Por OSVALDO COGGIOLA*
O rearranjo da política externa estadunidense e a imposição do receituário neoliberal moldaram democracias tuteladas, nas quais o pagamento da dívida prevaleceu sobre a justiça de transição
1.
Em consonância com mudanças internacionais, tudo pareceu mudar na América Latina na segunda metade da década de 1980. A virada política em direção de regimes civis-democráticos, durante esse período, tem sido explicada pela confluência de um conjunto de fatores: turbulência econômica mundial, crises econômico-sociais dos regimes autoritários, crises geopolíticas (exemplificadas pela guerra das Malvinas, em 1982 – sem esquecer o conflito militar fronteiriço entre Equador e Peru, nem a quase guerra Chile-Argentina pelas fronteiras patagônicas, que obrigou a uma intervenção arbitral do Vaticano), crescimento das resistências populares, virada na política externa dos EUA.
O ataque da mais fiel das ditaduras latino-americanas, a ditadura militar argentina, contra o principal aliado dos EUA na Europa e na OTAN, a Inglaterra de Margaret Thatcher, na invasão do território das Ilhas Malvinas (ou “Falklands”), em 1982, terminou de acender todas as luzes vermelhas e sirenes de alarme do establishment norte-americano. Sobretudo depois dos EUA fracassarem na tarefa de convencer os militares argentinos, orgulhosos de sua participação na organização da “contra” pró-americana na América Central, a se retirarem pacificamente da longínqua, mas estratégica, posse colonial inglesa, mesmo acenando com um eventual apoio em uma negociação visando uma soberania compartilhada do arquipélago.
A crise na Argentina chegou ao ponto de um setor do establishment militar do país propor publicamente (pela boca e a pena do ex-ditador Roberto Marcelo Levingston), no decorrer das operações militares no Atlântico Sul, uma reversão das alianças internacionais do país, estreitando relações com a URSS.
No mesmo momento, na América Central, onde a intervenção dos militares argentinos era vital para a política contrarrevolucionária dos EUA na Nicarágua e em El Salvador, se projetava perigosamente a sombra da influência crescente da Cuba de Fidel Castro. Uma mudança na política continental dos EUA tornava-se premente. As “aberturas democráticas” se inseriram nesse contexto, mas havia um preço a pagar.
Foi na Argentina que o repúdio popular ao regime militar e aos seus crimes percorreu com maior força toda a era democrática, tendo resultado em pressões que conduziram ao julgamento dos comandantes em chefe da repressão militar, condenados à prisão perpétua em processos judiciais civis. Meio século depois da instauração do regime militar, os processos contra assassinos e torturadores continuam. Na pressão popular que conduziu a esses resultados foi central a atividade das Madres de Plaza de Mayo, criadas em 1977, em plena ditadura militar, que reivindicaram explicitamente a atividade das organizações de esquerda nas décadas de 1970 e 1980.
2.
Os crimes de lesa humanidade cometidos pelo regime militar argentino e seus asseclas tiveram, em alguma medida, reconhecimento e punição. No Uruguai (com o “Pacto do Clube Naval”, que condicionou o retorno do governo civil ao compromisso de não investigar crimes cometidos pela ditadura militar, o que pavimentou o caminho para a Lei de Caducidade de 1986); no Chile (com a autoanistia concedida aos militares pelo ditador Augusto Pinochet no final do seu mandato: Pinochet assumiu como senador vitalício no Chile em março de 1998, amparado pela Constituição de 1980 que ele próprio impôs, lhe garantindo foro privilegiado e imunidade.
O cargo visava blindá-lo de processos judiciais, que foi o que de fato aconteceu – só veio a ser importunado no exterior pelo juiz espanhol Baltasar Garzón); e no Brasil (com a “anistia ampla e irrestrita” assinada por João Figueiredo em agosto de 1979, que perdoou “crimes políticos e conexos cometidos entre 1961 e 1979”, acordo que permitiu o retorno de exilados e libertou presos políticos, mas também anistiou agentes do Estado que cometeram tortura e violações de direitos humanos) não aconteceu nada de semelhante.
O escritor Christopher Hitchens (em The trial of Henry Kissinger) denunciou a culpabilidade do Secretário de Estado dos EUA em crimes contra a humanidade, de Camboja até o Chile, descrevendo seu personagem como “um oportunista, um criminoso de luvas brancas e um traficante de comissões ocultas que fez pactos com os piores ditadores”. A acusação se sustentava em documentos dos gabinetes dos EUA, que provaram a colaboração direta entre Washington e as ditaduras no Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai, os países que formaram parte do Plano Condor.
