Por TALES AB’SÁBER*
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A fusão entre soberania estatal e o poder das empresas de tecnologia consolida um regime de vigilância total onde cada cidadão se torna um alvo potencial
1.
Tecnologia e expansão mundial da acumulação com genocídio se movem articulados desde o tempo em que uma moderna caravela portuguesa, e a cartografia precisa dos mares, dos continentes e dos céus, projetaram por três continentes a guerra colonial, a escravização de populações, a monocultura intensiva, com a correlata ruína ambiental, realizando a grande acumulação dos valores do negócio, planejado e financiado, na Europa.
Toda expansão capitalista é uma lesão, reificação, nos mundos humanos, mesmo que ela não seja mais percebida, mas desejada. Como se tornou óbvio, a expansão da racionalização da extração de valor é uma objetificação instrumental do mundo natural, para a produção ordenada de poder, como prazer privatizado.
O Techno-fascismo de agora, a consciência política de empresas que se tornaram simplesmente donas do espaço público mundial e de toda nossa informação pessoal e civil, amalgamadas ao novo tipo de Estado imperial que emerge, está finalmente em condição técnica de abrir guerra a qualquer um, individualizando seus alvos em massa, tendo como alvo de fato a sociedade civil opositora.
Esse novo “Estado das direitas”, que desconhece contrato social, mas opera de modo total a gestão em redes desejadas, de multiplicação de mercado e de securitização social, é o núcleo de domínio de proprietários bilionários do controle da tecnologia junto à megaempresários da especulação total, operadores do capital fictício mundial sobre variadas formas. Sobre a forma da utilização do Estado para ganho direto e exclusivo do grupo, e sobre a forma da multiplicação da cultura ubíqua da imagem e da excitação esquizo paranóica, das massas do encantamento e da paralização diante do império mundial da mercadoria.
Tal Estado, já apropriado por sua mínima classe-bilionária, é um promotor ativo de guerra mundial, como ele mesmo se declara, e do fim da democracia liberal, como reitera, extinguindo por princípio qualquer contrato de reconhecimento em sua esfera de soberania. As armas, junto com as redes mundiais de gozo e de informação de segurança, são o seu contrato social.
É o Estado de gestão de sociedades inteiramente fragmentadas, reduzidas à vida nua da sobrevivência individual, das mônadas arrasadas da precarização e uberização moduladas pelo fluxo infinito da imagem, a indústria cultural ad hoc de cada celular, sem os quais simplesmente não se vive. Como se tem observado, não há mais nenhuma necessidade ideológica de se defender democracia, mesmo que falsa, ou direitos humanos, mesmo que caricatos. As práticas existentes e correntes da vida da cultura, mergulho no fluxo de imagem, seu culto permanente e a psico-política dos algoritmos, dão perfeitamente conta da liquidação dos princípios iluministas liberais da modernidade.
2.
Estamos em novo estágio da produção imperial de valor e da indústria generalizada da informação para a guerra generalizada da expropriação. Alcançamos a pureza da produção de valor, e seus circuitos de poder, técnica e Estado, em contraste direto com todo o vivo. Capital, polícia e política de classe, sempre apontaram os fuzis para os eleitos da política contra as suas contradições e contra todo excluído da sua vida social. Capitalismo e sua acumulação primitiva – expropriação direta – e extermínio populacional, por guerras, escravidão e aprisionamento, sempre se produziram juntos.
Agora, com o controle total da informação sobre cada um de nós, e a insistência extrema no uso privado e acumulador de toda riqueza mundial produzida, devemos nos tornar todos, cada um, um alvo daquela mesma pulsão primordial. A sociologia geopolítica do tempo é a da multiplicação dos alvos, podendo por técnica de previsão chagar ao nível das mônadas.
Há técnica e há desejo no poder nessa direção, de programação da extinção, como nova indústria da nova concentração monárquica da decisão sobre as vidas e as mortes. Como a terra e o ambiente não importam em nada para a máquina infinita da determinação técnica sobre como deve ser o mundo, as vidas humanas, excedentes, custosas ou excêntricas, também não importam nada.
Só há um tipo de cidadão a ser mantido vivo, junto a limpeza étnica geral da técnica universal: o que gere algum valor, para a acumulação do boarding decisivo. A mesma flexibilidade cultural programada da dissolução da política e da negatividade da consciência de classes do trabalho mundial, pelas mesmas máquinas do império da imagem sem lastro, e integração no consumo universal como único ato de consciência, permite a invenção administrada permanentemente desenhada, de propaganda fascista, de “nuvens de inimigos”: conjuntos sociais a serem configurados e “neutralizados”, que aparecem para a complacência sem tensão de uma opinião pública transformada em espectador.
3.
