, é fato que os dados dessas pesquisas nunca foram abertos para validação pública.
O mesmo se aplica ao More in Common, ONG cuja missão declarada é o combate à suposta polarização – ou, em suas próprias palavras, ajudar as sociedades a reconhecer que “o que têm em comum é mais forte do que o que as separa”. Basta ler os artigos e intervenções públicas dos líderes dessas organizações para constatar seu empenho em mostrar que há enorme polarização no Brasil e que ela é simétrica. Só que essas são inverdades.
2.
Não estou sozinho nesse diagnóstico contrário. Mario Fuks e Pedro Henrique Marques, com dados longitudinais do ESEB e do Lapop, concluem que a polarização ideológica brasileira é assimétrica, marcada pelo crescimento e pela radicalização da direita[ii] – enquanto, no campo oposto, o que se observa é o que André Singer chamou de moderação do lulismo.[iii] A mesma linha aparece nos estudos de Fuks, Ribeiro e Borba sobre o caminho que vai do antipetismo ao antipartidarismo generalizado e ao voto em Bolsonaro,[iv] e na obra fundamental de David Samuels e Cesar Zucco, Partisans, Antipartisans, and Nonpartisans,[v] que organiza o sistema partidário brasileiro em torno de uma única identidade ativa e ressonante – o petismo – e seu negativo socialmente assimétrico, o antipetismo. Análises quantitativas feitas por mim e colaboradores confirmam que a polarização é menor do que a propalada, fortemente assimétrica e dependente de assunto.[vi]
No registro qualitativo, Camila Rocha, em Menos Marx, mais Mises, documenta etnograficamente a formação da nova direita radical brasileira como processo sem contraparte simétrica no campo progressista.[vii] Pesquisas feitas no âmbito do Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública (LEMEP), em particular o Monitor do Debate Público (MDP) – que trabalha com grupos focais permanentes de bolsonaristas, indecisos centristas e lulistas –, mostram recorrentemente assimetria flagrante entre os polos e alta variação da polarização total a depender do assunto.[viii]
Outra evidência clara dessa assimetria está no nosso sistema partidário. As principais forças hoje são uma extrema direita que já se mostrou disposta a promover um golpe de Estado – inclusive planejando o assassinato de líderes eleitos e ministros do STF – e uma centro-esquerda que já governou o país por quase duas décadas, em pleno respeito às instituições democráticas. Contudo, os autores do manifesto, eles mesmos autoidentificados como acadêmicos, preferem comprar a versão midiática falaciosa da polarização simétrica, demonstrando pouco apreço pelo conhecimento científico produzido na própria área em que atuam.
3.
Os autores do manifesto são também omissos ao identificar seus adversários – não nomeiam nem a extrema direita bolsonarista, nem a esquerda radical universitária. Mas a omissão é apenas aparentemente simétrica: as condutas que o manifesto descreve em detalhe e contra as quais propõe protocolos institucionais – abaixo-assinados, notas de repúdio, denúncias em redes sociais, “enquadramento de argumentos acadêmicos como ofensas morais”, proteção da crítica a “políticas voltadas à promoção da igualdade” – são todas codificadas como práticas da esquerda radical universitária. Para bom entendedor, meia palavra basta.
Prefiro, aliás, o adjetivo “radical” para falar desses grupos, pois tal esquerda majoritariamente faz críticas ao status quo sem, ao mesmo tempo, propor a abolição das instituições. Lutam por expansão de direitos, e não pela abolição das instituições que os garantem. Do ponto de vista eleitoral isso é ainda mais claro: a imensa maioria dessas pessoas vota na centro-esquerda no primeiro turno e, mais ainda, no segundo.
Já a extrema direita tentou recentemente abolir o Estado democrático no país – basta lembrar do 8 de janeiro e da minuta golpista que motivou a denúncia da PGR contra Jair Bolsonaro e o núcleo do governo. Se lhes for dada a chance, abolem a universidade pública como a conhecemos, ou pelo menos os cursos de humanas que empregam a maioria dos signatários desse manifesto, e inclusive este que vos fala.
E isso não é especulação alarmista de minha parte. Basta lembrar das tentativas explícitas do governo Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022 – do anúncio de Weintraub de cortar verbas das universidades por “balbúrdia” (UnB, UFF, UFBA, abril de 2019) à proposta de redirecionar financiamento federal de filosofia e sociologia para áreas “de retorno imediato”. Ou seja, essas duas posições – esquerda radical universitária e extrema direita política – são radicalmente assimétricas em sua relação com as instituições. Mas esses mais novos adeptos da polarização calcificada não veem isso.
Há ainda outra falácia bastante preocupante. Os autores propagam uma ilação causal espúria, segundo a qual a suposta perda de pluralismo das universidades públicas teria contribuído para aumentar a sua rejeição frente à população. Como já sabemos, o alvo das críticas é a esquerda radical universitária, e o manifesto tenta culpá-la pela suposta perda de popularidade da universidade pública. Os autores, contudo, não se dão ao trabalho de explicar como essa mudança de opinião teria se dado. O problema é duplo: em primeiro lugar, a própria premissa da queda de popularidade carece de demonstração empírica; em segundo lugar, mesmo se a concedêssemos, a causalidade implícita seria insustentável.
4.
Comecemos pela premissa. Os próprios autores tratam a perda de popularidade como um fait accompli. Acontece que as séries longitudinais disponíveis mostram o contrário: as pesquisas de percepção pública da ciência conduzidas pelo CGEE/MCTI e, mais recentemente, pelo SoU_Ciência/Unifesp em parceria com o IDEIA Big Data registram aumento da confiança nos cientistas e nas universidades públicas brasileiras entre 2015 e 2022.[ix] Em 2015, jornalistas, médicos e líderes religiosos eram apontados como fontes mais confiáveis que cientistas; em 2022, cientistas de instituições públicas passaram a liderar, com 41,6%.
Ou seja, a confiança nas universidades subiu justamente no período em que a campanha de desautorização da ciência por parte do bolsonarismo foi mais virulenta – exatamente o oposto do que a ilação causal do manifesto sugere. Se há um número recente apontando 59% de baixa confiança na universidade pública,[x] ele requer explicação contextual; tomá-lo como ponto de chegada de uma trajetória descendente é cherry-picking, não diagnóstico. Como é possível fazer defesa da ciência e da universidade cometendo tamanho descuido?
Mas concedamos a premissa, apenas a título de argumento. Mesmo nesse caso, a causalidade implícita seria insustentável. Aqui o manifesto tropeça em outro problema empírico básico: a imensa maioria da população nunca pôs os pés numa universidade pública. Apenas cerca de um terço dos jovens entre 18 e 24 anos está matriculado no ensino superior (taxa de escolarização líquida de 19,9%, segundo o Censo da Educação Superior do INEP),[xi] e desses, apenas cerca de 19% (3,8% do total) estão na rede pública – os outros 81% frequentam instituições privadas, em sua imensa maioria cursos EaD.