Para Christopher Hitchens, “a influência dos EUA na América Latina durante a década de 1970 foi criminosa”. As “façanhas” de Henry Kissinger foram do Vietnã até Camboja, passando por Chile, Bangladesh, Grécia e Timor Oriental, mas sempre com o apoio da administração da “democracia americana”, para a qual ele fez o “trabalho sujo”.
A falência financeira do Estado na América Latina foi o resultado das ditaduras militares, e foi também a “herança” aceita pelos governos civis que os substituíram a partir de meados da década de 1980. As democracias latino-americanas se comprometeram com o pagamento da dívida externa, enormemente incrementada (a maior de todo o Terceiro Mundo) o que significava transformar América Latina em um pivô da recuperação dos lucros do capital financeiro internacional, especialmente norte-americano, comprometidos depois da crise econômica mundial deflagrada em meados da década de 1970. Os processos hiperinflacionários foram sua consequência, marcando as economias latino-americanas na segunda metade da década de 1980.
3.
Relatórios do SIPRI (Instituto de Pesquisas para a Paz, de Estocolmo) informavam que em 1980 os gastos militares no Terceiro Mundo superavam os 80 bilhões de dólares: proporcionalmente, os gastos militares dos países do Terceiro Mundo já eram maiores que os das superpotências. O aumento da exploração era o objetivo e foi o resultado dessas políticas: o fosso que separava os “países subdesenvolvidos” dos países centrais cresceu.
Entre 1980 e 1990, a parte dos EUA nas exportações mundiais se manteve em torno de 12%; a da Europa cresceu de 37 % para 41%; a do Japão de 7% para quase 9%; enquanto a da África caiu de 5% para 2,5%, e a da América Latina de 6,5% para menos de 4%, o que levou um autor a concluir num “desacoplamento do Hemisfério Sul do mercado mundial”. O trabalho “informal” ocupou o lugar principal como “esponja” da mão-de-obra: entre 1980 e 1987, ele aumentou de 56% na América Latina.
A polarização social se acentuou: entre 1970 e 1975, a renda anual por habitante aumentou 180 dólares nos países do Norte, 80 dólares nos países do Leste, e 1 dólar nos países do “Terceiro Mundo”. Como resultado disso, 33% da população dos países em desenvolvimento (1,3 bilhão) viviam com menos de US$1 por dia. Deles, 550 milhões no sul da Ásia, 215 milhões na África subsaariana e 150 milhões na América Latina.
Houve um aumento brutal da exploração da força de trabalho, com governos altamente repressivos, constituição de estados tecnocrático-militares e “ideologias da segurança nacional”, permitindo uma recomposição das taxas mundiais de lucro, deslocando para as periferias as tensões econômicas e políticas dos centros do sistema imperialista.
A crise econômica se projetava sobre todo o continente. A crise da dívida latino-americana vinha se gestando ao longo da década precedente. Com o fim dos acordos de Bretton Woods em agosto de 1971 (declaração de não conversibilidade do dólar pelo governo dos EUA) houve o aparecimento de um sistema monetário internacional privado, o euromercado de moedas. Tal sistema passou a disputar com o sistema monetário multiestatal, composto pelo FMI e Banco Mundial, o oferecimento de crédito a agentes públicos, especialmente aos países da América Latina regidos por ditaduras militares.
A diplomacia do dólar impôs aos demais países as consequências da política monetária dos EUA. No final dessa década de crise, em 1979, estes operaram uma elevação unilateral da taxa de juros, impondo aos demais países uma brutal elevação de suas despesas financeiras, já que suas dívidas tinham sido contraídas com taxas de juros flutuantes. A consequência dessa elevação foi a crise financeira, com a declaração de moratória mexicana e argentina em 1982, a moratória brasileira em 1987, a crise de crédito na América Latina dos anos 1980.
4.
Nesse quadro geral, os regimes autoritários já não tinham os meios políticos para impor uma nova onda de ataques aos salários e condições de vida, e tampouco para impor o silêncio aos já generalizados protestos oriundos de todas as classes sociais. As revoluções na Nicarágua e no Irã, ambas em 1979, sem falar na retirada catastrófica dos EUA do sudeste asiático nos anos precedentes, foram exemplos marcantes dos perigos aos quais conduzia a velha política externa norte-americana.
