Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*
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1.
O “travamento” do circuito produtivo ocorre quando o crédito existe, mas não vai para produção. Acontece de a renda financeira crescer mais diante da renda do trabalho.
O sintoma central dessa “doença brasileira” – distinta da “doença holandesa” provocada por razão cambial da apreciação da moeda nacional –, é o circuito monetário subordinar a retroalimentação de crédito-produção-renda-consumo-produção-concessão de mais crédito ao circuito dívida pública-juros-renda financeira-emissão de mais dívida. Este endividamento público paga encargos financeiros e cobre gastos sociais compensatórios.
Essa formulação captura um fenômeno real do capitalismo brasileiro contemporâneo, mas deve se evitar uma leitura excessivamente “tudo-ou-nada”, como se o circuito produtivo, especialmente o industrial, desaparecesse completamente. O mais adequado é falar em subordinação do circuito produtivo ao circuito financeiro-patrimonial – e não em uma substituição absoluta.
O “travamento” do circuito produtivo ocorre quando crédito (ou dívida) continua sendo criado(a), mas sua direção predominante deixa de ser a expansão da produção e passa a ser a valorização financeira. A moeda continua endógena, isto é, criada pelas forças do mercado, e o sistema financeiro continua expandindo ativos, no entanto, a moléstia enfraquece o efeito multiplicador sobre emprego, renda do trabalho e investimento produtivo.
O sintoma central dessa “doença brasileira” é o desacoplamento entre crédito e produção. No circuito clássico, a sequência é Crédito → Produção → Salários → Consumo → Lucros → Novo investimento. No padrão financeirizado brasileiro, passa a predominar Crédito ao Governo → Endividamento Público → Juros → Renda Financeira → Reaplicação do Dinheiro.
O trabalho, principalmente (~3/4) em prestação de serviços urbanos, não desaparece, mas passa a privilegiar aplicar a eventual sobra de sua renda em ativos financeiros. O circuito monetário continua ativo, mas gira mais rapidamente na esfera patrimonial e mais lentamente na esfera produtiva.
Há uma diferença crucial em relação à “doença holandesa” clássica, destacada por economistas novos-desenvolvimentistas, quando o boom exportador de commodities leva à apreciação da moeda nacional e consequente desindustrialização. O vírus dessa “doença” é a taxa de câmbio.
2.
A “doença financeira brasileira”, como diagnosticado por “doutor financista”, refere-se também ao problema dos juros serem fixados recorrentemente pelas diretorias do Banco Central do Brasil em patamar disparatado. Tornam a dívida pública altamente atrativa. O vírus dessa “doença” da financeirização é a taxa de juros levar ao privilegiamento da estrutura patrimonial.
“Financeirização” é o processo no qual os mercados financeiros, suas instituições e lógicas de funcionamento ganham influência predominante sobre a economia produtiva de bens e serviços e a política econômica. A vida cotidiana é permeada pela lógica financeira, como no uso de crédito, previdência privada complementar e aumento da dívida das famílias necessitadas de abusar dos cartões de crédito.
Nesse cenário, a busca por rendimentos através de ativos financeiros (dividendos das ações e juros dos títulos de dívida pública e privada) supera a valorização via produção, subordinando empresas e famílias ao capital fictício. O valor de mercado desses ativos é baseado na capitalização de rendimentos futuros esperados – e não diretamente em uma base real de produção ou mercadorias.
O eixo do circuito muda parcialmente. O circuito produtivo perde centralidade relativa porque investimento em expansão da capacidade produtiva exige tempo longo e expectativa incerta de demanda futura, ou seja, risco.
O circuito financeiro ganha centralidade porque títulos públicos oferecem liquidez, previsibilidade e alta remuneração. Como resultado, o sistema capitalista passa a acumular riqueza mais por valorização financeira, carregamento de ativos em portfólios e juros compostos, em lugar de ser por ampliação da capacidade produtiva.
Mas o circuito produtivo não desaparece. Este ponto é importante de ser destacado para relativizar e não absolutizar a “financeirização”. Mesmo em economias financeirizadas, há produção (em especial a prestação de serviços), há consumo (inclusive de importados produzidos em outros países), há emprego (senão na agricultura ou indústria ocupa-se em serviço).
