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Donald Trump foi a Pequim de chapéu na mão e partiu com um aperto de mão de Xi Jinping

Do GGN, 27 de maio 2026
Por Vijay Prashad; no Globetrotter


Xi Jinping não assumiu posturas exageradas e não fez ameaças teatrais. Em vez disso, ele projetou estabilidade.


Reprodução Xinhua
As cenas que se desenrolaram em Pequim foram cuidadosamente coreografadas, mas a política nunca pode ser reduzida a mero espetáculo. Quando o presidente dos EUA, Donald Trump, viajou à China para sua reunião de alto nível com Xi Jinping, a mídia ocidental, como costuma fazer, fixou-se no espetáculo: banquetes luxuosos, guardas de honra, gestos teatrais concebidos para bajular o presidente dos EUA. No entanto, por trás de todo esse ritual, havia outra realidade, mais dura e com consequências mais graves. Os Estados Unidos não chegaram a Pequim em uma posição de confiança; chegaram em um estado de vulnerabilidade. Washington chegou sobrecarregada por várias crises de sua própria autoria: um confronto perigoso e ilegal com o Irã que Washington havia arquitetado ao lado de Tel Aviv, instabilidade econômica global, isolamento diplomático cada vez mais profundo em grande parte do Sul Global e ansiedade crescente diante da erosão da supremacia industrial e tecnológica dos EUA. Enquanto isso, a China entrou nas negociações com serenidade. Pequim não precisava de gestos dramáticos, apenas demonstrar que a maré da história havia mudado.

A cúpula revelou uma verdade que muitos países da África, Ásia e América Latina já compreendem instintivamente: os Estados Unidos continuam sendo militarmente perigosos, mas não possuem mais autoridade política inquestionável. A postura da China na cúpula refletiu esse novo equilíbrio global. Até mesmo analistas ocidentais do establishment perceberam a mudança. O Council on Foreign Relations reconheceu antes da reunião que “a China terá a mão mais forte”. Durante décadas, os Estados Unidos insistiram que a China permanecesse subordinada a uma ordem mundial projetada por eles. Em Pequim, no entanto, a realidade se inverteu. Trump não chegou para ditar condições; ele chegou em busca de ajuda.

A questão do Irã expôs essa dinâmica com maior clareza. Os Estados Unidos encontram-se presos em um ciclo de militarismo sem fim na Ásia Ocidental. As guerras ilegais lançadas ao longo do último quarto de século — do Iraque à Síria, passando pelo confronto em curso com o Irã — enfraqueceram os Estados Unidos estrategicamente, ao mesmo tempo em que trouxeram imenso sofrimento à região. Washington agora compreende que não pode estabilizar a situação por conta própria. A China, devido aos seus laços econômicos com o Irã e à sua crescente estatura diplomática, possui a influência que falta aos Estados Unidos.

Analistas descreveram explicitamente a dependência de Washington. A Al Jazeera noticiou que autoridades americanas esperavam que a China “desempenhasse um papel maior para pressionar o Irã” no sentido de uma distensão. Uma análise da Northeastern University observou que os observadores estavam acompanhando de perto para ver “se os EUA pedirão ajuda à China para o conflito em curso no Irã”. Até mesmo a própria agenda da cúpula de Trump refletiu essa dependência, com discussões fortemente centradas no Estreito de Ormuz, no programa nuclear do Irã e na estabilidade regional. Este é o ponto crucial: os Estados Unidos, que passaram décadas proclamando-se indispensáveis, agora precisam da cooperação chinesa para gerenciar crises que, em grande parte, eles mesmos criaram.

A serenidade da China

A China reconheceu essa realidade e agiu de acordo com ela. O presidente chinês Xi Jinping não assumiu posturas exageradas. Ele não fez ameaças teatrais. Ele não se envolveu na volatilidade emocional que agora caracteriza grande parte da cultura política dos EUA. Em vez disso, ele projetou estabilidade.

Sobre Taiwan, Xi foi firme, sem histeria. De acordo com relatos da cúpula, ele alertou que o manejo inadequado da questão poderia levar a “conflitos”. Não se tratou da linguagem do pânico; era a linguagem da clareza estratégica. Pequim entende que o maior perigo na política mundial hoje não vem de potências emergentes que exigem respeito, mas de uma potência mundial em declínio (os Estados Unidos) que se recusa a aceitar limites. Essa distinção é profundamente importante para o Sul Global. Muitos países do Sul têm longa experiência em lidar com a instabilidade imperial. Eles sabem que impérios em declínio tornam-se imprevisíveis (é por isso que Xi levantou a questão da Armadilha de Tucídides — a ideia de que uma potência em declínio se torna agressiva contra potências emergentes — e insistiu para que isso fosse deixado de lado em favor do desenvolvimento pacífico para todos). O declínio econômico frequentemente gera militarismo; a fragmentação política gera agressão externa. Os Estados Unidos hoje exibe precisamente essas características. Sua elite fala constantemente de “competição” e “contenção”, enquanto suas instituições internas sofrem profundas crises de legitimidade.