Com os governos de Ronald Reagan (1981-1989), a nova política, com ênfase no liberalismo econômico (que deu lugar ao termo de “neoliberalismo”) e na promoção da institucionalidade democrática, foi também um aríete decisivo na política intervencionista dos EUA no chamado “campo socialista”. Esse era, por outro lado, seu principal propósito. Em 1982, em discurso pronunciado na Câmara dos Comuns britânica, Reagan declarou enfaticamente: “A marcha da liberdade e da democracia deixará o marxismo e o leninismo no monte de cinzas da história”.
L’ennemi à abattre tinha nome e sobrenome. Europa oriental e, através dela, a URSS, passava por graves crises internas: a explosão polonesa, com o surgimento do primeiro sindicato independente no bloco soviético, o Solidariedade, fundado na Polônia em 1980, iniciou de fato a contagem regressiva do “bloco socialista” do Leste europeu, conduzindo à adoção da glasnost e da perestroika na URSS, políticas que concluíram se desdobrando, depois de uma série de enfrentamentos internos, na queda do Muro de Berlim (em novembro de 1989) e na dissolução da própria URSS (agosto-dezembro de 1991), fatos que marcaram o fim da “guerra fria” que dominara o mundo desde a segunda metade da década de 1940.
Nas décadas precedentes, a política latino-americana dos EUA estava pautada pela “contra insurgência” e o combate à expansão do comunismo. A School of the Americas, instituição de treinamento militar do Departamento de Defesa dos Estados Unidos que funcionou no enclave colonial do Panamá entre 1946 e 1984, articulava a ação dos exércitos do continente com esse fim.
5.
A dívida externa foi o instrumento de extorsão dos países latino-americanos. O endividamento externo do Brasil teve sua grande expansão nos anos 1970, durante o regime militar, em sequência do fim do acordo de Bretton Woods, a crise capitalista depois de 1974, a expansão dos preços do petróleo entre 1973 e 1979, e a elevação da taxa de juros nos EUA em 1979.
Na Argentina, entre o início da última ditadura, em março de 1976, e 2001, a dívida foi multiplicada por 20, passando de menos de US$ 8 bilhões para quase US$ 160 bilhões. Durante esse mesmo período, a Argentina pagou cerca de US$ 200 bilhões, ou 25 vezes o que devia em março de 1976, data do golpe militar de Rafael Videla. Na renegociação da dívida externa esteve colocada a renegociação de parte da dívida americana, pois para renegociar a dívida em 30 anos era necessário um avalista junto aos credores privados.
Os EUA deram este aval, mas exigiram que o país comprasse títulos do Tesouro americano a taxas de 6% ao ano. O excedente de capital parasitário rentista dos países centrais acabou encontrando nos governos militares latino-americanos, ou em agentes privados com garantias estatais, os grandes tomadores de empréstimos, para financiar o déficit externo ou alavancar investimentos privados.
As “novas democracias” latino-americanas nasceram condicionadas por esse processo. Entre eleições indiretas e, finalmente, diretas; entre anistias autoconcedidas pelos próprios agentes da repressão, como no caso do Brasil, ou concedidas depois do julgamento das Juntas Militares (como no caso da Argentina), governos de direita, centro, esquerda e até neofascistas (Javier Milei, Jair Bolsonaro, Nayib Bukele), transcorreram os 40 anos posteriores à redemocratização do nosso continente.
A estrutura econômico-financeira de nossos países, herdada do período ditatorial, não foi alterada nas suas linhas essenciais, em que pesem novas políticas sociais e a retirada de milhões de patamares de vida inferiores à pobreza absoluta, um resultado sempre provisório, como o demonstrou o crescimento rampante da pobreza e da fome na outrora orgulhosamente bem-alimentada Argentina.
Na Venezuela, depois de um quarto de século de regime chavista de reformas sociais, com a queda dos preços do petróleo em 2014, no final daquele ano e nos dois anos seguintes, gerou-se uma crise no abastecimento de alimentos para a dieta familiar, produtos básicos, medicamentos e suprimentos, bem como a deterioração dos serviços básicos em níveis nunca antes vistos no país.
[continua]
*Osvaldo Coggiola é professor titular no Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de Teoria econômica marxista: uma introdução (Boitempo). [https://amzn.to/3tkGFRo]
Para ler a primeira parte desta série clique neste link.
