Por FRANCISCO DE OLIVEIRA BARROS JÚNIOR*
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Frame de "Apocalipse nos trópicos, filme dirigido por Petra Costa/ Divulgação |
Considerações sobre o documentário de Petra Costa
1.
Na sintonia com um pensamento complexo e crítico, adotamos um conceito amplo de política. Ir além das disputas partidárias e dos votos eleitorais. Do exercício da escrita, ao jogo de interesses geopolítico global, nossos atos são políticos. A microfísica dos poderes está presente na cama conjugal e vai até as relações internacionais. Ao ministrarmos conteúdos diversos na sala de aula e ao fazermos pregações religiosas, estamos performando ações políticas. Posicionamentos ideológicos entram em cena, conflitos de classes sociais e visões de mundo são explicitadas.
Ao exibirmos um filme, seguido de debate, promovemos uma ação politizada, congruente com convicção e responsabilidade éticas. Temos motivações, acreditamos na eficácia do método usado e produzimos sentidos nas justificativas das nossas exibições fílmicas. Estas apresentam objetivos, intenções e compõem projetos. Os cineclubes são exemplares. Um processo de formação está em curso nas nossas programações cinematográficas. Estudar é um verbo conjugado nos nossos encontros cinéfilos.
Essas sessões de exibição remetem às conjugações dos verbos pensar, refletir, questionar, problematizar, criticar e pesquisar. Cinema no ensino, na pesquisa, na extensão universitárias e em todos os níveis escolares. Arte cinematográfica provocando, interrogando, cortando, desafinando e disparando questionamentos. Isto é fazer política no significado profundo e aberto do termo. Uma atividade nobre. Nobreza por estar relacionada à educação, cultura, engajamento, compromisso e conscientização via projeção telânica dos temas relevantes e emergentes da humanidade.
Nos fundamentos teóricos, a leitura de Cinema e política, letras companheiras de Paulo Emílio Sales Gomes. Ampliando, acrescentando e enriquecendo, o cineasta “aberto e disponível ao essencial, isto é, a tudo que lhe ´exterior”, filma o terreno público e estimula uma crítica à pobreza e ao desestímulo de “uma apreciação de filmes limitada ao campo cinematográfico” (GOMES, 2021, p.13). “As virtualidades e as virtudes das obras” para ativos exames e apreciações variadas dos espectadores, não ficam limitadas ao “compartimento estanque da especificidade” cinematográfica. O papel do artista na sociedade da qual participa é uma inquietação histórica. A serviço de quem são concebidas as suas criações artísticas?
Levamos a uma maiêutica, um estudo de nós mesmos, das nossas potencialidades, ambivalências e paradoxos. No ecrã dos cineastas, os olhares analisam o bicho humano genocida e dotado de imaginário artístico. Delicado e bárbaro. Ao exibirmos textos fílmicos, estimulamos ações de ruptura com a indiferença ao nos posicionarmos enquanto sujeitos conscientes, politizados e fazedores das nossas histórias pessoais e coletivas. Em função do exposto, levanto uma antiga questão refletida no campo artístico: como separar arte de política? Wim Wenders, em A lógica das imagens”, afirmou: “Todos os filmes são políticos” (WENDERS, 2020, p.35).
2.
Aprofundando a relação entre cinema e política, trazemos um exemplo fílmico: Apocalipse nos trópicos (2024), um documentário de Petra Costa. 2026 é ano de eleições brasileiras. Escolheremos quem será o próximo presidente do Brasil e elegeremos os governadores dos estados, deputados estaduais, federais e senadores da república. No que dependesse de nós, exibiríamos o citado filme, em cadeia nacional, no chamado horário “nobre” das telas.
Pensando em termos de trabalhos conscientizadores, consideramos relevante uma obra artística congruente com uma sociologia do escondido, a ciência social crítica, voltada para o objetivo de desvendar as máscaras sociais. A criação artística atenta, engajada e comprometida com avanços políticos nas várias dimensões das nossas existências.
Indignação é um sentimento nutrido pela nossa postura, em contraposição à indiferença. O que fazer na atual conjuntura histórica de medos, violências, riscos, incertezas e ameaças dos grupos reacionários, atrasados, comprometidos com os retrocessos históricos? Está clara a nossa posição de não neutralidade quando exibimos e debatemos os textos fílmicos selecionados para os nossos encontros. O conceito de arte com o qual trabalhamos está fundamentado nas éticas da convicção e da responsabilidade. Politicamos com fundamentos teóricos e ancorados em pensadores dos vários campos do conhecimento, em especial os do campo artístico.
