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Declarar PCC e CV como terroristas é a primeira interferência de Trump nas eleições brasileiras, avalia Maringoni

Departamento de Estado dos EUA anunciou que organizações criminosas serão enquadradas a partir de 5 de junho

Do Brasil de Fato, 28 maio 2026 - São Paulo (SP)
Por Rodrigo Gomes



Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump |
Crédito: Kevin Dietsch/Getty Images via AFP

A decisão do governo de Donald Trump de declarar as organizações criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pode ser considerada “a primeira interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras”. A avaliação é do professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, Gilberto Maringoni.

“Embora os EUA tenham tomado medida semelhante em outros países, no Brasil temos o gatilho das eleições. Trump decidiu dar um empurrão na candidatura de Flávio Bolsonaro e entrou na disputa. Ele vai dizer que conseguiu ajuda do governo Trump para combater as organizações criminosas do Brasil, que o governo brasileiro não consegue fazer sozinho. É um movimento para recolocar Flávio na disputa após as revelações sobre o Banco Master”, avaliou.

A ida de Flávio Bolsonaro aos EUA foi uma reação às reportagens do The Intercept que mostram as relações do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e a produção do filme “Dark Horse”. Flávio pediu R$ 134 milhões a Vorcaro para financiar a produção e há suspeitas de que o dinheiro tenha sido usado para financiar a atuação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos EUA.

“Flávio agiu rápido. Vinha perdendo apoio nas pesquisas, mas os demais nomes da direita não subiram. Agora o governo Lula precisa responder defendendo a nossa soberania, sem parecer condescendente com o crime organizado”, ressalta Maringoni.

Para Maringoni, o governo Lula precisa dar uma resposta firme e mostrar o que vem fazendo no combate ao crime, já que, para boa parte da população, a ideia de combate ao crime é muito associada a ações violentas e grandes operações.

“Lula tem que reagir de maneira firme. Ir à TV, à internet, mostrar o acordo recém-firmado com os Estados Unidos para cooperação no combate ao crime. Mostrar os dados de operações, como a Carbono Oculto (que revelou a atuação do crime organizado no comércio de combustíveis e no mercado financeiro). A investigação do caso do Banco Master é um grande exemplo de combate ao crime organizado, que está articulado no mercado financeiro, nos bancos, no mercado imobiliário”, defendeu Maringoni.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou nesta quinta-feira (28) que vai classificar o PCC e o CV como organizações terroristas, a partir de 5 de junho. A medida inclui as duas facções brasileiras nas categorias de “organizações terroristas estrangeiras” e “terroristas globais especialmente designados”, segundo comunicado divulgado pelo governo estadunidense.

O texto afirma que PCC e CV estão entre “as organizações criminosas mais violentas do Brasil”, responsáveis por “ataques brutais” contra policiais, autoridades públicas e civis. O governo dos Estados Unidos também sustenta que a atuação dos grupos ultrapassa as fronteiras brasileiras e alcança outros países da América Latina e o próprio território estadunidense.

O anúncio ocorre um dia após o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reunir com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e dois dias depois de um encontro do parlamentar com o presidente Donald Trump na Casa Branca. Após a reunião, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro afirmou ter pedido ao governo Trump que classificasse as facções brasileiras como organizações terroristas.

Para o líder do PT na Câmara, deputado Pedro Uczai, a medida representa uma resposta ideológica da extrema direita mundial à proposta de cooperação internacional apresentada pelo Brasil aos EUA. O acordo compreende a repatriação de valores, troca de informações, asfixia financeira e combate real ao crime organizado.

“Em vez de cooperação, a extrema direita oferece sanções, ingerência, pressão econômica e submissão do Brasil aos interesses de estrangeiros. A classificação pode produzir consequências financeiras desastrosas e ampliar os prejuízos à economia brasileira, como já ocorreu com as tarifas impostas pelos EUA. A medida também ameaça milhões de pessoas que vivem ou trabalham em territórios dominados pelo crime organizado, criando barreiras para circulação, serviços, contas bancárias e crédito”, argumentou, em nota.

Uczai destaca que Flávio devia era explicar as relações da família em vez de atacar o próprio país. “A mesma família que acumula relações com o crime organizado no Brasil tenta posar de defensora da segurança enquanto conspira contra o povo brasileiro. O Brasil precisa combater o crime organizado com Estado forte, soberania e lei brasileira. O Brasil não é colônia. O Brasil é dos brasileiros”, conclui.

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