Por FRANCISCO FOOT HARDMAN*
A articulação socioambiental entre Brasil e China surge como um imperativo geopolítico para superar o produtivismo e garantir um futuro planetário habitável
1.
Nesse ano de 2026, em que celebramos, com muita alegria, as afinidades e amizade cultural entre a China e o Brasil, não posso deixar de agradecer, no início desse diálogo, para além de qualquer formalidade retórica, aos organizadores desse importante Fórum, pelo honroso convite que me fizeram para estar aqui, hoje, com todos vocês.
O mundo em que vivemos sofre grandes transformações políticas, econômicas, culturais, sociais e ambientais. Cabe à nossa geração, e à mais jovem que está vindo, assumir os desafios para contribuirmos, em cada setor de nossas vidas – e eu me reporto aqui, à área em que trabalhei e trabalho por cerca de 50 anos, o da educação pública superior – para que o nosso Planeta compartilhe um futuro habitável de vida bem vivida, pacífica, viável tanto socialmente quanto ecologicamente, seja para as várias culturas humanas, seja ao mesmo tempo para todas as espécies vivas.
Não é puro modismo, evidentemente, o interesse crescente que verifico pelo tema da “civilização ecológica” em vários países e regiões e em várias universidades. Fui mobilizado por esse tema aqui mesmo na China, em novembro e dezembro de 2019, quando pude proferir palestras, respectivamente, na Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul (SUSTech), em Shenzhen, Guandgong e, também, na Universidade de Pequim (PKU), em torno do tema central da chamada Hileia Amazônica (nome cunhado pelo viajante e pesquisador pioneiro Alexander von Humboldt, na virada do século XVIII ao XIX), em situações-limite, seja “quando a natureza se vinga dos humanos”, seja “quando alguns humanos destroem nossa casa comum”[i].
Já em 2024, em fevereiro, pude retornar à Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em Manaus, bem como visitar a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), na cidade de Tefé, à beira do rio Solimões, situada a cerca de 500 Km da capital, onde, em ambas as estadias, tratamos centralmente do colapso socioambiental que afeta gravemente toda a região amazônica.
E, em março de 2024, tive a felicidade de proferir uma palestra de abertura no evento organizado pelo Trinity College, em Dublin, Irlanda, dentro das atividades do Trinity Center for Global Intercultural Communications, sobre o tema: “The Amazon as a New Centrality: a contemporary challenge for all our interactions”.
Além dessas intervenções, estivemos, em janeiro de 2025, na Universidade da Califórnia, campus de Santa Barbara (UCSB) para falar, num seminário dedicado às relações entre Paisagem e Literatura, coordenado pela colega Elide Valarini Oliver, sobre o tema: “SOS Amazon: the social-environmental collapse and the urgent call to our generation”. E, no início de dezembro de 2025, voltamos a Belém do Pará, a bela capital daquele estado amazônico, para falar, ainda uma vez, sobre o mesmo tema, a convite de colegas e pesquisadoras/es de toda aquela enorme região (GELLNORTE: Grupo de Estudos Linguísticos e Literários da Região Norte).
2.
E cá estamos novamente, aqui e agora, minhas caras amigas e amigos, para tratar, no fundo, do mesmo tema. No Brasil, dizem: “é como chover no molhado”. Ou: “é como bater na mesma tecla”. Mas dada a enorme gravidade do que ocorre no mundo globalizado, hoje, temos, sim, que insistir, e se for necessário, “chover no molhado”… Porque, afinal, retomo, aqui, o título que, a convite do Consulado Geral da República Popular da China, em São Paulo, minha cidade natal, fiz para um pequeno volume que foi editado, em novembro de 2025, por ocasião da reunião da COP-30, ao qual colaboraram, efetivamente, o Instituto BRICS+, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) e o Instituto Confúcio da Unesp: “Quem quer a paz mundial de verdade? Desafios para uma Multipolaridade na Amazônia e o Papel de uma Cooperação Socioambiental Efetiva Brasil-China”.[ii]
Se me permitem, portanto, vamos, sim, “chover no molhado”. Quando vi, com meus próprios olhos, o enorme Lago Tefé, à beira dessa cidade fundada na metade do século XVIII na bacia amazônica, sofrendo efeitos de uma seca antes nunca vista, nunca vivida, fiquei muito chocado e triste. Mas, ao mesmo tempo, sabendo da responsabilidade de levar essa mensagem onde eu puder e pelos anos que me for possível fazê-lo.
