Por Luís Nassif
Em diversas regiões do mundo, a CIA estabeleceu alianças com organizações criminosas sempre que isso atendia a seus objetivos estratégicos.
A decisão do governo norte-americano de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas vai muito além de uma simples radicalização do combate ao crime organizado.
Ao enquadrar essas facções sob a ótica do terrorismo, os Estados Unidos deixam de tratar o tema apenas como questão policial e passam a inseri-lo no campo da segurança nacional. A questão central passa a ser: qual será o uso político e geopolítico dessa nova classificação?
Até agora, o combate ao crime organizado no Brasil tem ocorrido principalmente por meio da cooperação entre autoridades brasileiras e órgãos como o FBI e a DEA (Drug Enforcement Administration), agência vinculada ao Departamento de Justiça dos EUA e especializada no combate ao narcotráfico.
Diversas autoridades brasileiras que atuam diretamente contra o crime organizado, como o promotor de Justiça Lincoln Gakiya e o procurador de Justiça Mário Luiz Sarrubbo, já alertaram para a diferença fundamental entre a atuação desses órgãos e a da CIA.
Com FBI e DEA há cooperação policial. Com a CIA, a lógica é outra.
A preocupação decorre de um padrão histórico amplamente documentado: em diversas regiões do mundo, a CIA estabeleceu alianças com organizações criminosas sempre que isso atendia a objetivos estratégicos mais amplos.
Não se trata de teoria conspiratória. Trata-se de fatos registrados em relatórios oficiais, investigações parlamentares e estudos acadêmicos.
Em português claro: há enorme possibilidade de uma aliança da CIA com as organizações criminosas que historicamente cercam a família Bolsonaro.
Antes da CIA: a aliança com a máfia na Segunda Guerra
A relação entre o aparato de inteligência norte-americano e organizações criminosas antecede a própria criação da CIA, fundada em 1947.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a inteligência naval dos Estados Unidos promoveu a chamada Operation Underworld. Em troca de colaboração para garantir a segurança das docas de Nova York e facilitar contatos na Sicília durante a invasão aliada de 1943, autoridades americanas negociaram diretamente com o mafioso Lucky Luciano.
Posteriormente, Luciano teve sua pena reduzida e foi deportado para a Itália.
Itália e a Guerra Fria
No pós-guerra, os serviços de inteligência americanos apoiaram redes anticomunistas que incluíam personagens ligados à máfia siciliana.
Mais tarde, essas redes se conectariam às estruturas clandestinas de resistência antissoviética conhecidas como Gladio.
A existência dessas redes foi oficialmente reconhecida pelo governo italiano em 1990. O grau exato de interação entre essas estruturas, grupos extremistas e organizações criminosas continua sendo objeto de debate histórico e judicial.
O Triângulo Dourado e o ópio asiático
Após a vitória comunista na China, nos anos 1950, a CIA apoiou remanescentes do Kuomintang refugiados na Birmânia e na Tailândia.
Esses grupos passaram a financiar suas atividades por meio da produção e comercialização de ópio.
A logística de apoio americana, incluindo a empresa aérea Civil Air Transport — posteriormente transformada na Air America — acabou se inserindo nesse ambiente dominado pelo narcotráfico.
O tema foi amplamente documentado pelo historiador Alfred McCoy.
O caso Castro: a parceria formal com a máfia
O episódio mais claramente comprovado envolve as tentativas de assassinato de Fidel Castro.
Nos anos 1960, a CIA recrutou mafiosos como:
Johnny Roselli
Sam Giancana
Santo Trafficante Jr.
para participar de operações destinadas à eliminação de Castro.
Esses fatos foram oficialmente confirmados pelo Church Committee, investigação parlamentar realizada entre 1975 e 1976.
Laos, Vietnã e a heroína
Durante a Guerra do Vietnã, a CIA armou e financiou forças lideradas por Vang Pao no Laos.
A Air America foi repetidamente acusada de transportar ópio produzido por grupos aliados.
Embora o grau de participação direta da Agência continue sendo discutido, a presença dos aliados da CIA no narcotráfico regional é fato amplamente aceito pela historiografia.
Os Contras e a cocaína
O episódio mais bem documentado ocorreu na América Central durante os anos 1980.
