Por JULIO CESAR TELES*
![]() |
| Imagem: Yue WU |
A resistência docente na capital paulista reflete o enfrentamento ao desmonte orçamental e à precarização sistêmica que transformam a paralisação em um imperativo de sobrevivência institucional
Para as pessoas que conhecem a Rede Municipal de Educação de São Paulo, talvez a greve tenha se tornado um “de novo”. No entanto, é preciso compreender os motivos que levam os profissionais da educação, ano após ano, a fazer greve – não por escolha, mas por necessidade. A greve torna-se indispensável quando há descaso e um projeto de desmonte da educação pública, sobretudo por meio da privatização e do corte de recursos essenciais para garantir aos estudantes uma escola de qualidade.
Na escola em que atuo, por exemplo, há dois anos as saídas pedagógicas vêm ocorrendo majoritariamente com transporte público. O motivo é o corte no repasse de verba (PTRF) para a unidade escolar. Somado a isso, a proposta de reajuste salarial não cobre a inflação anual e ainda está sujeita a uma série de condições que a tornam quase irrealizável. Para piorar, muitos profissionais estão adoecendo em razão das salas superlotadas e da ausência de condições mínimas para o desenvolvimento adequado do trabalho de ensino e aprendizagem.
Pode ser que quem não convive diariamente com os desafios de ofertar uma educação pública de qualidade reduza essa luta a estereótipos como “greve é coisa de vagabundo” ou “esses professores não querem trabalhar”. Mas quem reproduz esse discurso conhece, de fato, a realidade da escola pública e seus desafios cotidianos? Será que conseguiria atuar em sala de aula e atender às múltiplas demandas que hoje recaem sobre os profissionais da educação?
Por isso, afirmo desde o início: nós não escolhemos fazer greve; fomos levados a isso. A necessidade da greve se impõe quando as condições materiais mínimas não são fornecidas, quando vemos nossos estudantes sem direitos assegurados e quando nossos colegas adoecem sem o devido apoio institucional. Ouvi recentemente de uma professora que atua no magistério há quase 30 anos a seguinte frase: “não é nem abril e estou esgotada”.
Foi uma fala que me deixou reflexivo e preocupado. Como pode um profissional sentir-se assim logo no início do ano letivo? Mais do que isso: até que ponto um educador pode chegar, em termos de desgaste pessoal, para sustentar a qualidade do aprendizado na educação pública? Qual é o preço humano que estamos pagando?
Este texto nasce dessas inquietações. Elas não têm respostas simples, mas cumprem uma função importante: levar-nos a refletir sobre o perigo de dizer “greve de novo”, quando, na verdade, deveríamos perguntar por que a educação pública continua sendo alvo do desmonte promovido por políticas neoliberais. Também deveríamos perguntar aonde esses processos levarão os estudantes que têm na escola um espaço de emancipação, criticidade e segurança. Por isso, apresento brevemente elementos do movimento grevista, com o objetivo de explicitar a importância da greve e da luta travada neste momento pelos profissionais da educação.
Breves apontamentos sobre o movimento grevista
Desde a Segunda Revolução Industrial, quando o trabalho e o tempo de vida passaram a ser profundamente influenciados pelo ritmo das fábricas, o capitalismo industrial assumiu crescente centralidade política e econômica. A sociedade sofreu impactos diversos, entre os quais se destaca a opressão do operariado por meio da exploração do trabalho pelos detentores dos meios de produção. Como escreveu Karl Marx, “a acumulação do capital é, portanto, multiplicação do proletariado” (2013, p. 452).
No plano internacional, a Segunda Revolução Industrial criou novas realidades econômicas e alterou a relação entre as potências. A existência de um mercado interno robusto e com potencial de crescimento tornou-se condição fundamental para o desenvolvimento econômico em um mundo marcado pela concorrência crescente e pelo protecionismo (Visentini, 2014, p. 12).
Diante da opressão, dos baixos salários, das jornadas exaustivas e das condições desumanas, a classe trabalhadora precisou buscar meios de resistência. Uma dessas formas consistiu em demonstrar insatisfação diante dos próprios mecanismos que sustentavam a exploração. Após a Primeira Revolução Industrial, quando as manufaturas mecanizadas ganharam força, grupos como os ludistas destruíram máquinas que simbolizavam sua opressão, não por simples vandalismo, mas como forma de reivindicação e luta por melhores condições.
