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Nancy Fraser: O velho está morrendo – o novo nascerá?

Pensadora feminista reconstrói a genealogia das crises contemporâneas que desencadearam genocídios, guerras e reações do “macho obsoleto”. E os sinais de anseio por alternativas – que não virá da “Europa civilizada”, nem do “progressismo-neoliberal”


De Outras Palavras, 18 de maio 2026
Por Thiago Gama


Imagem: Reprodução/The New School
Nestes tempos de trevas em que um ator comparece ao horário nobre da televisão para, diante de milhões, falsear a realidade da violência de gênero enquanto promove seu evento pago de exaltação à masculinidade sitiada — tempos em que o monopólio midiático naturaliza a mentira e a transfere para o centro do debate público —, há certas vozes cujo chamado à lucidez se torna um imperativo ético.

Nancy Fraser, a filósofa e teórica crítica que aos 79 anos segue desmontando as estruturas de poder com a precisão de uma artesã e a força de quem não tem nada a perder, é uma dessas vozes.

Fraser ocupa, desde 1995, a cátedra Henry A. and Louise Loeb de Filosofia e Política na The New School for Social Research, em Nova York, uma das instituições mais prestigiosas do mundo no campo da teoria crítica — tradição à qual a filósofa pertence por filiação direta, como herdeira da Escola de Frankfurt e interlocutora contínua de Jürgen Habermas e Axel Honneth.

Antes disso, ensinou por muitos anos no departamento de filosofia da Northwestern University, uma das principais universidades privadas de pesquisa dos Estados Unidos, e foi professora visitante em instituições como a Johann Wolfgang Goethe-Universität de Frankfurt (Alemanha), a Stanford University, a State University of New York (SUNY) e a University of Cambridge, onde em 2011 ocupou a cátedra Humanitas Visiting Professor in Women’s Rights.

Sua trajetória acadêmica iniciou-se no Bryn Mawr College, uma das Sete Irmãs, a elite das faculdades de artes liberais femininas dos Estados Unidos, onde se bacharelou em filosofia em 1969; o doutorado veio em 1980 pelo CUNY Graduate Center, a pós-graduação da City University of New York, onde estudou com os filósofos que a introduziram à tradição crítica europeia.

Fraser também detém títulos de doutora honoris causa por quatro universidades em três países — Argentina, Chile e Países Baixos —, reconhecimento internacional de uma obra que já foi traduzida para mais de vinte idiomas, incluindo citações em três ocasiões pelos ministros do Supremo Tribunal Federal brasileiro em votos que sustentaram o casamento igualitário, as ações afirmativas e os direitos territoriais quilombolas.

Sua produção bibliográfica é um mapa das grandes controvérsias da teoria social contemporânea. Entre os títulos fundamentais, destacam-se Unruly Practices: Power, Discourse, and Gender in Contemporary Social Theory (University of Minnesota Press, 1989), sua primeira grande intervenção, na qual articulou Foucault com Habermas para pensar o gênero como categoria analítica; Justice Interruptus: Critical Reflections on the “Postsocialist” Condition (Routledge, 1997), publicado no Brasil como Justiça interrompida: reflexões críticas sobre a condição “pós-socialista” (Boitempo, 2022), onde formulou sua teoria bidimensional da justiça como redistribuição e reconhecimento; Redistribution or Recognition?

A Political-Philosophical Exchange (Verso, 2003), coescrito com Axel Honneth, que se tornou um clássico do debate contemporâneo sobre justiça social; Scales of Justice: Reimagining Political Space in a Globalizing World (Columbia University Press, 2009), no qual expandiu sua teoria para o plano transnacional; Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis (Verso, 2013), publicado no Brasil como Destinos do feminismo: do capitalismo administrado pelo Estado à crise neoliberal (Editora UnB, 2024), um acerto de contas com as trajetórias do movimento feminista; Capitalism: A Conversation in Critical Theory (Polity, 2018), com Rahel Jaeggi; e Feminismo para os 99%: um manifesto (Boitempo, 2019), redigido com Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya, que se tornou um fenômeno editorial global lançado simultaneamente em oito países e que no Brasil já acumula múltiplas reimpressões, com tiragens que superaram as expectativas iniciais da editora.

Sua obra mais recente, Cannibal Capitalism: How Our System is Devouring Democracy, Care, and the Planet – and What We Can Do About It (Verso, 2022), saiu no Brasil como Capitalismo canibal: como nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta, e o que podemos fazer com isso (Boitempo, 2024), recebendo também edições pela Suhrkamp na Alemanha e pela Autonomia Literária em coedição brasileira.

Um volume de intervenção política mais compacto, O velho está morrendo e o novo não pode nascer (Autonomia Literária, 2020), condensou seu diagnóstico da crise de hegemonia neoliberal e circulou amplamente no Brasil em formato de bolso.

Ao reconstruir a genealogia da crise contemporânea, a filósofa distribui o peso da guinada neoliberal entre a herança conservadora e as capitulações da “Terceira Via” de Bill Clinton, Tony Blair e Gerhard Schröder, desvelando como o bloco progressista-neoliberal chocou o ovo da serpente do populismo autoritário.

Sob um vácuo hegemônico global — onde o assalto a Gaza decreta a falência moral do universalismo ocidental, a inteligência artificial é sequestrada por monopólios oligárquicos e a Maré Rosa latino-americana esbarra nos limites materiais do imperialismo —, o pensamento crítico mapeia os lampejos de insurgência subalterna que emergem em Nova York e Minneapolis.

Trata-se de um itinerário analítico que fornece a gramática indispensável para desarmar a reação patriarcal nas Américas, culminando no desmantelamento das distorções factuais promovidas pelo tradicionalismo de Juliano Cazarré na mídia de massa brasileira.

A entrevista foi conduzida por Thiago Gama, historiador comparativista, mestre e doutorando pelo programa de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Eis a entrevista.

