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O socialismo amadurece lentamente

Do Brasil de Fato, 27 de maio 2026

Vijay Prashad é historiador e jornalista indiano. Diretor geral do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.



“Devotos da Petrotopia 01”, de Olalekan Jeyifous (2021)
| Crédito: Olalekan Jeyifous

Para que um projeto socialista tenha sucesso, as pessoas precisam aprender a confiar nos sistemas coletivos

Embora o sistema capitalista recompense ciclos de curto prazo, construir um futuro digno é uma tarefa lenta que exige organização, disciplina e uma luta constante para fazer surgir as forças sociais de um novo mundo.

Queridas amigas e amigos,

Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Em 1921, poucos anos após o início da experiência soviética, V. I. Lenin publicou um ensaio com o título revelador “Novos tempos e velhos erros sob nova aparência.” O ensaio deu início a uma linha de investigação que permaneceria com Lênin até o fim de sua vida, o que ocorreu três anos depois. O que o cativou foi a questão de como construir o socialismo em um país devastado pela guerra, com um capital mínimo à sua disposição, uma sociedade predominantemente camponesa e com altas taxas de analfabetismo (cerca de 70%) e ainda sem uma administração pública capaz de administrar um Estado de orientação socialista. Nesse ensaio, Lênin reflete:

“Após um esforço enorme e sem precedentes, a classe trabalhadora de um país de pequenos camponeses e em ruínas, a classe trabalhadora que, em grande parte, ficou desclassada, precisa de um intervalo de tempo para permitir que novas forças cresçam e venham à tona, e para que as forças antigas e desgastadas possam ‘se recuperar’… é preciso compreender isso e levar em conta a necessária — ou melhor, inevitável — desaceleração do ritmo de crescimento das novas forças da classe trabalhadora.”

Esta carta semanal será dedicada à ideia do “intervalo de tempo” necessário para que um “país em ruínas” seja ressuscitado de seu atraso e alcance o socialismo (tenho refletido sobre isso ao reler nosso dossiê n. 100, “O futuro“). Discutiremos essa ideia tendo em vista a lentidão com que o processo socialista amadurece, enquanto a sociedade capitalista agoniza em meio à crise. O conceito de “maturação lenta” será apresentado aqui e aprofundado posteriormente nos trabalhos do nosso instituto.



Konstantin Yuon (URSS), “Povo”, 1923

Todas as revoluções socialistas do mundo moderno ocorreram em países pobres, em que o campesinato predomina e a riqueza tem sido sistematicamente drenada de seu território para terras distantes. Nessas nações mais pobres, os novos governos revolucionários — seja na União Soviética (1917), no Vietnã (1945), na China (1949) ou em Cuba (1959) — tiveram de desenvolver sua própria capacidade estatal partindo praticamente do zero e reunindo recursos financeiros para a construção de infraestrutura e indústria. Nem a capacidade estatal nem o capital surgiram facilmente nesses processos revolucionários, o que os obrigou a realizar experiências que não foram devidamente documentadas. Aqui estão seis pontos elaborados a partir do que sabemos sobre esses processos, que servem como base para desenvolver uma teoria do conceito de “maturação lenta”. Convidamos você a nos escrever com suas próprias ideias sobre esse conceito, com base em suas experiências e estudos.
1. A confiança se conquista aos poucos, e é difícil abandonar velhos hábitos

Os governos revolucionários herdam estruturas moldadas ao longo de gerações por antigas hierarquias de castas e tribais que regem as relações agrárias, pela humilhação e expropriação coloniais e pela privação social total. Os bolcheviques na União Soviética, por exemplo, descobriram rapidamente que a antiga cultura burocrática czarista não havia desaparecido em outubro de 1917. A corrupção, a deferência à autoridade e a desconfiança nas instituições coletivas persistiram durante anos. Na China, após a Revolução de 1949, o Partido Comunista enfrentou repetidamente os resquícios da hierarquia confucionista, os sistemas regionais de clientelismo e os hábitos de sobrevivência dos camponeses, forjados ao longo de séculos de insegurança. Em Cuba, após 1959, a liderança revolucionária falava abertamente sobre a criação de um “novo ser humano”, pois compreendia que a consciência socialista não poderia ser imposta por lei da noite para o dia.

