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Conhecer o território

Do A Terra É Redonda, 20 de maio 2026
Por CELSO PINTO DE MELO*



Imagem: Thomas Verbruggen

A segurança alimentar de um país não depende apenas do que ele produz, mas do que ele controla para produzir

A potência que importa as condições de sua própria produção

A imagem do Brasil como potência agrícola global é hoje incontestável. O país figura entre os maiores produtores e exportadores de soja, milho e carne, sustentando uma parcela relevante da segurança alimentar mundial. Sob essa aparente robustez, porém, esconde-se uma fragilidade estrutural pouco discutida: a dependência externa de fertilizantes.

Mais de 80% dos fertilizantes utilizados no país são importados, com forte concentração em poucos fornecedores – notadamente Rússia, Belarus, Canadá e Marrocos.[1][2] Em 2023, o Brasil consumiu entre 45 e 50 milhões de toneladas, sendo o quarto maior mercado do mundo – e um dos mais dependentes de importações.

Em períodos de estabilidade, essa dependência tende a passar despercebida. A partir de 2022, com a guerra na Ucrânia, ela passou a se revelar com nitidez: volatilidade de preços, risco de desabastecimento e exposição geopolítica.

A recente elevação das tensões no Golfo Pérsico – com o risco de interrupção do tráfego no Estreito de Hormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial – adiciona uma nova camada de vulnerabilidade. Mais do que um gargalo energético, Hormuz é também um ponto crítico para a cadeia de fertilizantes: eventuais interrupções afetariam simultaneamente o custo do gás natural, a disponibilidade de enxofre (derivado do refino, essencial para a produção de ácido sulfúrico, base dos fertilizantes fosfatados) e o transporte de insumos estratégicos.

O que esse encadeamento revela é que a produção agrícola moderna depende de infraestruturas materiais que ultrapassam em muito o espaço do campo, articulando energia, indústria e geopolítica em uma mesma cadeia.

O ponto central, porém, não é conjuntural. É estrutural.

Não são quatro insumos – é um sistema

A forma usual de tratar fertilizantes como categorias separadas – nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K) e, quando muito, enxofre (S) – obscurece a natureza real do problema. Esses elementos não operam como cadeias independentes, mas como partes de um sistema integrado.

O nitrogênio depende do gás natural; o fósforo, de ácido sulfúrico; o ácido sulfúrico, por sua vez, depende do enxofre; e o potássio está ancorado em uma geopolítica mineral altamente concentrada [3] [4] (ver Fig. 1).


Figura 1 – O sistema de fertilizantes: A produção de fertilizantes constitui um sistema interdependente que articula três dimensões: energia (nitrogênio), química industrial (fósforo e enxofre) e geopolítica mineral (potássio). A fragilidade em qualquer um dos elos compromete o conjunto.

O resultado é um sistema interdependente, em que a escassez de um componente afeta o conjunto.

O caso do fósforo é particularmente ilustrativo. Embora o Brasil possua reservas relevantes de rocha fosfática, sua conversão em fertilizante exige ácido sulfúrico – e, portanto, enxofre. Sem enxofre, não há fósforo utilizável em escala industrial.

É por isso que o enxofre, frequentemente ausente do debate público, costuma ser o elo invisível da dependência brasileira.

Quando se observa a cadeia de fertilizantes em sua totalidade, torna-se evidente que a dependência brasileira não é única, mas composta por camadas que se sobrepõem.

A primeira é energética. A produção de fertilizantes nitrogenados se baseia no processo Haber-Bosch, intensivo em gás natural. Entre 70% e 80% do custo da amônia está associado ao gás,[5] o que explica sua concentração produtiva em países com energia abundante. No Brasil, o custo do gás e a limitada integração industrial reduziram a competitividade doméstica.

A segunda camada é industrial. Mesmo quando há reservas minerais – como no caso do fósforo –, a produção depende de cadeias químicas complexas, e a falta de integração entre a mineração e a indústria limita a transformação desses recursos em produtos finais.

A terceira é geopolítica. O potássio, essencial à agricultura moderna, é produzido por poucos países. Cerca de 70% da oferta global concentra-se no Canadá, na Rússia e em Belarus – e o Brasil importa aproximadamente 90% do que consome. Essa concentração transforma o insumo não apenas em mercadoria, mas também em um ativo estratégico.

Trata-se, portanto, de uma dependência que não pode ser compreendida isoladamente em cada insumo, mas apenas na articulação entre esses diferentes níveis.

O dado que muda tudo – não sabemos plenamente o que temos

Há, contudo, um elemento ainda mais profundo – e raramente trazido ao centro do debate. Os dados do Serviço Geológico do Brasil revelam um paradoxo pouco discutido: o país dispõe de cobertura cartográfica relativamente ampla em escalas gerais, mas carece de conhecimento geológico detalhado.