A conduta da China na cúpula, portanto, ofereceu uma lição política que se estende muito além do Leste Asiático. Xi demonstrou que é possível resistir à pressão dos EUA sem capitular ou recorrer a teatralidades. Não houve necessidade de denúncias emocionais ou grandiosidade simbólica. A China abordou os Estados Unidos como um interlocutor soberano e igual e insistiu nessa igualdade com calma. Essa postura é de enorme importância para os países do Sul Global, muitos dos quais estão tentando construir projetos de desenvolvimento soberano sob imensa pressão. O antigo modelo, de submissão a Washington em troca de estabilidade temporária, está cada vez mais desacreditado. Em toda a África, América Latina e Ásia, os governos agora buscam alternativas: integração regional, cooperação Sul-Sul, relações comerciais diversificadas e autonomia estratégica. A cúpula ilustrou que tal autonomia não é mais meramente uma aspiração; ela é materialmente possível.

A delegação de Trump revelou a mudança na hierarquia da economia mundial. O presidente dos EUA chegou acompanhado por importantes executivos de grandes corporações ansiosos por acesso ao mercado chinês. As discussões em torno de compras agrícolas, vendas da Boeing, terras raras e tecnologia refletiram uma verdade mais profunda: os Estados Unidos precisam da China economicamente de maneiras e num grau que a China já não precisa dos Estados Unidos. A China concordou em expandir as importações de produtos agrícolas dos EUA, uma medida destinada, em parte, a aliviar a pressão sobre os agricultores americanos prejudicados pela própria guerra comercial de Trump. Isso é revelador: a guerra comercial, originalmente enquadrada por Washington como uma demonstração da força dos EUA, tornou-se agora uma situação da qual Washington busca alívio.

Enquanto isso, a China continua a construir pacientemente capacidades industriais de longo prazo, avanços tecnológicos e redes diplomáticas pela Eurásia, África e América Latina. A estratégia de Pequim não se baseia principalmente em alianças militares, mas em infraestrutura, comércio, finanças e desenvolvimento. Pode-se criticar aspectos dessa estratégia, mas ela representa uma abordagem do poder global fundamentalmente diferente da doutrina da guerra permanente que tem dominado a política externa dos EUA desde o fim da Guerra Fria.

Nada disso significa que a China esteja isenta de contradições ou que a política global tenha se tornado benigna. Não se tornou. Mas a cúpula esclareceu um desdobramento histórico essencial: a era da supremacia incontestada dos EUA chegou ao fim. Os Estados Unidos ainda possuem um enorme poder militar. Podem infligir violência catastrófica. Essa capacidade perigosa permanece real. Mas a confiança política que outrora acompanhava o poder dos EUA se desgastou. Washington oscila cada vez mais entre ameaças e apelos, coerção e pedidos de assistência. As contradições são visíveis para todos.

A resposta da China na cúpula não foi, portanto, meramente diplomática; foi pedagógica. Para o Sul Global, a calma de Xi ofereceu um exemplo de como lidar com uma potência imperialista instável: evitar o pânico, manter a soberania, recusar a humilhação, construir capacidade de longo prazo e reconhecer que a história está em movimento. A cúpula em Pequim não marcou a chegada de um século chinês — a história é mais complicada do que esses slogans —, mas revelou uma consciência mundial em transformação. Mais países reconhecem agora que o futuro não pode ser organizado em torno das ansiedades de um império em declínio.

O “novo clima” em todo o Sul Global surge precisamente desse reconhecimento. Nações que antes eram tratadas meramente como objetos da política ocidental agora atuam cada vez mais como sujeitos da história. Elas buscam parceria em vez de dominação, desenvolvimento em vez de militarização, dignidade em vez de dependência. Em Pequim, Xi Jinping encarnou esse clima com notável disciplina. Os Estados Unidos vieram pedir ajuda; a China permaneceu serena. Grande parte do Sul Global observou atentamente, na esperança de que um dia também eles sejam capazes de lidar em pé de igualdade com potências que continuam a tratá-los como inferiores.


Vijay Prashad é um historiador e jornalista indiano. É autor de quarenta livros, incluindo “Washington Bullets”, “Red Star Over the Third World”, “The Darker Nations: A People’s History of the Third World”, “The Poorer Nations: A Possible History of the Global South” e “How the International Monetary Fund Suffocates Africa”, escrito em coautoria com Grieve Chelwa. É diretor executivo do Tricontinental: Instituto de Pesquisa Social, correspondente-chefe da Globetrotter e editor-chefe da LeftWord Books (Nova Délhi). Também participou dos filmes Shadow World (2016) e Two Meetings (2017).

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