As trade unions (organizações de associações dos trabalhadores formadas para proteger seus direitos) foram formas iniciais de organização sindical voltadas à articulação da luta dos trabalhadores. Embora perseguidas e, por vezes, colocadas na ilegalidade, essas associações foram legalizadas na Inglaterra em 1871.
Esse breve panorama aponta dois aspectos importantes para o presente texto. O primeiro é que, desde o surgimento do capitalismo industrial, o trabalhador vem sendo oprimido. O segundo é que a luta se consolidou historicamente como instrumento de resistência e busca por melhores condições de vida e de trabalho. Essa luta segue até hoje, em outros contextos, mas ainda marcada pela tentativa de romper com a hegemonia dos donos do capital.
Na educação, especificamente, a retirada de recursos e das condições mínimas de funcionamento integra um projeto contemporâneo: primeiro se desmonta a qualidade do ensino; depois se difunde o discurso de que é preciso privatizar porque o sistema público “não funciona”.
Na história do Brasil, o movimento grevista ganha destaque no início do século XX, já na recém-instaurada República, entre outros motivos pela tardia industrialização e pelos efeitos do fim da escravidão. Nunca é demais lembrar que o Brasil foi o último país das Américas a abolir formalmente esse regime opressor de trabalho, em 1888.
Um dos movimentos mais conhecidos e de maior impacto no cenário nacional é a Greve de 1917, que reafirmou a necessidade de os trabalhadores lutarem por direitos. Edilene Toledo (2017) analisa a relação desse movimento com as ideias políticas que circulavam à época, inclusive aquelas influenciadas pela Revolução Russa do mesmo ano.
A greve geral de 1917 em São Paulo representou um momento extraordinário de agitação operária no Brasil. Não se tratou de um episódio isolado, mas do ponto alto de um ciclo de greves e mobilizações que já articulava reivindicações contra a carestia da vida em várias capitais (Toledo, 2017, p. 499). Esse movimento consolidou o caráter geral das paralisações, com adesão de múltiplas categorias e propagação para além de um único setor, marcando uma ruptura com as greves fragmentadas da década anterior.
“A análise das reivindicações nos permite afirmar que as greves foram movimentos com claros objetivos trabalhistas, que, por uma série de circunstâncias, levaram os trabalhadores à exasperação e ao desespero, configurando-se os movimentos em verdadeiras revoltas urbanas. Militantes de várias correntes políticas, também operários ou não, juntaram-se aos trabalhadores em luta. Entre eles havia anarquistas, socialistas, sindicalistas revolucionários, reformistas e outros, mas havia também muitos que não estavam ligados a nenhumas dessas correntes, mas estavam mobilizados para tentar melhorar suas condições de trabalho e de vida”. (Toledo, 2017, p. 510).
Com todas as especificidades históricas que não serão desenvolvidas aqui, esse movimento reforça algo fundamental: a luta dos trabalhadores sempre esteve associada tanto a disputas ideológicas quanto à necessidade concreta de melhorar as condições de trabalho e de vida. Essa base continua orientando a luta atual dos profissionais da educação.
Não podemos seguir vendo colegas adoecerem em salas desestruturadas sem reagir. Também não podemos continuar lecionando sobre o potencial da educação ao mesmo tempo em que assistimos ao avanço de um projeto de restrição de suas possibilidades emancipatórias. Nenhum direito foi dado gratuitamente aos trabalhadores. Nossos direitos foram conquistados por meio de manifestações, protestos, greves e outras formas de mobilização. Com base nessa inspiração histórica, precisamos continuar lutando por uma educação pública de qualidade, com profissionais valorizados e estudantes amparados por estruturas adequadas para aprender.
A importância do movimento grevista está justamente em assegurar esses direitos. Se os trabalhadores, no Brasil e no mundo, lutaram por melhores condições ao perceberem que eram explorados e desprovidos de direitos, por que agiríamos de modo diferente? Isso não significa dizer que a luta seja fácil. Pelo contrário: nós, professores, ao fazermos greve, trabalhamos dobrado.