Caso contrário, não haveria arrecadação fiscal, nem solvência do Estado, nem sustentação da própria dívida. Sem valor adicionado, não há geração de renda do trabalho, embora com baixa produtividade pela própria definição de serviço: atividade na qual um produtor direto encontra um consumidor.
Portanto, o circuito financeiro depende do produtivo, mas tende a dominá-lo.
3.
O efeito distributivo é central porque a renda financeira cresce relativamente mais diante da renda do trabalho. Isso produz concentração patrimonial, menor propensão marginal ao consumo das camadas sociais mais enriquecidas e enfraquecimento da demanda efetiva do consumo já quase plenamente satisfeito.
Destaca-se a expansão do varejo de alta renda, cujo patrimônio financeiro (R$ 3,231 trilhões em março de 2026), no agregado, já supera o do varejo tradicional (r$ 2,862 trilhões) e o do private banking (R$ 2,741 trilhões). O número de contas de cada segmento é, respectivamente, 23,3 milhões, 169,5 milhões e 790,9 mil.
A consequência macroeconômica é se formar uma acomodação socioeconômica peculiar: estabilidade monetário-financeira relativa + enriquecimento patrimonial + crescimento moderado/baixo + política social compensatória.
Então, uma formulação teórica mais precisa, em relação à hipótese com foco apenas em desindustrialização e globalização, é acrescentar a financeirização também como efeito do neoliberalismo pós-desenvolvimentismo. A hipótese pode ser refinada ao destacar o “travamento” do circuito produtivo brasileiro ocorrer quando a criação monetária e o endividamento deixam de ter como principal vetor a expansão da produção e passam a alimentar predominantemente a valorização financeira da riqueza, subordinando o circuito produção–renda–consumo ao circuito dívida pública–juros–renda patrimonial.
Um insight decisivo é o problema da “doença brasileira” não ser “falta de moeda”. A moeda nacional continua sendo criada. O problema é qual circuito social recebe prioritariamente a nova liquidez, criada pelo sistema financeiro e pelo Estado brasileiro.
Outro problema é a eventual escassez da moeda estrangeira para cobrir o déficit na conta de serviços e renda primária. Ocorre quando o superávit no balanço comercial não consegue o superar, devido à remessa de lucros das transnacionais aqui instaladas e pagamentos de juros externos de empréstimos intercompanhia ou carry trade. A Conta capital e a financeira têm de cobrir o déficit no balanço de transações correntes para equilíbrio do balanço de pagamentos.
Em 2024 e 2025, os déficits no balanço de transações correntes equivaleram a 3% do PIB e foram cobertos por Investimentos Diretos no País no valor de 3,4% do PIB. Os percentuais relativos se equivaleram.
Em conexão com a Teoria do Circuito, isso representa uma transformação histórica do circuito monetário clássico (industrial): Crédito → Produção → Renda → Consumo → Lucro. O circuito financeirizado é: Crédito → Ativos financeiros → Juros/Dividendos → Revalorização Patrimonial.
A diferença em relação aos EUA é lá a financeirização também existir, mas há inovação tecnológica, mercado de capitais profundo (com sócios repartindo os riscos e diversificação global de riscos) e expansão de setores líderes. No Brasil, a financeirização convive com juros reais altos, baixa densidade tecnológica e crescimento moderado. Torna o “travamento” mais persistente.
Esse diagnóstico da abordagem estruturalista-sistêmica da complexidade diz respeito a um regime de reprodução financeirizado periférico. Essa “doença brasileira” é caracterizada por dominância da dívida pública, rentismo financeiro, baixa transformação produtiva e preservação da coesão social via gasto estatal, seja em políticas sociais ativas, seja em pagamentos de encargos financeiros.
Ela é diagnosticada através de uma interpretação pós-keynesiana da economia brasileira. Trata-se de uma síntese entre Teoria do circuito, Hyman Minsky, estruturalismo latino-americano e crítica à financeirização parasitária.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

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