O chamado Kerry Committee, do Senado dos EUA, concluiu que indivíduos ligados ao abastecimento dos Contras nicaraguenses participavam de operações de narcotráfico.
Posteriormente, a série de reportagens Dark Alliance, do jornalista Gary Webb, levou o tema ao grande público.
Anos depois, o Inspetor-Geral da CIA, Frederick Hitz, reconheceu oficialmente que a Agência trabalhou com indivíduos suspeitos de envolvimento com tráfico de drogas e, em diversos casos, manteve essas relações mesmo tendo conhecimento das suspeitas.
Não se comprovou uma operação deliberada para distribuir drogas nos Estados Unidos. O que os relatórios demonstraram foi algo diferente: tolerância sistemática em nome de objetivos geopolíticos considerados prioritários.
Afeganistão e o banco BCCI
Durante a guerra contra a União Soviética no Afeganistão, a CIA operou em parceria com o serviço secreto paquistanês.
Nesse período, ocorreu uma expansão sem precedentes da produção de ópio afegão.
Ao mesmo tempo, o sistema financeiro paralelo associado ao banco BCCI tornou-se peça importante em operações internacionais de financiamento clandestino.
As investigações posteriores demonstraram a sobreposição entre operações encobertas, narcotráfico e estruturas financeiras opacas.
Noriega: agente e criminoso ao mesmo tempo
O caso de Manuel Noriega tornou-se emblemático.
Por anos, Noriega atuou simultaneamente como informante remunerado da CIA e colaborador dos cartéis colombianos.
As autoridades norte-americanas tinham conhecimento dessas atividades antes da invasão do Panamá, em 1989.
O episódio ilustra perfeitamente um padrão recorrente: quando interesses estratégicos estão em jogo, a condição criminal dos parceiros torna-se secundária.
O padrão histórico
O ponto central não é afirmar que a CIA tenha atuado como organização criminosa.
O padrão observado é outro.
Em operações encobertas, a Agência frequentemente recorreu a atores que controlavam territórios, rotas logísticas, financiamento clandestino e redes de influência fora das estruturas formais do Estado.
Com frequência, esses atores eram organizações criminosas.
Em praticamente todos os casos, o objetivo geopolítico prevaleceu sobre qualquer consideração relativa à integridade dos parceiros escolhidos.
É essa experiência histórica que leva muitos especialistas a observar com cautela a decisão de transformar facções brasileiras em tema de segurança nacional dos Estados Unidos.
A questão não é apenas como combater PCC e Comando Vermelho.
A questão é quem conduzirá esse combate, com quais instrumentos e em benefício de quais objetivos estratégicos.
Ao enquadrar essas facções sob a ótica do terrorismo, os Estados Unidos deixam de tratar o tema apenas como questão policial e passam a inseri-lo no campo da segurança nacional. A questão central passa a ser: qual será o uso político e geopolítico dessa nova classificação?
Até agora, o combate ao crime organizado no Brasil tem ocorrido principalmente por meio da cooperação entre autoridades brasileiras e órgãos como o FBI e a DEA (Drug Enforcement Administration), agência vinculada ao Departamento de Justiça dos EUA e especializada no combate ao narcotráfico.
Diversas autoridades brasileiras que atuam diretamente contra o crime organizado, como o promotor de Justiça Lincoln Gakiya e o procurador de Justiça Mário Luiz Sarrubbo, já alertaram para a diferença fundamental entre a atuação desses órgãos e a da CIA.
Com FBI e DEA há cooperação policial. Com a CIA, a lógica é outra.
A preocupação decorre de um padrão histórico amplamente documentado: em diversas regiões do mundo, a CIA estabeleceu alianças com organizações criminosas sempre que isso atendia a objetivos estratégicos mais amplos.
Não se trata de teoria conspiratória. Trata-se de fatos registrados em relatórios oficiais, investigações parlamentares e estudos acadêmicos.
Em português claro: há enorme possibilidade de uma aliança da CIA com as organizações criminosas que historicamente cercam a família Bolsonaro.