Gaza, Venezuela, Irã, para o “Estado das direitas”, estão em qualquer lugar. O neofascismo é a decisão mundial, tecnicamente mediada por empresas a quem entregamos nossas vidas – o desejo do que desejamos – sobre a vida e a morte, de cada um de nós, para a manutenção da reprodução do capital hiper concentrado. Esse dinheiro, como sempre, necessita da guerra para crescer, e a guerra hoje é invenção permanente de guerra, em qualquer ponto, em qualquer lugar, contra qualquer um.
Assim, surge a consciência neofascista explícita, da fusão sem fronteiras de CEOs de gestão de Inteligência artificial do mundo com o pseudo monarca do Estado em planejamento de guerra permanente. Guerra estendida, na mesma lógica unificada de uma mesma gestão e produção de alvos para qualquer vida, de mercado ou de extermínio, societária ou geopolítica: produção permanente de “nuvens de inimigos” como missão e justificação da indústria trilionária do extermínio.
Como qualquer um pode ler, escrito com todas as letras e sem faltar nenhuma, no manifesto techno-fascista da Palantir Technologies, a nova CIA, o novo FBI, a nova General Motors, o novo secretário de Estado da expropriação direta de valor, e de vidas:
(i) As empresas de controle e rastreamento da vida em redes, sob a forma da Inteligência Artificial, devem servir ao Estado. (ii) Elas devem gerar a informação necessária para o Estado intervencionista cumprir suas metas, o que garante a civilização, aquela da própria empresa. (iii) Elas devem se acoplar à ideia de segurança, em combate permanente, contra territórios e qualquer um. (iv) A democracia liberal está encerrada.
(v) Não cabe nenhuma crítica ao poder concentrado e absoluto. Do dinheiro e de bilionários que se apropriaram do Estado. (vi) O mundo é guerra permanente, técnica e imposição de supremacia são uma coisa só, em todo lugar. (vii) A posição da empresa-Estado é a superiora, justificada pela posse técnica: toda outra cultura, reconhecimento, diferença, modo, é alvo, pode ser perseguida e exterminada, com a mediação imediata das empresas de Inteligência artificial.
(viii) A riqueza absoluta, a posse da tecnologia e o Estado de extermínio, são o a verdade do progresso e da civilização. Qualquer tensão, sombra, crítica ou luta por outra vida, será rastreada e deve ser anulada. Este é o sentido verdadeiro da Inteligência artificial.
*Tales Ab’Saber é professor do Departamento de Filosofia da Unifesp. Autor, entre outros livros, de O soldado antropofágico (Hedra) [https://amzn.to/4ay2e2g]
1.
Tecnologia e expansão mundial da acumulação com genocídio se movem articulados desde o tempo em que uma moderna caravela portuguesa, e a cartografia precisa dos mares, dos continentes e dos céus, projetaram por três continentes a guerra colonial, a escravização de populações, a monocultura intensiva, com a correlata ruína ambiental, realizando a grande acumulação dos valores do negócio, planejado e financiado, na Europa.
Toda expansão capitalista é uma lesão, reificação, nos mundos humanos, mesmo que ela não seja mais percebida, mas desejada. Como se tornou óbvio, a expansão da racionalização da extração de valor é uma objetificação instrumental do mundo natural, para a produção ordenada de poder, como prazer privatizado.
O Techno-fascismo de agora, a consciência política de empresas que se tornaram simplesmente donas do espaço público mundial e de toda nossa informação pessoal e civil, amalgamadas ao novo tipo de Estado imperial que emerge, está finalmente em condição técnica de abrir guerra a qualquer um, individualizando seus alvos em massa, tendo como alvo de fato a sociedade civil opositora.
Esse novo “Estado das direitas”, que desconhece contrato social, mas opera de modo total a gestão em redes desejadas, de multiplicação de mercado e de securitização social, é o núcleo de domínio de proprietários bilionários do controle da tecnologia junto à megaempresários da especulação total, operadores do capital fictício mundial sobre variadas formas. Sobre a forma da utilização do Estado para ganho direto e exclusivo do grupo, e sobre a forma da multiplicação da cultura ubíqua da imagem e da excitação esquizo paranóica, das massas do encantamento e da paralização diante do império mundial da mercadoria.
Tal Estado, já apropriado por sua mínima classe-bilionária, é um promotor ativo de guerra mundial, como ele mesmo se declara, e do fim da democracia liberal, como reitera, extinguindo por princípio qualquer contrato de reconhecimento em sua esfera de soberania. As armas, junto com as redes mundiais de gozo e de informação de segurança, são o seu contrato social.
É o Estado de gestão de sociedades inteiramente fragmentadas, reduzidas à vida nua da sobrevivência individual, das mônadas arrasadas da precarização e uberização moduladas pelo fluxo infinito da imagem, a indústria cultural ad hoc de cada celular, sem os quais simplesmente não se vive. Como se tem observado, não há mais nenhuma necessidade ideológica de se defender democracia, mesmo que falsa, ou direitos humanos, mesmo que caricatos. As práticas existentes e correntes da vida da cultura, mergulho no fluxo de imagem, seu culto permanente e a psico-política dos algoritmos, dão perfeitamente conta da liquidação dos princípios iluministas liberais da modernidade.