Seu conceito de “capitalismo canibal” revela como o sistema devora suas próprias condições de possibilidade — o trabalho de cuidado, o poder público, a natureza e o trabalho racializado. Como as “histórias de fundo” da expropriação e do trabalho racializado estão se desdobrando de forma diferente hoje no Sul Global, onde essas dinâmicas surgem frequentemente sem os álibis institucionais do Norte?

A diferença entre esses grupos se estabelecia por sua cor e por seu status. Do ponto de vista do status, um grupo era juridicamente livre, o outro não — e isso coincidiu com a linha de cor global. Em geral, os povos expropriados foram povos negros. Em geral, os trabalhadores livres eram os europeus, os brancos, como eram chamados. Isso foi no início, mas acho que, com o tempo, essa divisão que racializava a diferença entre os expropriados e os explorados foi se tornando mais complexa. Diria que hoje as coisas são mais complicadas.

Hoje, quase todos os povos do Sul Global habitam estados considerados independentes e, portanto, possuem alguns direitos — talvez não muitos, mas direitos no papel: são cidadãos. E muitos deles realizam trabalho assalariado, embora não todos. Ainda existem aqueles coercidos a uma espécie de economia clandestina. Mas há trabalho livre e explorado no Sul Global hoje, e, ao mesmo tempo, no Norte Global, por causa da neoliberalização, os salários foram comprimidos, a segurança no emprego foi destruída, os sindicatos foram enfraquecidos, a manufatura foi expulsa.

Então, muitos trabalhadores no Sul Global são expropriados por meio de dívidas, ao mesmo tempo em que realizam formas de trabalho assalariado precário, especialmente no setor de serviços. Vemos uma imagem mais complexa. Em ambas as regiões — Norte e Sul Global —, as pessoas são simultaneamente expropriadas e exploradas. É uma divisão menos nítida do que tivemos nas fases anteriores do capitalismo, mas ainda há uma diferença entre o trabalho expropriado e o explorado nas duas extremidades do espectro, e há pessoas no meio — que poderíamos chamar de híbridos, misturando os dois estados. Essa está se tornando uma posição majoritária, creio eu.

Ao mesmo tempo, a cor ainda é uma linha de clivagem na sociedade, mas de forma um pouco diferente da época anterior, quando coincidiu muito prontamente com a divisão entre livre e expropriado. Agora, a cor persiste como o que alguns chamam de forma de subordinação pós-colonial, mesmo que o estatuto formal de escravizados ou dependentes tenha sido abolido. É uma resposta longa, mas a questão é complexa, e espero que ajude.

A era Reagan-Thatcher é frequentemente associada ao surgimento dos problemas que a senhora descreve — neoliberalismo, racialização, desigualdade. Qual é a sua avaliação desse período?

É verdade que essas duas figuras estão associadas, no imaginário popular, à neoliberalização, e isso faz algum sentido: ambos argumentaram fortemente que o problema de seus países decorria do excesso de intervenção estatal, de burocracia demais. Era preciso deixar os mercados agirem livremente. Essa foi a ideologia.

Mas acho que a história real é mais complexa. Nos EUA e no Reino Unido, os grandes movimentos de instalação e consolidação do neoliberalismo foram realizados pelo Partido Democrata, com Bill Clinton, e pelo Novo Trabalhismo, com Tony Blair. São eles, no caso de Clinton, que desregulamentaram Wall Street, tornaram o mercado de derivativos algo de proporções imensas e expandiram a OMC para incluir a China — o que alterou dramaticamente a geografia da produção industrial. E Blair copiou Clinton.

A chamada “Terceira via”.

Exatamente, terceira via. Porque acharam que poderiam vencer eleições mais facilmente se abandonassem os sindicatos e a classe trabalhadora, que eram sua base de apoio, e tentassem, em vez disso, atrair eleitores independentes e suburbanos. Devem, portanto, receber grande parte da responsabilidade pela neoliberalização. Não foram apenas Thatcher e Reagan. Posso contar a mesma história sobre a Alemanha. Foi Gerhard Schröder, um social-democrata, quem introduziu as reformas Hartz que transformaram todo o sistema de mercado de trabalho alemão. Em alguns países, foi a direita que o fez — mas não no Reino Unido, nos EUA ou na Alemanha.

Seu diagnóstico de 2017 sobre a hegemonia “progressista-neoliberal” e seu papel no nascimento do Trumpismo foi tragicamente confirmado. No contexto do segundo mandato de Trump, quais são as possibilidades concretas de construir um bloco contra hegemônico que não repita os erros de casar uma política progressista de reconhecimento com uma economia política neoliberal?

De certa forma, isso retoma a pergunta anterior. Quando eu descrevia o papel de Blair e Clinton, chamava-os de progressistas-neoliberais: apelavam a eleitores que apoiavam, pelo menos na superfície, o feminismo, os direitos gays, a ecologia, o antirracismo — mas combinavam essa política de reconhecimento com uma política distributiva regressiva, que significava redistribuição de baixo para cima, em favor dos muito ricos. E isso pavimentou o terreno para os Trump e os Bolsonaro. Porque esses progressistas neoliberais supervisionaram a deterioração das condições de vida das classes trabalhadoras — nos EUA, comunidades foram destruídas, as pessoas ficaram dependentes de opioides, sem empregos, sem comunidade, sem vida social.

Isso foi obra dos progressistas neoliberais. E criou uma abertura para que os Trump e os Bolsonaro do mundo saltassem e dissessem: “Nós somos o partido da classe trabalhadora, vamos fazer a América grande novamente, vamos resolver tudo para vocês. E sabe quem é o culpado? Os imigrantes. Nos EUA: os mexicanos, os muçulmanos, os trans, os judeus.” Ambos os campos tinham a mesma economia política oligárquica, mas políticas de reconhecimento distintas.