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| Imagem: Marco Alhelm |
O rearranjo da política externa estadunidense e a imposição do receituário neoliberal moldaram democracias tuteladas, nas quais o pagamento da dívida prevaleceu sobre a justiça de transição
1.
Em consonância com mudanças internacionais, tudo pareceu mudar na América Latina na segunda metade da década de 1980. A virada política em direção de regimes civis-democráticos, durante esse período, tem sido explicada pela confluência de um conjunto de fatores: turbulência econômica mundial, crises econômico-sociais dos regimes autoritários, crises geopolíticas (exemplificadas pela guerra das Malvinas, em 1982 – sem esquecer o conflito militar fronteiriço entre Equador e Peru, nem a quase guerra Chile-Argentina pelas fronteiras patagônicas, que obrigou a uma intervenção arbitral do Vaticano), crescimento das resistências populares, virada na política externa dos EUA.
O ataque da mais fiel das ditaduras latino-americanas, a ditadura militar argentina, contra o principal aliado dos EUA na Europa e na OTAN, a Inglaterra de Margaret Thatcher, na invasão do território das Ilhas Malvinas (ou “Falklands”), em 1982, terminou de acender todas as luzes vermelhas e sirenes de alarme do establishment norte-americano. Sobretudo depois dos EUA fracassarem na tarefa de convencer os militares argentinos, orgulhosos de sua participação na organização da “contra” pró-americana na América Central, a se retirarem pacificamente da longínqua, mas estratégica, posse colonial inglesa, mesmo acenando com um eventual apoio em uma negociação visando uma soberania compartilhada do arquipélago.
A crise na Argentina chegou ao ponto de um setor do establishment militar do país propor publicamente (pela boca e a pena do ex-ditador Roberto Marcelo Levingston), no decorrer das operações militares no Atlântico Sul, uma reversão das alianças internacionais do país, estreitando relações com a URSS.
No mesmo momento, na América Central, onde a intervenção dos militares argentinos era vital para a política contrarrevolucionária dos EUA na Nicarágua e em El Salvador, se projetava perigosamente a sombra da influência crescente da Cuba de Fidel Castro. Uma mudança na política continental dos EUA tornava-se premente. As “aberturas democráticas” se inseriram nesse contexto, mas havia um preço a pagar.
Foi na Argentina que o repúdio popular ao regime militar e aos seus crimes percorreu com maior força toda a era democrática, tendo resultado em pressões que conduziram ao julgamento dos comandantes em chefe da repressão militar, condenados à prisão perpétua em processos judiciais civis. Meio século depois da instauração do regime militar, os processos contra assassinos e torturadores continuam. Na pressão popular que conduziu a esses resultados foi central a atividade das Madres de Plaza de Mayo, criadas em 1977, em plena ditadura militar, que reivindicaram explicitamente a atividade das organizações de esquerda nas décadas de 1970 e 1980.
2.
Os crimes de lesa humanidade cometidos pelo regime militar argentino e seus asseclas tiveram, em alguma medida, reconhecimento e punição. No Uruguai (com o “Pacto do Clube Naval”, que condicionou o retorno do governo civil ao compromisso de não investigar crimes cometidos pela ditadura militar, o que pavimentou o caminho para a Lei de Caducidade de 1986); no Chile (com a autoanistia concedida aos militares pelo ditador Augusto Pinochet no final do seu mandato: Pinochet assumiu como senador vitalício no Chile em março de 1998, amparado pela Constituição de 1980 que ele próprio impôs, lhe garantindo foro privilegiado e imunidade.
O cargo visava blindá-lo de processos judiciais, que foi o que de fato aconteceu – só veio a ser importunado no exterior pelo juiz espanhol Baltasar Garzón); e no Brasil (com a “anistia ampla e irrestrita” assinada por João Figueiredo em agosto de 1979, que perdoou “crimes políticos e conexos cometidos entre 1961 e 1979”, acordo que permitiu o retorno de exilados e libertou presos políticos, mas também anistiou agentes do Estado que cometeram tortura e violações de direitos humanos) não aconteceu nada de semelhante.
O escritor Christopher Hitchens (em The trial of Henry Kissinger) denunciou a culpabilidade do Secretário de Estado dos EUA em crimes contra a humanidade, de Camboja até o Chile, descrevendo seu personagem como “um oportunista, um criminoso de luvas brancas e um traficante de comissões ocultas que fez pactos com os piores ditadores”. A acusação se sustentava em documentos dos gabinetes dos EUA, que provaram a colaboração direta entre Washington e as ditaduras no Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai, os países que formaram parte do Plano Condor.
