Por MARCO MONDAINI*
Nas margens dos livros que não citaram, dois grandes pensadores brasileiros deixaram a prova silenciosa de uma leitura profunda
Duas entrevistas, nenhuma referência a Antonio Gramsci
Em janeiro de 1976, Sérgio Buarque de Holanda concedeu uma entrevista a João Marcos Coelho, publicada na revista Veja com o título “A democracia é difícil”.
No decorrer da entrevista, o “pai do Chico” afirma que “a cordialidade continua valendo para a nossa história”, tendo como base a constatação, a meu ver enviesada, de “que a independência, a proclamação da República e mesmo as revoluções de 1930 e 1964 se fizeram sem derramamento de sangue”, da mesma forma que, corretamente, assinala que “o liberalismo pode perfeitamente sobreviver sem a prática da democracia, e isso é o que sempre aconteceu no Brasil”.
Entretanto, mesmo muito provavelmente já tendo lido os Quaderni del Carcere de Antonio Gramsci, não o cita, tendo optado por nominar um outro filósofo italiano ao qual o marxista sardo dedicou um Quaderno inteiro – Benedetto Croce – com o propósito de fundamentar a ideia de que “toda história é história contemporânea”, à medida em que “nós sempre privilegiamos um aspecto em função da nossa realidade”.
Afirmação bastante conhecida do livro Teoria e storia della storiografia, escrito pelo liberal italiano nascido na província de Aquila, “a história como história contemporânea” foi incorporada por Antonio Gramsci nos seus Quaderni quando este último procurou assinalar as relações de proximidade existentes entre o “ofício de historiador” e o “fazer político”[i] – o que sugere a hipótese de que Sérgio Buarque de Holanda talvez tenha entrado em contato com a afirmação croceana (ou reforçado a percepção da sua importância) por meio da leitura dos Quaderni de Gramsci.
Isso, ainda que o próprio Antonio Gramsci tenha afirmado em Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce, numa passagem grifada por Sérgio Buarque de Holanda, que, em Teoria e storia della storiografia, Croce teria assumido a tarefa de “liquidar toda forma, ainda que atenuada, de filosofia da práxis” (p. 177).
Doze anos depois, em março de 1988, numa entrevista concedida a Eder Sader e Eugênio Bucci, publicada no segundo número da revista Teoria & Debate, do Partido dos Trabalhadores, com o título “Antonio Candido – a militância por dever de consciência, “o pai de Laura de Mello e Souza” não cita uma vez sequer Antonio Gramsci, mesmo depois de ter se referido à influência da socialista italiana Teresa Maria Carini Rocchi na sua formação política em Poços de Caldas (inclusive tendo aprendido com ela a cantar em italiano vários hinos revolucionários e a história do assassinato do socialista italiano Giacomo Matteotti pelos fascistas) e relacionado uma série grande de pensadores anarquistas e marxistas com os quais teve contato por meio das suas obras: Everardo Dias, Jean Grave, Severine, Kropotkin, Sébastien Faure (entre os anarquistas); Plekhanov, Lenin, Stalin, Trotski, além de Marx e Engels (entre os marxistas).
Se, outra vez mais, fica atestado que Sergio Buarque de Holanda e Antonio Candido não citaram Antonio Gramsci, pelo menos nas suas duas principais obras (como assinalado na segunda parte do presente artigo) e nestas duas importantes entrevistas, restará comprovado a seguir que ambos leram a sua obra carcerária, ainda que com ênfases bem diferenciadas: no primeiro, as notas sobre a história italiana; no segundo, as notas de caráter político.
As preocupações históricas de Sérgio Buarque de Holanda
Assim como na leitura de Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce, em Gli intellettuali e l’organizzazione dela cultura, Sérgio Buarque de Holanda direcionou as suas marcações às passagens nas quais Gramsci abordou a Contra Reforma (um processo que sufocou o desenvolvimento intelectual, p. 34-5), o Humanismo (um fato reacionário na cultura, porque toda a sociedade italiana estava se tornando reacionária, p. 37) e o Renascimento (uma fase culminante moderna da função internacional dos intelectuais italianos, p. 38).
Já em Note sul Machiavelli, sulla politica e sullo Stato moderno, a ênfase principal das marcações de Sérgio Buarque de Holanda direciona-se a algumas das notas nas quais Antonio Gramsci apresenta reflexões nascidas da sua leitura de O Príncipe de Maquiavel, com destaque para: (i) a questão do “moderno príncipe”, do “partido político”, como “a primeira célula em que se reuniram os germes da vontade coletiva que tendem a se tornar universais e totais” (p. 3-6); (ii) da “situação econômico-corporativa que, na sociedade feudal, impediu a formação de uma vontade coletiva nacional popular que fundou os Estados modernos” (p. 7).
