Por GILBERTO LOPES*
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“Acho que terei a honra de tomar Cuba”, disse o presidente Donald Trump, em março passado. “Olhem para aquilo! Está caindo aos pedaços, é um desastre”. “Poderei fazer o que eu quiser”.
Dois meses depois, em 20 de maio, quando os cubanos na Flórida celebravam a festa da independência, o Secretário de Estado, Marco Rubio, de ascendência cubana, divulgou no YouTube uma mensagem ao povo cubano. Ofereceu cem milhões de dólares em alimentos e medicamentos, distribuídos pela Igreja Católica ou outras organizações não governamentais, e uma nova relação com os Estados Unidos. A única coisa que se interpunha nesse caminho – garantiu – eram “aqueles que controlam seu país”.
No mesmo dia 20 de maio, o Departamento de Justiça acusou o ex-presidente cubano, o general Raúl Castro (com 94 anos), de assassinato e conspiração para assassinar cidadãos norte-americanos. Trata-se de uma história antiga, há 30 anos, quando a Força Aérea cubana derrubou dois aviões pequenos do grupo opositor cubano “Hermanos al Rescate”, que há meses operava, a partir da Flórida, uma campanha contra o governo.
A medida, semelhante à que antecedeu o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, contribuiu para reforçar a pressão da administração norte-americana sobre o regime cubano. Para o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, não passa de “outra uma manobra política, desprovida de qualquer fundamento legal”.
A Gaesa e os bilhões
Marco Rubio apresentou aos cubanos o sucesso e a riqueza de alguns estadunidenses de origem cubana nos Estados Unidos, fazendo-os sonhar que algo parecido poderia ocorrer a todos, com a mudança de governo. Falou de uma nova Cuba, onde todos os cubanos – e não apenas a Gaesa, a empresa do exército e do governo, ou o Partido Comunista – tivessem um banco, um posto de gasolina, um restaurante, uma construtora, uma estação de televisão. Um regime democrático, como na Jamaica, Bahamas ou República Dominicana, cujos exemplos exibiu para os cubanos.
A Gaesa, a empresa criada pelo governo para gerir os recursos de uma economia submetida a um bloqueio há mais de 60 anos, foi acusada de gerir bilhões, enquanto o povo sofre de grave escassez.
“Mentem constantemente, sem qualquer pudor, com uma desfaçatez alarmante”, afirmou Díaz-Canel. “Escolher a Gaesa como inimigo principal é um golpe brilhante”, considerou Fernando Ravsberg, jornalista de origem uruguaia que fez de Cuba seu lar. Com isso, “já não é preciso enfrentar a revolução, nem o governo, mas um misterioso grupo empresarial, ‘um Estado dentro de outro Estado’, que esconde seu dinheiro enquanto o povo passa por necessidades”.
“O problema é que hoje não será possível frear esta campanha midiática sem transparência”, afirmou Fernando Ravsberg. “A Gaesa deveria poder fornecer informações ao povo sem necessidade de expor suas operações comerciais ou seus parceiros no estrangeiro”. “Esta seria uma boa forma de desmontar esta campanha de comunicação que pretende colocar cubanos contra cubanos, enquanto as tropas dos EUA aguardam o momento de entrar como salvadores”, acrescentou Ravsberg, um dos jornalistas cubanos mais lúcidos, a quem um par de aproveitadores da revolução (alguns já falecidos) conseguiu que fosse proibido de exercer o jornalismo.
Em sua opinião, “Marco Rubio precisa desesperadamente que os cubanos residentes em Cuba saiam às ruas de forma violenta, que a polícia os reprima, que haja presos, feridos nos hospitais e muitos mortos”. Assim, todas as opções, incluindo uma intervenção militar, se tornariam muito mais viáveis.
A ameaça de uma intervenção militar
É difícil imaginar o desfecho de uma situação provocada por um bloqueio que priva Cuba de todas as fontes de energia, desencadeando uma pressão inimaginável sobre a vida das pessoas (como já se vive hoje), sem que isso desencadeie uma rebelião contra o governo cubano.
Por enquanto, Marco Rubio aposta na revolta de uma população exausta, submetida a uma escassez insuportável e a uma pobreza generalizada. Por enquanto!