As pessoas que vivem sob a violência do colonialismo e as desigualdades do capitalismo aprendem a se proteger individualmente ou por meio de redes familiares. Para que um projeto socialista tenha sucesso, as pessoas precisam aprender a confiar nos sistemas coletivos. Essa confiança cresce lentamente com a experiência – por meio de escolas que funcionam, clínicas que curam, moradias que abrigam e instituições que perduram. Uma revolução pode tomar o poder do Estado rapidamente, mas não consegue transformar a psicologia social de forma tão rápida.



Douglas Pérez (Cuba), “O porvenir”, 2008
2. As redes comerciais e financeiras favorecem a ordem global atual

O capitalismo não domina apenas por meio da ideologia, mas também por meio de redes consolidadas de comércio e finanças, bem como da infraestrutura de transportes e comunicações. Os países que buscam uma transformação socialista entram em um mundo já organizado em torno da acumulação capitalista. Após a Revolução Russa, a União Soviética enfrentou dificuldades porque as cadeias de abastecimento industrial, as redes bancárias e as rotas comerciais eram controladas por potências capitalistas hostis. A experiência de Cuba após o colapso da União Soviética em 1991 demonstrou isso de forma contundente: a ilha perdeu o acesso a combustível, peças de reposição, crédito e relações comerciais praticamente da noite para o dia, pois a economia mundial estava estruturada em torno de sistemas dos quais Cuba estava amplamente excluída (e dos quais está sendo ainda mais excluída atualmente pelo embargo petrolífero ilegal imposto pelos Estados Unidos). Após a reunificação em 1975, o Vietnã enfrentou enormes dificuldades para reconstruir uma economia devastada pela guerra, mantendo-se à margem dos principais circuitos financeiros e comerciais. Os sistemas existentes se perpetuam porque todas as instituições, desde os portos até as moedas e os padrões de software, atuam nesse sentido. Construir redes alternativas leva décadas, não anos.

3. Os custos de capital e de infraestrutura são enormes nos países empobrecidos pelo colonialismo

Quando os revolucionários vietnamitas derrotaram o imperialismo estadunidense, herdaram um país fisicamente devastado pelos bombardeios e quimicamente contaminado pelo Agente Laranja. Cuba herdou uma economia baseada na monocultura do açúcar, ligada quase exclusivamente aos Estados Unidos. Em 1949, a China emergiu de um século de humilhações e domínio dos senhores da guerra, do imperialismo japonês e da guerra civil, com baixa expectativa de vida, analfabetismo em massa e fraca capacidade industrial.

Essas revoluções tiveram que construir ferrovias e portos, escolas e instituições científicas, redes elétricas e siderúrgicas – praticamente do zero. Os países capitalistas do Atlântico Norte se industrializaram ao longo de séculos, financiados pela escravidão, pela pilhagem colonial e pelos tributos imperiais. Esperava-se que as instituições estatais socialistas dos países mais pobres que haviam sido colonizados condensassem esse processo em poucas décadas, mesmo sob bloqueio ou ameaça militar, e depois eram acusadas de falência estatal. O enorme peso material retardou a transformação.

4. Pressões externas – como sanções, sabotagem, isolamento diplomático e guerra – retardam o desenvolvimento

Todos os Estados revolucionários do Terceiro Mundo enfrentaram cerco militar ou sanções econômicas. A União Soviética foi invadida por soldados de mais de uma dúzia de países estrangeiros após 1917 e, posteriormente, enfrentou a invasão nazista, que causou a morte de pelo menos 27 milhões de cidadãos soviéticos e destruiu dezenas de milhares de cidades e vilarejos. Cuba vem sofrendo há décadas com as sanções dos Estados Unidos, destinadas explicitamente a provocar escassez e descontentamento social. O governo da Unidade Popular (UP) do Chile tentou uma transformação estrutural, mas enfrentou uma desestabilização econômica imediata, resistência das elites e intervenção externa antes que as reformas de longo prazo pudessem se consolidar. O governo sandinista da Nicarágua enfrentou uma guerra contra os Contras, financiada pelos Estados Unidos, e a exploração dos portos do país, incluindo Corinto. O Vietnã travou uma guerra anticolonial entre 1945 e 1975.