Nenhuma inovação tecnológica pode justificar-se por si mesma, sob pena de cairmos prisioneiros do “inovacionismo”. Toda inovação tecnológica deve responder a duas perguntas básicas: por quê?; e: para quem? A mesma reflexão deve ser feita em relação ao desejado avanço das chamadas forças produtivas com “nova qualidade”. Por quê? Para quem?[iii] Do contrário, recaímos na ilusão do “produtivismo”, com toda a sua parafernália mercadológica, hoje reforçada pela publicidade em torno da Inteligência artificial.
3.
Chegados a este ponto, me permitam retomar alguns dos objetivos que considero “pontes que aproximam” na perspectiva de uma cooperação efetiva dos BRICS, em especial entre China e Brasil:
(i) A multipolaridade, isto é, respeito às diferenças culturais e ação internacional solidária pela superação da pobreza extrema e de situações crônicas de fome e carência alimentar, em especial dos refugiados de todo o mundo; (ii) A efetiva troca de conhecimentos científicos e tecnológicos, sem ranços hegemônicos e nem cobiças de controle geopolítico, tendo a soberania de estados, povos e nações como valor incondicional.
(iii) Estabelecer e/ou fortalecer linhas de cooperação educacional e pedagógica que façam aprofundar intercâmbios desejáveis entre estudantes, professores, técnicos e pesquisadores, tendo as nossas universidades públicas como instituições coordenadoras desse processo; realização de intercâmbios artísticos e culturais que possam dar a conhecer tendências contemporâneas dessas atividades em nossos respectivos países, bem como linhas históricas em que se revelem tradições e afinidades múltiplas.
(iv) Lutar para construir – no espaço e contexto do Sul Global e do BRICS – uma nova “governança multipolar” que possa cuidar, efetivamente, das questões socioambientais na perspectiva de um futuro compartilhado, isto é: que a Terra seja igualmente habitável por humanos e não-humanos; em que seja possível o reencontro de harmonias perdidas entre o campo e a cidade; isso tudo, sempre em prol de uma vida coletiva, igualitária e justa – o que várias culturas indígenas latino-americanas chamam de “bem-viver”.
Perdoem-me, pois, amigas e amigos, por “chover no molhado”. Quando vejo e vi com meus próprios olhos a destruição da Amazônia, seja lá no distante Lago Tefé, seja em tantas bacias de rios contaminados pelo mercúrio das mineradoras clandestinas e de florestas devastadas pela cobiça de madeireiros e empresários do agronegócio; quando vejo e vi a enorme quantidade de pessoas sem-teto em grandes cidades do Ocidente, do Brasil aos EUA, da Argentina à França. Quando vejo e vemos as guerras insanas da atualidade a destruir povos inocentes, culturas e meios ambientes, no Oriente Médio…
Penso que “chover no molhado” é apenas e tão-somente uma necessidade daqueles que, em nossa geração, ainda acreditam e lutam por um mundo habitável, igualitário e pacífico. Um mundo em que a solidariedade internacional seja, mais do que palavras, uma ação real.[iv]
*Francisco Foot Hardman é professor titular em Literatura e Outras Produções Culturais pela Unicamp. Autor, entre outros livros, de Minha China Tropical: crônicas de viagem (Unesp) [https://amzn.to/42nrjKN]
Temas
[i] Sobre esse tema, reporto aos ensaios de minha autoria. Cf. F. Foot Hardman, A Vingança da Hileia: Euclides da Cunha, a Amazônia e a utopia de uma nova história. São Paulo: Ed. Unesp, 2022 (Nova Edição Rev. e Ampl.).
[ii] O texto resultante dessa intervenção teve uma versão revista publicada aqui na ATER, em 11/11/2025, sob o título: “Quem quer a paz a mundial de verdade?” Originalmente, saiu em Diálogo Ecológico: China-Brasil para um planeta sustentável. São Paulo: iBRICS+; Consulado Geral da China em São Paulo; Inst. Tricontinental de Pesquisa Social, 2025. Cf. pp. 37-41.
[iii]Inspiro-me, nessa passagem, entre outras referências, no excelente artigo do professor de política internacional da Universidade de Fudan, Yin Zhiguang, “Rumo a uma ordem mundial sem hegemonia: uma proposta do Sul Global”, acessível em português no periódico Wenhua Zongheng: revista do pensamento chinês contemporâneo, dez. 2025, 3 (2), pp. 58-68.
[iv] Este é o texto-base que orientou nossa participação, a convite do Ministério da Ciência e Tecnologia da China, numa das palestras de abertura, do “China-BRICS Forum on the Development of New Quality Productive Forces”, em Pequim, entre 25 e 29/03/2026. A responsabilidade pelo seu conteúdo é inteiramente do autor.
