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O levante dos pobres

Do A Terra É Redonda, 30 de maio 2026
Por GILBERTO MARINGONI*


Imagem: MayJenn _

O ataque à reforma agrária inflamou La Paz; contudo, o esfacelamento partidário impede que a fúria popular vire mudança efetiva

A capital da Bolívia está isolada por via terrestre há quatro semanas. Quase todas as vias de acesso estão bloqueadas e a feroz repressão oficial não tem conseguido dispersar multidões vindas de praticamente todo o país. La Paz enfrenta escassez de alimentos e combustíveis. Diante de uma renitente crise econômica, disparada nos preços e queda da qualidade de vida há motivos em penca para justificar a ira popular.

Há poucas semanas, um lote de combustível adulterado danificou mais de 10 mil veículos, enfurecendo seus proprietários. O ataque estadunidense ao Irã deflagrou uma inflação nos preços de combustíveis que ainda não chegou ao país andino. A exigência majoritária é a renúncia do presidente Rodrigo Paz Pereira, no poder desde novembro passado.

Os protestos fazem convergir trabalhadores assalariados, autônomos, precarizados, professores da rede pública, mineiros, pequenos agricultores e vários movimentos indígenas quéchuas e aimarás, agrupados em dezenas de entidades locais e nacionais, com destaque para a histórica Central Operária Boliviana (COB).

Antirreforma agrária

O gatilho para a rebelião foi o sancionamento da Lei 1720, de 10 de abril último. Em um documento de uma página e cinco artigos, o governo praticamente anularia a reforma agrária conquistada pela Revolução de 1952: “O objetivo desta Lei é (…) converter a classificação de pequenas propriedades tituladas para médias propriedades”. Em duas linhas, sob o pretexto de abrir espaço para os camponeses hipotecarem suas terras em busca de créditos, acabaria o direito social de lotes oriundos da democratização fundiária, abrindo o setor para o mercado.

As reformas sociais de mais de sete décadas atrás marcaram a entrada da Bolívia na modernidade, estabelecendo, além da partição do solo, o direito ao sufrágio universal, incluindo a maioria indígena-camponesa e as mulheres na vida institucional, além do estabelecimento dos recursos naturais como propriedade do Estado.

A norma legal foi revogada antes mesmo de entrar em vigor, um mês depois de aprovada. Mas o clima de animosidade popular não arrefeceu. “Depositamos total confiança no governo nos últimos seis meses, e eles nos viraram as costas”, argumentou David Mamani, dirigente da Federação Camponesa Tupak Katari de La Paz, em vídeo no YouTube. Mas a insatisfação tem raízes profundas e se expressou nas urnas.

A marca maior das eleições presidenciais de 2025 foi escancarar a implosão do MAS (Movimento ao Socialismo), que governou a Bolívia por quase duas décadas, sob as presidências de Evo Morales e Luís Arce. Embora a economia tenha crescido em média 5,7% nos quatro primeiros anos da administração de Evo Morales (2006-2010), bem acima da média continental de pouco mais de 3%, não houve mágica. O boom das commodities trouxe breve prosperidade à largas extensões da periferia global.

Esquerda em parafuso

O MAS, criado nos anos 1990, vive uma crise aparentemente terminal. Dividida em três alas, a agremiação foi praticamente riscada da vida institucional. Em 2006, nas eleições para a Assembleia Constituinte, a legenda alcançou 51% dos assentos e não teve dificuldades de se compor até com a direita para aprovar seus projetos. Vinte anos depois, elegeu apenas 1,5% do total de deputados. Os partidos de direita, apoiadores do governo, somam 91,5% na Câmara e 100% no Senado.

Ex-homem de confiança de Evo Morales, Luís Arce pilotou um mandato turbulento (2020-25). A pandemia da covid-19 abalou pesadamente a economia e o PIB chegou a cair 8,75% no primeiro ano de sua gestão. Encerrou o governo com uma inflação acumulada de 20,4% em 2025, problemas no abastecimento de combustíveis e uma recessão em curso. Diante da alta rejeição popular, abriu mão de tentar a reeleição.

A disputa pública com Evo Morales pelo controle do partido e pesadas acusações mútuas criaram uma espécie de tempestade perfeita contra a esquerda, que não passou do primeiro turno no ano passado, alcançando 9% nas urnas.