Como relatava o New York Times em 20 de maio, “as pessoas referiam-se a uma busca diária por alimentos, já que era impossível manter o frigorífico funcionando o tempo suficiente para congelar a carne ou conservar os alimentos frescos”. “Compravam comida em pequenas quantidades diárias, a preços acessíveis: cinco ovos num dia, meio quilo de carne de porco no dia seguinte, um quilo e meio de frango no outro”.
“O lixo acumula-se nas ruas porque não há combustível para os caminhões o recolherem. Segundo relatos, há pessoas que estão morrendo ou em condições muito ruins devido às falhas nos geradores dos hospitais”, resume Vivian Salama, jornalista norte-americana, numa entrevista à The Atlantic.
“A trajetória atual corre o risco de desencadear um período prolongado de deterioração humanitária e de sofrimento lento, sem mudanças reais para a população”, afirmou María José Espinosa, “especialista em política externa e diretora executiva do Centro para el Compromiso y la Incidencia en las Américas (CEDA)”, à jornalista de origem cubana Carla Gloria Colomé, que escreve para o jornal El país.
Díaz-Canel lembrou da reiteração do decreto que declara Cuba como uma “ameaça inusual e extraordinária” para a segurança dos Estados Unidos. E a aplicação de “tarifas aduaneiras irracionais” aos países que fornecem petróleo a Cuba.
Nem Donald Trump nem Marco Rubio mencionam os efeitos do bloqueio econômico, que tem sido aplicado há décadas, de forma cada vez mais radical, produzindo exatamente o que Donald Trump aponta: um desastre.
Embora uma intervenção militar pareça improvável, uma maior pressão parece certa, enquanto Washington tenta obrigar o regime a chegar a um acordo, afirmava o site Gzeromedia, na sexta-feira, 22 de maio.
O artigo especula sobre a possibilidade de levantar as sanções econômicas em troca da abertura da economia cubana. E com um acordo que poderia implicar a permanência no poder de muitos dos mesmos governantes, “em vez da mudança radical de regime que as comunidades cubanas em Miami, inclusive o próprio Marco Rubio, poderiam desejar”.
Uma opinião compartilhada pelos acadêmicos norte-americanos William LeoGrande e Peter Kornbluh que, num artigo na revista Foreign Affairs, afirmam que a administração poderia aceitar algo menos do que uma mudança de regime.
Como na Venezuela? É difícil imaginar algo assim em Cuba. Encontrar algum setor do governo, ou do partido, capaz de substituir as autoridades atuais. Da mesma forma, é difícil imaginar qualquer mudança de governo sem que tropas norte-americanas ocupem o país. E isso é outra coisa. Os cubanos afirmam que isso não poderia acontecer sem um banho de sangue. E com custos políticos difíceis de imaginar, tanto nos Estados Unidos como na América Latina e no resto do mundo.
Alguém que acredita no futuro da ilha
A aspiração do governo norte-americano de ocupar Cuba não é nova. É uma história antiga, com mais de um século, uma aspiração permanente de incorporar a ilha como mais um estado norte-americano, ou como um protetorado, submetido a controles políticos e econômicos. Tal como no século passado.
Além disso, a estratégia em relação a Cuba está definida em documentos como os anunciados por Jorge Mas Santos e pela Fundação Cubano-Americana, que ele preside.
Filho de Jorge Mas Canosa (já falecido), um histórico líder da oposição a quem se atribui um empenho particular na promoção de leis que radicalizaram o embargo norte-americano à ilha, como a Helms-Burton, Jorge Mas Santos é um poderoso empresário da construção civil nos Estados Unidos. E uma figura de referência da oposição, muito próximo do Secretário de Estado, a quem descreveu como “um dos nossos aqui em Miami”.
Jorge Mas Santos concedeu uma entrevista em Miami ao El País, um dia após a visita do diretor da CIA, John Ratcliffe, a Havana para apresentar um ultimato às autoridades da ilha. A entrevista foi publicada em 16 de maio, por Iker Seisdedos, a quem Santos tinha enviado dois documentos: uma “Rota para uma Cuba próspera, democrática e de livre mercado” e um “Projeto de Lei Fundamental para a transição democrática”.
Jorge Mas Santos explica que a Carta “é um marco legal concebido para responder ao grande interesse de muitos investidores estrangeiros que querem ajudar na reconstrução. São sugestões para a economia, mas também para os direitos humanos, que permitam uma transição para eleições livres e uma nova Constituição”.