Isso nos traz ao presente. Eu diria que, neste momento, nos EUA, a administração Trump perdeu muito apoio e está em dificuldades eleitorais — o que explica as manobras para redistribuir distritos eleitorais e garantir maior representação. Mas do ponto de vista da opinião pública, o governo está em apuros: superou-se na brutalidade contra os imigrantes, nos assassinatos e deportações; falhou em cumprir a promessa de trazer de volta os empregos industriais — isso não aconteceu. E agora, a última falha é essa guerra insana, esse ataque insano junto com os israelenses contra o Irã.

É um momento em que o movimento trumpista não detém nenhuma hegemonia segura. O país está polarizado. Não há força hegemônica. E isso cria oportunidades para quem queira apresentar alternativas — à esquerda, podemos dizer — para entrar com uma mensagem crítica, boa organização, boa narrativa, e tentar apelar: “Você votou em Trump e agora está decepcionado. Venha conosco, vamos fazer diferente.”

Não estou dizendo que estou exatamente otimista. Não faço previsões. Mas é um momento de vácuo hegemônico, e isso cria possibilidades. Vimos, por exemplo, em Nova York a eleição de Zohran Mamdani, um prefeito socialista democrático. É uma cidade com uma população imigrante enorme — e ele próprio tem ascendência sul-asiática e representa simbolicamente os imigrantes. É interessante também porque é uma cidade com mais de um milhão de eleitores judeus — a maior população judaica fora de Israel — e ele conseguiu reunir uma coalizão de imigrantes e jovens, muitos, embora não todos, judeus que rejeitaram as políticas do governo israelense em Gaza e na Cisjordânia. É um sinal esperançoso.

Outro sinal esperançoso foi a insurreição dos cidadãos de Minneapolis. Levantaram-se contra o ICE com enorme coragem, colocando seus corpos na linha — e dois deles foram brutalmente assassinados por agentes do ICE. Isso provocou um grande refluxo contra Trump e contra o ICE no país. Se isso vai somar a algo maior, não posso dizer. Mas há lugares, momentos e desenvolvimentos que mostram que existem oportunidades, mesmo que a situação geral seja muito sombria.

O Brasil contou com treze anos de governos do PT — Lula e Dilma Rousseff. Bolsonaro foi, então, um governo abertamente fascista. Na sua opinião, por que a esquerda política perdeu o poder?

Bem, gostaria de poder responder à sua pergunta, mas não estou no Brasil e não tenho familiaridade suficiente com a política de campo para fazê-lo com segurança. Acho que seus próprios cientistas e analistas políticos terão muito mais a me ensinar do que eu a eles. Imagino que essa resposta o decepciona — mas é a verdade.

A única coisa que posso dizer é que os governos do Partido dos Trabalhadores enfrentavam uma situação muito difícil. Junto com a Maré Rosa na América Latina, estavam tentando traçar um caminho em um mundo ainda muito dominado pelos Estados Unidos, pela China e pelas outras potências. Estavam tentando ir contra a corrente. Havia questões de finanças globais, reestruturação de dívidas — tudo isso trabalhando contra esses governos.

E, ao mesmo tempo, nas políticas internas, acho que especialmente Lula se empenhou em redistribuir a riqueza mais do que em reestruturar toda a economia. Essa redistribuição era muito dependente dos preços das commodities. Quando esses preços caíram no mercado mundial — o que aconteceu —, a capacidade de redistribuir foi reduzida. É mais um exemplo de como nenhum país é uma ilha. Você está constrangido pelo mercado mundial. E acho que as boas intenções esbarraram nas duras realidades do imperialismo global.

Talvez também tenham ocorrido erros — provavelmente alguns membros do PT se decepcionaram e deixaram o partido. Mas não posso comentar sobre isso. O que eu diria em geral é que não se pode simplesmente ignorar o poder imperial global — a economia do dólar, os mercados financeiros, os mercados de commodities. É interessante que estamos vendo hoje, no caso do Irã, como eles têm uma alavancagem real por serem capazes de controlar o Estreito de Ormuz. É um poder considerável. A Maré Rosa na América Latina não dispunha dessa alavancagem para forçar os bancos e as potências globais a se comportarem de forma diferente. Há um poder muito forte no mundo, e mesmo um governo bem-intencionado pode não ser capaz de sobreviver a ele.

Estamos diante do fim da era do industrialismo, especialmente em face da inteligência artificial?

É um tema complexo. É muito claro que o que costumávamos chamar de “sociedade pós-industrial” sempre foi uma imagem distorcida — porque a indústria não desapareceu. Ela simplesmente migrou para o que chamamos de BRICS, o que inclui o Brasil, é claro. Há muita produção industrial, e não vejo isso mudar.

Quanto à inteligência artificial — que empregos ela vai substituir? É uma pergunta importante. Já temos o uso de robôs em alguns setores industriais. Mas a IA é uma ameaça maior, eu diria, para os trabalhadores de colarinho branco do que para os trabalhadores da manufatura. Ainda não sabemos ao certo. Muito do que se fala sobre a IA são hipóteses — não é necessariamente um cenário verdadeiro e validado sobre o que vai acontecer. Muitas dessas narrativas existem para inflar o preço das ações.

Diria que a tecnologia está sob o controle dessas grandes empresas lucrativas geridas por oligarcas. Elas a controlam e, obviamente, a utilizam para promover sua própria acumulação de capital. Em um mundo diferente, a mesma tecnologia poderia ser usada de outra forma — de modo a tornar nossas vidas mais fáceis, criando a possibilidade de todos trabalharmos menos horas e vivermos melhor. Mas sob o controle de Elon Musk e afins, está sendo usada para fins que representam uma ameaça à vida de muitas pessoas e à sua capacidade de viver bem.

Seu ensaio recente interpreta o assalto a Gaza como um “evento-mundo” que estraçalha a ordem moral pós-Holocausto do Ocidente. Neste momento de ruptura profunda, como intelectuais e movimentos sociais no Sul Global podem articular uma nova gramática de justiça global?