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| Imagem: Zalfa Imani |
A articulação socioambiental entre Brasil e China surge como um imperativo geopolítico para superar o produtivismo e garantir um futuro planetário habitável
1.
Nesse ano de 2026, em que celebramos, com muita alegria, as afinidades e amizade cultural entre a China e o Brasil, não posso deixar de agradecer, no início desse diálogo, para além de qualquer formalidade retórica, aos organizadores desse importante Fórum, pelo honroso convite que me fizeram para estar aqui, hoje, com todos vocês.
O mundo em que vivemos sofre grandes transformações políticas, econômicas, culturais, sociais e ambientais. Cabe à nossa geração, e à mais jovem que está vindo, assumir os desafios para contribuirmos, em cada setor de nossas vidas – e eu me reporto aqui, à área em que trabalhei e trabalho por cerca de 50 anos, o da educação pública superior – para que o nosso Planeta compartilhe um futuro habitável de vida bem vivida, pacífica, viável tanto socialmente quanto ecologicamente, seja para as várias culturas humanas, seja ao mesmo tempo para todas as espécies vivas.
Não é puro modismo, evidentemente, o interesse crescente que verifico pelo tema da “civilização ecológica” em vários países e regiões e em várias universidades. Fui mobilizado por esse tema aqui mesmo na China, em novembro e dezembro de 2019, quando pude proferir palestras, respectivamente, na Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul (SUSTech), em Shenzhen, Guandgong e, também, na Universidade de Pequim (PKU), em torno do tema central da chamada Hileia Amazônica (nome cunhado pelo viajante e pesquisador pioneiro Alexander von Humboldt, na virada do século XVIII ao XIX), em situações-limite, seja “quando a natureza se vinga dos humanos”, seja “quando alguns humanos destroem nossa casa comum”[i].
Já em 2024, em fevereiro, pude retornar à Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em Manaus, bem como visitar a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), na cidade de Tefé, à beira do rio Solimões, situada a cerca de 500 Km da capital, onde, em ambas as estadias, tratamos centralmente do colapso socioambiental que afeta gravemente toda a região amazônica.
E, em março de 2024, tive a felicidade de proferir uma palestra de abertura no evento organizado pelo Trinity College, em Dublin, Irlanda, dentro das atividades do Trinity Center for Global Intercultural Communications, sobre o tema: “The Amazon as a New Centrality: a contemporary challenge for all our interactions”.
Além dessas intervenções, estivemos, em janeiro de 2025, na Universidade da Califórnia, campus de Santa Barbara (UCSB) para falar, num seminário dedicado às relações entre Paisagem e Literatura, coordenado pela colega Elide Valarini Oliver, sobre o tema: “SOS Amazon: the social-environmental collapse and the urgent call to our generation”. E, no início de dezembro de 2025, voltamos a Belém do Pará, a bela capital daquele estado amazônico, para falar, ainda uma vez, sobre o mesmo tema, a convite de colegas e pesquisadoras/es de toda aquela enorme região (GELLNORTE: Grupo de Estudos Linguísticos e Literários da Região Norte).
2.
E cá estamos novamente, aqui e agora, minhas caras amigas e amigos, para tratar, no fundo, do mesmo tema. No Brasil, dizem: “é como chover no molhado”. Ou: “é como bater na mesma tecla”. Mas dada a enorme gravidade do que ocorre no mundo globalizado, hoje, temos, sim, que insistir, e se for necessário, “chover no molhado”… Porque, afinal, retomo, aqui, o título que, a convite do Consulado Geral da República Popular da China, em São Paulo, minha cidade natal, fiz para um pequeno volume que foi editado, em novembro de 2025, por ocasião da reunião da COP-30, ao qual colaboraram, efetivamente, o Instituto BRICS+, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) e o Instituto Confúcio da Unesp: “Quem quer a paz mundial de verdade? Desafios para uma Multipolaridade na Amazônia e o Papel de uma Cooperação Socioambiental Efetiva Brasil-China”.[ii]
Se me permitem, portanto, vamos, sim, “chover no molhado”. Quando vi, com meus próprios olhos, o enorme Lago Tefé, à beira dessa cidade fundada na metade do século XVIII na bacia amazônica, sofrendo efeitos de uma seca antes nunca vista, nunca vivida, fiquei muito chocado e triste. Mas, ao mesmo tempo, sabendo da responsabilidade de levar essa mensagem onde eu puder e pelos anos que me for possível fazê-lo.