Durante a greve, precisamos nos mobilizar com o movimento e também em nossas comunidades, buscando construir redes de apoio e explicar os motivos que nos levaram a essa ação. Após a greve, retornamos ao trabalho com a responsabilidade de garantir que nossos estudantes não sejam prejudicados. Por isso, elaboramos planos de reposição e trabalhamos aos sábados. A greve, portanto, não é coisa de preguiçoso, mas de quem tem coragem de lutar. Preguiçosos seríamos se deixássemos a educação pública ser solapada sem reagir.
Uma educação em luta e disputa
A educação sempre foi um campo de disputas políticas e sociais. Em um passado não tão distante, apenas a elite tinha acesso à formação. A ampliação do acesso à educação, conquista relativamente recente e ligada a movimentos progressistas, entre os quais se inserem as lutas dos trabalhadores, incomoda as classes dominantes. Isso ocorre porque a educação abriu possibilidades de emancipação e ascensão social, alterando estruturas históricas de dominação e poder.
Em termos práticos, filhos e filhas de trabalhadores – como este que escreve, com orgulho, sendo filho de um encanador e de uma auxiliar de serviços gerais – passaram a ter formação e a romper com a estrutura que lhes reservava o lugar de mão de obra barata. Essas transformações incomodam porque alteram a ordem preestabelecida e deslocam sujeitos para espaços antes ocupados quase exclusivamente pela elite. Um exemplo recente dessa disputa pode ser observado no debate sobre o fim da escala 6×1 no Congresso Nacional (Brasil, 2026).
Nesse processo, o professorado está no meio do caminho. Somos aqueles que ensinam os cidadãos, inclusive os filhos e as filhas da classe trabalhadora, sobre o potencial crítico e emancipatório da educação. Explicamos estruturas historicamente construídas, apresentamos caminhos de transformação também historicamente identificados e mostramos modos de pensar que rompem com padrões naturalizados. Quando possível, procuramos ainda desconstruir as ilusões produzidas pela alienação do trabalho e, acrescento, também pelas redes sociais (Oliveira; Rodrigues; Reis, 2018).
Diante dessas disputas, não é incomum encontrar na sociedade brasileira o discurso de que as escolas são doutrinadoras. Esse discurso, no entanto, parece funcionar como estratégia de deslegitimação do saber crítico e emancipatório. Ao acusarem professores de doutrinação, certos grupos tentam preservar sua hegemonia e manter o controle sobre as classes populares.
Os professores, na verdade, ensinam que muitas das estruturas do nosso mundo não são naturais, mas historicamente construídas e, portanto, passíveis de transformação, inclusive por meio das lutas sociais. A operação, portanto, é inversa: os verdadeiros doutrinadores são aqueles que pretendem impedir que a escola mostre outras possibilidades de leitura do mundo.
Nesse campo de disputas, o poder público – também atravessado por questões de classe, já que representantes são eleitos conforme a adesão dos cidadãos a determinadas ideias e identidades – faz da educação alvo ora de investimento, ora de desmonte. Isso, por si só, demonstra sua relevância: só se disputa aquilo que é importante. Entretanto, é justamente por causa dessa disputa permanente que os profissionais da área precisam estar em constante estado de alerta e de mobilização. É preciso denunciar as tentativas de retirar da educação pública seu potencial crítico e emancipador para as classes populares.
Nessa linha, quando analisamos os investimentos feitos pela gestão municipal de Ricardo Nunes, em contraste com os discursos e propagandas veiculados nos meios de comunicação, encontramos diversos cortes. Os dados evidenciam uma tendência clara: mesmo que o ‘orçado’ pareça alto, a ‘liquidação’ – que é o dinheiro que efetivamente chega à ponta para o funcionamento das escolas – tem caído, especialmente a partir de 2024.
A diferença entre o que foi previsto e o que foi de fato gasto é o que explica o agravamento das condições de trabalho: salas sem manutenção, falta de materiais essenciais e o esgotamento dos professores. Quando o percentual de execução cai drasticamente de 126% em 2021 para menos de 80% em 2025, o governo municipal está, na prática, desinvestindo na educação e asfixiando a rede pública de ensino.
Esses dados ajudam a explicar o agravamento das dificuldades em sala de aula, a piora dos ambientes de estudo, a falta de profissionais para atender às demandas da rede e o adoecimento de trabalhadores que acabam sobrecarregados pela ausência de estrutura adequada.