Acho que isso é, de certa forma, análogo ao que eu dizia sobre os Estados Unidos. Nos EUA, disse que o movimento Trump não conseguiu estabelecer uma hegemonia segura, que há muita desilusão e que muitas pessoas estão abertas a novas ideias. Isso vale no plano global. O que queimou a ordem moral ocidental — o senso de ilegitimidade clara de potências que antes se apresentavam como legítimas e portadoras de interesses universais — também é uma oportunidade. É perigoso. Não quero pintar um quadro cor-de-rosa. Há muitos perigos, incluindo a possibilidade de uma guerra nuclear — porque Netanyahu não está sob o controle de Trump: é um ator imprevisível que poderia decidir usar armas nucleares contra o Irã.

Mas a indignação profunda que as pessoas ao redor do mundo sentem quando veem o que Israel está fazendo em Gaza, dia após dia, cria um senso mundial de horror. E acho que Israel é um ponto de inflexão. Somando-se a isso o apoio de Trump a Netanyahu na invasão mais recente e na guerra contra o Irã, estamos vendo uma coisa após a outra que todos sabem ser errada e não deveria acontecer. Essa é a primeira condição: o senso de que precisamos de algo diferente.

O problema é que não temos uma imagem clara de uma ordem alternativa. Os europeus, que se apresentam como uma alternativa ocidental civilizada, estão essencialmente fora de cena: não têm capacidade de construir uma política externa comum, estão internamente divididos, especialmente nas questões da Rússia e da Ucrânia. A China está em algum tipo de aliança de fato com a Rússia, o Irã e talvez a Turquia. Não acho que seja necessariamente uma aliança que represente o bem para o planeta, mas pode ser mais estável do que o que temos agora. A América Latina, durante o período da Maré Rosa, representou uma possível abertura para algo diferente. Mas as vitórias da direita em diversos países mudaram esse quadro. Olhando para os poderes existentes, não vejo nenhum país, aliança ou bloco que pudesse representar uma alternativa genuinamente emancipadora.

Isso significa que, por ora, a sociedade civil é o espaço em que podemos tentar desenvolver ideias. E eu diria que, pelo menos nos EUA, a política externa tem sido o ponto cego da esquerda americana. Bernie Sanders, que admiro muito, não tinha muito a dizer sobre política externa. A esquerda americana sabe contra o que é e quer acolher imigrantes — mas não tem nenhum projeto além de uma condenação moral do que está acontecendo. Acho que este é um período em que a esquerda deveria se concentrar em tentar descobrir — por meio de discussões e debates — qual deve ser a sua política externa, como deve ser uma nova ordem global. Não como utopia pintada ou pensamento desejoso, mas de forma política, olhando para onde estão os movimentos, as uniões internacionais, as outras forças que poderiam encarnar essa ideia. Porque temos que pensar estratégica e eticamente.

Para encerrar, trago um caso perturbador do Brasil. O Grupo Globo — nosso maior conglomerado de mídia, análogo ao império Murdoch na Austrália — concedeu, recentemente, espaço de horário nobre na GloboNews Debate ao ator conservador Juliano Cazarré para promover seu movimento tradicionalista “O Farol e a Forja”. Trata-se de uma expressão clara da reação “red pill”, que instrumentaliza fake news flagrantes ao afirmar que mulheres matam mais homens do que o contrário. Os dados oficiais confirmam uma epidemia de mais de 1.400 feminicídios legalmente tipificados por ano no Brasil, além de centenas de mortes violentas de indivíduos LGBTQIA+. Em seu trabalho atual, que reinterpreta o feminismo como um movimento trabalhista que articula trabalho explorado, expropriado e doméstico, como esse reencadramento pode ajudar a forjar uma força contra-hegemônica unificada para desmantelar essa ofensiva patriarcal, que agora ocupa os espaços centrais da mídia convencional nas Américas?

Obviamente, se a paisagem midiática é tão dominada por uma única empresa e uma única fonte, isso é muito sério. E acho que você tem razão: há obrigações que se tornam especialmente importantes nesse tipo de situação de controle monopolístico.

Deixe-me perguntar a você: quais são as opções no âmbito judicial? Quem controla o licenciamento? O governo tem atualmente a capacidade de invocar uma correção legal? Porque não deveriam estar concedendo licenças a uma empresa capaz de transmitir fake news em uma escala tão enorme. Isso é uma possibilidade? E há outros tipos de organização — pessoas protestando na frente de suas sedes, nas ruas?

Deveriam ter corrigido as fake news que ele estava propagando. Foi muito sério porque foi um debate — havia outras pessoas presentes, falando contra ele. Um psiquiatra e um professor deveriam ter enfatizado com mais força que ele estava propagando informações falsas e que o que dizia não correspondia à realidade. Mas não sei se conseguiram explicar da forma como deveriam.

Há, então, mais razões ainda para que outras mídias — como a sua — façam o melhor para expor as fake news. Entendo que vocês não têm o mesmo alcance, a mesma capacidade de falar a um público amplo, mas façam o que podem. No entanto, acho que deveria haver protestos. Deve haver movimentos feministas — mas não só — outros grupos protestando contra isso. Me diga o nome dele — Cazarré?

Juliano Cazarré.

Juliano Cazarré. Tenho certeza de que vocês têm protestos. Acho que há estratégias legais que podem ser desenvolvidas. Não sei ao certo sobre o seu sistema judicial, se tem capacidade de…

Acho que sim, de alguma forma — não tenho profundo conhecimento da lei, mas creio que deveriam poder agir…

E espero que os movimentos feministas estejam nas ruas falando sobre isso. Desculpe não saber o suficiente para dizer mais — mas é bastante horrível.

Dispositivo Crítico de Contexto:Anjos, Ismael dos Consultor em equidade de gênero e diversidade participante do programa GloboNews Debate veiculado em 12 de maio de 2026. É amplamente reconhecido no cenário nacional por suas formulações e intervenções voltadas ao letramento racial e corporativo.