No foco, cineastas que abrem as nossas mentes e desvelam os ocultamentos ideológicos dos poderes dominantes. Artistas provocativos, críticos, incômodos para os opressores de um sistema explorador, excludente, classista e alienador. Com as imagens desveladoras de Petra Costa, um outro significado do termo “apocalipse” é exposto pelo seu texto fílmico revelador: “Em grego, “apokálypsis” não significa o fim do mundo. Mas, sim, um desvelar. Uma revelação. A chance de abrir os olhos”.
3.
Apocalipse nos trópicos desvela o “impacto da religião evangélica no cenário político brasileiro”. O filme documenta os usos ideológicos do nome de Jesus, manipulado a serviço dos interesses das classes dominantes. Neste sentido, retomamos o conceito da religião vista pelo seu lado opiáceo, mascarador, comprometido com a dominação dos poderosos. Uma ideologia usada para o ocultamento das relações de exploração entre dominadores e dominados. Dominações nos planos material e espiritual. O pensamento de Karl Marx mantém o seu vigor analítico para refletirmos sobre um campo religioso de conflitos, atravessado por relações objetivas de transação e concorrência.
Petra Costa desvenda as múltiplas facetas do Cristo, o messias do cristianismo histórico, entranhado na formação cultural brasileira. Um mesmo nome, moldado em função das múltiplas demandas dos grupos conflitantes em uma sociedade classista. Imagens diversas em torno da figura do salvador cristão: “O Jesus do Malafaia”, “o Jesus da boca de Bolsonaro” e o Jesus de Dom Pedro Casaldáliga e Dom Paulo Evaristo Arns.
Estes dois últimos, referências para os teólogos da libertação, conflituam com os ideólogos da “teologia da prosperidade”. Quando o assunto é ética econômica no mercado religioso, Max Weber é a referência teórica para pensarmos sobre as rejeições religiosas do mundo e as suas direções. O espírito do capitalismo em eclesiásticas oxigenações. Grandes e pequenos negócios nos templos das empresas de salvação das almas.
Em tela, a visão dos influenciadores religiosos, personalidades carismáticas, sedutoras e atraentes para um grande número de seguidores. Lideranças religiosas de um “movimento teocrático”, o “dominionismo”, propagador de “uma teologia que prega que cristãos devem controlar todos os aspectos da sociedade”. Para o exercício de tal controle, importa ocupar todos os espaços a serem controlados. Na esfera política, pela via eleitoral, a composição de bancadas evangélicas para a defesa dos pleitos do “mundo evangélico”, defensor da moral e dos bons costumes cristãos, traduzidos nas palavras de ordem sacralizadas: “Deus, pátria, família e liberdade!”.
Em clima de “guerra santa”, no combate ao “fantasma do comunismo”, a ressignificação de um conhecido slogan vocalizado pelos manifestantes em suas passeatas e protestos nas ruas: “Igreja unida jamais será vencida!”. Sob o domínio eclesiástico dos seus influenciadores, os evangélicos ancoram os discursos presidenciais congruentes com projetos conservadores e reacionários. Jair Bolsonaro, em aliança com Silas Malafaia, discursa alinhado com a movimentação teocrática em curso: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.
“Por que alguns podem transmitir as ideias de Marx, se eu não posso transmitir as de Jesus?”, indaga o líder religioso Silas Malafaia, protagonista de um conflito ideológico entre diferentes correntes de pensamento. No alvo do seu discurso, estão o que chama de “marxismo cultural” e a “escola de Frankfurt”. A citada liderança religiosa, de olho na bancada evangélica, e em aliança com Jair Messias Bolsonaro, fundou um império eclesiástico alicerçado no objetivo de “colocar cristãos em posições de poder”. Projeto político de montar um “Estado cristão” embasado no lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Sob a pressão das forças evangélicas, o propósito de ocupar espaços de poder com representantes “terrivelmente evangélicos”, é parte da estratégia afirmativa de dizer que “o Brasil é do Senhor Jesus”.
4.