Como então a opinião majoritária da população teria sido moldada por aquilo que ocorre nos campi públicos? É descabido imaginar que essa corrosão de legitimidade tenha sido produto da ação direta dos coletivos da esquerda radical, pois esses operam intramuros. Mas os professores não explicam essa conexão mágica.
Se há uma causa patente e direta de qualquer ressentimento popular contra a universidade pública, ela é obra da extrema direita e de sua campanha sistemática de desautorização da ciência. Não é preciso ir longe: o ataque de Abraham Weintraub à “balbúrdia”, o congelamento de orçamentos do CNPq e da CAPES, a proposta do Future-se, a perseguição a docentes via Escola Sem Partido e suas variantes, e, no topo da lista, a campanha antivacina e anticientífica de Bolsonaro e seguidores durante a pandemia.
Para quem gosta de anedota, o exemplo recente de Túlio Maravilha, em fevereiro de 2026, ilustra o ponto à perfeição: o ex-jogador e a esposa proibiram a filha, aprovada em Nutrição na UFRJ e em Odontologia na UERJ, de se matricular em qualquer das duas, justificando a decisão pela necessidade de preservar “valores familiares”, porque “a universidade particular se alinha mais aos nossos pensamentos e princípios”.
5.
A fala da família Maravilha ecoa um discurso muito maior, o de que as universidades ensinam os jovens a serem homossexuais, ateus e a desrespeitarem os valores da família. O contingente que sustenta essa visão é, em sua imensa maioria, bolsonarista, com forte componente neopentecostal. Ao comprarem a tese inverídica de que a esquerda radical universitária é culpada pela perda de popularidade da universidade pública, os autores do manifesto tristemente dão crédito a esses argumentos insidiosos, validando o preconceito e a intolerância. É o exemplo claro em que um descuido da razão científica conduz a um descuido grave de ordem moral.
Vejamos agora os problemas de ordem normativa, ou moral, a começar pela doutrina da “neutralidade institucional” defendida no manifesto. Ela não é, como se pretende, a ausência de uma posição moral. É ela mesma uma posição moral substantiva – e uma posição que, levada às últimas consequências, teria silenciado a universidade pública brasileira em todos os momentos em que ela mais precisou falar.
A doutrina é importada, sem que os autores o digam, dos Chicago Principles e do Kalven Report,[xii] produzidos pela Universidade de Chicago em outro contexto histórico e como resposta a outro tipo de problema. Aplicá-la sem mediação ao Brasil de 2026 produz absurdos imediatos. Pelo princípio da “neutralidade institucional”, as universidades brasileiras não poderiam ter emitido nota institucional alguma sobre o assassinato de Marielle Franco, ex-aluna da UFF, em 2018. Não poderiam ter se manifestado contra o ataque de Abraham Weintraub às federais em 2019.
Não poderiam ter se posicionado contra a campanha antivacina e o negacionismo científico do governo de Jair Bolsonaro durante a pandemia, quando 700 mil brasileiros morreram. Não poderiam ter condenado a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 – que, é bom lembrar, contou com participação documentada de bolsonaristas que circulavam nos campi, e cujo desfecho, caso vitorioso, teria abolido a universidade pública como a conhecemos. A doutrina, aplicada consistentemente, transformaria o silêncio institucional em virtude precisamente quando o silêncio significa cumplicidade.
O ponto é antigo e foi formulado com clareza por Karl Popper em A sociedade aberta e seus inimigos:[xiii] a tolerância ilimitada conduz ao desaparecimento da tolerância. O paradoxo da tolerância exige que sociedades democráticas se reservem o direito de não tolerar movimentos que pregam a intolerância e a destruição das condições do jogo democrático.
6.
Também é falsa a premissa de que existe uma universidade neutra. A universidade pública toma posições todos os dias – quando contrata professores em vez de outros, quando aprova currículos em vez de outros, quando financia pesquisas em vez de outras, quando ensina evolução em vez de criacionismo, quando considera o fato da Terra esférica como algo fora de “controvérsia legítima”. A “neutralidade” exigida pelo manifesto, dirigida contra a esquerda radical universitária, não é uma neutralidade real, mas uma seletividade: ativa-se exclusivamente em torno das questões em que a direita tem interesse no silêncio.
A proteção assimétrica que o manifesto confere à crítica de políticas afirmativas indica qual é o conteúdo moral concreto do “pluralismo” que ele defende. Ou melhor, deixa claro que não se trata de verdadeiro pluralismo, mas de posição substantiva específica. A passagem mais reveladora do documento é aquela em que os autores defendem explicitamente um espaço para o que chamam de “expressão de posições críticas sobre movimentos sociais e políticas públicas – inclusive aquelas voltadas à promoção da igualdade”.
A formulação não é casual nem ilustrativa. É o caso paradigmático que o manifesto está disposto a proteger. Não há, em nenhum lugar do texto, proteção equivalente ao direito de defender essas mesmas políticas contra-ataques. Não há proteção à pesquisa sobre desigualdade racial, à docente negra que ministra disciplina sobre racismo institucional. Quando o manifesto fala em “ortodoxias” e “ofensas morais”, os exemplos que mobiliza vão sempre numa direção; quando fala em “argumentos acadêmicos legítimos”, os exemplos vão sempre na direção contrária. O pluralismo, aqui, é direcional.
Tratar a demanda por status moral igual de grupos historicamente subalternizados como uma “controvérsia” em pé de igualdade com a sua negação é, em si, uma forma de negação do reconhecimento. Não há dois lados legítimos na “controvérsia” sobre se brasileiras e brasileiros negros devem ter acesso igualitário ao ensino superior; sobre se estudantes trans devem ser tratados pelo seu nome social; sobre se mulheres têm direito a ambientes acadêmicos seguros. Enquadrar essas questões como “controvérsias” nas quais ambas as visões devem ser ensinadas não é pluralismo – é posicionar-se substantivamente de um lado da disputa, com a vantagem retórica de não ter de admiti-lo.
É a versão acadêmica do que a literatura sobre raça nos Estados Unidos chama de both-sidesism – o “ambos os lados” que durante décadas blindou as universidades do sul norte-americano contra a integração racial. Em termos liberal-igualitários – para usar o vocabulário de Rawls e Dworkin com o qual o manifesto também flerta –, o status moral igual dos cidadãos pertence ao núcleo dos essenciais constitucionais: aquilo que o liberalismo igualitário retira da mesa das negociações pluralistas.[xiv] Ou seja, o manifesto não consegue passar nem mesmo no teste rawlsiano que parece pressupor.
7.
Há, por fim, uma incoerência performativa que merece registro. O manifesto comete, em forma, exatamente aquilo que prescreve às administrações universitárias não fazerem. Trata-se de uma nota pública coletiva, emitida por um grupo organizado, sem apuração rigorosa de casos concretos, fazendo diagnóstico ampliado sobre uma comunidade inteira de instituições, antes de qualquer “garantia da ampla defesa” daqueles cujas práticas são o alvo, velado mais óbvio, da crítica.