Blair, Tony Primeiro-ministro do Reino Unido associado à consolidação do “Novo Trabalhismo” e à formulação teórica da “Terceira Via”. Nancy Fraser o aponta, ao lado de Bill Clinton, como um dos arquitetos fundamentais da guinada e da instalação estrutural do neoliberalismo durante a década de 1990. Sua estratégia eleitoral consistiu em deliberadamente afastar o partido de sua base histórica de apoio — os sindicatos e a classe trabalhadora — para cortejar eleitores suburbanos e independentes , operando uma síntese regressiva que aliou o reconhecimento identitário à redistribuição econômica progressivamente favorável às elites financeiras.

Bloco Contra-Hegemônico Aliança política e social que, na teoria de Nancy Fraser, visa disputar a hegemonia do bloco dominante — o “neoliberalismo progressista” — unificando as lutas por redistribuição econômica (classe trabalhadora) e por reconhecimento (gênero, raça, ecologia), sem subordinar uma à outra. A construção desse bloco é apresentada por Fraser como a alternativa concreta ao avanço da direita autoritária.

Capitalismo Canibal Conceito central do livro de Nancy Fraser (Capitalismo Canibal, 2022). A filósofa argumenta que o sistema capitalista, em sua voracidade, devora suas próprias condições de possibilidade, precarizando o trabalho de cuidado, destruindo o poder público, esgotando a natureza e intensificando a exploração racializada. A imagem do ouroboros (serpente que devora a própria cauda) ilustra a tese de que o sistema caminha para uma crise ao destruir suas bases vitais.

Cazarré, Juliano Ator e palestrante conservador brasileiro, idealizador e promotor do movimento tradicionalista masculino intitulado “O Farol e a Forja”. Durante sua participação em debate na televisão fechada em maio de 2026, veiculou informações falsas ao asseverar que as mulheres matam mais homens do que o oposto, alegação frontalmente desmentida pelas estatísticas epidemiológicas oficiais de feminicídio no Brasil. Sua preleção e o escopo de seu evento sofreram forte repúdio público por parte de atrizes brasileiras proeminentes, sob o argumento de que sua narrativa esconde e deslegitima a gravidade da violência de gênero.

Clinton, Bill (1946-) 42º presidente dos EUA (1993-2001). Nancy Fraser o classifica como um dos arquitetos do “neoliberalismo progressista” por ter, na prática, adotado políticas de desregulamentação financeira e expansão do comércio global (como a entrada da China na OMC), ao mesmo tempo em que seu discurso abraçava pautas identitárias progressistas. Fraser argumenta que a administração Clinton foi mais efetiva na consolidação do neoliberalismo do que Reagan, por conta da maior dificuldade da esquerda em se opor a um governo do próprio campo.

“Com o Nosso Dinheiro, Não!” (Not on Our Dime!) Projeto de lei do qual Zohran Mamdani foi coautor, que visava impedir que instituições de caridade do estado de Nova York financiassem a violência de colonos israelenses nos territórios palestinos ocupados.

Desfinanciamento da Polícia Proposta que defende a realocação de recursos dos departamentos de polícia para serviços sociais, saúde mental, programas de emprego para jovens e assistência comunitária, como forma mais eficaz de prevenir o crime. Zohran Mamdani manifestou apoio a essa medida e, como candidato a prefeito, propôs a criação de um Departamento de Segurança Comunitária civil.

Estiano, Marjorie; Abreu, Claudia e Lucinda, Elisa Artistas e figuras públicas da cultura brasileira que se posicionaram de forma abertamente crítica contra a articulação do evento tradicionalista “O Farol e a Forja”. Argumentaram publicamente que a retórica baseada em um suposto “enfraquecimento masculino” camufla e desconsidera as evidências empíricas da violência crônica contra as mulheres e as taxas alarmantes de feminicídio no país.

Evento-Mundo Conceito desenvolvido por Nancy Fraser em seu ensaio Gaza as World Event, publicado na New Left Review 158 (março-abril de 2026). Para Fraser, o ataque genocida de Israel a Gaza não é apenas um episódio regional, mas um “ponto de virada histórico” (epochal turning point), um acontecimento que, por sua escala e visibilidade, revela e simboliza a natureza do tempo presente — especificamente, a crise da ordem moral do Ocidente pós-Holocausto. Como “evento-mundo”, Gaza estilhaça a pretensão de legitimidade das potências ocidentais e expõe a falência de suas alegações de universalismo moral e legal.

Expropriação Na teoria de Nancy Fraser, difere da exploração (extração de mais-valia no trabalho assalariado) por se basear na apropriação direta de recursos, terras, corpos e trabalho sem a mediação de um contrato de trabalho livre. Historicamente associada à escravidão e ao colonialismo, Fraser argumenta que hoje a expropriação e a exploração se misturam em formas híbridas, como o trabalho precário mediado por dívidas.

Feminismo como Movimento Trabalhista Reinterpretação proposta por Nancy Fraser que busca unificar as lutas feministas com as lutas da classe trabalhadora. Ao articular o trabalho explorado (assalariado), o trabalho expropriado (não pago ou mal pago, frequentemente racializado) e o trabalho doméstico (cuidado não remunerado), esse enquadramento teórico visa forjar uma força política contra-hegemônica que enfrente simultaneamente o patriarcado e o capitalismo.

Feminismo para os 99% Manifesto lançado em 8 de março de 2019 e publicado no Brasil pela Boitempo, redigido por Nancy Fraser em coautoria com Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya. O manifesto propõe um feminismo anticapitalista, antirracista e ecossocialista, em oposição ao “feminismo liberal” que Fraser acusa de ter sido cooptado pelo neoliberalismo. A ideia central é que o feminismo não deve representar apenas as mulheres, mas os 99% da população, sendo uma frente decisiva na luta contra o capitalismo e todas as formas de opressão.

Freitas, Nelson Ator brasileiro listado e confirmado como um dos palestrantes do encontro de orientação conservadora “O Farol e a Forja”, sediado na cidade de São Paulo em julho de 2026.