(iii) Da “afirmação implícita [nos escritos de Maquiavel] que a política é uma atividade autônoma, com seus princípios e leis diversos daqueles da moral e da religião” (p. 9); e (iv) da “filosofia de Maquiavel como a filosofia do tempo, que tende à organização das monarquias nacionais absolutas, a forma política que permitiu e facilitou um ulterior desenvolvimento das forças produtivas burguesas” (p.14).
Em Il Risorgimento, o Quaderno gramsciano mais marcado por Sérgio Buarque de Holanda, as preocupações com as notas de Gramsci sobre o Humanismo, o Renascimento e Maquiavel se encontram. Por um lado, na marcação das frases em que Gramsci assinala que “o Humanismo e o Renascimento tiveram como expoente mais expressivo Maquiavel” (p. 16) e que “o pensamento político de Maquiavel é uma reação do Renascimento, é um chamamento à necessidade política e nacional de avizinhar-se ao povo” (p.24). Por outro lado, nas inúmeras passagens de Gramsci nas quais se expressa o fato de que, na Itália, diferentemente de outros países europeus como França e Alemanha, a Contrarreforma sufocou o ímpeto progressivo e popular do Renascimento.
Por fim, merece destaque a marcação feita por Sérgio Buarque de Holanda de uma das mais célebres contribuições de Antonio Gramsci para a teoria política de tradição marxista, a saber, aquela na qual é feita a distinção entre “direção” e “dominação” no processo revolucionário encabeçado por um grupo social: “um grupo social pode e deve ser dirigente já antes de conquistar o poder governativo (e esta é uma das conquistas maiores do poder); depois, quando exercita o poder e também se o tem fortemente em mãos, torna-se dominante, mas deve continuar a ser também ‘dirigente’” (p. 70).
As preocupações políticas de Antonio Candido
De todos os Quaderni del Carcere de Antonio Gramsci lidos por Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido, aquele que possui o maior número de marcações e anotações é Note sul Machiavelli, sulla politica e sullo Stato moderno do grande estudioso da literatura brasileira.
Suas marcações iniciam-se por uma preocupação com a “formação de uma vontade coletiva nacional-popular, cujo moderno príncipe é, ao mesmo tempo, o organizador e a expressão ativa e operante” e com a “reforma intelectual e moral” (p. 8), que é seguida na nota “a ciência da política” pela seguinte pergunta de Antonio Candido: “a revolução proposta em geral por Gramsci não se efetivou pois a ciência política não se tornou senso comum?” (p. 9).
Na sequência, Antonio Candido destaca, nas suas anotações, a “política como primeiro momento da superestrutura” e o “bloco histórico” enquanto “dialética dos distintos, conjunto de círculos entre os diferentes graus da superestrutura” (p. 11).
Em seguida, as anotações de Antonio Candido revelam a mesma preocupação das marcações de Sérgio Buarque de Holanda com a indicação gramsciana de que “o primeiro elemento [da política] é que existem verdadeiramente governados e governantes, dirigentes e dirigidos” (p. 17), e “de que são os partidos o modo mais adequado para elaborar os dirigentes e a capacidade de direção” (p.18).
Há, no entanto, duas breves anotações feitas por Antonio Candido em formato de pergunta que demonstram uma problematização da discussão de Gramsci sobre o partido político, tendo em vista os acontecimentos históricos relacionados ao processo de afirmação de um socialismo despótico na União Soviética: (1) “partido totalitário = Estado?” (p. 20); (2) “e o PCURSS?” (p. 26).
Neste momento, Antonio Gramsci fazia a distinção entre duas formas de partido: “partido de elite” e “partido de massa” (p. 21-2) e chamava a atenção para o risco de quando “um partido político acaba assumindo o papel de polícia” – “quando um partido é progressivo, este funciona democraticamente, no sentido de um centralismo democrático, quando o partido é regressivo, este funciona burocraticamente, no sentido de um centralismo burocrático” (p. 26).
Num outro conjunto de marcações e anotações, Antonio Candido direciona a sua atenção à defesa gramsciana do “combate ao economicismo, na teoria e na prática”, uma “luta que deve ser conduzida desenvolvendo o conceito de hegemonia”, contra o “finalismo fatalista”, o “mecanicismo” e os “que vêm regularidades das ciências humanas nos atos de previsão” e não no “dever ser” (p. 34-9).