É a “condenação sumária” antes da “apuração técnica e isenta dos fatos”, ou pior, baseada em fatos espúrios, como mostrei acima. Que maneira estranha de defender a universidade e a ciência. Os signatários querem que outros se contenham daquilo que eles próprios estão fazendo.
Não se trata de uma incoerência cosmética. Ela revela a estrutura efetiva da exigência de “neutralidade institucional”: é uma demanda unilateral de silenciamento dirigida aos “outros”, enquanto os demandantes seguem falando. A neutralidade é exigida do administrador, do reitor, da direção do departamento, do conselho universitário; não dos professores titulares signatários, dos artigos que já estão publicando em jornais e revistas de perfil conservador que os recebem de braços abertos, das entrevistas que darão sobre o manifesto etc.
Emprestando um conceito de Nancy Fraser,[xv] o que se exige aqui é a dissolução dos contra-públicos formados dentro da universidade nos últimos vinte anos – coletivos negros, indígenas, feministas, LGBTQIA+, todas formações que se constituíram justamente devido à percepção de que a esfera pública oficial da universidade não acolhia suas demandas em pé de igualdade. A “neutralidade institucional” do manifesto é, na prática, um pedido para que esses contra-públicos sejam desautorizados em favor de uma esfera pública oficial idealizada que nunca existiu – e cuja inexistência, aliás, foi a razão de ser dos contra-públicos. É um movimento de restauração de uma idealização conservadora, não de neutralidade.
Por todos esses motivos, considero o manifesto uma intervenção politicamente regressiva, ainda que vestida com a roupagem do tecnicismo institucional e da preocupação com a reputação pública das universidades. Mas a reputação que se constrói sobre o silenciamento dos mais vulneráveis, sobre a recusa em distinguir democracia de golpismo, e sobre a equivalência moral entre defensores e detratores da igualdade não é uma reputação que valha a pena reconstruir.
A universidade pública – patrimônio dos brasileiros, como bem diz o próprio manifesto – vale a pena defender; mas defendê-la é outra coisa. É reconhecer a assimetria do ataque que ela sofre, é nomear quem a ameaça, é traçar um cordão sanitário contra o golpismo dentro e fora dos seus muros, e é proteger ativamente quem hoje é silenciado dentro e fora dela. Tudo o oposto do que o manifesto propõe.
8.
Eu poderia ir além e explorar a composição de gênero entre os 53 signatários originais – 70% são homens, proporção bem acima da paridade que temos entre professores de pós-graduação de sociologia e antropologia, como mostra estudo que fiz há poucos anos.[xvi] Poderia também focar no fato de que, utilizando uma metodologia que combina dados de autodeclaração e heteroclassificação, que desenvolvemos no GEMAA,[xvii] computei uma proporção de signatários brancos de 96%. Mas não vou entrar nesses meandros, pois o que está dito no manifesto já basta.
É claro que há exageros e aberrações nas ações de coletivos da esquerda radical universitária. É claro que os principais alvos dessas ações são frequentemente as pessoas com mais poder na universidade, particularmente os professores, em especial os titulares, como eu, pois esses concentram o maior poder institucional. Mas, pelo menos para aqueles que são realmente progressistas, e não se escondem por trás da credencial universitária para defenderem interesses outros, é preciso exercitar as virtudes cardinais da justiça e da prudência (no sentido forte de Phronesis) e enxergar algumas coisas bastante óbvias.
Negros e negras estavam praticamente alijados da universidade pública e do ensino superior em geral até a introdução das cotas, na primeira metade deste século. Até recentemente, mulheres sofriam em silêncio todo tipo de discriminação e tratamento desrespeitoso, simplesmente por serem mulheres. Pessoas LGBT+ idem, e as pessoas trans recebiam um tratamento, por parte das instituições do Estado, que as reduzia à invisibilidade. Poderia me estender nessa lista, mas o fato é que, com a entrada desses grupos no espaço universitário, era natural que demandassem mudanças no status quo, desde sempre dominado por homens brancos; da mesma maneira como é esperado que os homens e mulheres brancos de classe média nessas posições naturalizem um status quo excludente e cego a essas diferenças.
Contudo, nós, cientistas sociais, filósofos e humanistas, não podemos nos dar a esse “luxo” conservador. Afinal, a crítica é o nosso modus operandi, o fulcro da nossa profissão. Não há soluções simples para várias das demandas e conflitos gerados nesse processo, mas, na prática do pluralismo de verdade, a única saída para todos nós é a conversa, o esforço do entendimento mútuo e a mediação de conflitos e não apelos vagos, mas ameaçadores, de censura institucional.
Há exatamente vinte anos, um grupo de 114 professores universitários, artistas e publicistas assinaram um manifesto intitulado “Todos têm direitos iguais na República Democrática”,[xviii] contra as cotas raciais que começavam a ser implantadas nas universidades públicas de nosso país. Aquele texto estava eivado de erros factuais, falácias científicas, conservadorismo moral gritante e catastrofismos futurológicos que se mostraram completamente infundados, como eu e meus colaboradores do GEMAA, e tantas outros colegas, não nos cansamos de mostrar em inúmeros trabalhos.[xix]
Alguns daqueles signatários se arrependeram, ao longo dos anos, de terem empenhado sua reputação naquela peça. Fizeram um mea culpa pública. Outros simplesmente se calaram. E agora surge esse novo documento, também eivado de falácias factuais e morais, identificadas exaustivamente aqui, como uma atualização daquela agenda regressiva que hoje muitos já imaginavam enterrada – pelo menos no espaço universitário.
Para piorar, fazem isso em contexto no qual a universidade tem de fato sua legitimidade atacada pela extrema direita e pelo obscurantismo religioso, e em meio a um ano eleitoral em que uma das forças políticas mais competitivas é exatamente essa extrema direita anticientífica, anti-universidade pública e antidemocrática. Francamente, é estarrecedor.
*João Feres Júnior é professor titular de ciência política do IESP-UERJ. Coordena o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) e o Laboratório de Estudos de Mídia e Espaço Público (LEMEP).
Notas
[i] EM DEFESA DO PLURALISMO E DA LIBERDADE ACADÊMICA. Manifesto. São Paulo: Centro Maria Antonia/USP, abril de 2026. Disponível em: https://pluralismoacademico.org/.
[ii] FUKS, Mario; MARQUES, Pedro Henrique. Polarização e contexto: medindo e explicando a polarização política no Brasil. Opinião Pública, Campinas, v. 28, n. 3, p. 560–593, 2022. DOI: 10.1590/1807-01912022283560
[iii] SINGER, André. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
[iv] FUKS, Mario; RIBEIRO, Ednaldo; BORBA, Julian. From antipetismo to generalized antipartisanship: the impact of rejection of political parties on the 2018 vote for Bolsonaro. Brazilian Political Science Review, São Paulo, v. 15, n. 1, e0005, 2021. DOI: 10.1590/1981-3821202100010003. Ver também: FUKS, Mario; RIBEIRO, Ednaldo; BORBA, Julian. Antipartisanship and political tolerance in Brazil. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, v. 28, n. 76, p. 1–18, 2020. DOI: 10.1590/1678-987320287604.