GloboNews Debate (12/05/2026) Programa de debates exibido ao vivo pela GloboNews na terça-feira, 12 de maio de 2026, com o tema “Educação e o papel do homem nos tempos atuais”. Os participantes foram: Vera Iaconelli: psicanalista e colunista da Folha de S.Paulo, com doutorado em Psicologia pela USP, cuja pesquisa foca em temas como maternidade e subjetividade contemporânea; Ismael dos Anjos: consultor em equidade de gênero e diversidade, reconhecido por seu trabalho de letramento racial e corporativo no Brasil; Juliano Cazarré: ator e palestrante conservador (ver verbete próprio). Durante o programa, Cazarré afirmou que “mais mulheres mataram homens do que homens mataram mulheres”, declaração que foi contestada como informação falsa. Em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Gramsci, Antonio (1891-1937) Filósofo, jornalista e político marxista italiano, fundador do Partido Comunista Italiano. Sua obra, escrita em grande parte nos Cadernos do Cárcere durante a prisão imposta pelo regime fascista de Mussolini, é central para a teoria política contemporânea. Gramsci desenvolveu conceitos como hegemonia (liderança cultural e moral que uma classe exerce sobre a sociedade, para além da força), bloco histórico (aliança entre classes sob a direção de uma classe fundamental) e interregno (período de crise em que “o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer”). Nancy Fraser utiliza extensivamente a teoria gramsciana da hegemonia para analisar a ascensão do “neoliberalismo progressista” e o atual “vácuo hegemônico”. A noção de interregno é frequentemente associada por comentadores políticos ao conceito de vácuo hegemônico, descrevendo o atual momento de crise de legitimidade do sistema político.

Hartz, Reformas Conjunto de quatro leis de reforma do mercado de trabalho e do sistema de seguridade social implementadas na Alemanha entre 2003 e 2005 pelo governo do chanceler social-democrata Gerhard Schröder. As reformas, que reduziram os benefícios de desemprego e criaram um sector de baixos salários, são apontadas por Nancy Fraser como o exemplo alemão do “neoliberalismo progressista”, por terem sido executadas por um governo de centro-esquerda em nome da modernização.

Hegemonia Conceito gramsciano central na análise de Nancy Fraser. Diferentemente de dominação pura e simples (que opera pela força), a hegemonia refere-se à capacidade de um grupo ou classe de exercer liderança intelectual e moral sobre a sociedade, obtendo consenso em torno de suas ideias e valores. Fraser argumenta que o “neoliberalismo progressista” foi, por um período, hegemônico, mas perdeu essa capacidade, criando um vácuo que forças como o trumpismo tentam preencher. Um “bloco contra-hegemônico” seria uma aliança capaz de disputar essa liderança cultural e política em novas bases.

Iaconelli, Vera Psicanalista, escritora e colunista do jornal Folha de S.Paulo, doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Participou como debatedora convidada no programa de televisão GloboNews Debate em 12 de maio de 2026, destacando-se na cena intelectual contemporânea por suas pesquisas focadas nas problemáticas da maternidade e nos eixos estruturantes da subjetividade na atualidade.

ICE (Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos EUA) Agência federal do Departamento de Segurança Interna dos EUA, cuja atuação sob o governo Trump gerou protestos em massa. Durante os primeiros meses de 2026, agentes do ICE mataram brutalmente dois cidadãos em Minneapolis, Renée Good e Alex Pretti, gerando indignação nacional. O prefeito Zohran Mamdani classificou as mortes como homicídio, pediu a abolição da agência e assinou uma ordem executiva exigindo que agentes do ICE obtivessem mandados judiciais para operar na cidade de Nova York.

Interregno Termo gramsciano que descreve o período de crise entre uma ordem que está morrendo e outra que ainda não conseguiu nascer. Nancy Fraser utiliza essa noção, implícita em sua análise do “vácuo hegemônico”, para compreender o atual momento histórico, em que a hegemonia do neoliberalismo progressista colapsou, mas nenhuma força política conseguiu ainda estabelecer uma nova ordem legítima. É nesse interregno que surgem as oportunidades e os perigos — desde a ascensão de populismos autoritários até a possível construção de um bloco contra-hegemônico emancipador.

Mamdani, Mahmood Intelectual e acadêmico de projeção internacional, pai do prefeito socialista democrático de Nova York, Zohran Kwame Mamdani, e cônjuge da cineasta Mira Nair.

Mamdani, Zohran Kwame (1991-) Prefeito de Nova York (empossado em 1º de janeiro de 2026). Membro do Partido Democrata e dos Socialistas Democráticos da América, é o primeiro prefeito muçulmano e asiático-americano da cidade, e o mais jovem em mais de um século. Nascido em Kampala, Uganda, em 18 de outubro de 1991, é filho do acadêmico Mahmood Mamdani e da cineasta Mira Nair. Sua plataforma como prefeito inclui ônibus gratuitos, congelamento de aluguéis, construção de 200 mil moradias sociais, salário-mínimo de US$30/hora até 2030 e taxação de grandes fortunas. É crítico de Israel e foi coautor do projeto de lei “Not on Our Dime!”. Assumiu o cargo em uma cerimônia na estação de metrô desativada de City Hall, jurando sobre o Alcorão.

Mansão Gracie Residência oficial do prefeito da cidade de Nova York desde 1942. Localizada no Carl Schurz Park, em Manhattan, é uma construção em estilo federal de madeira, erguida em 1799. Em 7 de março de 2026, um protesto anti-islâmico em frente à mansão envolveu o lançamento de um explosivo caseiro que não detonou. Zohran Mamdani, que tomou posse em 1º de janeiro de 2026, é o primeiro prefeito muçulmano a residir no local.