Por fim, após marcações e anotações sobre a distinção gramsciana entre, de uma parte, o “estudo de uma estrutura, entre movimentos orgânicos, relativamente permanentes”, e, de outra parte, os “movimentos de conjuntura, que se apresentam como ocasionais, imediatos, quase acidentais” (p. 42); o “método gramsciano” (p. 43); a “reabilitação de Leon Trótski” (p.44); a passagem da infraestrutura para a superestrutura (p.46) – após tais apontamentos –, Antonio Candido retorna ao que me parece ter sido a sua grande preocupação na leitura de Note sul Machiavelli, sulla politica e sullo Stato moderno: a questão do partido político.
Numa página em que Antonio Gramsci não faz referência alguma ao conceito de ditadura do proletariado, Antonio Candido escreve na sua margem: “partido, movimentos históricos vitais: momentos da implantação da ditadura do proletariado”, talvez já compreendendo a ditadura do proletariado como de fato foi realizada na União Soviética e nos países satélites do Leste europeu – ditadura do partido comunista (p. 51).
Em tal trecho das suas notas carcerárias, Antonio Gramsci aponta para um processo que acabou por marcar a história de quase todos os partidos do, assim chamado à época, Movimento Comunista Internacional: na análise do desenvolvimento dos partidos, é preciso distinguir “o grupo social; a massa do partido; a burocracia e o Estado Maior do partido”. Por ser a força mais apegada às tradições e conservadora de todos os elementos do partido, a burocracia, quando se distancia da massa do partido, este último se torna anacrônico e mumificado.
Retornando à estante onde tudo começou
Finalizo essa terceira e última parte do presente artigo voltando à noite daquele 17 de março, durante a visita guiada da turma do professor Marcelo Ridenti, na qual me deparei, meio que por acaso, com os Quaderni del Carcere da Coleção de Sérgio Buarque de Holanda, depositados na Biblioteca de Obras Raras Fausto Castilho da Unicamp.
Daquele dia até o momento em que me preparo para dar o ponto final neste texto – que, como já tive oportunidade de dizer anteriormente, não possui relação alguma com a minha atual pesquisa de pós-doutorado junto ao Departamento de Sociologia da Unicamp – a principal conclusão a que pude chegar é a de que, nas coleções de Sergio Buarque de Holanda e de Antonio Candido, bem como de inúmeras outras coleções de grandes mestres do pensamento social brasileiro espalhadas por universidades e centros de pesquisa e documentação Brasil afora, encontram-se diversos mananciais de investigação sobre a gênese e desenvolvimento das suas obras, dos seus pensamentos e, até mesmo, das suas vicissitudes, que os levaram a ler cuidadosamente determinados autores e a não citá-los diretamente, como Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido parecem ter feito com os Quaderni del Carcere de Antonio Gramsci.
Que as bibliotecas de Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Candido, Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes e muitos outros clássicos do pensamento social brasileiro sejam vasculhadas e gerem estudos muito mais aprofundados que este, em grande medida resultante de uma obra do acaso.
*Marco Mondaini, historiador, é professor titular do Departamento de Serviço Social da UFPE e apresentador do programa Trilhas da Democracia. Autor, entre outros livros, de A invenção da democracia como valor universal (Alameda). [https://amzn.to/3KCQcZt]
Para ler a primeira parte deste artigo clique em https://aterraeredonda.com.br/os-cadernos-do-carcere-de-sergio-buarque-de-holanda-e-antonio-candido/
Para ler a segunda parte deste artigo clique em https://aterraeredonda.com.br/os-cadernos-do-carcere-de-sergio-buarque-de-holanda-e-antonio-candido-parte-2/
Nota
[i] Já havia dado o ponto final no presente texto quando li o novo livro de Alvaro Bianchi para um precioso diálogo estabelecido com o cientista político da Unicamp no Trilhas da Democracia de 31 de maio. Em Fascismo e Liberalismo. Afinidades Seletivas (São Paulo: Boitempo, 2026), deparei-me com o seguinte parágrafo que corrobora o que acaba de ser afirmado sobre a incorporação de Gramsci da máxima croceana acerca da história: “Segui, para isso, uma pista de Benedetto Croce: ‘Toda história é história contemporânea’, escreveu em Teoria e storia della storiografia. Essa ideia tornou-se central no pensamento de Antonio Gramsci, o qual, a partir dela, mas criticando os seus limites, anunciou a identidade entre história e política: ‘o historiador é um político’, afirmou. Concebida a história dessa maneira, tornava-se possível compreender os usos que eram feitos dela, mas também os motivos e as intenções do historiador. Exemplos ao longo dos Cadernos do cárcere, que este escreveu quando estava em uma prisão de Mussolini, não faltam, muitos deles referentes à utilização da história e da historiografia pelo fascismo” (p.21).

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