[v] SAMUELS, David J.; ZUCCO, Cesar. Partisans, antipartisans, and nonpartisans: voting behavior in Brazil. Cambridge: Cambridge University Press, 2018.
[vi] FERES JÚNIOR, João. Da segurança à pauta LGBT: em meio à polarização, veja os temas que mais unem ou afastam lulistas e bolsonaristas. O Globo, Pulso, 2024. Disponível em: https://oglobo.globo.com/blogs/pulso/post/2024/07/da-seguranca-a-pauta-lgbt-em-meio-a-polarizacao-veja-os-temas-que-mais-unem-ou-afastam-lulistas-e-bolsonaristas.ghtml.
[vii] ROCHA, Camila. Menos Marx, mais Mises: o liberalismo e a nova direita no Brasil. São Paulo: Todavia, 2021.
[viii] FERES JÚNIOR, João; PAULA, Carolina de. Monitor do Debate Público. Rio de Janeiro: LEMEP/IESP-UERJ, 2024 –. Disponível em: https://lemep.org.br. FERES JÚNIOR, João; PAULA, Carolina Almeida de. O que é o bolsonarismo? Muito além da abordagem sociológica. Dados – Revista de Ciências Sociais, v. 68, p. e20250132–46, 2025.
[ix] CENTRO DE GESTÃO E ESTUDOS ESTRATÉGICOS (CGEE). Percepção pública da ciência e tecnologia no Brasil. Brasília: CGEE/MCTI, edições de 2010, 2015 e 2019. Disponível em: https://www.cgee.org.br/percepcaopublicact
Para a edição mais recente, ver SOU_CIÊNCIA – UNIFESP; IDEIA BIG DATA. Confiança dos brasileiros em cientistas e universidades públicas. São Paulo, mar. 2022. Disponível em: https://souciencia.unifesp.br/.
[x]
[xi] INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP). Censo da Educação Superior 2024: notas estatísticas. Brasília: INEP/MEC, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/pesquisas-estatisticas-e-indicadores/censo-da-educacao-superior.
[xii] KALVEN COMMITTEE. Report on the University’s role in political and social action. Chicago: University of Chicago, 1967. Disponível em: https://provost.uchicago.edu/sites/default/files/documents/reports/KalvenRprt_0.pdf. Para os Chicago Principles, ver: COMMITTEE ON FREEDOM OF EXPRESSION. Report. Chicago: University of Chicago, 2014. Disponível em: https://provost.uchicago.edu/sites/default/files/documents/reports/FOECommitteeReport.pdf
[xiii] POPPER, Karl R. A sociedade aberta e seus inimigos. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1974. (Original: The open society and its enemies. London: Routledge, 1945.)
[xiv] RAWLS, John. O liberalismo político. Trad. Dinah de Abreu Azevedo. São Paulo: Ática, 2000. Sobre os “essenciais constitucionais”, ver Conferência IV. Para a defesa correlata da igualdade como princípio soberano, ver DWORKIN, Ronald. A virtude soberana: a teoria e a prática da igualdade. Trad. Jussara Simões. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
[xv] FRASER, Nancy. Rethinking the public sphere: a contribution to the critique of actually existing democracy. In: CALHOUN, Craig (ed.). Habermas and the public sphere. Cambridge, MA: MIT Press, 1992, p. 109–142.
[xvi] FERES JÚNIOR, João. Ensino e pesquisa em ciências sociais no Brasil: um retrato das desigualdades de gênero e raça. In: Mulheres, poder e ciência política. Campinas: Editora Unicamp, 2020, p. 167–196.
[xvii] CANDIDO, Marcia Rangel; DAFLON, Verônica Toste; FERES JÚNIOR, João. Cor e gênero no cinema comercial brasileiro: uma análise dos filmes de maior bilheteria. Revista do Centro de Pesquisa e Formação, v. 3, p. 116–135, 2016; e CAMPOS, Luiz Augusto; FERES JÚNIOR, João. “Globo, a gente se vê por aqui?” Diversidade racial nas telenovelas das últimas três décadas (1985–2014). Plural (USP), v. 23, p. 36–52, 2016.
[xviii] “Carta Pública ao Congresso Nacional: todos têm direitos iguais na República Democrática”. Rio de Janeiro, 30 maio 2006. Manifesto contra os PL 73/1999 e PL 3.198/2000, com 114 signatários. Texto integral disponível em: https://www.schwartzman.org.br/sitesimon/manifesto-sobre-as-propostas-de-politica-racial-para-o-brasil/
[xix] Só para citar alguns poucos: FERES JÚNIOR, João; DAFLON, Verônica Toste. A nata e as cotas raciais: genealogia de um argumento público. Opinião Pública, v. 21, p. 238–267, 2015; FERES JÚNIOR, João; CAMPOS, Luiz Augusto. O discurso freyreano sobre as cotas raciais: origem, difusão e decadência. In: Ação afirmativa em questão: Brasil, Estados Unidos, África do Sul e França. Rio de Janeiro: Pallas, 2013, p. 116–149; FERES JÚNIOR, João; CAMPOS, Luiz Augusto. Liberalismo igualitário e ação afirmativa: da teoria moral à política pública. Revista de Sociologia e Política, v. 21, p. 85–99, 2013; e FERES JR, João. De volta ao futuro: o que podemos concluir do debate acerca das cotas raciais. Revista Sinais Sociais, v. 11, p. 67–85, 2016.
1.
Em abril, um grupo de 53 professores e pesquisadores de diferentes universidades brasileiras se reuniu no Centro Maria Antonia, na USP, e produziu o manifesto “Em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica”.[i] O documento, que no momento em que escrevo este texto já conta com 471 signatários, diagnostica nas instituições públicas de ensino superior um “ambiente de exigência de conformidade ideológica, autocensura e intolerância ao dissenso”, e propõe três pilares para enfrentar o que chama de crise de reputação das universidades: neutralidade institucional, liberdade acadêmica e pluralismo.
A peça se apresenta como intervenção técnica e centrista, equidistante tanto do que classifica como ortodoxias internas quanto das tentativas de intervenção externa que se multiplicaram nos últimos anos no Brasil e nos Estados Unidos. É uma tentativa, em suma, de oferecer um caminho próprio – uma “terceira via” institucional para um problema que os autores tomam como real.