Maré Rosa (Pink Tide) Onda de governos de esquerda e centro-esquerda que chegaram ao poder na América Latina no início dos anos 2000, incluindo Hugo Chávez na Venezuela, Lula no Brasil, Néstor Kirchner na Argentina, Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador. Nancy Fraser menciona a Maré Rosa como uma tentativa de traçar um caminho alternativo em um mundo ainda dominado pelas potências globais.

Marsili, Ítalo Médico psiquiatra brasileiro incluído e confirmado no corpo de palestrantes e conferencistas oficiais convocados para o encontro tradicionalista “O Farol e a Forja”, realizado em São Paulo no final de julho de 2026.

Musk, Elon Oligarca e magnata da indústria tecnológica global, referenciado por Nancy Fraser como expoente do controle monopolístico de corporações lucrativas privadas. A filósofa aponta que, sob a égide desse modelo corporativo oligárquico, ferramentas de ponta como a inteligência artificial e a automação são instrumentalizadas unicamente para a acumulação intensiva de capital e transformadas em ameaças às condições materiais de bem-estar social, subvertendo seu potencial de redução da jornada de trabalho e emancipação humana.

Nair, Mira Cineasta de prestígio internacional, mãe do atual prefeito de Nova York, Zohran Kwame Mamdani, e casada com o cientista político e acadêmico Mahmood Mamdani.

Neoliberalismo Progressista Termo cunhado por Nancy Fraser para descrever a aliança política que, a partir dos anos 1990, combinou políticas econômicas neoliberais (desregulamentação, financeirização, austeridade) com pautas progressistas de reconhecimento (feminismo, direitos LGBTQIA+, antirracismo). Governos como os de Bill Clinton (EUA), Tony Blair (Reino Unido) e Gerhard Schröder (Alemanha) são exemplos desse bloco. Fraser argumenta que essa combinação foi desastrosa para a classe trabalhadora, gerando desilusão e abrindo caminho para populismos autoritários como o de Trump.

Netanyahu, Benjamin Primeiro-ministro de Israel qualificado por Nancy Fraser como um ator político autônomo, imprevisível e que atua fora das balizas de controle estrito da própria administração norte-americana comandada por Donald Trump. É nominalmente associado pelo diagnóstico de Fraser à execução contínua e violenta da intervenção em Gaza e à escalada militar direta contra o Irã, movimentos geopolíticos que deflagraram uma onda internacional de repúdio e selaram o colapso definitivo da pretensão universalista e da legitimidade moral ocidental pós-Holocausto.

“O Farol e a Forja” Evento criado pelo ator Juliano Cazarré e anunciado em abril de 2026, definido por ele como “o maior encontro de homens do Brasil”. Realizado nos dias 24, 25 e 26 de julho de 2026 em São Paulo (Uni Ítalo), o encontro estrutura-se a partir de três eixos temáticos: 1) vida profissional e legado; 2) família, paternidade e cultura; e 3) vida espiritual, incluindo missas e “batalha espiritual”. A iniciativa sofreu forte repúdio por parte de atrizes brasileiras proeminentes, como Marjorie Estiano, Claudia Abreu e Elisa Lucinda, sob o argumento de que a retórica de “enfraquecimento masculino” ignora as evidências empíricas da violência contra a mulher. Formatado como um ecossistema comercial de alto valor (high-ticket), sua grade de acesso divide-se em três categorias de ingressos: o Pacote Âncora (acesso básico presencial), tabelado em R$ 1.797,00; o Pacote Forjador (categoria intermediária com experiências noturnas integradas), cujos lotes variam entre R$ 2.697,00 e R$ 3.147,00; e o Pacote Mestre (experiência premium), precificado entre R$ 4.997,00 e R$ 5.500,00. Esta última modalidade adiciona ao ingresso presencial completo um curso online ministrado diretamente por Juliano Cazarré, composto por módulos focados em instrução litúrgica, credo e aplicação prática da fé sob a ótica tradicionalista. Palestrantes confirmados incluem o psiquiatra Ítalo Marsili e o ator Nelson Freitas.

Fonte oficial de informações e inscrições: https://www.instagram.com/faroleforja/Fontes jornalísticas com os valores cobrados pelo curso de Juliano Cazarré:
Terra: https://www.terra.com.br/diversao/gente/quais-os-precos-do-encontro-de-homens-conservadores-promovido-pelo-ator-juliano-cazarre,526000e8deae518349ac83fc793f7ef0ztiav3qd.html

Folha Parati: https://folhaparati.com.br/ingressos-de-ate-r-55-mil-em-evento-de-juliano-cazarre-chamam-atencao-e-geram-debate-nas-redes/

Diário do Comércio: https://diariodocomercio.com.br/mix/quanto-custa-ir-ao-evento-destinado-a-homens-desse-ator-da-globo/Ordem Moral do Ocidente Pós-Holocausto Conceito elaborado por Nancy Fraser em Gaza as World Event (NLR 158, 2026). Após o Holocausto, o Ocidente construiu uma autoimagem baseada na rejeição do genocídio e na defesa de direitos humanos universais. Para Fraser, o assalto de Israel a Gaza, apoiado pelas potências ocidentais, representa o colapso dessa ordem moral: as potências que se apresentavam como defensoras de valores universais revelam-se cúmplices de um genocídio televisionado, queimando sua própria legitimidade e abrindo uma crise de hegemonia global.

Populismo Progressista Proposta política que Nancy Fraser contrapõe ao “neoliberalismo progressista” e ao populismo autoritário de direita. O populismo progressista buscaria unificar as lutas por redistribuição econômica e por reconhecimento cultural em um único bloco contra-hegemônico, apelando à maioria da população (os “99%”) contra uma elite econômica e política. Fraser vê essa proposta como a mais promissora candidata a construir uma alternativa ao vácuo hegemônico atual.