Essas pressões consumiram recursos que teriam sido destinados ao desenvolvimento social. As sanções aumentam os custos de transação, limitam o acesso à tecnologia e geram escassez crônica. A guerra destrói a infraestrutura e redireciona a força de trabalho para a defesa. Nessas condições adversas, as ineficiências não decorrem de ideologias ou erros de planejamento, mas das condições de emergência permanente impostas por potências hostis.

5. Todo processo é ineficiente em suas fases iniciais

Os Estados revolucionários procuram criar novos sistemas administrativos, ao mesmo tempo que ampliam os serviços de educação e saúde, além de promover a reforma agrária e o desenvolvimento industrial. Erros e confusões burocráticas, gargalos e escassez são inevitáveis. O sistema de planejamento soviético inicial enfrentou dificuldades de coordenação, pois não havia precedentes históricos para a administração de uma economia continental baseada na justiça social, em vez do lucro. As comunas e os projetos industriais da China foram prejudicados pela falta de conhecimento técnico e pela implementação local desigual. Em Cuba, a escassez de profissionais qualificados se agravou quando muitos fugiram para Miami após a revolução.

A administração pública aprende com a prática. As instituições amadurecem por meio de tentativa e erro. Espera-se que os governos socialistas dos países mais pobres alcancem eficiência de imediato, ao mesmo tempo que enfrentam embargos, baixas taxas de alfabetização e escassez de tecnologia. A ineficiência inicial não é, portanto, algo excepcional, mas sim uma característica de qualquer transformação social em grande escala.

Ming Wong (Cingapura), “Ascensão ao Palácio Celestial III”, 2015

6. Os ciclos eleitorais curtos impedem a transformação social

A transformação social exige horizontes de planejamento que se estendem por décadas — e não por ciclos eleitorais de quatro ou cinco anos, que privilegiam o consumo imediato em detrimento da reconstrução a longo prazo. Os governos revolucionários exigem paciência antes que se vejam resultados concretos. Mesmo fora dos Estados explicitamente socialistas, governos que tentam implementar programas de redistribuição ou de desenvolvimento frequentemente enfrentam sabotagem por meio de eleições antes que os projetos amadureçam. Uma política transformadora exige continuidade, mas os sistemas eleitorais, moldados pelos ciclos da mídia e pelas pressões financeiras, recompensam a gestão de curto prazo. As experiências socialistas, portanto, se depararam repetidamente com a contradição entre o tempo histórico (o longo período necessário para transformar a sociedade) e o tempo eleitoral (o ritmo acelerado da política moderna).



Eva Schulze-Knabe (RDA), “Mulheres marchando”, 1952

Na peça “A Mãe” (1931), de Bertolt Brecht, a personagem principal, Pelagea Vlassova, enfrenta uma tragédia após outra até que a Revolução Russa a leva a agir. Quando ela se vê numa cozinha com várias mulheres, uma das quais reclama que o comunismo não passa de um crime, ela responde cantando:

É lógico – qualquer pessoa consegue entender. É fácil.
Se você não é um explorador, você consegue entender.
Isso faz bem para você. Dê uma olhada nisso.
Os tolos chamam de tolice, e os corruptos chamam de corrupção.
É contra o que está podre e contra a estupidez.
Os exploradores chamam isso de crime.
Mas sabemos
É o fim do crime.
Não é loucura, mas
o fim da loucura.
Não é o caos
mas ordem.
É uma coisa simples
tão difícil de conseguir.

Ao pensar em “amadurecer lentamente”, me lembrei da música da Vlassova. Vlassova trabalhou a vida inteira, mas pouco tinha para mostrar além de sua dignidade. Ela pode não ter tido uma educação completa, mas era muito esperta. Ela sabia que o comunismo era uma “coisa simples”, mas não era do tipo que vivia no mundo da fantasia. É simples, mas “difícil de colocar em prática”.

Cordialmente,

Vijay

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.


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Editado por: Thaís Ferraz

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