Conheço a maior parte dos colegas que originalmente assinaram o manifesto, e muitos deles são amigos pessoais. Mas isso não deve ser impedimento para que eu manifeste minha opinião, amplamente discordante daquela do documento, ainda mais porque o assunto é de suma relevância pública. Vou direto ao ponto: se lido com atenção, o manifesto replica uma sequência de falácias factuais que usa para justificar escolhas morais injustas, quando não internamente contraditórias. Os problemas que vejo são vários, mas podem ser classificados em duas categorias: os de ordem científica e os de ordem normativa, ou moral.
Começo pela ciência. A falha de partida do manifesto é se deixar seduzir pelo enquadramento da polarização ideológica como problema central da sociedade brasileira – agora aplicado às universidades – e, emendando uma segunda falácia, tratar essa polarização como se ela fosse simétrica. Para sustentar a tese, os autores mobilizam pesquisas da Quaest e do More in Common, instituições explicitamente comprometidas com a promoção desse diagnóstico da “polarização afetiva” e da “maioria silenciosa”, agenda que quase sempre redunda no esforço interpretativo de equiparar os polos.
Ora, é altamente problemática a tomada de pesquisas da Quaest – financiadas pelo banco de investimentos Genial e pela Globo – como fontes de dados científicos. Mesmo sem entrar nos meandros dos interesses dessas organizações na propagação de uma percepção de polarização simétrica, é fato que os dados dessas pesquisas nunca foram abertos para validação pública.
O mesmo se aplica ao More in Common, ONG cuja missão declarada é o combate à suposta polarização – ou, em suas próprias palavras, ajudar as sociedades a reconhecer que “o que têm em comum é mais forte do que o que as separa”. Basta ler os artigos e intervenções públicas dos líderes dessas organizações para constatar seu empenho em mostrar que há enorme polarização no Brasil e que ela é simétrica. Só que essas são inverdades.
2.
Não estou sozinho nesse diagnóstico contrário. Mario Fuks e Pedro Henrique Marques, com dados longitudinais do ESEB e do Lapop, concluem que a polarização ideológica brasileira é assimétrica, marcada pelo crescimento e pela radicalização da direita[ii] – enquanto, no campo oposto, o que se observa é o que André Singer chamou de moderação do lulismo.[iii] A mesma linha aparece nos estudos de Fuks, Ribeiro e Borba sobre o caminho que vai do antipetismo ao antipartidarismo generalizado e ao voto em Bolsonaro,[iv] e na obra fundamental de David Samuels e Cesar Zucco, Partisans, Antipartisans, and Nonpartisans,[v] que organiza o sistema partidário brasileiro em torno de uma única identidade ativa e ressonante – o petismo – e seu negativo socialmente assimétrico, o antipetismo. Análises quantitativas feitas por mim e colaboradores confirmam que a polarização é menor do que a propalada, fortemente assimétrica e dependente de assunto.[vi]
No registro qualitativo, Camila Rocha, em Menos Marx, mais Mises, documenta etnograficamente a formação da nova direita radical brasileira como processo sem contraparte simétrica no campo progressista.[vii] Pesquisas feitas no âmbito do Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública (LEMEP), em particular o Monitor do Debate Público (MDP) – que trabalha com grupos focais permanentes de bolsonaristas, indecisos centristas e lulistas –, mostram recorrentemente assimetria flagrante entre os polos e alta variação da polarização total a depender do assunto.[viii]
Outra evidência clara dessa assimetria está no nosso sistema partidário. As principais forças hoje são uma extrema direita que já se mostrou disposta a promover um golpe de Estado – inclusive planejando o assassinato de líderes eleitos e ministros do STF – e uma centro-esquerda que já governou o país por quase duas décadas, em pleno respeito às instituições democráticas. Contudo, os autores do manifesto, eles mesmos autoidentificados como acadêmicos, preferem comprar a versão midiática falaciosa da polarização simétrica, demonstrando pouco apreço pelo conhecimento científico produzido na própria área em que atuam.
3.
Os autores do manifesto são também omissos ao identificar seus adversários – não nomeiam nem a extrema direita bolsonarista, nem a esquerda radical universitária. Mas a omissão é apenas aparentemente simétrica: as condutas que o manifesto descreve em detalhe e contra as quais propõe protocolos institucionais – abaixo-assinados, notas de repúdio, denúncias em redes sociais, “enquadramento de argumentos acadêmicos como ofensas morais”, proteção da crítica a “políticas voltadas à promoção da igualdade” – são todas codificadas como práticas da esquerda radical universitária. Para bom entendedor, meia palavra basta.
Prefiro, aliás, o adjetivo “radical” para falar desses grupos, pois tal esquerda majoritariamente faz críticas ao status quo sem, ao mesmo tempo, propor a abolição das instituições. Lutam por expansão de direitos, e não pela abolição das instituições que os garantem. Do ponto de vista eleitoral isso é ainda mais claro: a imensa maioria dessas pessoas vota na centro-esquerda no primeiro turno e, mais ainda, no segundo.
Já a extrema direita tentou recentemente abolir o Estado democrático no país – basta lembrar do 8 de janeiro e da minuta golpista que motivou a denúncia da PGR contra Jair Bolsonaro e o núcleo do governo. Se lhes for dada a chance, abolem a universidade pública como a conhecemos, ou pelo menos os cursos de humanas que empregam a maioria dos signatários desse manifesto, e inclusive este que vos fala.
E isso não é especulação alarmista de minha parte. Basta lembrar das tentativas explícitas do governo Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022 – do anúncio de Weintraub de cortar verbas das universidades por “balbúrdia” (UnB, UFF, UFBA, abril de 2019) à proposta de redirecionar financiamento federal de filosofia e sociologia para áreas “de retorno imediato”. Ou seja, essas duas posições – esquerda radical universitária e extrema direita política – são radicalmente assimétricas em sua relação com as instituições. Mas esses mais novos adeptos da polarização calcificada não veem isso.
Há ainda outra falácia bastante preocupante. Os autores propagam uma ilação causal espúria, segundo a qual a suposta perda de pluralismo das universidades públicas teria contribuído para aumentar a sua rejeição frente à população. Como já sabemos, o alvo das críticas é a esquerda radical universitária, e o manifesto tenta culpá-la pela suposta perda de popularidade da universidade pública. Os autores, contudo, não se dão ao trabalho de explicar como essa mudança de opinião teria se dado. O problema é duplo: em primeiro lugar, a própria premissa da queda de popularidade carece de demonstração empírica; em segundo lugar, mesmo se a concedêssemos, a causalidade implícita seria insustentável.
4.
Comecemos pela premissa. Os próprios autores tratam a perda de popularidade como um fait accompli. Acontece que as séries longitudinais disponíveis mostram o contrário: as pesquisas de percepção pública da ciência conduzidas pelo CGEE/MCTI e, mais recentemente, pelo SoU_Ciência/Unifesp em parceria com o IDEIA Big Data registram aumento da confiança nos cientistas e nas universidades públicas brasileiras entre 2015 e 2022.[ix] Em 2015, jornalistas, médicos e líderes religiosos eram apontados como fontes mais confiáveis que cientistas; em 2022, cientistas de instituições públicas passaram a liderar, com 41,6%.