Reagan, Ronald (Reaganomics) 40º presidente dos Estados Unidos (1981-1989), cuja gestão estabeleceu no imaginário político transnacional os pilares iniciais da neoliberalização e do aprofundamento das clivagens de desigualdade material. Seu programa de governo sustentava-se na premissa ideológica de que as disfunções sociais derivavam diretamente do agigantamento da máquina pública, da burocracia estatal e do excesso de regulação, preconizando a liberação irrestrita das forças de mercado — doutrina econômica regressiva amplamente batizada como Reaganomics. Nancy Fraser pondera, analiticamente, que a consolidação definitiva desse arcabouço não decorreu apenas de governos conservadores, mas consolidou-se pelas mãos de lideranças progressistas e de centro-esquerda que assumiram o poder nos anos seguintes.

Reconhecimento e Redistribuição Par de conceitos fundamentais na obra de Nancy Fraser. “Redistribuição” refere-se à justiça econômica (combate à desigualdade de classe), enquanto “reconhecimento” refere-se à justiça cultural ou simbólica (combate à dominação cultural, ao desrespeito e à injustiça de status baseada em gênero, raça, sexualidade). Fraser argumenta que as lutas por justiça devem integrar ambas as dimensões, e que o “neoliberalismo progressista” fracassou ao casar uma política de reconhecimento superficial com uma economia política regressiva.

Sanders, Bernie Senador e proeminente liderança da esquerda socialista democrática dos Estados Unidos, cuja atuação parlamentar e política é nominalmente valorizada por Nancy Fraser. A filósofa argumenta, contudo, que sua atuação histórica evidencia os limites conceituais e políticos da esquerda norte-americana no plano internacional, campo no qual Sanders carecia de proposições geopolíticas e programáticas robustas, circunscrevendo suas intervenções públicas a um plano de denúncia puramente moral.

Schröder, Gerhard (1944-) Chanceler da Alemanha de 1998 a 2005, pelo Partido Social-Democrata (SPD). Nancy Fraser o classifica como um dos arquitetos do “neoliberalismo progressista” na Europa, ao lado de Tony Blair e Bill Clinton. Seu governo implementou as Reformas Hartz (2003-2005), um conjunto de medidas de flexibilização do mercado de trabalho e redução de benefícios sociais que, para Fraser, representa a adesão da social-democracia alemã à agenda neoliberal.

Socialismo de Esgoto (Sewer Socialism) Movimento político socialista democrático que surgiu em Milwaukee, Wisconsin, no início do século XX. Caracterizava-se pelo foco na melhoria da infraestrutura e dos serviços públicos municipais (como saneamento básico e parques) como caminho para o socialismo. Zohran Mamdani cita esse movimento como inspiração para suas políticas de melhoria da infraestrutura pública em Nova York.

Socialistas Democráticos da América (DSA) Organização política socialista democrática dos EUA, fundada em 1982. Zohran Mamdani é membro da DSA, e a organização teve um papel fundamental em sua campanha, fornecendo uma base de voluntários e uma rede de apoio político.

Terceira Via Corrente política associada a líderes como Bill Clinton (EUA), Tony Blair (Reino Unido) e Gerhard Schröder (Alemanha), que buscava um espaço entre a social-democracia tradicional e o neoliberalismo. Nancy Fraser a considera uma face do “neoliberalismo progressista”, por ter abandonado a base sindical e a classe trabalhadora em nome de uma agenda de modernização econômica combinada com pautas sociais progressistas.

Thatcher, Margaret Primeira-ministra do Reino Unido (1979-1990) cuja liderança é diretamente identificada na história política contemporânea com a eclosão da neoliberalização, o enfraquecimento das proteções sociais e o acirramento das desigualdades. Advogou de forma intransigente a bandeira da desregulamentação absoluta dos mercados e da livre concorrência, partindo da premissa de que os entraves ao dinamismo econômico repousavam no excesso de burocracia e de intervenção do Estado. Fraser enfatiza que o avanço estrutural desse modelo no Reino Unido não foi contido, mas antes aprofundado institucionalmente pelas gestões posteriores do Novo Trabalhismo capitaneadas por Tony Blair.

Trabalho de Cuidado Conceito que abrange as atividades de cuidado de crianças, idosos, pessoas doentes e a manutenção da vida cotidiana, historicamente desvalorizadas e atribuídas às mulheres. Nancy Fraser argumenta que o capitalismo canibal devora esse trabalho, precarizando-o e externalizando seus custos, e que a crise do cuidado é uma das contradições centrais do sistema.

Trabalho Racializado Conceito que designa a divisão racial do trabalho no capitalismo, em que populações não brancas — especialmente negras — são historicamente relegadas a formas de trabalho mais precárias, desprotegidas e desvalorizadas. Na teoria de Nancy Fraser, o trabalho racializado é uma das condições ocultas que o “capitalismo canibal” devora: o sistema se apropria da força de trabalho de corpos racializados para extrair valor, ao mesmo tempo em que naturaliza e invisibiliza essa expropriação. Fraser argumenta que a linha de cor global, que separava juridicamente os livres (brancos europeus) dos expropriados (povos negros), tornou-se mais complexa, mas persiste como forma de subordinação pós-colonial.

Trumpismo Movimento político populista de direita associado a Donald Trump e suas políticas. Nancy Fraser analisa o trumpismo como uma resposta reacionária ao vácuo deixado pelo “neoliberalismo progressista”, que atraiu eleitores da classe trabalhadora com um discurso que culpa imigrantes e minorias, mas mantém a mesma economia política oligárquica.

Vácuo Hegemônico Situação política em que nenhum bloco social ou força política consegue exercer liderança intelectual e moral (hegemonia) sobre a sociedade, gerando instabilidade e abrindo espaço para disputas acirradas. Fraser diagnostica um vácuo hegemônico tanto nos EUA (onde o trumpismo perdeu apoio e não consolidou hegemonia) quanto no plano global (onde a ordem moral ocidental colapsou sem que uma alternativa clara emergisse). Esse vácuo é, para Fraser, simultaneamente perigoso — pode ser preenchido por forças autoritárias — e promissor — cria oportunidades para a construção de um bloco contra-hegemônico progressista.


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