Rodrigo Paz era pouco mais que um azarão na corrida presidencial que o levou à vitória no segundo turno com 54,5% dos votos, em 19 de outubro. Quatro meses antes, o então candidato patinava em quinto lugar nas pesquisas, exibindo 7,5% das preferências. Venceu o primeiro turno, em 17 de agosto, com 32% dos sufrágios. Sua campanha foi inflada em grande medida por votos de setores populares, anteriormente fiéis ao MAS.

Liderança de direita tida como moderada e oriundo de uma tradicional família de políticos – seu pai, Jorge Paz Zamora fora presidente entre 1989-93 – o então candidato adotou pautas progressistas diante do ultraliberal Jorge “Tuto” Quiroga, que ocupara a cadeira presidencial entre 2001-02. O eleitorado, diferentemente do Brasil em 2018 e da Argentina em 2023, rechaçou o caminho da extrema direita, ao mesmo tempo em que se afastou da esquerda.

Estelionato eleitoral

Eleito no bojo de grave crise econômica, Rodrigo Paz agiu como qualquer neoliberal sem programa claro optou pelo choque. Em 17 de dezembro, quarenta dias após a posse, apresentou o Decreto Supremo 5503, alentado arrazoado de 20 páginas e 121 artigos repleto de lugares-comuns mercadistas.

Depois de eliminar o imposto sobre grandes fortunas, herança do MAS, o documento propunha cortar gastos no orçamento público, retirar subsídios dos combustíveis, congelar salários do funcionalismo público, ao mesmo tempo em que apresentava compensações sociais, como o reajuste do salário mínimo pela inflação do ano anterior. No entanto, a percepção geral foi de quebra de compromissos de campanha. Intensos protestos levaram à revogação da medida menos de um mês após sua aprovação.

Rodrigo Paz conduz um governo errático, baseado em denúncias de corrupção contra o MAS, medidas neoliberais e uma crescente aproximação com o governo de Donald Trump. No início de março, o mandatário voou para Miami com o propósito de se integrar ao Escudo das Américas, iniciativa da extrema direita continental voltada para o combate ao chamado narcoterrorismo e composta por uma dúzia de países. Não à toa, oito deles apressaram-se em lançar um comunicado conjunto de apoio ao governo boliviano, há duas semanas, acusando os movimentos populares de pretenderem “desestabilizar a ordem democrática”.

Faziam eco a documentos semelhantes emitidos pelos governos dos Estados Unidos e de Israel. “Os Estados Unidos apoiam firmemente o legítimo governo constitucional da Bolívia”, declarou Marco Rubio, secretário de Estado, em 20 de maio. “Não permitiremos que criminosos e traficantes de drogas derrubem líderes democraticamente eleitos em nosso hemisfério”.

Em sentido contrário, Gustavo Petro, presidente da Colômbia, se manifestou em 17 de maio: “A Bolívia vive uma insurreição popular. É a resposta à soberba geopolítica. (…) Meu governo está disposto, se for convidado, a buscar fórmulas pacíficas de saída à crise política boliviana”. A resposta de La Paz foi dura, expulsando a embaixadora colombiana do país, motivando igual iniciativa por parte de Bogotá. Lula decidiu se entender com Rodrigo Paz e enviar ajuda humanitária ao país. O acirramento da disputa global Leste/ Oeste e o avanço da extrema direita tende a articular cada embate local ao tabuleiro planetário.

Apesar da exuberância dos protestos, os movimentos sociais perderam a organicidade e a representação política outrora sintetizada pelo no MAS. Exibem a um só tempo ações espetaculares e fragilidades grandes. São capazes de obter vitórias significativas diante do governo, mas não se percebe ainda uma capacidade de transformá-las em mudanças políticas efetivas, como as obtidas no processo constituinte.

Se Rodrigo Paz não apresenta um programa com começo, meio e fim, as manifestações das maiorias empobrecidas tampouco lograram construir unidade sólida ou revelar lideranças políticas que sintetizem a ascensão popular. Embora Evo Morales tenha voltado à cena política e apoie resolutamente a onda de reivindicações, sua expressão pública se reduziu após o golpe de 2019. Sua campanha pelo voto nulo ano passado não teve características agregadoras, num cenário de fragmentação e baixa confiança coletiva.

Em outras palavras, ao contrário do que ocorreu na primeira década do século, quando o MAS se tornou um polo unificador das demandas dos de baixo, não existe ainda uma alternativa organizada e com legitimidade na esquerda para vertebrar uma alternativa viável, apesar do visível enfraquecimento do governo.

*Gilberto Maringoni é jornalista e professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC).

Versão ampliada de artigo publicado na edição no. 1415 da revista Carta Capital.

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