A reportagem é de Jessica Mouzo, publicada por El País, 18-05-2026.
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| Foto: Gani Nurhakim/Unsplash |
Especialistas da Organização Internacional de Saúde alertam que o risco de uma nova emergência de saúde pública está aumentando vertiginosamente, enquanto o investimento e as medidas para combatê-la estão estagnados.
O planeta está à beira do desastre: o risco de uma nova pandemia, ainda mais devastadora do que as emergências de saúde pública anteriores, disparou; mas o investimento e as medidas para lidar com uma ameaça dessa magnitude estagnaram ou diminuíram. De acordo com um grupo de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS), que analisou o nível de antecipação e resposta a surtos epidêmicos após a crise do Ebola, há uma década, “a preparação global não está acompanhando o risco de pandemia”. A situação é “alarmante”, concluem: o risco de pandemia está piorando, a confiança pública está se deteriorando e a desigualdade está se arraigando. “O mundo não está mais seguro”, alertam. Seus alertas surgem exatamente 24 horas depois de a OMS ter declarado novamente uma emergência global devido a um novo surto de Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda.
O Conselho Global de Monitoramento da Preparação (GPMB, na sigla em inglês), grupo da OMS responsável pelo relatório, foi criado há oito anos para “ajudar a garantir que o mundo nunca mais vivencie uma crise devastadora como a epidemia de Ebola na África Ocidental”, explicam. Essa emergência sanitária evidenciou deficiências na preparação para surtos epidêmicos e impulsionou reformas para lidar com potenciais pandemias. No entanto, o investimento e as medidas implementadas nos últimos anos têm sido insuficientes. Desde a crise do Ebola em 2016, o mundo sofreu cinco grandes emergências de saúde pública, incluindo a Covid-19, a maior pandemia deste século.
Nos últimos anos, surgiram iniciativas e mecanismos para responder a novos desafios de saúde, como o Fundo para Pandemias e o Acordo de Resposta a Pandemias da OMS, mas especialistas reconhecem que o mundo está “mais volátil, incerto, complexo e ambíguo” do que há uma década. E há “sinais alarmantes” de que, apesar dos investimentos recentes, “a resiliência pode estar enfraquecendo em vez de se fortalecer”.
Os cientistas observam que os surtos de doenças infecciosas estão se tornando mais frequentes e mais impactantes (mais casos e mortes), o impacto econômico a curto e longo prazo das emergências de saúde está aumentando e, além disso, a equidade no acesso às medidas de saúde para responder às epidemias está diminuindo. "Uma preocupante 'fadiga da equidade' está surgindo, marcada não apenas por um menor engajamento político e financeiro, mas também por um declínio nas ações para manter o acesso equitativo como uma prioridade global", apontam.
O esforço global para combater a pandemia de Covid-19, que impulsionou o financiamento para o desenvolvimento de uma vacina em tempo recorde, por exemplo, foi apenas uma ilusão de unidade a longo prazo. Na verdade, segundo especialistas, a ajuda ao desenvolvimento destinada à saúde retornou aos níveis de 2009. "Os investimentos em preparação se fortaleceram desde a pandemia de Covid-19, mas a mudança nas prioridades geopolíticas ameaça minar esse progresso", enfatizam os autores.
O mundo está numa encruzilhada, e a própria OMS, enfraquecida nos últimos anos pela saída de países como os Estados Unidos e a Argentina, também atravessa um momento difícil. Estes são “tempos difíceis, perigosos e profundamente divisivos”, admitiu Tedros Adhanom Ghebreyesus, Diretor-Geral da organização internacional, em seu discurso de abertura da 79ª Assembleia Mundial da Saúde, realizada nesta segunda-feira em Genebra, na Suíça. Conflitos armados, crises econômicas, mudanças climáticas e cortes na ajuda ao desenvolvimento têm afetado as políticas globais de saúde, e a extensão total das consequências ainda está por ser vista.
