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A USP é uma bomba relógio

Do A Terra É Redonda, 30 de maio 2026
Por PEDRO ANTÔNIO CHIQUITTI, LINCOLN SECCO & JORGE LUIZ SOUTO MAIOR*


Foto: Cecília Bastos/ USP Imagens

Entre o assédio institucional e o esvaziamento do diálogo, a recusa em garantir a permanência estudantil expõe as contradições de uma estrutura de poder herdeira do elitismo

1.

Não é incomum na história imputar-se “conduta agressiva” às formas de luta de movimentos sociais. Mesmo depois da ditadura empresarial-militar, estudantes e servidores técnico administrativos da Universidade de São Paulo (USP) foram inúmeras vezes rotulados de violentos, processados e punidos. E é justamente isso que se repete novamente na USP a partir da legítima greve dos estudantes, que já dura mais de 40 dias.

O último acontecimento desse processo se deu no dia 26 de maio, na reunião do Conselho Universitário. A reunião foi intempestivamente mudada do prédio da reitoria para o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) sem prévio aviso aos representantes estudantis e dos trabalhadores. Isto porque a reitoria tentava definir, a toque de caixa, com o respaldo do Conselho e à revelia da entidade sindical, a política salarial dos funcionários e docentes, além de ignorar as demandas dos estudantes.

Diante disso, os representantes discentes, presentes na reunião, apresentaram sua contrariedade ao procedimento adotado. O reitor, então, suspendeu a reunião do Conselho.

O que se viu na sequência, tratando desse fato, foi uma manifestação de dirigentes da USP que atribuiu aos estudantes e servidores a “prática de condutas agressivas e desrespeitosas” que inviabilizaram uma deliberação do Conselho Universitário, impediram o uso da palavra e obstaram o funcionamento da “institucionalidade democrática”.

Em primeiro lugar, a nota foi publicada no Jornal da USP. Aliás, tem sido prática comum diretores e diretoras usarem a infraestrutura comunicacional da universidade para ameaçar alunos e alunas, convocar votação de estudantes sobre a greve e coagir servidores. Até agora não temos notícia de que o jornal tenha convidado o DCE, Sintusp e Adusp a publicar sua versão dos fatos.

Em segundo lugar, qualificar o arcabouço institucional da USP de democrático deveria constranger os signatários. Basta comparar o tamanho da comunidade universitária e o seu colégio eleitoral.

Vários membros do Conselho (basta ver e ouvir os vídeos) se exaltaram e gritaram “fora”, “cala a boca” e entoaram o coro de “chega, chega”. A nota das diretorias das unidades não menciona essa conduta. Houve expressões ofensivas como “vocês não representam nada”. Formularam-se vários ataques a históricas lideranças dos(as) trabalhadores(as) da USP e a jovens estudantes, eleitos para estarem naquele espaço.

2.

Esse acontecimento foi apenas mais um episódio do autoritarismo da burocracia universitária da USP contra aqueles que constroem cotidianamente a universidade. Ameaças institucionais e desvio de uso do poder administrativo viraram rotina nas últimas seis semanas dentro da Universidade de São Paulo. Poderíamos imaginar outra postura de um corpo de docentes que foram induzidos, pelas sucessivas políticas neoliberalizantes, a se entenderem mais como “gestores” – ou “patrões” – do que como professores(as) e pesquisadores(as) numa comunidade universitária?

A USP é uma bomba relógio. Quem diria? De um lado, milhares de estudantes negros e periféricos acessam a universidade pela primeira vez com suas demandas, revoltas e reivindicações. De outro, dirigentes old money e novos docentes unicamente preocupados com suas carreiras aprofundam uma lógica gerencial na tomada de decisões dentro das estruturas de poder.

Esse amontoado de pólvora ganha contornos ainda mais explosivos quando adentramos o debate orçamentário – abre-se um conflito distributivo: dinheiro para reformas nas moradias estudantis ou para os brunchs na Reitoria com empresários e políticos? Garantia de auxílios estudantis dignos ou reservas financeiras infinitas segundo a lógica neoliberal.

Nos últimos quarenta e tantos dias, a bomba explodiu. Atos. Manifestações. Assembleias. Ocupação. Violência policial. Assédio institucional. Ameaças de expulsão e jubilamento. Enquanto estudantes retomavam métodos históricos de luta para exigir diálogo, a Reitoria da USP tomou a decisão de compreender o movimento estudantil como um obstáculo e negociações como “fragilidade institucional”.

Os dirigentes escolheram abafar o conflito, reiterando mais uma vez o distanciamento de suas ideias e ações da realidade dos estudantes e da sociedade como um todo, se apoderando de uma estrutura verticalizada e antidemocrática de tomada de decisões.

Quais são as reivindicações estudantis? Diálogo. Permanência estudantil. Defesa da autonomia universitária. O direito de ocupar a universidade.

Há algo de injusto nisso?

O movimento estudantil representa historicamente os interesses gerais da comunidade universitária. Em algumas décadas, os momentos explosivos que estamos vivendo serão escritos como história. Nas primeiras páginas, estarão os estudantes e trabalhadores que organizaram suas indignações para combater injustiças.

Nas notas de rodapé, estarão aqueles que escolheram o lado da manutenção da “ordem” e das violentas estruturas de poder. Os desfechos dessa explosão ainda estão por se desenharem, mas uma certeza é possível de se ter: o incêndio que se iniciou não acabará agora e essa história ainda tem muitas páginas a serem escritas.

*Pedro Antônio Chiquitti é graduando em história na USP e tesoureiro do Diretório Central dos Estudantes Alexandre Vannucchi Leme.

*Lincoln Secco é professor do Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de A revolução dos cravos: economias, espaços e tomadas de consciência (1961-1974) (Ateliê Editorial). [https://amzn.to/3S476E6]

*Jorge Luiz Souto Maior é professor de direito trabalhista na Faculdade de Direito da USP. Autor, entre outros livros, de Dano moral nas relações de emprego (Estúdio editores). [https://amzn.to/3LLdUn

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