Nenhuma inovação tecnológica pode justificar-se por si mesma, sob pena de cairmos prisioneiros do “inovacionismo”. Toda inovação tecnológica deve responder a duas perguntas básicas: por quê?; e: para quem? A mesma reflexão deve ser feita em relação ao desejado avanço das chamadas forças produtivas com “nova qualidade”. Por quê? Para quem?[iii] Do contrário, recaímos na ilusão do “produtivismo”, com toda a sua parafernália mercadológica, hoje reforçada pela publicidade em torno da Inteligência artificial.
3.
Chegados a este ponto, me permitam retomar alguns dos objetivos que considero “pontes que aproximam” na perspectiva de uma cooperação efetiva dos BRICS, em especial entre China e Brasil:
(i) A multipolaridade, isto é, respeito às diferenças culturais e ação internacional solidária pela superação da pobreza extrema e de situações crônicas de fome e carência alimentar, em especial dos refugiados de todo o mundo; (ii) A efetiva troca de conhecimentos científicos e tecnológicos, sem ranços hegemônicos e nem cobiças de controle geopolítico, tendo a soberania de estados, povos e nações como valor incondicional.
(iii) Estabelecer e/ou fortalecer linhas de cooperação educacional e pedagógica que façam aprofundar intercâmbios desejáveis entre estudantes, professores, técnicos e pesquisadores, tendo as nossas universidades públicas como instituições coordenadoras desse processo; realização de intercâmbios artísticos e culturais que possam dar a conhecer tendências contemporâneas dessas atividades em nossos respectivos países, bem como linhas históricas em que se revelem tradições e afinidades múltiplas.
(iv) Lutar para construir – no espaço e contexto do Sul Global e do BRICS – uma nova “governança multipolar” que possa cuidar, efetivamente, das questões socioambientais na perspectiva de um futuro compartilhado, isto é: que a Terra seja igualmente habitável por humanos e não-humanos; em que seja possível o reencontro de harmonias perdidas entre o campo e a cidade; isso tudo, sempre em prol de uma vida coletiva, igualitária e justa – o que várias culturas indígenas latino-americanas chamam de “bem-viver”.
Perdoem-me, pois, amigas e amigos, por “chover no molhado”. Quando vejo e vi com meus próprios olhos a destruição da Amazônia, seja lá no distante Lago Tefé, seja em tantas bacias de rios contaminados pelo mercúrio das mineradoras clandestinas e de florestas devastadas pela cobiça de madeireiros e empresários do agronegócio; quando vejo e vi a enorme quantidade de pessoas sem-teto em grandes cidades do Ocidente, do Brasil aos EUA, da Argentina à França. Quando vejo e vemos as guerras insanas da atualidade a destruir povos inocentes, culturas e meios ambientes, no Oriente Médio…
Penso que “chover no molhado” é apenas e tão-somente uma necessidade daqueles que, em nossa geração, ainda acreditam e lutam por um mundo habitável, igualitário e pacífico. Um mundo em que a solidariedade internacional seja, mais do que palavras, uma ação real.[iv]
*Francisco Foot Hardman é professor titular em Literatura e Outras Produções Culturais pela Unicamp. Autor, entre outros livros, de Minha China Tropical: crônicas de viagem (Unesp) [https://amzn.to/42nrjKN]
Temas
[i] Sobre esse tema, reporto aos ensaios de minha autoria. Cf. F. Foot Hardman, A Vingança da Hileia: Euclides da Cunha, a Amazônia e a utopia de uma nova história. São Paulo: Ed. Unesp, 2022 (Nova Edição Rev. e Ampl.).
[ii] O texto resultante dessa intervenção teve uma versão revista publicada aqui na ATER, em 11/11/2025, sob o título: “Quem quer a paz a mundial de verdade?” Originalmente, saiu em Diálogo Ecológico: China-Brasil para um planeta sustentável. São Paulo: iBRICS+; Consulado Geral da China em São Paulo; Inst. Tricontinental de Pesquisa Social, 2025. Cf. pp. 37-41.
[iii]Inspiro-me, nessa passagem, entre outras referências, no excelente artigo do professor de política internacional da Universidade de Fudan, Yin Zhiguang, “Rumo a uma ordem mundial sem hegemonia: uma proposta do Sul Global”, acessível em português no periódico Wenhua Zongheng: revista do pensamento chinês contemporâneo, dez. 2025, 3 (2), pp. 58-68.
[iv] Este é o texto-base que orientou nossa participação, a convite do Ministério da Ciência e Tecnologia da China, numa das palestras de abertura, do “China-BRICS Forum on the Development of New Quality Productive Forces”, em Pequim, entre 25 e 29/03/2026. A responsabilidade pelo seu conteúdo é inteiramente do autor.

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