Pages

Os impasses da greve na USP

Do A Terra É Redonda, 27 de maio 2026
Por ROSA ROSA GOMES & LINCOLN SECCO*



Imagem: Rovena Rosa/ Agência Brasil

A intransigência institucional e a lógica empreendedora que mercantilizou o trabalho docente esbarram na mobilização dos estudantes da USP pela democratização real do fundo público

“Essa competitividade é uma valorização do empreendedorismo na universidade, entendido no sentido econômico mesmo: é aquele [professor] que sabe investir. E onde você investe? Você investe em si mesmo. O pesquisador se torna um investidor. É como se fossem várias microempresas competindo entre si”
(Franklin Leopoldo e Silva).

Depois de mais de um mês de greve estudantil, a crise da USP atingiu seu clímax: perante a intransigência da reitoria, a própria comissão de mediação criada pelo reitor demitiu-se e a Associação dos Docentes da USP (Adusp) decretou greve.

Os estudantes chamam a atenção para uma série de problemas antigos e novos: remuneração, fonte das receitas, autonomia universitária etc. Agora, o mais premente é a permanência estudantil. O gasto total necessário para igualar a bolsa PAPFE (Programa de apoio à Permanência e Formação Estudantil) ao salário mínimo paulista seria o equivalente a 3,5% do orçamento, mas nem mesmo uma contraproposta foi oferecida aos estudantes. A Reitoria continua agarrada à mesma ausência de propostas do início e à prisão mental das fraseologias de “não há dinheiro” ou “não é possível mexer no orçamento”, quando o que se vê são recursos invejáveis.[i]

Universidade e sociedade

A universidade mimetiza parcialmente a sociedade. Na sociedade como um todo a relação entre as diversas classes é condicionada em primeiro lugar pela proporção em que se divide o valor adicionado no processo produtivo entre capitalistas e trabalhadores produtivos; em segundo lugar, pela proporção em que se dividem as diversas partes da mais valia (lucro, juros, renda fundiária, impostos etc).[ii] No primeiro caso, a disputa é diretamente travada entre trabalhadores e empresários. No segundo caso (a luta pelo orçamento), todas as classes de trabalhadores, produtivos ou não, empregados ou desempregados, disputam o orçamento público contra os interesses privatistas.

O orçamento da universidade é derivado dos tributos, deduzidos da mais-valia social, e dos impostos pagos pelos trabalhadores. Uma vez que a universidade cumpre uma função social e também ela é composta de pessoas de classes sociais distintas, ele é disputado. Em cada uma das três categorias (estudantes, funcionários e docentes) há pessoas de diferentes níveis de renda. O aumento salarial de docentes e servidores técnico-administrativos melhora o serviço público oferecido à sociedade.

No caso dos servidores técnico-administrativos, há uma diferença em relação aos docentes. Independentemente do comportamento individual, o trabalho da categoria de funcionários é aquele que garante os meios para que a USP realize suas finalidades de ensino, pesquisa e extensão. Nesse sentido, suas conquistas são as que mais se aproximam do interesse geral depois dos estudantes. Funcionários, em geral, não assumem cargos de direção, não podem ter projetos de pesquisa e nem bolsas. Costuma-se dizer que tudo na USP exige assinatura de um professor.

No caso dos docentes, o empreendedorismo e a dissociação entre ensino e pesquisa à qual Franklin Leopoldo e Silva já chamava a atenção,[iii] tiveram duas consequências: a sala de aula ficou relegada a segundo plano e se tornou um estorvo para muitos professores. Para pesquisar, o docente busca todos os meios para se afastar do ensino, pois este não lhe rende pontuação nas métricas de avaliação. Em segundo lugar, o docente se tornou um gestor de bolsas, fundos, recursos de agências de fomento, contratos com empresas, acordos de cooperação, além de competir com os colegas, gerir sua carreira e exigir de funcionários que trabalhem em apoio ao indivíduo, quando muito a um grupo e não à instituição.

Por esses motivos, há tempos que grande parte da categoria docente se afastou objetivamente da função social da Universidade.[iv] Claro que há professores comprometidos e a Adusp é uma histórica defensora do caráter público da universidade.

E no entanto, trabalham

Em relação à greve estudantil, há sempre aqueles que gritam do alto de sua arrogância: “estudante não faz greve”, justificando que não trabalham. Ora, estudantes produzem conhecimento nos laboratórios, grupos de estudos e sala de aula. Ademais, a realidade estudantil se transformou. Há muitos estagiários mal remunerados que cumprem funções de trabalhadores técnico-administrativos. As novas atividades de extensão obrigatórias, cujo objetivo original é meritório, são por vezes disfarces para trabalho grátis de alunos em congressos ou outras atividades que pouco, ou nada, tem a ver com extensão universitária.[v]

Percebe-se que a Universidade mudou. Ao menos desde 2023 mais da metade dos alunos é proveniente de escolas públicas e quase 30% são pretos, pardos ou indígenas.[vi] As políticas de quotas fizeram com que se concentrasse no corpo discente um maior número de pessoas demandantes de recursos sociais. É preciso reconhecer que uma parte dos estudantes, especialmente das unidades que antecederam a formação da USP (Poli, Direito, Medicina e outras) não se parecem mais com os filhos dos docentes e não frequentaram as mesmas escolas que eles.

