Do IHU, 18 Mai 2026
Entrevista com Joao Pedro Stedile"Nós mudamos nossa concepção sobre a reforma agrária. Durante os 30 primeiros anos do MST a visão que nós tínhamos era da reforma agrária clássica, ou seja, distribuir as áreas de latifúndio para os trabalhadores sem-terra e com isso desenvolver o mercado interno, a indústria e o desenvolvimento do país", afirma João Pedro Stedile, economista, uma das lideranças do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra - MST, em entrevista publicada no jornal suíço Le Courrier, 14-05-2026.
Segundo ele, "agora, nós dizemos que a reforma agrária mudou de características, de natureza. É preciso fazer mudanças no campo que atendam a toda a população, e não apenas os trabalhadores sem-terra. Por isso que chamamos de reforma agrária popular, para se diferenciar da outra. E essa reforma agrária popular incorpora a necessidade da democratização da propriedade da terra, mas também a defesa da natureza".
Eis a entrevista.
Abril, que est um mês de Mobilização para o MST e esse ano o movimento lembrou o 30º. aniversário do massacre de Eldorado de Carajás. Qual foi a dimensão dessa jornada de mobilização e quais foram as principais reivindicações do movimento nessa jornada?
Em primeiro lugar, a jornada de abril já é uma tradição histórica do nosso movimento há 30 anos, desde quando houve aquele massacre em abril de 96. Na sequência, em 1997, nós fizemos uma grande marcha à Brasília que partiu de três estados brasileiros: Minas Gerais, Mato Grosso e São Paulo. Posteriormente, todos os anos aproveitamos a lembrança dos mártires que perdemos para nos manifestarmos.
O principal objetivo das nossas mobilizações é seguir conscientizando a sociedade brasileira sobre a necessidade da reforma agrária e, evidentemente, convencer a sociedade brasileira que agora a reforma agrária não é apenas um problema do Movimento de Trabalhadores Sem Terra, mas é uma necessidade de resolver os problemas do povo brasileiro, como a fome, a desigualdade. A necessidade de produzir alimentos saudáveis e de estabelecer a agroecologia como uma alternativa ao modelo predador do agronegócio.
Nós também conformamos uma comissão que foi à Brasília negociar com o governo federal. Os pontos de negociação foram alguns dos problemas mais urgentes que temos no momento, como alguns conflitos que ainda perduram. Sobretudo, no estado no Pará, na região amazônica, onde nós temos um acampamento com 7 mil famílias. Essa a maior ocupação da história do MST e, acredito, da América Latina, senão de todo o sul global.
Denunciamos ao governo que a reforma agrária está paralisada, ao contrário do que diz a sua propaganda, e que, na verdade, nós continuamos com quase 100 mil famílias acampadas em todo o Brasil.
Desde a sua fundação, há 40 anos, o MST luta pela reforma agrária e contra a concentração de terras no Brasil. Qual é a situação hoje dessa reforma agrária? Vocês consideram que ela é… Ela existe, ela é inexistente, ela avança, não avança? Você já falou um pouco, mas se você puder aprofundar.
Nós mudamos nossa concepção sobre a reforma agrária. Durante os 30 primeiros anos do MST a visão que nós tínhamos era da reforma agrária clássica, ou seja, distribuir as áreas de latifúndio para os trabalhadores sem-terra e com isso desenvolver o mercado interno, a indústria e o desenvolvimento do país. Porém, para que aquela reforma agrária clássica se viabilizasse, como aconteceu em todos os países da Europa, nos Estados Unidos e no Japão seria necessário que a burguesia industrial também se interessasse por esse plano. Não foi o que aconteceu no Brasil. O momento mais próximo que nós tivemos de uma reforma agrária clássica no Brasil foi na década de 60, durante o governo de João Goulart. E a resposta que a burguesia deu foi um golpe militar que durou 20 anos.