Antes da CIA: a aliança com a máfia na Segunda Guerra
A relação entre o aparato de inteligência norte-americano e organizações criminosas antecede a própria criação da CIA, fundada em 1947.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a inteligência naval dos Estados Unidos promoveu a chamada Operation Underworld. Em troca de colaboração para garantir a segurança das docas de Nova York e facilitar contatos na Sicília durante a invasão aliada de 1943, autoridades americanas negociaram diretamente com o mafioso Lucky Luciano.
Posteriormente, Luciano teve sua pena reduzida e foi deportado para a Itália.
Itália e a Guerra Fria
No pós-guerra, os serviços de inteligência americanos apoiaram redes anticomunistas que incluíam personagens ligados à máfia siciliana.
Mais tarde, essas redes se conectariam às estruturas clandestinas de resistência antissoviética conhecidas como Gladio.
A existência dessas redes foi oficialmente reconhecida pelo governo italiano em 1990. O grau exato de interação entre essas estruturas, grupos extremistas e organizações criminosas continua sendo objeto de debate histórico e judicial.
O Triângulo Dourado e o ópio asiático
Após a vitória comunista na China, nos anos 1950, a CIA apoiou remanescentes do Kuomintang refugiados na Birmânia e na Tailândia.
Esses grupos passaram a financiar suas atividades por meio da produção e comercialização de ópio.
A logística de apoio americana, incluindo a empresa aérea Civil Air Transport — posteriormente transformada na Air America — acabou se inserindo nesse ambiente dominado pelo narcotráfico.
O tema foi amplamente documentado pelo historiador Alfred McCoy.
O caso Castro: a parceria formal com a máfia
O episódio mais claramente comprovado envolve as tentativas de assassinato de Fidel Castro.
Nos anos 1960, a CIA recrutou mafiosos como:
Johnny Roselli
Sam Giancana
Santo Trafficante Jr.
para participar de operações destinadas à eliminação de Castro.
Esses fatos foram oficialmente confirmados pelo Church Committee, investigação parlamentar realizada entre 1975 e 1976.
Laos, Vietnã e a heroína
Durante a Guerra do Vietnã, a CIA armou e financiou forças lideradas por Vang Pao no Laos.
A Air America foi repetidamente acusada de transportar ópio produzido por grupos aliados.
Embora o grau de participação direta da Agência continue sendo discutido, a presença dos aliados da CIA no narcotráfico regional é fato amplamente aceito pela historiografia.
Os Contras e a cocaína
O episódio mais bem documentado ocorreu na América Central durante os anos 1980.
O chamado Kerry Committee, do Senado dos EUA, concluiu que indivíduos ligados ao abastecimento dos Contras nicaraguenses participavam de operações de narcotráfico.
Posteriormente, a série de reportagens Dark Alliance, do jornalista Gary Webb, levou o tema ao grande público.
Anos depois, o Inspetor-Geral da CIA, Frederick Hitz, reconheceu oficialmente que a Agência trabalhou com indivíduos suspeitos de envolvimento com tráfico de drogas e, em diversos casos, manteve essas relações mesmo tendo conhecimento das suspeitas.
Não se comprovou uma operação deliberada para distribuir drogas nos Estados Unidos. O que os relatórios demonstraram foi algo diferente: tolerância sistemática em nome de objetivos geopolíticos considerados prioritários.
Afeganistão e o banco BCCI
Durante a guerra contra a União Soviética no Afeganistão, a CIA operou em parceria com o serviço secreto paquistanês.
Nesse período, ocorreu uma expansão sem precedentes da produção de ópio afegão.
Ao mesmo tempo, o sistema financeiro paralelo associado ao banco BCCI tornou-se peça importante em operações internacionais de financiamento clandestino.
As investigações posteriores demonstraram a sobreposição entre operações encobertas, narcotráfico e estruturas financeiras opacas.
Noriega: agente e criminoso ao mesmo tempo
O caso de Manuel Noriega tornou-se emblemático.
Por anos, Noriega atuou simultaneamente como informante remunerado da CIA e colaborador dos cartéis colombianos.
As autoridades norte-americanas tinham conhecimento dessas atividades antes da invasão do Panamá, em 1989.
O episódio ilustra perfeitamente um padrão recorrente: quando interesses estratégicos estão em jogo, a condição criminal dos parceiros torna-se secundária.
O padrão histórico
O ponto central não é afirmar que a CIA tenha atuado como organização criminosa.