Segundo especialistas, as tendências atuais pintam um quadro de “um futuro em que pandemias e outras emergências de saúde pública poderão se tornar mais frequentes, mais disruptivas e mais difíceis de gerir, num mundo mais vulnerável e incerto, marcado por crescente desconfiança e desigualdades cada vez maiores”. Os cientistas acreditam que, sem uma mudança radical na capacidade dos profissionais de saúde para lidar com os fatores que impulsionam as pandemias e um compromisso genuíno com a equidade, “o mundo corre o risco de entrar num ciclo de crises de saúde cada vez mais rápidas, em que cada novo choque corrói ainda mais a resiliência e aprofunda as fraturas existentes”.
Os autores observam que a abordagem "Uma Só Saúde", que reconhece a interconexão entre a saúde ambiental, animal e humana, está sendo negligenciada. Eles enfatizam que a confiança e a equidade, fundamentos da prevenção e do controle de doenças, estão sendo corroídas. Portanto, defendem ações imediatas para "fomentar uma confiança ampla e duradoura", promover a "equidade sustentável" e até mesmo combater a desinformação.
Como fazer tudo isso? Os autores propõem a criação de “um sistema independente de monitoramento de risco de pandemia”, garantindo acesso equitativo a medidas de saúde contra crises sanitárias emergentes, um “compromisso político sustentado e inabalável” com a preparação para pandemias e financiamento sustentável para o chamado “dia 0”, referindo-se ao primeiro dia em que surge uma nova emergência sanitária.
Uma ameaça crescente
O surto de hantavírus que começou há algumas semanas em um navio de cruzeiro atravessando o Atlântico colocou o mundo inteiro em alerta e levantou o espectro de uma nova pandemia. O episódio infeccioso, que agora aparentemente está contido, serviu como um lembrete de uma ameaça cada vez maior que paira sobre a humanidade: as doenças infecciosas zoonóticas, aquelas transmitidas de animais para humanos, dispararam nas últimas décadas, impulsionadas, em grande parte, pelas mudanças climáticas e pela pressão humana sobre os ecossistemas animais.
A comunidade científica estima que, assim como o hantavírus, existam 10 mil vírus — a grande maioria ainda desconhecidos e circulando silenciosamente em mamíferos selvagens — com capacidade de infectar humanos. Nem todos eles têm potencial pandêmico, mas apenas um vírus minimamente eficiente, como aconteceu com o SARS-CoV-2, o vírus causador da Covid-19, é suficiente para colocar o planeta inteiro de joelhos.
“Embora a carga habitual de doenças infecciosas esteja diminuindo, a frequência e a gravidade de emergências de saúde em larga escala estão aumentando”, alertam os especialistas da OMS. De acordo com o relatório, em 2024, a organização de saúde detectou quase o dobro de emergências de saúde em comparação com 2015.
A Organização Internacional de Saúde tem uma dúzia de vírus em sua mira, seja pelo seu potencial pandêmico ou pela falta de medidas para combatê-los: entre eles estão a Covid-19, a febre hemorrágica da Crimeia-Congo, o Ebola, o vírus de Marburg, a febre de Lassa, o coronavírus da síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV), a síndrome respiratória aguda grave (SARS), o vírus Nipah, o henipavírus, o vírus da febre do Vale do Rift e o vírus Zika. O último lugar da lista é reservado para a "Doença X", referindo-se a um cenário potencial em que um patógeno ainda desconhecido cause uma grave epidemia internacional.
“Os vírus precisam de um hospedeiro para viver. E eles sofrem mutações, evoluem. Pode acontecer de um deles infectar humanos e causar doenças, ou de não produzir sintomas. Também pode haver uma transmissão a partir de um agente que desconhecemos. Isso pode acontecer, mas temos que conviver com isso sem medo. O essencial é manter os sistemas de vigilância e resposta”, garante María Paz Sánchez Seco, pesquisadora do Ciberinfec, Centro Nacional de Microbiologia do Instituto de Saúde Carlos III.

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