Agora, nós dizemos que a reforma agrária mudou de características, de natureza. É preciso fazer mudanças no campo que atendam a toda a população, e não apenas os trabalhadores sem-terra. Por isso que chamamos de reforma agrária popular, para se diferenciar da outra. E essa reforma agrária popular incorpora a necessidade da democratização da propriedade da terra, mas também a defesa da natureza. Isso é importante para enfrentar as agressões que o capital faz e que provocam as mudanças climáticas, a produção de alimentos saudáveis, a adoção da agroecologia como tecnologia necessária para produzir alimentos saudáveis e a difusão da agroindústria como uma maneira de levar desenvolvimento para as áreas conquistadas que nós chamamos de assentamentos.
Quais são principais desafios dessa reforma agrária popular não avança?
Infelizmente, nos últimos anos, consolidou-se a hegemonia do modelo do capital, que é o agronegócio, que se baseia em grandes fazendas, monocultoras, que se dedicam apenas à produção de commodities agrícolas para exportação. Ele tem um discurso que é hegemônico na mídia, ele faz propaganda todos os dias, inclusive nos telejornais. Mas ele é hegemônico também no interior do Estado brasileiro e em toda a sua estrutura. Infelizmente é hegemônico também no governo, que apesar de ser um governo progressista, ele abandou a ideia de fazer reforma agrária e adotou apenas políticas específicas que atendem os conflitos pontuais e da assistência à população mais pobre das zonas rurais. Mas não há dentro do governo Lula um engajamento, um comprometimento político e a destinação recursos para de fato implementar um plano de reforma agrária.
Houve algum avanço nas políticas destinadas aos pequenos camponeses no atual governo Lula?
Os avanços que houve no último governo foram de políticas complementares, que ajudam, mas não afetam a estrutura injusta da propriedade da terra. De certa forma, as políticas que existem atualmente atendem a um segmento do campesinato mais consolidado, como os camponeses dos nossos assentamentos (terrenos com instalações permanentes de famílias). Mas não os acampamentos (ocupações, instalações provisórias). Para os trabalhadores pobres que estão nos acampamentos a única política que chega do governo é a Bolsa Família, que é uma renda assistencial, que não resolve o problema. Existem outras políticas que são positivas e que relacionadas com o incentivo à produção. Como é o caso do Programa de Compra Antecipada de Alimentos.
Ele tinha sido abandonado pelos governos anteriores, de Michel Temer e Jair Bolsonaro, e foi revitalizado pelo governo do presidente Lula. Isso deu um alento à produção de alimentos. Mas ainda assim é aquém das necessidades. Existe também o programa de merenda escolar, que faz com que as escolas públicas passem a comprar produtos da agricultura familiar. Não se resume à simplesmente fazer editais e comprar multinacionais, como acontecia no passado.
Mas esse é um governo que também teve que lidar com um parlamento que foi hostil na maior parte do período. Houve avanços para o campo popular para além das pautas da reforma agrária?
A conjuntura da luta de classe no Brasil ainda é de uma correlação de forças que não atende às necessidades da classe trabalhadora em geral. Isso está relacionado com vários fatores que não dependem do governo. Por um lado, o avanço do capitalismo, que, de certa forma, está recolonizando a economia brasileira. O único objetivo do capitalismo internacional é fazer com o Brasil produza exclusivamente commodities agrícolas, como soja, milho, algodão, cana-de-açúcar e pecuária bovina. Assim como commodities minerais para exportação. Nós estamos sofrendo um processo de desindustrialização do país. Pior ainda, nós não temos um projeto de país. Isso dificulta você aglutinar forças em todos os espaços. Por outro lado, também nós estamos vivendo já há décadas um período histórico adverso de descenso do movimento de massas. De certa forma, a classe trabalhadora não tem tido a força necessária de realizar grandes mobilizações de massa para influenciar os poderes públicos. A política brasileira caiu na mediocridade e é controlada pelo Congresso, que é de direita, ou pelo Poder Judiciário, que também é conservador. De maneiras que, no contexto geral, nós estamos vivendo um período adverso para os interesses da classe trabalhadora e a classe trabalhadora não tem tido forças de se reerguer e retomar a ofensiva.
Mas, de toda maneira, você considera que a vitória do Lula depois de um governo Bolsonaro tenha sido, de alguma maneira, uma vitória para o campo popular, mesmo que não seja um governo de esquerda no sentido clássico?
O MST enfrentou o governo Temer, que já era um governo de cunho fascista, e enfrentou o governo Bolsonaro. Foram dois governos controlados pelo capital financeiro e estrangeiro. Eles não tinham força própria e o grande capital se impôs. Eles derrubaram a Dilma, prenderam o Lula e colocaram dois governos fascistas. Evidentemente que cabia ao MST e às forças populares não só resistir, mas lutar para a libertação do Lula, que aconteceu, e depois a sua eleição. A eleição do Lula era uma necessidade para frear o avanço das ideias fascistas e da dominação do capital estrangeiro sobre a nossa economia.
E quais são os desafios que você vê para as eleições presidenciais do Brasil esse ano na conjuntura e também na conjuntura latino-americana? O que representa essa eleição?
Nós seguiremos enfrentando o desafio de reeleger o Lula. Mas nós acreditamos que é preciso, nos próximos meses, fazer uma campanha eleitoral que ajude a esclarecer o povo e a educar a população para os graves problemas do Brasil, como a desigualdade e as injustiças. Para fazer esse trabalho não basta simplesmente dizer: “o Lula é melhor que o Bolsonaro. O Bolsonaro é fascista e o Lula é progressista”. Isso é óbvio, mas nós temos que aproveitar a campanha para fazer uma política de educação. Motivar a população a lutar para resolver os seus problemas imediatos, como, por exemplo, defender a tarifa zero para o transporte público. Nós defendemos a jornada de trabalho seja reduzido para 36 horas por semana. Assim como defendemos a necessidade de que haja políticas públicas para reindustrializar o país, para com isso criar empregos com renda mais elevada e uma política mais ofensiva para a construção de moradias populares. Também temos que ampliar o acesso da população à escola, à educação pública e gratuita, em todos os níveis, desde a creche infantil até a universidade.
Por isso que o Lula corre risco de não ganhar as eleições, porque apesar de três anos e meio de um governo progressista, não alterou a intenção de voto da população.
Isso é grave. Para superar e motivar, sobretudo, o convencimento dos que estão indefinidos, que é 10% da população e que vai definir a eleição. Nós precisamos debater com essa população as medidas concretas que o governo Lula tem que se comprometer quando ganhar as eleições. E isso ajudará a politizar o debate, ajudará a conscientizar a população do que simplesmente cair num reducionismo de Lula é melhor que o Bolsonaro porque o Bolsonaro é fascista e o Lula é progressista. A participação dos movimentos sociais nas eleições será, nesse sentido, de animar esse debate e vocês vão se engajar na campanha, de qualquer maneira.
Claro, todos os movimentos populares como o MST e o movimento sindical, estão engajados na campanha. A nossa tarefa vai ser no trabalho de base, lá na periferia. Ir de casa em casa, produzir subsídios didáticos que ajudem a população a entender o período que nós estamos vivendo, senão a própria população vai botar a culpa dos seus problemas no Lula. O papel do movimento popular é justamente dialogar com essas camadas da sociedade, em especial os mais pobres, que são os que vivem nas periferias, onde os partidos de esquerda muitas vezes não chegam.
Agora, a extrema-direita continua com uma base de votos importante, apesar da derrota do Bolsonaro. Como explicar essa parcela importante de intenção de voto que a extrema-direita ainda tem?
A sondagem de votos está equilibrada: 40% dos eleitores fazem parte da base do Lula e outros 40% com a direita. Essa base da direita se consolidou por várias razões. Primeiro, na minha opinião, é porque não houve mudanças estruturais na política do governo Lula que melhorasse devido à população. Todas as medidas, mesmo que positivas, foram paliativas. Programas sociais não altera a vida das pessoas. Segundo, é porque a direita tem força organizada, pois ela tem os aparatos de reprodução ideológica. Porque a direita controla a televisão, as rádios, os jornais. A direita tem uma grande influência na classe média, dos médicos, dos professores. Que todo dia falam com o povo. A direita tem muita influência no uso de pastores pentecostais, que fazem a sua propaganda semanal.
Nós trabalhamos com a hipótese de que o Lula tem mais chance de ganhar no primeiro turno das eleições, desde que a direita se dívida, que ela tenha vários candidatos. Além de Flávio Bolsonaro existe a possibilidade outros três candidatos da direita que podem receber entre 3% a 5%, o que poderia representar uma divisão da direita. Nesse caso, amplia as chances de Lula ganhar no primeiro turno. Se a disputa for para a segundo turno, toda a direita se junta contra ele e deixa a situação mais difícil.
Você acha que o Flávio realmente tem chance de ganhar? E quais seriam os impactos dessa vitória dele?
A candidatura do Bolsonaro, é claro que tem chance de ganhar, mas se fosse para fazer apostas, o Lula tem mais chance de ser reeleito. Agora, se o Flávio Bolsonaro se eleger vai ser a reedição do governo fascista, totalmente aliado com o Donald Trump. Por isso outro fator que pode influenciar nossas eleições e é o comportamento do Trump nos Estados Unidos. Porque a imagem de Bolsonaro está muito ligada à de Trump. Si Flávio Bolsonaro ganhar vai ter um governo de uma colônia, a serviço dos interesses dos Estados Unidos. Todos esses candidatos da direita falam, por exemplo, que os minérios chamados de “terras raras” vão ser entregues às empresas americanas, até mesmo a Petrobras, empresa pública de petróleo. Eles não têm pudor nenhum, como está fazendo o Milley, de pendurar o futuro do Brasil apenas nos interesses das empresas americanas.
Agora, entrando no tema Mercosul, os movimentos sociais, a MST, Via Campesina, movimentos trabalhadores rurais, são contra os acordos da União Europeia com o Mercosul. Quais as principais razões?
Nos anos 90, o neoliberalismo prometia desenvolvimento pelo livre comércio, a ALCA chegou a cogitar o dólar como moeda regional. Três décadas depois, ficou claro que essa lógica falha: não desenvolve forças produtivas, não combate a desigualdade e ainda fortalece oligopólios. Embarcar nessa tese ultrapassada seria um erro grave, especialmente quando o mundo inteiro caminha no sentido oposto, protegendo sua indústria e apostando em tecnologia e emprego. O segundo erro é criar dependência da Europa, uma economia em declínio. Se acordos de livre comércio fizessem sentido, deveriam ser com China, Índia e Indonésia, as grandes economias emergentes que hoje dominam a economia global.
Os únicos reais beneficiários seriam as indústrias europeias, sobretudo alemãs, que inundariam o mercado brasileiro sem pagar impostos, enquanto o mercado agrícola europeu, já abastecido, não precisa de tarifas menores. O impacto mais crítico recai sobre a agricultura familiar: 3 milhões de famílias dependem do leite, e empresas europeias destruiriam cooperativas com leite em pó, queijo e derivados, o que já ocorre no Rio Grande do Sul, onde uma cooperativa de 30 anos faliu recentemente pela entrada de produtos europeus sem taxação. Da mesma forma, 50 mil famílias produtoras de uva serão diretamente atingidas pela concorrência de vinhos e sucos europeus isentos de impostos.
Como explicar esse divórcio, nessa questão entre os movimentos, entre os pequenos produtores, movimentos sociais e o governo?
Ninguém consegue explicar. Primeiro porque é aquela vaidade do Itamaraty. Fazia 20 anos que esse acordo estava sendo negociado. Então existe a expetativa de contar isso como uma conquista dessa gestão. Segundo, porque o Lula tem, eu acho, sei lá, qual é a visão que ele tem. Mas ele se baseia muito na política externa por amizades. Para o Brasil seria muito mais interessante assinar um acordo de livre comercio com a África. A África compra tudo. Então aí sim valeria a pena.
Você acha que corre o risco de aumentar a violência no campo, devido à expansão do agronegócio nessa questão do Mercosul?
O agronegócio, especialmente da soja e da pecuária bovina, está se expandindo não por causa do mercado europeu. Ele derrubando florestas para abrir novas áreas de cultivo e criação. É nessas regiões de expansão que se concentra a maior parte da violência no campo. As principais vítimas, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra, são povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, populações que vivem nessas florestas e resistem à ocupação de seus territórios.
Além do agronegócio, a mineração também impulsiona essa violência, disputando terras para a extração e exportação de commodities minerais. Portanto, essas são as causas de violência no campo nesse momento no Brasil: exportação de commodities minerais e agrícolas.

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