O padrão observado é outro.
Em operações encobertas, a Agência frequentemente recorreu a atores que controlavam territórios, rotas logísticas, financiamento clandestino e redes de influência fora das estruturas formais do Estado.
Com frequência, esses atores eram organizações criminosas.
Em praticamente todos os casos, o objetivo geopolítico prevaleceu sobre qualquer consideração relativa à integridade dos parceiros escolhidos.
É essa experiência histórica que leva muitos especialistas a observar com cautela a decisão de transformar facções brasileiras em tema de segurança nacional dos Estados Unidos.
A questão não é apenas como combater PCC e Comando Vermelho.
A questão é quem conduzirá esse combate, com quais instrumentos e em benefício de quais objetivos estratégicos.
Os relatórios que documentam a ação da CIA
Church Committee (1975–76)
O relatório central sobre os planos de assassinato — incluindo a colaboração com a máfia contra Castro — é o Interim Report: Alleged Assassination Plots Involving Foreign Leaders. A fonte mais limpa é o Senado dos EUA, mas a versão navegável mais usada está na Mary Ferrell Foundation:
Índice dos 14 volumes (Mary Ferrell): https://www.maryferrell.org/php/showlist.php?docset=1014
Conjunto oficial completo (Senado): https://www.intelligence.senate.gov/resources/intelligence-related-commissions
AARC (índice navegável): https://www.aarclibrary.org/publib/contents/church/contents_church_reports.htm
Cópia integral em PDF (Internet Archive): https://archive.org/details/ChurchCommittee_FullReport
Kerry Committee (1989) — Drugs, Law Enforcement and Foreign PolicyPDF do relatório completo (Internet Archive): https://ia800505.us.archive.org/4/items/KerryCommitteeReport/Kerry%20Committee%20Report.pdf
Página do item no Archive (com texto pesquisável): https://archive.org/details/Kerry-Report-Drugs-Contras
Contexto e documentos correlatos do National Security Archive (Briefing Book 113, “The Oliver North File”): https://nsarchive2.gwu.edu/NSAEBB/NSAEBB113/
Sobre o circuito BCCI/Kerry-Brown de 1992 (o relatório separado do Senado sobre o banco), posso buscar o link à parte se quiser — não estava nas buscas acima.
Hitz / Inspetor-Geral da CIA (1997–98)
Este é o documento decisivo, em dois volumes. O Volume I, “The California Story”, focou nos traficantes na Califórnia; o Volume II examinou as demais ligações entre a CIA, o tráfico, o programa Contra e as lideranças e organizações Contra.Volume II (“The Contra Story”, 8/out/1998) — PDF oficial no CIA Reading Room: https://www.cia.gov/readingroom/docs/REPORT%20OF%20INVESTIGATION%20A%5B16500518%5D.pdf
Índice oficial dos dois volumes (FAS/Federation of American Scientists): https://irp.fas.org/cia/product/cocaine2/index.html
Comunicado de imprensa da CIA na liberação do Volume II: https://irp.fas.org/cia/news/pr100898.html
Depoimento de Hitz ao Congresso (16/mar/1998), apresentando o Volume I: https://irp.fas.org/congress/1998_hr/980316-ps.htm
Há ainda um quarto documento oficial que reforça o conjunto e que não citei antes — o relatório do Inspetor-Geral do Departamento de Justiça (Michael Bromwich, 1997), que revisou as investigações e processos do próprio DOJ:The CIA-Contra-Crack Cocaine Controversy (OIG/DOJ): https://oig.justice.gov/special/9712/epilogue.htm
McCoy e Peter Dale Scott
Esses são livros, não documentos de domínio público, então não há um PDF oficial a linkar. As referências bibliográficas:Alfred W. McCoy, The Politics of Heroin: CIA Complicity in the Global Drug Trade (edição revista, Lawrence Hill Books, 2003). A primeira edição é de 1972, The Politics of Heroin in Southeast Asia.
Peter Dale Scott, Deep Politics and the Death of JFK (University of California Press, 1993) e American War Machine: Deep Politics, the CIA Global Drug Connection, and the Road to Afghanistan (Rowman & Littlefield, 2010).
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Luis Nassif
Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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