Ou seja, a confiança nas universidades subiu justamente no período em que a campanha de desautorização da ciência por parte do bolsonarismo foi mais virulenta – exatamente o oposto do que a ilação causal do manifesto sugere. Se há um número recente apontando 59% de baixa confiança na universidade pública,[x] ele requer explicação contextual; tomá-lo como ponto de chegada de uma trajetória descendente é cherry-picking, não diagnóstico. Como é possível fazer defesa da ciência e da universidade cometendo tamanho descuido?
Mas concedamos a premissa, apenas a título de argumento. Mesmo nesse caso, a causalidade implícita seria insustentável. Aqui o manifesto tropeça em outro problema empírico básico: a imensa maioria da população nunca pôs os pés numa universidade pública. Apenas cerca de um terço dos jovens entre 18 e 24 anos está matriculado no ensino superior (taxa de escolarização líquida de 19,9%, segundo o Censo da Educação Superior do INEP),[xi] e desses, apenas cerca de 19% (3,8% do total) estão na rede pública – os outros 81% frequentam instituições privadas, em sua imensa maioria cursos EaD.
Como então a opinião majoritária da população teria sido moldada por aquilo que ocorre nos campi públicos? É descabido imaginar que essa corrosão de legitimidade tenha sido produto da ação direta dos coletivos da esquerda radical, pois esses operam intramuros. Mas os professores não explicam essa conexão mágica.
Se há uma causa patente e direta de qualquer ressentimento popular contra a universidade pública, ela é obra da extrema direita e de sua campanha sistemática de desautorização da ciência. Não é preciso ir longe: o ataque de Abraham Weintraub à “balbúrdia”, o congelamento de orçamentos do CNPq e da CAPES, a proposta do Future-se, a perseguição a docentes via Escola Sem Partido e suas variantes, e, no topo da lista, a campanha antivacina e anticientífica de Bolsonaro e seguidores durante a pandemia.
Para quem gosta de anedota, o exemplo recente de Túlio Maravilha, em fevereiro de 2026, ilustra o ponto à perfeição: o ex-jogador e a esposa proibiram a filha, aprovada em Nutrição na UFRJ e em Odontologia na UERJ, de se matricular em qualquer das duas, justificando a decisão pela necessidade de preservar “valores familiares”, porque “a universidade particular se alinha mais aos nossos pensamentos e princípios”.
5.
A fala da família Maravilha ecoa um discurso muito maior, o de que as universidades ensinam os jovens a serem homossexuais, ateus e a desrespeitarem os valores da família. O contingente que sustenta essa visão é, em sua imensa maioria, bolsonarista, com forte componente neopentecostal. Ao comprarem a tese inverídica de que a esquerda radical universitária é culpada pela perda de popularidade da universidade pública, os autores do manifesto tristemente dão crédito a esses argumentos insidiosos, validando o preconceito e a intolerância. É o exemplo claro em que um descuido da razão científica conduz a um descuido grave de ordem moral.
Vejamos agora os problemas de ordem normativa, ou moral, a começar pela doutrina da “neutralidade institucional” defendida no manifesto. Ela não é, como se pretende, a ausência de uma posição moral. É ela mesma uma posição moral substantiva – e uma posição que, levada às últimas consequências, teria silenciado a universidade pública brasileira em todos os momentos em que ela mais precisou falar.
A doutrina é importada, sem que os autores o digam, dos Chicago Principles e do Kalven Report,[xii] produzidos pela Universidade de Chicago em outro contexto histórico e como resposta a outro tipo de problema. Aplicá-la sem mediação ao Brasil de 2026 produz absurdos imediatos. Pelo princípio da “neutralidade institucional”, as universidades brasileiras não poderiam ter emitido nota institucional alguma sobre o assassinato de Marielle Franco, ex-aluna da UFF, em 2018. Não poderiam ter se manifestado contra o ataque de Abraham Weintraub às federais em 2019.
Não poderiam ter se posicionado contra a campanha antivacina e o negacionismo científico do governo de Jair Bolsonaro durante a pandemia, quando 700 mil brasileiros morreram. Não poderiam ter condenado a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 – que, é bom lembrar, contou com participação documentada de bolsonaristas que circulavam nos campi, e cujo desfecho, caso vitorioso, teria abolido a universidade pública como a conhecemos. A doutrina, aplicada consistentemente, transformaria o silêncio institucional em virtude precisamente quando o silêncio significa cumplicidade.
O ponto é antigo e foi formulado com clareza por Karl Popper em A sociedade aberta e seus inimigos:[xiii] a tolerância ilimitada conduz ao desaparecimento da tolerância. O paradoxo da tolerância exige que sociedades democráticas se reservem o direito de não tolerar movimentos que pregam a intolerância e a destruição das condições do jogo democrático.
6.
Também é falsa a premissa de que existe uma universidade neutra. A universidade pública toma posições todos os dias – quando contrata professores em vez de outros, quando aprova currículos em vez de outros, quando financia pesquisas em vez de outras, quando ensina evolução em vez de criacionismo, quando considera o fato da Terra esférica como algo fora de “controvérsia legítima”. A “neutralidade” exigida pelo manifesto, dirigida contra a esquerda radical universitária, não é uma neutralidade real, mas uma seletividade: ativa-se exclusivamente em torno das questões em que a direita tem interesse no silêncio.
A proteção assimétrica que o manifesto confere à crítica de políticas afirmativas indica qual é o conteúdo moral concreto do “pluralismo” que ele defende. Ou melhor, deixa claro que não se trata de verdadeiro pluralismo, mas de posição substantiva específica. A passagem mais reveladora do documento é aquela em que os autores defendem explicitamente um espaço para o que chamam de “expressão de posições críticas sobre movimentos sociais e políticas públicas – inclusive aquelas voltadas à promoção da igualdade”.
A formulação não é casual nem ilustrativa. É o caso paradigmático que o manifesto está disposto a proteger. Não há, em nenhum lugar do texto, proteção equivalente ao direito de defender essas mesmas políticas contra-ataques. Não há proteção à pesquisa sobre desigualdade racial, à docente negra que ministra disciplina sobre racismo institucional. Quando o manifesto fala em “ortodoxias” e “ofensas morais”, os exemplos que mobiliza vão sempre numa direção; quando fala em “argumentos acadêmicos legítimos”, os exemplos vão sempre na direção contrária. O pluralismo, aqui, é direcional.
Tratar a demanda por status moral igual de grupos historicamente subalternizados como uma “controvérsia” em pé de igualdade com a sua negação é, em si, uma forma de negação do reconhecimento. Não há dois lados legítimos na “controvérsia” sobre se brasileiras e brasileiros negros devem ter acesso igualitário ao ensino superior; sobre se estudantes trans devem ser tratados pelo seu nome social; sobre se mulheres têm direito a ambientes acadêmicos seguros. Enquadrar essas questões como “controvérsias” nas quais ambas as visões devem ser ensinadas não é pluralismo – é posicionar-se substantivamente de um lado da disputa, com a vantagem retórica de não ter de admiti-lo.