Para Christopher Hitchens, “a influência dos EUA na América Latina durante a década de 1970 foi criminosa”. As “façanhas” de Henry Kissinger foram do Vietnã até Camboja, passando por Chile, Bangladesh, Grécia e Timor Oriental, mas sempre com o apoio da administração da “democracia americana”, para a qual ele fez o “trabalho sujo”.
A falência financeira do Estado na América Latina foi o resultado das ditaduras militares, e foi também a “herança” aceita pelos governos civis que os substituíram a partir de meados da década de 1980. As democracias latino-americanas se comprometeram com o pagamento da dívida externa, enormemente incrementada (a maior de todo o Terceiro Mundo) o que significava transformar América Latina em um pivô da recuperação dos lucros do capital financeiro internacional, especialmente norte-americano, comprometidos depois da crise econômica mundial deflagrada em meados da década de 1970. Os processos hiperinflacionários foram sua consequência, marcando as economias latino-americanas na segunda metade da década de 1980.
3.
Relatórios do SIPRI (Instituto de Pesquisas para a Paz, de Estocolmo) informavam que em 1980 os gastos militares no Terceiro Mundo superavam os 80 bilhões de dólares: proporcionalmente, os gastos militares dos países do Terceiro Mundo já eram maiores que os das superpotências. O aumento da exploração era o objetivo e foi o resultado dessas políticas: o fosso que separava os “países subdesenvolvidos” dos países centrais cresceu.
Entre 1980 e 1990, a parte dos EUA nas exportações mundiais se manteve em torno de 12%; a da Europa cresceu de 37 % para 41%; a do Japão de 7% para quase 9%; enquanto a da África caiu de 5% para 2,5%, e a da América Latina de 6,5% para menos de 4%, o que levou um autor a concluir num “desacoplamento do Hemisfério Sul do mercado mundial”. O trabalho “informal” ocupou o lugar principal como “esponja” da mão-de-obra: entre 1980 e 1987, ele aumentou de 56% na América Latina.
A polarização social se acentuou: entre 1970 e 1975, a renda anual por habitante aumentou 180 dólares nos países do Norte, 80 dólares nos países do Leste, e 1 dólar nos países do “Terceiro Mundo”. Como resultado disso, 33% da população dos países em desenvolvimento (1,3 bilhão) viviam com menos de US$1 por dia. Deles, 550 milhões no sul da Ásia, 215 milhões na África subsaariana e 150 milhões na América Latina.
Houve um aumento brutal da exploração da força de trabalho, com governos altamente repressivos, constituição de estados tecnocrático-militares e “ideologias da segurança nacional”, permitindo uma recomposição das taxas mundiais de lucro, deslocando para as periferias as tensões econômicas e políticas dos centros do sistema imperialista.
A crise econômica se projetava sobre todo o continente. A crise da dívida latino-americana vinha se gestando ao longo da década precedente. Com o fim dos acordos de Bretton Woods em agosto de 1971 (declaração de não conversibilidade do dólar pelo governo dos EUA) houve o aparecimento de um sistema monetário internacional privado, o euromercado de moedas. Tal sistema passou a disputar com o sistema monetário multiestatal, composto pelo FMI e Banco Mundial, o oferecimento de crédito a agentes públicos, especialmente aos países da América Latina regidos por ditaduras militares.
A diplomacia do dólar impôs aos demais países as consequências da política monetária dos EUA. No final dessa década de crise, em 1979, estes operaram uma elevação unilateral da taxa de juros, impondo aos demais países uma brutal elevação de suas despesas financeiras, já que suas dívidas tinham sido contraídas com taxas de juros flutuantes. A consequência dessa elevação foi a crise financeira, com a declaração de moratória mexicana e argentina em 1982, a moratória brasileira em 1987, a crise de crédito na América Latina dos anos 1980.
4.
Nesse quadro geral, os regimes autoritários já não tinham os meios políticos para impor uma nova onda de ataques aos salários e condições de vida, e tampouco para impor o silêncio aos já generalizados protestos oriundos de todas as classes sociais. As revoluções na Nicarágua e no Irã, ambas em 1979, sem falar na retirada catastrófica dos EUA do sudeste asiático nos anos precedentes, foram exemplos marcantes dos perigos aos quais conduzia a velha política externa norte-americana.