Aproximadamente metade do território foi mapeada em escala 1:250.000. Em escala mais refinada – 1:100.000, necessária à avaliação mineral –, a cobertura cai para cerca de um quarto do Brasil.[6]

Essa diferença de escala não é trivial. Mapas em 1:250.000 permitem identificar grandes estruturas e orientar o olhar – mas é apenas em escalas mais detalhadas, como 1:100.000, que se torna possível reconhecer com precisão zonas mineralizadas e avaliar seu potencial econômico. Conhecer o território em escala grossa é suficiente para mapear o país – mas não para planejar o seu futuro mineral.

Mesmo nos escudos cristalinos, onde se concentram os principais recursos minerais, o mapeamento detalhado não ultrapassa cerca de 40% (ver Fig. 2).


Figura 2 – A base mineral desse sistema depende do conhecimento geológico do território, que permanece incompleto. Embora haja cobertura cartográfica em escala regional, o mapeamento detalhado – necessário à avaliação de reservas – cobre apenas uma fração do país, distribuindo-se de forma desigual. O mapa mineral brasileiro representa, portanto, mais o que foi estudado do que o que efetivamente existe.

Mais do que um déficit técnico, trata-se de um limite estrutural ao planejamento econômico. O resultado é um padrão espacial inequívoco: o conhecimento geológico brasileiro organiza-se em “manchas”, concentrado em determinadas regiões, enquanto vastas áreas permanecem pouco investigadas.

Isso significa que o mapa mineral do país não representa o que existe – apenas o que foi suficientemente estudado. A ausência de ocorrências registradas não indica inexistência de recursos, e sim a falta de conhecimento. Em outras palavras: o Brasil não apenas explora menos do que poderia – ele desconhece uma parcela significativa do seu próprio potencial mineral.

Ao mesmo tempo, tecnologias de sensoriamento remoto já permitem que outras nações possam identificar áreas promissoras em territórios ainda pouco estudados internamente – embora a confirmação e o aproveitamento desses recursos continuem dependentes de conhecimento geológico local detalhado.

O paradoxo do agro brasileiro

A convergência desses fatores resulta em um paradoxo difícil de ignorar. O Brasil consolidou-se como potência agrícola global, mas sustenta essa posição com base em insumos cuja produção está, em larga medida, fora de seu controle. A produtividade agrícola nacional depende de cadeias logísticas longas – cerca de 80% dos fertilizantes entram por portos como os de Paranaguá e Santos –, de preços definidos no exterior e de decisões geopolíticas tomadas fora de nosso país.

Diante desse quadro, soluções pontuais tendem a ser insuficientes. Expandir a produção de fosfato sem garantir acesso ao enxofre não resolve o problema; investir em nitrogenados sem gás competitivo tampouco; explorar potássio sem equacionar os desafios socioambientais dificilmente avançará.

A dependência, justamente por ser sistêmica, exige uma resposta igualmente sistêmica. Há, portanto, uma etapa anterior a qualquer política industrial consistente: conhecer o território.

Sem mapeamento geológico de alta resolução, não há base sólida para o planejamento mineral nem para estratégias de longo prazo. Essa dimensão – frequentemente tratada como um aspecto especializado – é, na realidade, fundacional. Sem ela, a própria ideia de soberania sobre recursos naturais torna-se limitada. Tal limitação não é apenas técnica, mas também expressa uma forma específica de inserção do país na economia global.

No mundo contemporâneo, fertilizantes ocupam um lugar comparável ao de semicondutores, energia ou dados: são insumos invisíveis, embora estruturantes. Controlá-los significa, em última instância, controlar as condições materiais da produção de alimentos.

O debate sobre fertilizantes, portanto, ultrapassa o campo agrícola. Ele envolve escolhas industriais, energéticas, territoriais e geopolíticas.

A geologia brasileira é um dado. A agricultura brasileira também. O que não está dado – e permanece em aberto – é a capacidade de transformar recursos em autonomia. A dependência brasileira de fertilizantes não decorre da escassez de recursos, mas da ausência de um sistema capaz de transformar o território em capacidade produtiva.

A dependência não começa na importação – começa no desconhecimento. É nesse ponto que o paradoxo se torna incontornável – e talvez revele algo mais profundo sobre a forma como o país se insere na economia global: o país que alimenta o mundo ainda não controla as condições materiais da própria produção.

*Celso Pinto de Melo é professor titular de física aposentado da UFPE e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Notas

1. Associação Nacional para Difusão de Adubos, Anuário Estatístico do Setor de Fertilizantes 2023. 2023, ANDA: São Paulo. https://anda.org.br.

2. Food and Agriculture Organization, World Fertilizer Trends and Outlook to 2026. 2023, FAO: Rome. https://www.fao.org.

3. International Fertilizer Association, Fertilizer Outlook 2023–2027. 2023, IFA: Paris.

4. United States Geological Service, Mineral Commodity Summaries 2023. 2023, USGS: Reston. https://doi.org/10.3133/mcs2023.

5. International Energy Agency, Ammonia Technology Roadmap. 2021, IEA: Paris. https://doi.org/10.1787/a4d1b2c2-en.

6. Serviço Geológico do Brasil, Plano Decenal de Mapeamento Geológico do Brasil 2021–2030. 2021, CPRM: Brasília. https://www.cprm.gov.br.

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