Ao comparar esses números com o parâmetro legal, é importante lembrar que o mínimo constitucional corresponde a 25% das receitas de impostos e transferências constitucionais e legais aplicados em manutenção e desenvolvimento do ensino. No material oficial disponível, a própria Prefeitura registra que o acompanhamento da execução orçamentária da Secretaria Municipal de Educação deve ser lido em conjunto com as receitas vinculadas e com a LDO/LOA, e não apenas pelo orçamento isolado da pasta. Ainda assim, os dados evidenciam o cenário já apontado pela auditoria do TCM sobre 2021 (G1, 2022) e ajudam a mostrar que o investimento vem caindo ano após ano, com consequências concretas para as escolas públicas.
Apoio à greve
Todos os pontos apresentados até aqui – desde a realidade atual das salas de aula municipais até a relação histórica entre o movimento grevista, a exploração do proletariado e os cortes de investimento da gestão de Ricardo Nunes – reforçam a importância da luta e, portanto, da greve. Não se trata apenas de valorização profissional. Trata-se de assegurar que as pessoas que dependem da educação pública continuem tendo acesso a um ensino de qualidade.
Como os próprios movimentos históricos deixam claro, a luta dos trabalhadores é construída coletivamente. Isso significa que, para que os profissionais da educação municipal consigam defender os investimentos e, com eles, uma educação pública de qualidade, crítica e emancipadora, é preciso contar com o apoio da população paulistana.
Desde 2024, o governo municipal vem promovendo cortes no número de professores por escola (Carta Capital, 2025). Isso afeta diretamente os estudantes e a saúde do quadro docente. Com menos profissionais e muitas demandas, os professores não conseguem desenvolver o trabalho como deveriam. Soma-se a isso o número elevado de estudantes por turma, inclusive de inclusão, sem a estrutura adequada para atendê-los. É necessário reduzir o número de alunos por sala para atender às especificidades desses estudantes e garantir a presença de profissionais que auxiliem o docente no desenvolvimento dessas crianças.
Caso o leitor tenha chegado até aqui, espera-se que estejam mais claras as condições que levaram os profissionais da educação municipal a entrar em greve. Mais do que isso, espera-se também que tenha ficado evidente a importância de todos nós, como cidadãos, lutarmos pela educação pública. Sobretudo aqueles que, como eu, são fruto dela. Estudei sempre em escolas públicas e também construí minha formação na universidade pública. Como trabalhador, reconheço os impactos positivos que essa trajetória produziu em minha vida e, por isso, a defendo.
Sem essa educação, muitos dos meus estudantes estariam sem perspectivas de futuro e, em alguns casos, sem condições mínimas para o desenvolvimento da infância e da adolescência. Defender a educação pública, portanto, é defender a nós mesmos. É proteger um direito conquistado e constantemente ameaçado pela luta de classes.
*Julio Cesar Teles é mestre em história pela Unifesp e professor da rede municipal da cidade de São Paulo.
Referências
VISENTINI, Paulo Fagundes. A Primeira Guerra Mundial e o declínio da Europa. Rio de Janeiro: Alta Books, 2014.
TOLEDO, Edilene. Um ano extraordinário: greves, revoltas e circulação de ideias no Brasil em 1917. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 30, n. 61, p. 497-518, maio/ago. 2017.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro 1: o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.
HOBSBAWM, Eric J. A era dos impérios: 1875-1914. São Paulo: Paz e Terra, 2012.
BRASIL. Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Governo confia que fim da escala 6×1 seja aprovado em até três meses no Congresso Nacional. Governo Federal, Brasília, DF, 15 abr. 2026.
OLIVEIRA, Allan; RODRIGUES, Ana Luisa; REIS, Leandro de Melo. O poder alienante das redes sociais. UFMG Encontros Acadêmicos de Ciência da Computação, 2018.
SÃO PAULO (SP). Secretaria Municipal da Fazenda. Demonstrativos da Lei de Responsabilidade Fiscal: 6º bimestre de 2025 (dados definitivos). São Paulo, 22 jan. 2026.
G1. TCM reconhece que Ricardo Nunes não investiu o mínimo em educação em 2021; R$ 1,5 bilhão terá de ser executado até 2023. G1, São Paulo, 29 jun. 2022.
Carta capital. Corte de professores ameaça o ensino integral paulistano e põe em xeque promessa de Nunes. CartaCapital, São Paulo, 18 out. 2025.

Nenhum comentário:
Postar um comentário