É a versão acadêmica do que a literatura sobre raça nos Estados Unidos chama de both-sidesism – o “ambos os lados” que durante décadas blindou as universidades do sul norte-americano contra a integração racial. Em termos liberal-igualitários – para usar o vocabulário de Rawls e Dworkin com o qual o manifesto também flerta –, o status moral igual dos cidadãos pertence ao núcleo dos essenciais constitucionais: aquilo que o liberalismo igualitário retira da mesa das negociações pluralistas.[xiv] Ou seja, o manifesto não consegue passar nem mesmo no teste rawlsiano que parece pressupor.
7.
Há, por fim, uma incoerência performativa que merece registro. O manifesto comete, em forma, exatamente aquilo que prescreve às administrações universitárias não fazerem. Trata-se de uma nota pública coletiva, emitida por um grupo organizado, sem apuração rigorosa de casos concretos, fazendo diagnóstico ampliado sobre uma comunidade inteira de instituições, antes de qualquer “garantia da ampla defesa” daqueles cujas práticas são o alvo, velado mais óbvio, da crítica.
É a “condenação sumária” antes da “apuração técnica e isenta dos fatos”, ou pior, baseada em fatos espúrios, como mostrei acima. Que maneira estranha de defender a universidade e a ciência. Os signatários querem que outros se contenham daquilo que eles próprios estão fazendo.
Não se trata de uma incoerência cosmética. Ela revela a estrutura efetiva da exigência de “neutralidade institucional”: é uma demanda unilateral de silenciamento dirigida aos “outros”, enquanto os demandantes seguem falando. A neutralidade é exigida do administrador, do reitor, da direção do departamento, do conselho universitário; não dos professores titulares signatários, dos artigos que já estão publicando em jornais e revistas de perfil conservador que os recebem de braços abertos, das entrevistas que darão sobre o manifesto etc.
Emprestando um conceito de Nancy Fraser,[xv] o que se exige aqui é a dissolução dos contra-públicos formados dentro da universidade nos últimos vinte anos – coletivos negros, indígenas, feministas, LGBTQIA+, todas formações que se constituíram justamente devido à percepção de que a esfera pública oficial da universidade não acolhia suas demandas em pé de igualdade. A “neutralidade institucional” do manifesto é, na prática, um pedido para que esses contra-públicos sejam desautorizados em favor de uma esfera pública oficial idealizada que nunca existiu – e cuja inexistência, aliás, foi a razão de ser dos contra-públicos. É um movimento de restauração de uma idealização conservadora, não de neutralidade.
Por todos esses motivos, considero o manifesto uma intervenção politicamente regressiva, ainda que vestida com a roupagem do tecnicismo institucional e da preocupação com a reputação pública das universidades. Mas a reputação que se constrói sobre o silenciamento dos mais vulneráveis, sobre a recusa em distinguir democracia de golpismo, e sobre a equivalência moral entre defensores e detratores da igualdade não é uma reputação que valha a pena reconstruir.
A universidade pública – patrimônio dos brasileiros, como bem diz o próprio manifesto – vale a pena defender; mas defendê-la é outra coisa. É reconhecer a assimetria do ataque que ela sofre, é nomear quem a ameaça, é traçar um cordão sanitário contra o golpismo dentro e fora dos seus muros, e é proteger ativamente quem hoje é silenciado dentro e fora dela. Tudo o oposto do que o manifesto propõe.
8.
Eu poderia ir além e explorar a composição de gênero entre os 53 signatários originais – 70% são homens, proporção bem acima da paridade que temos entre professores de pós-graduação de sociologia e antropologia, como mostra estudo que fiz há poucos anos.[xvi] Poderia também focar no fato de que, utilizando uma metodologia que combina dados de autodeclaração e heteroclassificação, que desenvolvemos no GEMAA,[xvii] computei uma proporção de signatários brancos de 96%. Mas não vou entrar nesses meandros, pois o que está dito no manifesto já basta.
É claro que há exageros e aberrações nas ações de coletivos da esquerda radical universitária. É claro que os principais alvos dessas ações são frequentemente as pessoas com mais poder na universidade, particularmente os professores, em especial os titulares, como eu, pois esses concentram o maior poder institucional. Mas, pelo menos para aqueles que são realmente progressistas, e não se escondem por trás da credencial universitária para defenderem interesses outros, é preciso exercitar as virtudes cardinais da justiça e da prudência (no sentido forte de Phronesis) e enxergar algumas coisas bastante óbvias.
Negros e negras estavam praticamente alijados da universidade pública e do ensino superior em geral até a introdução das cotas, na primeira metade deste século. Até recentemente, mulheres sofriam em silêncio todo tipo de discriminação e tratamento desrespeitoso, simplesmente por serem mulheres. Pessoas LGBT+ idem, e as pessoas trans recebiam um tratamento, por parte das instituições do Estado, que as reduzia à invisibilidade. Poderia me estender nessa lista, mas o fato é que, com a entrada desses grupos no espaço universitário, era natural que demandassem mudanças no status quo, desde sempre dominado por homens brancos; da mesma maneira como é esperado que os homens e mulheres brancos de classe média nessas posições naturalizem um status quo excludente e cego a essas diferenças.
Contudo, nós, cientistas sociais, filósofos e humanistas, não podemos nos dar a esse “luxo” conservador. Afinal, a crítica é o nosso modus operandi, o fulcro da nossa profissão. Não há soluções simples para várias das demandas e conflitos gerados nesse processo, mas, na prática do pluralismo de verdade, a única saída para todos nós é a conversa, o esforço do entendimento mútuo e a mediação de conflitos e não apelos vagos, mas ameaçadores, de censura institucional.
Há exatamente vinte anos, um grupo de 114 professores universitários, artistas e publicistas assinaram um manifesto intitulado “Todos têm direitos iguais na República Democrática”,[xviii] contra as cotas raciais que começavam a ser implantadas nas universidades públicas de nosso país. Aquele texto estava eivado de erros factuais, falácias científicas, conservadorismo moral gritante e catastrofismos futurológicos que se mostraram completamente infundados, como eu e meus colaboradores do GEMAA, e tantas outros colegas, não nos cansamos de mostrar em inúmeros trabalhos.[xix]
Alguns daqueles signatários se arrependeram, ao longo dos anos, de terem empenhado sua reputação naquela peça. Fizeram um mea culpa pública. Outros simplesmente se calaram. E agora surge esse novo documento, também eivado de falácias factuais e morais, identificadas exaustivamente aqui, como uma atualização daquela agenda regressiva que hoje muitos já imaginavam enterrada – pelo menos no espaço universitário.
