Pages

Morre Edgar Morin, pensador francês do pensamento complexo, aos 104 anos

Filósofo e sociólogo influenciou gerações com suas reflexões sobre educação, cidadania planetária e a complexidade do mundo contemporâneo


Do Brasil 247, 30 de maio de 2026


 (Foto: Brasil 247 / Dall-E)

247 – O filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, um dos mais influentes intelectuais do século XX e criador do conceito de “pensamento complexo”, morreu nesta sexta-feira (29), em Paris, aos 104 anos. Morin recebia cuidados paliativos após uma dupla infecção e completaria 105 anos em 8 de julho.

A informação foi divulgada pelo jornal O Globo, com base em comunicado publicado por Nelson Vallejo Gomez, secretário pessoal do pensador, em seu perfil no Instagram. Ao anunciar a morte do filósofo, Gomez escreveu: "Ao pôr do sol de uma majestosa tarde de primavera, no Hospital Americano de Paris, nesta sexta-feira, 29 de maio de 2026, encerrando um fabuloso ciclo existencial que começou em Paris em 8 de julho de 1921, o espírito brilhante do amado sábio da #PoéticaDaCivilidade, meu pai espiritual, querido e admirado Condor, Edgar Morin, tornou-se pura energia".

Na mesma publicação, ele acrescentou: "Agora ele está muito mais intensamente presente em nós. Sempre carregarei seu sorriso em meu coração como um farol de inteligência viva, e o manual da Unesco, que é como um legado".

Uma vida dedicada ao conhecimento e à transformação social


Nascido em Paris, em 8 de julho de 1921, com o nome Edgar Nahoum, Morin construiu uma das trajetórias intelectuais mais marcantes da França contemporânea. Pesquisador emérito do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), formou-se em Direito, História e Geografia, além de realizar estudos em Filosofia, Sociologia e Epistemologia.

Judeu de origem sefaradita, viveu diretamente os dramas da Segunda Guerra Mundial. Durante a ocupação nazista da França, ingressou na Resistência Francesa e aderiu ao Partido Comunista em 1941. Foi nesse período que adotou o sobrenome Morin, que mais tarde se transformaria em uma referência mundial do pensamento crítico.

Após o fim da guerra, atuou na Alemanha ocupada como adido ao Estado-Maior do Primeiro Exército Francês e posteriormente como chefe do departamento de propaganda do governo militar francês. Dessa experiência nasceu seu primeiro livro, O Ano Zero na Alemanha, uma análise sobre a situação da sociedade alemã no pós-guerra.

Ruptura com o stalinismo e defesa das lutas anticoloniais


Embora tenha participado do Partido Comunista Francês durante a juventude, Morin rompeu progressivamente com a organização. Suas críticas ao ditador soviético Joseph Stálin levaram à sua expulsão definitiva da legenda em 1951.

Ao longo das décadas seguintes, consolidou-se como uma voz independente da esquerda francesa. Em 1955, coordenou um comitê contra a Guerra da Argélia e apoiou publicamente Messali Hadj, um dos pioneiros da luta anticolonial e da independência argelina.

Seu trabalho intelectual também teve papel decisivo na renovação dos estudos sobre comunicação e cultura. Em 1960, participou da fundação do Centro de Estudos de Comunicação de Massa da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), ao lado de Georges Friedmann e Roland Barthes. A iniciativa buscava desenvolver uma abordagem transdisciplinar para compreender os meios de comunicação e a sociedade contemporânea.

Produção intelectual atravessou mais de sete décadas

Autor de mais de 30 livros, Morin permaneceu intelectualmente ativo até os últimos anos de vida. Mesmo depois de completar cem anos, continuou publicando obras e participando de debates internacionais.

Em 2023, aos 102 anos, lançou L'année a perdu son printemps ("O ano perdeu sua primavera", em tradução livre), romance de inspiração autobiográfica que havia sido escrito originalmente em 1946.

Sua influência ultrapassou as fronteiras da França e alcançou universidades, centros de pesquisa e sistemas educacionais de todo o mundo. No Brasil, Morin esteve diversas vezes para participar de seminários e debates sobre educação, pensamento crítico e os desafios da sociedade contemporânea.

Uma de suas obras mais conhecidas é Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, produzida em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O livro tornou-se referência para educadores e formuladores de políticas públicas em diversos países.

Entenda as principais ideias de Morin


Além de sua trajetória política e acadêmica, Edgar Morin deixou uma das mais influentes contribuições intelectuais da contemporaneidade ao desenvolver o conceito de pensamento complexo. Sua obra questionou a fragmentação do conhecimento em disciplinas isoladas e propôs uma compreensão mais integrada da realidade, na qual fenômenos sociais, econômicos, culturais e ambientais são vistos como partes interdependentes de um mesmo sistema.

Para Morin, os grandes desafios da humanidade não podem ser compreendidos por explicações simplificadoras. O filósofo defendia que a educação e a produção de conhecimento deveriam reconhecer as conexões entre diferentes áreas do saber e preparar as pessoas para lidar com a incerteza, a mudança e as contradições inerentes à vida moderna.

Essa visão ganhou projeção internacional com a publicação de Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, elaborado em parceria com a Unesco. Na obra, Morin argumenta que a educação deve ir além da transmissão de conteúdos e formar cidadãos capazes de compreender a condição humana, respeitar as diferenças culturais e enfrentar problemas globais de maneira solidária e cooperativa.

Outra ideia central de seu pensamento foi a defesa da cidadania planetária. Segundo Morin, a humanidade compartilha um destino comum e precisa desenvolver formas de cooperação capazes de enfrentar desafios globais como as mudanças climáticas, as desigualdades sociais, os conflitos internacionais e os impactos das transformações tecnológicas.

Ao longo de mais de sete décadas de produção intelectual, Morin tornou-se uma referência mundial para educadores, pesquisadores e formuladores de políticas públicas. Seu legado permanece presente em debates sobre educação, democracia, sustentabilidade e desenvolvimento humano, consolidando sua posição como um dos mais importantes pensadores dos séculos XX e XXI.

Nenhum comentário:

Postar um comentário