O crime ambiental do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, não se trata apenas de um dos maiores desastres humanitários e ambientais do Brasil, mas, também, da maior tragédia laboral da história do país
Do Le Monde Diplomatique, 30 de abril de 2026
Por Fabíola Moulin
Por Fabíola Moulin
Há datas que não se limitam à celebração, mas exigem elaboração. O 1º de maio, Dia do Trabalhador, é uma delas. Mais do que rememorar conquistas históricas dos trabalhadores, essa data nos provoca a interrogar as condições concretas em que as atividades profissionais se realizam hoje e, sobretudo, o quanto a perda de vidas ainda faz parte do funcionamento do nosso sistema produtivo e de consumo.
Em 25 de janeiro de 2019, o rompimento da barragem da Vale S.A., na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, interrompeu 272 vidas. Destas, 250 estavam trabalhando na hora da tragédia. Esse dado desloca a compreensão do ocorrido: não se trata apenas de um dos maiores desastres humanitários e ambientais do Brasil, mas, também, da maior tragédia laboral da história do país.
Nos anos seguintes ao rompimento, foi erguido, em frente ao local da barragem e da mancha da lama de rejeito, o Memorial Brumadinho. Mais do que um espaço de homenagem às Joias, como são chamadas as vítimas fatais da tragédia, o local, gerido pela Fundação Memorial de Brumadinho, constitui-se como território de memória viva, onde o luto se articula à exigência de justiça e à construção de consciência pública.
A existência desse espaço tem como origem a atuação da AVABRUM, a Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão. Desde os dias seguintes à tragédia, a associação se tornou protagonista na luta coletiva por direitos, reunindo uma maioria feminina de mães, viúvas, filhas e irmãs enlutadas, que se mobilizaram em busca de respostas. Ao reivindicarem não apenas compromissos institucionais, mas a memória como um direito coletivo, a AVABRUM transformou a dor e o luto em ação – e tornou possível a existência do Memorial.
Os dados contemporâneos sobre acidentes de trabalho no Brasil tornam essa memória ainda mais urgente. Em 2025, o país registrou 806.011 acidentes de trabalho e 3.644 mortes – o maior número da série histórica recente. Trata-se de uma média superior a 2 mil acidentes por dia e de dezenas de mortes por semana. Segundo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), entre 2012 e 2024, foram registrados mais de 8,8 milhões de acidentes e notificadas 32 mil mortes em decorrência do trabalho no Brasil.
Esses números, já alarmantes, ainda são subestimados. A subnotificação, especialmente no trabalho informal, oculta uma parcela significativa dessa realidade. No plano mundial, a dimensão é ainda mais contundente. A Organização Internacional do Trabalho estima que quase 3 milhões de pessoas morrem todos os anos no mundo em decorrência de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. Trata-se de uma crise contínua, que atravessa fronteiras e modelos econômicos.
Diante desse cenário, o Memorial Brumadinho não se limita a narrar o passado. Ele tensiona o presente. Ao articular cultura, arquitetura e meio ambiente, o Memorial constrói uma experiência que convida à reflexão e à ação. Os nomes das vítimas fatais, inscritos na Fenda, que atravessa o terreno do museu-memorial, restituem a dimensão humana do que frequentemente se dilui em estatísticas. Somados às fotos e aos objetos pessoais reunidos na sala Memória, cada nome e rosto ali presentes afirmam que não houve fatalidade, mas escolhas, negligência e estruturas que permitiram que essas mortes acontecessem.
Memoriais são, essencialmente, espaços erguidos contra o esquecimento, mas também contra a naturalização da barbárie. No 1º de maio, essa dimensão se torna incontornável. Celebrar o trabalho sem enfrentar suas condições reais é perpetuar uma contradição histórica. Em um país onde os acidentes crescem de forma consistente e atingem níveis recordes, é necessário deslocar o debate: não se trata apenas de garantir acesso ao trabalho, mas de assegurar que ele não seja um vetor de morte.
O Memorial Brumadinho nasce, precisamente, para interromper essa naturalização. Ele se recusa a tratar o desastre como episódio, como acidente ou como passado. Sua função, além de recordar, é denunciar o que se estende no presente. Ele expõe o óbvio que tantas vezes se tenta encobrir: a lama não inaugurou nada; ela apenas revelou um processo histórico de negligência, ganância e descaso com a vida.
Nos marcos dessa leitura, a memória deixa de ser homenagem e se torna resistência geontológica – um gesto ético contra a lógica que coloca a terra, a água e certos corpos no lado dos “não viventes”, como escreve Elizabeth Povinelli, disponíveis à exploração total. Portanto, lembrar é, em Brumadinho, reordenar o mundo; é devolver às vidas perdidas o estatuto que lhes foi negado antes mesmo do rompimento.
Povinelli nos lembra que algumas catástrofes não começam no dia em que rompem. Elas são ancestrais: longas, subterrâneas, feitas de séculos de decisões e classificações que decretam quem pode viver, quem pode morrer, o que pode ser explorado e o que pode ser descartado. São desastres que não têm data exata – têm regimes. E Brumadinho, antes da lama, já era sintoma.
O Memorial se insere, assim, em uma tradição de espaços que transformam o luto, a dor e a exploração em ação pública. Ele não oferece respostas fáceis. Sustenta a complexidade da dor e a converte em pergunta: que modelo de desenvolvimento estamos dispostos a aceitar? Um questionamento que não diz respeito apenas a Brumadinho, mas atravessa o Brasil e o mundo.
Ao longo da história, o 1º de maio foi marcado por lutas que ampliaram direitos e redefiniram limites para a exploração do trabalho. Hoje, talvez seja necessário recolocar no centro dessa agenda uma questão elementar: o direito à vida; o direito de não morrer no trabalho.
Nesse sentido, o Memorial não é apenas um lugar de memória. É um marco ético. Ele afirma que nenhum projeto de desenvolvimento pode se sustentar sobre a perda de vidas. E que a memória, quando compartilhada, tem a potência de transformar não apenas a forma como lembramos o passado, mas a maneira como decidimos o futuro.
Neste 1º de maio, mais do que celebrar as conquistas dos trabalhadores, é preciso escutar o que a memória insiste em dizer. E agir a partir disso.
Fabíola Moulin é diretora-presidente da Fundação Memorial de Brumadinho.

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