“Acredito firmemente no futuro da ilha”, afirma Jorge Mas Santos a um jornalista que (como Carla Gloria Colomé e a linha editorial geral do El país) está alinhado com a oposição cubana.
As dimensões do negócio são enormes. Vejo a reconstrução de Cuba como “superfácil”. “É preciso criar um marco que incentive o investimento estrangeiro”. “Se forem necessários 40, 50, 60, 70 ou 80 bilhões, seja qual for o valor, não será um problema”, diz Jorge Mas. Nenhum número será um problema.
É essa a dimensão dos negócios que Jorge Mas e seus sócios vislumbram em Cuba. Contudo, nem um centavo para os cubanos que hoje vivem em condições dramáticas, como as descritas pelo New York Times, The Atlantic ou pelo próprio El País, devido ao bloqueio a que a economia da ilha está submetida.
Mas Jorge Mas Santos está esperançoso. Nunca viu isso “tão perto como agora”. Graças à liderança do presidente Donald Trump e do secretário Marco Rubio. “Todos esperamos que esta seja a reta final”.
Restabelecer seu domínio sobre a América Latina
Carla Gloria Colomé lembra que Donald Trump falou em restabelecer seu domínio sobre a América Latina, “da necessidade de controlar o que se passa no quintal”, como afirmou o professor da Universidade de Miami, Michael Bustamante.
Este objetivo está contemplado na Estratégia de Segurança Nacional, que a administração norte-americana publicou em novembro passado. Um documento público de 29 páginas disponível em inglês para qualquer interessado.
No que diz respeito ao Hemisfério Ocidental, o documento afirma que “após anos de abandono, os Estados Unidos reafirmarão e aplicarão a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência norte-americana”. Este “corolário Trump” da Doutrina Monroe – afirma – “é uma poderosa restauração do poder e das prioridades norte-americanas, em consonância com os interesses de segurança dos Estados Unidos”.
É evidente o desafio que essa visão representa para a América Latina. Confrontado com a conjuntura atual, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, alertou que a região se depara com a ameaça de retorno de uma regra colonial. “Não é possível que alguém pense que é dono de outros países. O que estão fazendo agora com Cuba? O que fizeram com a Venezuela? Por acaso isso é democrático?”, questionou.
A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, classificou de “injustas” as sanções norte-americanas a Cuba e defendeu o direito de seu país continuar prestando ajuda humanitária e mantendo relações comerciais com a ilha. Que sentido faz acusar Castro por um fato que ocorreu há 30 anos, questionou-se. “É uma visão de que podem influenciar outros países. Nós não concordamos com essa visão”.
O colombiano Gustavo Petro classificou “a agressão militar a Cuba como uma agressão contra a América Latina”.
Que América Latina?
A que América Latina se refere Gustavo Petro? A uma América Latina onde a direita privatizadora há muitos anos faz eco, a partir do Sul, do tom predominante em Washington.
Em cada país prevalece, com as características locais, uma luta política em que é essa direita que tem a voz mais clara, que sabe melhor o que quer, enquanto o esforço para construir uma alternativa parece ainda enredado nos fios de um passado relativamente recente, que aniquilou quadros, mas, acima de tudo, desarticulou o discurso alternativo.
Há um cenário ao qual deveríamos prestar atenção: o que diz a Organização dos Estados Americanos (OEA) sobre o ataque à Venezuela e o sequestro de seu presidente? O que diz sobre o bloqueio a Cuba e a ameaça de invasão? É preciso ver como está ativa diante da rebelião popular contra as medidas do governo de direita, de Rodrigo Paz, na Bolívia! Não seria útil colocar em debate o papel dessa instituição para a América Latina? Eu acho que sim.
A gritaria de Javier Milei, José Antonio Kast, Rodrigo Paz, não revela lucidez. É sinal do desgaste de um argumento, enquanto a falta de uma resposta à altura alimenta uma sensação de desconcerto que paira sobre o cenário político da América Latina. A única região que parece ainda alheia à busca de seu lugar num novo cenário multilateral. Um lugar diferente daquele que nos ameaça com a “regra colonial” a que Lula se refere.
*Gilberto Lopes é jornalista, doutor em Estudos da Sociedade e da Cultura pela Universidad de Costa Rica (UCR). Autor, entre outros livros, de The end of democracy: a dialogue between Tocqueville and Marx (Editora Dialética) [https://amzn.to/3YcRv8E]
Tradução: Fernando Lima das Neves.

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