Com os governos de Ronald Reagan (1981-1989), a nova política, com ênfase no liberalismo econômico (que deu lugar ao termo de “neoliberalismo”) e na promoção da institucionalidade democrática, foi também um aríete decisivo na política intervencionista dos EUA no chamado “campo socialista”. Esse era, por outro lado, seu principal propósito. Em 1982, em discurso pronunciado na Câmara dos Comuns britânica, Reagan declarou enfaticamente: “A marcha da liberdade e da democracia deixará o marxismo e o leninismo no monte de cinzas da história”.
L’ennemi à abattre tinha nome e sobrenome. Europa oriental e, através dela, a URSS, passava por graves crises internas: a explosão polonesa, com o surgimento do primeiro sindicato independente no bloco soviético, o Solidariedade, fundado na Polônia em 1980, iniciou de fato a contagem regressiva do “bloco socialista” do Leste europeu, conduzindo à adoção da glasnost e da perestroika na URSS, políticas que concluíram se desdobrando, depois de uma série de enfrentamentos internos, na queda do Muro de Berlim (em novembro de 1989) e na dissolução da própria URSS (agosto-dezembro de 1991), fatos que marcaram o fim da “guerra fria” que dominara o mundo desde a segunda metade da década de 1940.
Nas décadas precedentes, a política latino-americana dos EUA estava pautada pela “contra insurgência” e o combate à expansão do comunismo. A School of the Americas, instituição de treinamento militar do Departamento de Defesa dos Estados Unidos que funcionou no enclave colonial do Panamá entre 1946 e 1984, articulava a ação dos exércitos do continente com esse fim.
5.
A dívida externa foi o instrumento de extorsão dos países latino-americanos. O endividamento externo do Brasil teve sua grande expansão nos anos 1970, durante o regime militar, em sequência do fim do acordo de Bretton Woods, a crise capitalista depois de 1974, a expansão dos preços do petróleo entre 1973 e 1979, e a elevação da taxa de juros nos EUA em 1979.
Na Argentina, entre o início da última ditadura, em março de 1976, e 2001, a dívida foi multiplicada por 20, passando de menos de US$ 8 bilhões para quase US$ 160 bilhões. Durante esse mesmo período, a Argentina pagou cerca de US$ 200 bilhões, ou 25 vezes o que devia em março de 1976, data do golpe militar de Rafael Videla. Na renegociação da dívida externa esteve colocada a renegociação de parte da dívida americana, pois para renegociar a dívida em 30 anos era necessário um avalista junto aos credores privados.
Os EUA deram este aval, mas exigiram que o país comprasse títulos do Tesouro americano a taxas de 6% ao ano. O excedente de capital parasitário rentista dos países centrais acabou encontrando nos governos militares latino-americanos, ou em agentes privados com garantias estatais, os grandes tomadores de empréstimos, para financiar o déficit externo ou alavancar investimentos privados.
As “novas democracias” latino-americanas nasceram condicionadas por esse processo. Entre eleições indiretas e, finalmente, diretas; entre anistias autoconcedidas pelos próprios agentes da repressão, como no caso do Brasil, ou concedidas depois do julgamento das Juntas Militares (como no caso da Argentina), governos de direita, centro, esquerda e até neofascistas (Javier Milei, Jair Bolsonaro, Nayib Bukele), transcorreram os 40 anos posteriores à redemocratização do nosso continente.
A estrutura econômico-financeira de nossos países, herdada do período ditatorial, não foi alterada nas suas linhas essenciais, em que pesem novas políticas sociais e a retirada de milhões de patamares de vida inferiores à pobreza absoluta, um resultado sempre provisório, como o demonstrou o crescimento rampante da pobreza e da fome na outrora orgulhosamente bem-alimentada Argentina.
Na Venezuela, depois de um quarto de século de regime chavista de reformas sociais, com a queda dos preços do petróleo em 2014, no final daquele ano e nos dois anos seguintes, gerou-se uma crise no abastecimento de alimentos para a dieta familiar, produtos básicos, medicamentos e suprimentos, bem como a deterioração dos serviços básicos em níveis nunca antes vistos no país.
[continua]
*Osvaldo Coggiola é professor titular no Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de Teoria econômica marxista: uma introdução (Boitempo). [https://amzn.to/3tkGFRo]
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