Na gênese imperialista do mundo evangélico, a evocação do título de um livro escrito por Delcio Monteiro de Lima: Os demônios descem do norte. O documentário Apocalipse nos trópicos vai até a Carolina do Norte (EUA), no ano de 1958, para registrar as cruzadas anticomunistas do evangelista Billy Graham. Opondo Jesus contra Karl Marx, na intenção de expulsar “o fantasma do comunismo”, difunde a ideia segundo a qual “os nossos problemas vêm de dentro” por causa do pecado que praticamos. Os pecadores sofrem as consequências dos seus atos pecaminosos. Nesta abordagem, as perspectivas sociológicas focadas nas estruturas sociais geradoras de desigualdades e injustiças, perdem a posição analítica central e tornam-se periféricas pela ênfase discursiva incidir no verbo pecar, conjugado pelos desviantes dos mandamentos cristãos. Nas missões evangelizadoras, o dolarizado “In God We Trust” patrocina a evangelização proselitista dos salvíficos missionários brancos, elderes nortistas, pregadores nos trópicos dos colonizados latino-americanos, “devassos no paraíso”.
Silas Malafaia representa uma ala, dentre as várias correntes do conflituoso e complexo campo evangélico. Na conjuntura do filme Apocalipse nos trópicos, ele, em seu palanque político eclesial, defendia o bolsonarismo do “mito” Jair Messias Bolsonaro e pregava contra “o Brasil esquerdopata” e os “petralhas”. Na sua história de conveniências e apoios políticos, Malafaia passou por Lula, José Serra e Aécio Neves. Com um “fervor revolucionário”, a serviço de um “Estado cristão”, construiu o “império do Silas Malafaia”. Nos seus objetivos colonizadores e expansionistas, divulgou dados da missão dominadora, dita cristã. “O Brasil é do Senhor Jesus” para quem celebra as suas conquistas missionárias: “Nós somos mais de 30% da população”.
Uma igreja aliada das classes dominantes atua em disputas concorrenciais com outros modelos eclesiológicos, divergentes das práticas religiosas coniventes com os interesses de dominação. Estes, são exemplares dos usos ideológicos da religião comprometida com o mascaramento das relações de exploração entre opressores e oprimidos. Como no catolicismo, nos terrenos evangélicos encontramos vertentes progressistas, ancoradas em teologias libertadoras, dissonantes das voltadas para a prosperidade acrítica das estruturas sociais injustas e iníquas. A pagela de um calendário franciscano reaviva a mensagem profética, de anúncio e denúncia indignada de Santo Oscar Romero: “Em um país de injustiças, se a Igreja não é perseguida, é porque é conivente com a injustiça”. Jesus foi perseguido e morto pela trama executada pelas autoridades políticas e religiosas de sua época histórica.
Em Apocalipse nos trópicos, ouvimos falas críticas a um pastoreio religioso alienante, quietista e submisso a um sistema cruel e mentiroso. No alvo da crítica, um influente dominionista, servidor de um projeto teocrático modelado por um Jesus próspero, com influências nas várias dimensões das nossas vidas e oponente de um Estado laico. A voz do pastor evangélico Paulo Marcelo aponta para as tensões na arena em que pastoreia. Em relação ao Silas Malafaia, diz ser ele “um câncer para o evangelho”, na “maneira odiosa” e agressiva da sua atuação evangelizadora.
Diferente dos pastores alinhados aos dominadores, ele diz conhecer o Jesus que “ama o cachaceiro” e “a causa LGBTQIA+”. A cachaça do inimigo alimenta o ódio das adjetivações pejorativas. E o Cristo amoroso das pregações, amante dos ditos pecadores? Na linha traçada por Paulo Marcelo, a pastora evangélica Bianca de Oliveira acusa uma apropriação eclesiástica por parte de um grupo político reacionário: “o bolsonarismo hoje tomou, vamos dizer, a igreja pra ele”.
*Francisco de Oliveira Barros Júnior é professor aposentado do Departamento de Cências Sociais da Universidade Federal do Piauí (UFPI).
Referência
Apocalipse nos trópicos (Apocalypse in the tropics)
EUA, Brasil, Dinamarca, 2024, 110 minutos.
Direção: Petra Costa.
Bibliografia
GOMES, Paulo Emílio Sales. Cinema e política. São Paulo, Penguin Classics/Companhia das Letras, 2021.
WENDERS, Wim. A lógica das imagens. Lisboa, Edições 70, 2020.

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