Para piorar, fazem isso em contexto no qual a universidade tem de fato sua legitimidade atacada pela extrema direita e pelo obscurantismo religioso, e em meio a um ano eleitoral em que uma das forças políticas mais competitivas é exatamente essa extrema direita anticientífica, anti-universidade pública e antidemocrática. Francamente, é estarrecedor.
*João Feres Júnior é professor titular de ciência política do IESP-UERJ. Coordena o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) e o Laboratório de Estudos de Mídia e Espaço Público (LEMEP).
Notas
[i] EM DEFESA DO PLURALISMO E DA LIBERDADE ACADÊMICA. Manifesto. São Paulo: Centro Maria Antonia/USP, abril de 2026. Disponível em: https://pluralismoacademico.org/.
[ii] FUKS, Mario; MARQUES, Pedro Henrique. Polarização e contexto: medindo e explicando a polarização política no Brasil. Opinião Pública, Campinas, v. 28, n. 3, p. 560–593, 2022. DOI: 10.1590/1807-01912022283560
[iii] SINGER, André. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
[iv] FUKS, Mario; RIBEIRO, Ednaldo; BORBA, Julian. From antipetismo to generalized antipartisanship: the impact of rejection of political parties on the 2018 vote for Bolsonaro. Brazilian Political Science Review, São Paulo, v. 15, n. 1, e0005, 2021. DOI: 10.1590/1981-3821202100010003. Ver também: FUKS, Mario; RIBEIRO, Ednaldo; BORBA, Julian. Antipartisanship and political tolerance in Brazil. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, v. 28, n. 76, p. 1–18, 2020. DOI: 10.1590/1678-987320287604.
[v] SAMUELS, David J.; ZUCCO, Cesar. Partisans, antipartisans, and nonpartisans: voting behavior in Brazil. Cambridge: Cambridge University Press, 2018.
[vi] FERES JÚNIOR, João. Da segurança à pauta LGBT: em meio à polarização, veja os temas que mais unem ou afastam lulistas e bolsonaristas. O Globo, Pulso, 2024. Disponível em: https://oglobo.globo.com/blogs/pulso/post/2024/07/da-seguranca-a-pauta-lgbt-em-meio-a-polarizacao-veja-os-temas-que-mais-unem-ou-afastam-lulistas-e-bolsonaristas.ghtml.
[vii] ROCHA, Camila. Menos Marx, mais Mises: o liberalismo e a nova direita no Brasil. São Paulo: Todavia, 2021.
[viii] FERES JÚNIOR, João; PAULA, Carolina de. Monitor do Debate Público. Rio de Janeiro: LEMEP/IESP-UERJ, 2024 –. Disponível em: https://lemep.org.br. FERES JÚNIOR, João; PAULA, Carolina Almeida de. O que é o bolsonarismo? Muito além da abordagem sociológica. Dados – Revista de Ciências Sociais, v. 68, p. e20250132–46, 2025.
[ix] CENTRO DE GESTÃO E ESTUDOS ESTRATÉGICOS (CGEE). Percepção pública da ciência e tecnologia no Brasil. Brasília: CGEE/MCTI, edições de 2010, 2015 e 2019. Disponível em: https://www.cgee.org.br/percepcaopublicact
Para a edição mais recente, ver SOU_CIÊNCIA – UNIFESP; IDEIA BIG DATA. Confiança dos brasileiros em cientistas e universidades públicas. São Paulo, mar. 2022. Disponível em: https://souciencia.unifesp.br/.
[x]
[xi] INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP). Censo da Educação Superior 2024: notas estatísticas. Brasília: INEP/MEC, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/pesquisas-estatisticas-e-indicadores/censo-da-educacao-superior.
[xii] KALVEN COMMITTEE. Report on the University’s role in political and social action. Chicago: University of Chicago, 1967. Disponível em: https://provost.uchicago.edu/sites/default/files/documents/reports/KalvenRprt_0.pdf. Para os Chicago Principles, ver: COMMITTEE ON FREEDOM OF EXPRESSION. Report. Chicago: University of Chicago, 2014. Disponível em: https://provost.uchicago.edu/sites/default/files/documents/reports/FOECommitteeReport.pdf
[xiii] POPPER, Karl R. A sociedade aberta e seus inimigos. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1974. (Original: The open society and its enemies. London: Routledge, 1945.)
[xiv] RAWLS, John. O liberalismo político. Trad. Dinah de Abreu Azevedo. São Paulo: Ática, 2000. Sobre os “essenciais constitucionais”, ver Conferência IV. Para a defesa correlata da igualdade como princípio soberano, ver DWORKIN, Ronald. A virtude soberana: a teoria e a prática da igualdade. Trad. Jussara Simões. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
[xv] FRASER, Nancy. Rethinking the public sphere: a contribution to the critique of actually existing democracy. In: CALHOUN, Craig (ed.). Habermas and the public sphere. Cambridge, MA: MIT Press, 1992, p. 109–142.
[xvi] FERES JÚNIOR, João. Ensino e pesquisa em ciências sociais no Brasil: um retrato das desigualdades de gênero e raça. In: Mulheres, poder e ciência política. Campinas: Editora Unicamp, 2020, p. 167–196.
[xvii] CANDIDO, Marcia Rangel; DAFLON, Verônica Toste; FERES JÚNIOR, João. Cor e gênero no cinema comercial brasileiro: uma análise dos filmes de maior bilheteria. Revista do Centro de Pesquisa e Formação, v. 3, p. 116–135, 2016; e CAMPOS, Luiz Augusto; FERES JÚNIOR, João. “Globo, a gente se vê por aqui?” Diversidade racial nas telenovelas das últimas três décadas (1985–2014). Plural (USP), v. 23, p. 36–52, 2016.
[xviii] “Carta Pública ao Congresso Nacional: todos têm direitos iguais na República Democrática”. Rio de Janeiro, 30 maio 2006. Manifesto contra os PL 73/1999 e PL 3.198/2000, com 114 signatários. Texto integral disponível em: https://www.schwartzman.org.br/sitesimon/manifesto-sobre-as-propostas-de-politica-racial-para-o-brasil/
[xix] Só para citar alguns poucos: FERES JÚNIOR, João; DAFLON, Verônica Toste. A nata e as cotas raciais: genealogia de um argumento público. Opinião Pública, v. 21, p. 238–267, 2015; FERES JÚNIOR, João; CAMPOS, Luiz Augusto. O discurso freyreano sobre as cotas raciais: origem, difusão e decadência. In: Ação afirmativa em questão: Brasil, Estados Unidos, África do Sul e França. Rio de Janeiro: Pallas, 2013, p. 116–149; FERES JÚNIOR, João; CAMPOS, Luiz Augusto. Liberalismo igualitário e ação afirmativa: da teoria moral à política pública. Revista de Sociologia e Política, v. 21, p. 85–99, 2013; e FERES JR, João. De volta ao futuro: o que podemos concluir do debate acerca das cotas raciais. Revista Sinais Sociais, v. 11, p. 67–85, 2016.

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