2.
Estamos em novo estágio da produção imperial de valor e da indústria generalizada da informação para a guerra generalizada da expropriação. Alcançamos a pureza da produção de valor, e seus circuitos de poder, técnica e Estado, em contraste direto com todo o vivo. Capital, polícia e política de classe, sempre apontaram os fuzis para os eleitos da política contra as suas contradições e contra todo excluído da sua vida social. Capitalismo e sua acumulação primitiva – expropriação direta – e extermínio populacional, por guerras, escravidão e aprisionamento, sempre se produziram juntos.
Agora, com o controle total da informação sobre cada um de nós, e a insistência extrema no uso privado e acumulador de toda riqueza mundial produzida, devemos nos tornar todos, cada um, um alvo daquela mesma pulsão primordial. A sociologia geopolítica do tempo é a da multiplicação dos alvos, podendo por técnica de previsão chagar ao nível das mônadas.
Há técnica e há desejo no poder nessa direção, de programação da extinção, como nova indústria da nova concentração monárquica da decisão sobre as vidas e as mortes. Como a terra e o ambiente não importam em nada para a máquina infinita da determinação técnica sobre como deve ser o mundo, as vidas humanas, excedentes, custosas ou excêntricas, também não importam nada.
Só há um tipo de cidadão a ser mantido vivo, junto a limpeza étnica geral da técnica universal: o que gere algum valor, para a acumulação do boarding decisivo. A mesma flexibilidade cultural programada da dissolução da política e da negatividade da consciência de classes do trabalho mundial, pelas mesmas máquinas do império da imagem sem lastro, e integração no consumo universal como único ato de consciência, permite a invenção administrada permanentemente desenhada, de propaganda fascista, de “nuvens de inimigos”: conjuntos sociais a serem configurados e “neutralizados”, que aparecem para a complacência sem tensão de uma opinião pública transformada em espectador.
3.
Gaza, Venezuela, Irã, para o “Estado das direitas”, estão em qualquer lugar. O neofascismo é a decisão mundial, tecnicamente mediada por empresas a quem entregamos nossas vidas – o desejo do que desejamos – sobre a vida e a morte, de cada um de nós, para a manutenção da reprodução do capital hiper concentrado. Esse dinheiro, como sempre, necessita da guerra para crescer, e a guerra hoje é invenção permanente de guerra, em qualquer ponto, em qualquer lugar, contra qualquer um.
Assim, surge a consciência neofascista explícita, da fusão sem fronteiras de CEOs de gestão de Inteligência artificial do mundo com o pseudo monarca do Estado em planejamento de guerra permanente. Guerra estendida, na mesma lógica unificada de uma mesma gestão e produção de alvos para qualquer vida, de mercado ou de extermínio, societária ou geopolítica: produção permanente de “nuvens de inimigos” como missão e justificação da indústria trilionária do extermínio.
Como qualquer um pode ler, escrito com todas as letras e sem faltar nenhuma, no manifesto techno-fascista da Palantir Technologies, a nova CIA, o novo FBI, a nova General Motors, o novo secretário de Estado da expropriação direta de valor, e de vidas:
(i) As empresas de controle e rastreamento da vida em redes, sob a forma da Inteligência Artificial, devem servir ao Estado. (ii) Elas devem gerar a informação necessária para o Estado intervencionista cumprir suas metas, o que garante a civilização, aquela da própria empresa. (iii) Elas devem se acoplar à ideia de segurança, em combate permanente, contra territórios e qualquer um. (iv) A democracia liberal está encerrada.
(v) Não cabe nenhuma crítica ao poder concentrado e absoluto. Do dinheiro e de bilionários que se apropriaram do Estado. (vi) O mundo é guerra permanente, técnica e imposição de supremacia são uma coisa só, em todo lugar. (vii) A posição da empresa-Estado é a superiora, justificada pela posse técnica: toda outra cultura, reconhecimento, diferença, modo, é alvo, pode ser perseguida e exterminada, com a mediação imediata das empresas de Inteligência artificial.
(viii) A riqueza absoluta, a posse da tecnologia e o Estado de extermínio, são o a verdade do progresso e da civilização. Qualquer tensão, sombra, crítica ou luta por outra vida, será rastreada e deve ser anulada. Este é o sentido verdadeiro da Inteligência artificial.
*Tales Ab’Saber é professor do Departamento de Filosofia da Unifesp. Autor, entre outros livros, de O soldado antropofágico (Hedra) [https://amzn.to/4ay2e2g]

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