Apesar do histórico de repressão nós temos dificuldade de recordar outra reitoria que se negou a tratar o movimento estudantil ao menos como interlocutor legítimo. Não só o reitor se ausentou do diálogo, transferindo-o a subordinados, mas muitos diretores e até docentes ameaçaram administrativamente os alunos. Se alguém pensar em ódio aos pobres e racismo não estará distante da realidade.

A radicalidade de seus protestos não provém, portanto, apenas de uma condição etária, mas de uma posição objetiva na estrutura universitária, e social. Por um lado, suas reivindicações expressam o interesse geral da USP (mais docentes e funcionários, autonomia universitária, mais recursos etc). Por outro, suas reivindicações diretamente interessadas (moradia, permanência, bolsas etc.) também são de interesse geral, mas neste caso da sociedade como um todo: estudantes, em sua maioria, permanecem poucos anos na universidade, assim, as condições de permanência são de interesse imediato dos futuros alunos.

É sobre esta base que estabelecemos uma inspiração em Marx quando este retrata a revolta dos tecelões da Silésia: “por parcial que seja, a revolta industrial comporta uma alma universal; por mais universal que seja, a revolta política abriga, sob sua forma mais colossal, um espírito mesquinho”. Do movimento estudantil e também dos sindicatos de trabalhadores na USP, Unesp e Unicamp dependerá a autonomia material das universidades públicas paulistas.

Eppur si muove

Os docentes poderiam compor o conjunto da classe trabalhadora, mas muitos têm sido pouco dispostos à defesa da autonomia e da função social da universidade. Não se trata mais do tradicional conservantismo das elites acadêmicas e sim da indiferença em relação à universidade. Trata-se de acumular reservas bilionárias à custa dos salários, da saúde mental e física de servidores e estudantes, do ensino de qualidade, das pesquisas socialmente interessadas para repassar para quê? Ou para quem?

Perguntas que nos rondam sem resposta: por que acumular tanto, quando vemos o estado em que se encontra a moradia estudantil? Por que acumular tanto e se recusar a ampliar o valor das bolsas estudantis?[vii] Tudo isso por uma gratificação de R$ 4.500 mensais?[viii] Ou por mais uma vaga na confraria do Conselho Universitário? O que os estudantes disputam, e aqueles que se mobilizam em apoio a eles, é o orçamento e a função pública da Universidade.

Qualquer que seja o resultado imediato da greve, os estudantes de 2026 sentirão orgulho do que fizeram. Quando a universidade parecia entorpecida e todos tinham que aceitar as manipulações contábeis da Reitoria, estudantes e servidores mostraram que havia recursos. Assim, ergueram sua divisa: “E no entanto, ela se move”.

*Rosa Rosa Gomes é mestra em História Econômica e em Museologia e servidora da USP. Autora de Rosa Luxemburgo: Crise e Revolução (Ateliê Editorial). [https://amzn.to/4ceeCG9]

*Lincoln Secco é professor do Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de A revolução dos cravos: economias, espaços e tomadas de consciência (1961-1974) (Ateliê Editorial) [https://amzn.to/3S476E6]

Notas

[i] Ver texto publicado na Adusp https://adusp.org.br/universidade/remuneracao-pessoal/,

[ii] Marx, K. O Capital. V. III, T. 1. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p.141.

[iii] Entrevista com Franklin Leopoldo, Revista Adusp, março 2015. Disponível em: https://www.adusp.org.br/wp-content/uploads/2015/03/mat01.pdf.

[iv] O que não impede que individualmente muitos lutem ao lado dos alunos e técnicos nos momentos de crise da Universidade, mas o cenário atualmente demonstra quão poucos são estes professores. Em geral, vê-se o uso do poder hierárquico para fazer calar a divergência, como nos acontecimentos do último CO do dia 26 de maio de 2026, quando os doutos gritavam aos alunos e trabalhadores que se calassem e deixassem o recinto.

[v] Esse é um problema derivado do próprio entendimento da extensão na USP, assunto ainda a ser aprofundado e discutido.

[vi] https://depar.usp.br/num/.

[vii] Na reunião do Conselho Universitário de 31 de março de 2026, em que a gratificação aos docentes (GACE) foi aprovada, os representantes discentes apontaram que o aumento reivindicado para o PAPFE naquele momento não alcançaria 10% do valor anual previsto para a GACE. Em https://www.youtube.com/watch?v=lE4ur6BTfu8, perto do minuto 2:20:00.

[viii] Ao destinar a GACE de 4.500 reais mensais por dois anos renovável somente aos professores, a reitoria literalmente causou a greve dos funcionários e estudantes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário