A universidade pública entre o cerco ideológico externo e a asfixia identitária intramuros que compromete o rigor teórico e interdita a liberdade acadêmica
1.
Malgrado em atraso, chega em bom momento o “Manifesto pelo pluralismo e pela liberdade acadêmica’’.[i] Formulado, articulado e fiado por docentes e pesquisadores de todo o país, o documento apresenta o mal-estar ambiente – para não dizer, insistente – nas universidades públicas brasileiras. O seu argumento identifica uma tempestade perfeita onde, por um lado, existe um inequívoco fogo cerrado contra a dignidade e a reputação das instituições e, por outro lado, uma ambiência interna de “conformidade ideológica, autocensura e intolerância ao dissenso” que sobrepuja o “pluralismo” e da “liberdade acadêmica”.
O documento é importante. Bem pensado e bem escrito. Um manifesto. Que merece atenção, análise e discussão.
O seu diagnóstico é preciso. Salvo ilhotas de ar puro, as universidades brasileiras – especialmente em seus nichos de Ciências humanas e humanidades – transformaram-se em lugares inóspitos e irrespiráveis. Lugares abandonados e esquecidos pela administração pública. Onde greves docentes e de técnicos administrativos são recorrentes e o governo federal não dispõe de mínima intenção de verdadeiramente negociar. Como ocorreu na greve dos docentes de 2024 e como ocorre agora na presente greve dos técnicos administrativos em educação –, iniciada em fevereiro de 2026.
Mas a preocupação do Manifesto está longe de ser sindical. E, por isso, vai além. Toca no coração e na alma do problema: a vocação e a natureza da universidade. Que antes e acima de tudo diz respeito à produção e transmissão de saber. Experiências densamente comprometidas. Não de hoje. Mas desde muito. Desde pelo menos vinte anos, quando a frustração começou a destronar a esperança na sociedade em geral e na universidade pública em particular.
Foi na primeira presidência de Lula da Silva. Antes, durante e depois do escândalo do Mensalão. Um momento extraordinário. Que pasmou a todos e calou os intelectuais. Em sua maioria, professores e pesquisadores universitários. Que, diante do absurdo, preferiram o silêncio. O silêncio dos intelectuais.
Intelectuais que, em sua maioria, acreditaram na redemocratização, na democracia brasileira, em Lula e no PT. Mas, agora, não podiam mais. Era o fim das ilusões. O PT revelou-se comum às demais agremiações. Sem tirar nem por. Um partido sem essência nem decência, sem integridade nem honradez. Uma “organização criminosa” no dizer do saudoso professor Francisco de Oliveira (1933-2019). Um “mar de lama”. Que avariou a ação de seus apoiadores a partir de 2005.
A esse momento de perplexidade foram adicionadas a aceleração da expansão de instituições de ensino superior país e a naturalização da tentação identitária entre nós.
2.
Sobre a expansão das IES, vinte anos depois, o balanço não é simples, mas é bem claro. Congrega pontos positivos e pontos negativos. Muitas dessas novas instituições contribuíram decisivamente para a mitigação de iniquidades locais e regionais. Mas a maior parte delas não amadureceu como projeto nem como ideia. Permanece apenas como instituição que emprega pessoas – docentes e técnicos, muitos deles de alta e altíssima qualificação – e cumpre formalidades correntes, mas segue longe de possuir projeto acadêmico, ambiente acadêmico, “pluralismo” e “liberdade acadêmica”.
Sobre o identitarismo à brasileira – núcleo das angústias do Manifesto – a discussão é bem mais complexa e quase sempre movediça. O seu ponto de partida foi o silêncio dos intelectuais. O silêncio dos intelectuais após o Mensalão conduziu ao esmaecimento do rigor teórico no interior das universidades. O marxismo político, o marxismo acadêmico e a teoria social ficaram em baixa, perderam espaço e saíram de moda. Em seu lugar emergiu essa tentação identitária. Um movimento importado que não tardou em tornar-se hegemônico nas universidades. Especialmente nas mais recentes e sem tradição. Mas também nas mais antigas e per se mais acometidas pelo silêncio dos intelectuais.
Essa tentação identitária mesclada à “religião woke” que nos ensina Jean-François Braunstein foram fenômenos iniciados na Europa e nos Estados Unidos como produto direto da bien-pensance soixante-huitard, da French Theory e do politically correct dos anos de 1970.[ii]
Vladmir Saflatle, em corajoso artigo publicado na revista Piauí, rasgou o véu do problema e de suas implicações.[iii] Não vem ao caso retomar os seus argumentos. Cumpre, simplesmente, adicionar dois bemóis. Um de enquadramento. Outro de periodização.
Não raramente, a reconstituição das origens gerais do identitarismo recai sobre os subaltern studies inaugurados na Inglaterra e sobre suas repercussões nos Estados Unidos e na América Latina – especialmente com o grupo Modernidade versus Colonialidade sediado na Venezuela e, em seguida, com a tentação decolonial proposta pelo porto-riquenho Nelson Maldonado-Torres.[iv] Mas quase nunca existe referência ao peso da French Theory sobre as suas formulações.
Sem ilusões nem arremedos, a French Theory nada mais foi que o enlatamento e a profusão de fragmentos obscuros de Michel Foucault, Jacques Derrida e Gilles Deleuze em campi universitários norte-americanos nos anos de 1970.[v] Ainda se vivia o furor do maio de 1968 francês. Vivia-se também o martírio do Vietnã, o choque das descolonizações, os protestos civis norte-americanos, a crise de paradigmas, o fim das certezas e o início da pós-modernidade. Um momento, assim, contraditório. Tangido por, ao mesmo tempo, um vazio e uma ebulição de ideias que permitiram a mobilização e popularização dos ideários dos pensadores franceses nos Estados Unidos.
Uma vez norte-americanizados, esses ideários alimentaram inicialmente os supostos e as bases do politically correct. Mas, logo em seguida, inocularam no debate planetário o trinômio “dérision”, “déconstruction”, “destruction”.[vi]
Esse trinômio propugnava essencialmente a revisão de referências básicas como família, nação, trabalho, estado, escola e afins. Colocando em questão as métricas do convívio social no Ocidente e a essência dos valores ocidentais em todas as partes. Afirmando a Europa e os Estados Unidos como vilões do mundo. E fazendo, assim, fundamento ideológico da tentação identitária.[vii]
Essa tentação começou a chegar no Brasil nos anos de 1980-1990. Primeiro com os retornados do exílio que foram incorporados às universidades. Depois com a abertura brasileira à globalização. Notadamente após a implosão do mundo soviético. Quando a hegemonia do marxismo político e do marxismo acadêmico começaram a definitivamente ruir. Nesse interim, o identitarismo começou a virar alternativa. Mas só foi de fato frutificar com o silêncio dos intelectuais.
O silêncio dos intelectuais fragmentou de vez a hegemonia do rigor marxista. Pouco a pouco, esse modelo mental foi perdendo a força, esmaecendo, virando diminuto e aproximando-se do crepúsculo. Concomitantemente, a tentação identitária foi se impondo. Afirmando-se como regra mental e moral de ação e conduta. Causando sinistros indizíveis na formação, na mentalidade e no humor de pelo menos duas ou três gerações de pessoas que têm frequentado as universidades públicas brasileiras nestes vinte anos. Pessoas, não raramente, dignas e honestas que passaram a ser sinceramente imbecilizadas pela ausência de rigor teórico do identitarismo.
Se nada disso já não fosse demasiado grave, a emergência desse identitatismo ladrilhou caminhos seguros para a emergência de seus oponentes, a saber: o olavismo, o bolsonarismo e o olavobolsonarismo. Movimentos similarmente ideológicos, mas com sinais trocados. E, pior que isso, com uma franca obsessão pela repulsa às universidades públicas brasileiras. Especialmente por entender uma “guerra cultural” precisaria ser travada bem ali, nas universidades.
Parte substantiva dessa “guerra” foi perdida pelas universidades e resultou nessa crise endêmica de reputação indicada pelo Manifesto. Outra parte, em reação, impôs essa “conformidade ideológica, autocensura e intolerância ao dissenso” de viés identitário como norma intramuros. Golpeando, assim, o “pluralismo” e a “liberdade acadêmica”. Desde fora pelo olavismo. Desde dentro pelos identitários.
Essa dura realidade atravessou os últimos vinte anos e chegou a paroxismo justo agora sob a terceira presidência de Lula da Silva. Uma presidência complexa. Desejada como imperativo de salvação. Mas que frustrou na estreia e morreu no nascedouro ao ser sequestrada pelo 8 de janeiro de 2023 e estraçalhada pelo evento da demissão do ministro Silvio Almeida em 6 de setembro de 2024.[viii]
O 8 de janeiro de 2023 e suas repercussões lavaram a alma dos enamorados do “Não vai ter golpe”, do “Lula, livre” e do “Ele, não” de 2016 e 2018. Mas, conseguintemente, mantiveram o país olhando pelo retrovisor e revivendo passados. O triste fim de Silvio Almeida inaugurou o início do fim dos identitários no poder. Mas, perplexamente, o choque desse fim renovou a estridência dos identitários no interior das universidades.
Assim, desde fora das universidades, a ofensiva olavista arrefeceu. Mas, desde dentro, a tentação identitária persiste.
E é curioso. No mundo inteiro, a olhos vistos, pouco a pouco, a tentação identitário no interior das universidades vai fazendo água. Na Europa e nos Estados Unidos ela já virou passado. No Brasil – e, talvez, apenas aqui – ela persiste. Fraca, raquítica e claudicante, mas persiste renovando-se em versão. Cada vez mais perversa, mais ressentida e até criminosa. Amordaçando a diferença e violentando diferentes. Desde o recrutamento até estágios avançados da carreira. Inibindo o “pluralismo” e a “liberdade acadêmica”.
Em contrário, observe-se que os mecanismos de recrutamento e seleção de docentes nas universidades sempre tiveram viés e sempre foram demasiado subjetivos, especialmente nas áreas de humanidades e ciências humanas. Mas sob a égide identitária tudo isso ganhou dimensões bastante peculiares.
Um estudo abrangente de editais de concursos públicos para docentes das federais nos últimos vinte anos pode indicar a gravidade da situação onde conteúdos programáticos abdicaram abertamente de demandar conhecimentos majoritariamente técnicos para impor pautas ideológicas de caráter identitário.
Uma vez aprovado em concurso e integrado à carreira, um novo martírio se inicia no famigerado estágio probatório onde ou é-se identitário ou corre-se o risco de ser molestado e até não aprovado nesse expediente simplesmente pro forma de integração profissional ao magistério superior.
Após a integração do docente, caso ele não se renda ao identitarismo, a matilha identitária promove toda sorte de expedientes perversos e mesquinhos para perseguir, maltratar, difamar, hostilizar, isolar, processar e humilhar.
Exemplos cotidianos concretos dessas práticas abundam em todas as partes. Para ficar apenas num, não tem muito tempo, num desses grupos de professores, circulou a expressão “negro europeizado”. Uma expressão abertamente identitária mobilizada para intimidar. O seu emissor, claro, foi um desses doutores de cunha identitária. Um sujeito nitidamente lobotomizado pela tentação. Que, agindo dessa forma, não se percebe tampouco se reconhece como ridículo e criminoso. Ridículo por lançar mão de expressão de péssimo alvitre. Criminoso por mobilizar imagem nitidamente racista. O pior de tudo foi que todos viram, todos leram e muitos inclusive sorriram sem que ninguém com alguma autoridade tivesse a dignidade de chamar esse cretino à razão. E a vida continua.
Por tudo isso, o Manifesto pelo pluralismo e pela liberdade acadêmica chega em bom momento. Resta saber se vai conseguir mover montanhas para reverter este triste estado de coisas.
*Daniel Afonso da Silva é professor de história na Universidade Federal da Grande Dourados. Autor de Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas (APGIQ).
Notas
[i] https://pluralismoacademico.org/#manifesto
[ii] BRAUNSTEIN, Jean-François. La religion woke. Paris: Grasset, 2023.
[iii] SAFATLE, Vladmir. O grande FMI universitário – como o colonialismo domina os estudos decoloniais. Piauí, dez. 2025.
[iv] BALLESTRIN, Luciana Maria de Aragão. América Latina e o giro decolonial. Revista Brasileira de Ciência Política, n. 11, ago. 2013.
[v] CUSSET, François & BERGANZA, Josephine. French Theory. Foucault, Derrida, Deleuze & Cia et les mutations de la vie intellectuelle aux États-Unis. Paris: Éditions Découverte, 2013.
[vi] Id., ibid.
[vii] BRAUNSTEIN, Jean-François. La religion woke. Paris: Grasset, 2023.
[viii] Sobre essa demissão, ver SILVA, Daniel Afonso. O triste fim de Silvio Almeida. A terra é redonda, 08/09/2024. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/o-triste-fim-de-silvio-almeida/.

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